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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Reabilitação

Felizmente, para a maioria, o processo não era longo. Uns dias e estava terminado. Quem ditava a necessidade de reabilitação eram os agentes do Estado. Uns sujeitos que vestiam fatos fora de moda e que imiscuíam em demasia na vida das pessoas. Tudo o que não estivesse nos conformes com o que se esperava dum cidadão exemplar podia ser punido. Esses agentes eram uma polícia que estava acima da polícia. Nem eles escapavam do controlo dos seus pares. Quem realmente os liderava, ninguém sabia ao certo, já que até o presidente e ministros podiam ser investigados.
Jorge viu-se no meio do processo numa manhã do fim de Julho de 2039, enquanto vendia cupões de alimentação, na rua de Santa Catarina. Um crime que não praticava por simples desobediência, mas por necessidade. Quando os agentes o abordaram, limitou-se a levantar os braços e fixar o olhar na calçada. Talvez não lhe dessem a pena mais pesada. Não houve juiz, nem advogados, nem sequer um julgamento. Mantiveram-no na cela minúscula durante um par de dias. Depois disso, obrigaram-no a entrar num camião com outra dezena de pessoas. Ninguém ousou trocar uma única palavra sobre o que se estava a passar. Talvez soubessem o que se ia passar. Jorge não sabia.
O camião percorreu quilómetros sem fim, até que, ao pôr-do-sol, chegaram ao acampamento. O recinto estava cercado de arame farpado. Não era claro se servia para impedir a entrada ou a saída. O silêncio imperava entre eles, como o aplicar de uma regra que não fora sequer enunciada. Foram distribuídos por casernas de madeira. Havia muitos mais na mesma situação.
Como refeição foi-lhes dado uma sopa insípida. Jorge estremeceu quando lhe colocaram um uniforme militar esburacado nos braços. Viu medo e resignação nos olhares dos outros. Também eles tinham compreendido o que os esperava. Com as roupas civis, desapareceu a esperança. Nos beliches não havia nem cobertores nem colchão, obrigando-os a dormir vestidos sobre as traves de madeira.
― Toca a levantar! A vossa reabilitação começa hoje! ― rugiu uma voz.
Jorge abriu os olhos. Ainda o Sol não tinha nascido. Mais uma vez, foram metidos em camiões. A viagem não foi longa. Pararam na encosta dum monte. Jorge contou cerca de uma centena de pessoas na mesma condição.
― A vossa reabilitação é simples ― explicou-lhes o sargento. ― Do outro lado da encosta há um rio e uma ponte atravessa esse rio. Quem chegar ao outro lado da ponte é livre e todos os seus crimes são esquecidos. Quem se acobardar é fuzilado. Boa sorte!
Depois passaram-lhe as armas para as mãos. A de Jorge deveria ter pelo menos uns cinquenta anos. Duvidou que sequer funcionasse.
O grupo subiu o resto do monte e quando chegou ao topo, viu que havia trincheiras escavadas por entre as ruínas de uma povoação. A cabeça do homem que estava a seu lado explodiu, numa mistura de osso, sangue e massa encefálica. Jorge atirou-se para o chão e os outros dispersaram de imediato, abrigando-se por detrás do entulho. Ouvia-se uma metralhadora ao longe. Sentiu a face húmida. Ao passar a mão, viu uma substância pastosa vermelha. A custo, conteve o vómito. Respirou fundo três vezes e correu para a pedra seguinte, vagamente consciente que o estavam a alvejar. Uns segundos depois atirava-se para a trincheira, onde se deixou ficar, ofegante. Como ele, a maioria tinha conseguido refugiar-se ali. No entanto, alguns haviam ficado para trás e parecia improvável que se voltassem a levantar.
― O que é que estão à espera? Avancem! Quem estiver nesta trincheira daqui a um minuto é fuzilado ― ouviu um militar ameaçar.
Hesitou. O coração aos pulos no peito. Apertou o cano da arma e galgou a extremidade de forma desastrada. A terra de ninguém não era extensa, mas não oferecia qualquer protecção. Duas dezenas de metros era o que os separava da ponte. Foram de imediato alvejados. Jorge não viu outra escolha que não fosse avançar e procurar a protecção da ponte. O som dos disparos desorientava-o. Houve quem saltasse para o rio. Outros tentaram atravessar a ponte por cima.
Ele não chegou tão longe. A primeira bala acertou-lhe acima do joelho, numa explosão de dor. A segunda no ombro, fazendo-o largar a arma. As três seguintes no tórax. O corpo avançou um par de passos e caiu para a frente, à entrada da ponte. A sua reabilitação terminara.


Foto: Ana Filipa Piedade

Este conto foi publicado originalmente no blogue Fantasy & Co.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Campo

Para além do muro ficava o campo proibido. E a bola de Fábio foi lá parar.
― Oh raios! Já é a terceira bola que vai lá parar este mês ― resmunga, atirando um cachaço ao Alberto. ― E a culpa é tua! Podias ter mais cuidado! Amanhã trazes tu a bola!
Fábio sabia que não podia passar para o outro lado e muito menos ir brincar lá. Todos os pais eram unânimes. Acontecesse o que acontecesse, não poderiam passar para além do muro. Era perigoso. Infelizmente, ao lado ficava o único local onde ainda podiam jogar futebol depois da escola.
― Grande bola! Era só um rolho de trapos ― defende-se o Alberto, tentando devolver a agressão de um modo desajeitado.
― Não interessa, quem estraga velho, paga novo! Amanhã trazes uma bola! São as regras! ― impôs o rapaz.
Os colegas acenam o seu apoio.
― Sabem que mais? Vocês são uns mariquinhas, eu vou saltar ao muro e buscar a porcaria da bola.
― Não tinhas coragem! ― espicaça o Hugo, o mais gordo.
― Já vão ver se tenho ou não. Vou lá buscar a bola e vou agora. Vocês, como são uns mijões, podem ficar aí à espera.
Dito isto, eleva-se para o muro, com a ajuda dos braços, apoiando os cotovelos e alçando uma perna. No instante seguinte desaparece do outro lado. Os colegas não deixam escapar o desafio e sobem também ao muro. Vêem a mesma imensa área que ninguém pisara durante mais de uma década. A erva crescia frondosa e pequenos arbustos tomavam conta do local. Já o tinham observado várias vezes, mas nenhum tivera a coragem de descer para o outro lado.
No meio da vegetação, Fábio procura a bola.
― Nunca percebi porque é que os adultos não nos querem aqui – questiona-se o Hugo. ― Isto é um sítio porreiro para tanta coisa!
― Se calhar havia aqui alguma coisa má e agora já não há – deduz o Paulo.
― Talvez, talvez…
― Olhem, o Alberto está lá em baixo e ainda não lhe aconteceu nada. Não podemos ficar aqui e deixar que ele goze connosco ― constata o Fábio.
O grupo salta para a terra de ninguém. Assim que pisam o tapete verde, riem-se. Iriam ter uma história para contar aos colegas no dia seguinte. Os mais velhos iam roer-se de inveja. Iriam ser os heróis da escola.
― Eu ouvi dizer que aqui foi a linha da frente durante a Grande Guerra Europeia, eles nunca conseguiram entrar no Porto ― explica o Carlos.
― Tchii, isso já foi há mais de dez anos. Será que há armas por aqui perdidas? ― imagina o Paulo.
― Às tantas…
― Se houver, eu aposto que…
Uma explosão corta o ar. O impacto da onda de choque é imediato. Os ouvidos ficam a zumbir. Vêem pedaços de terra, vegetação, e não sabem bem mais o quê, voar. Ouvem gritos estridentes. A trupe corre na direcção do som, detendo-se a alguns metros do amigo.
O choque é tal, que correm na direcção oposta. Nenhum deles hesita em abandonar Alberto. O único pensamento é galgar o muro em direcção à segurança. Ninguém jamais iria esquecer do corpo mutilado e desfeito do amigo.
Durante outra geração ninguém iria passar para além do muro.


Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Arraia

A noite desce sobre a serra como um manto, escondendo no seu âmago falésias rochosas e vales gelados. O vento assobia por entre granitos milenares. O quarto minguante da lua e as estrelas não deixam distinguir mais que algumas sombras.
Sou um desses vultos. Não sei quantos à minha volta serão reais. Parece que estou sempre a ouvir passos. Paro e olho para trás. Só o vento sopra. Estremeço e aperto o casaco contra o peito. Retomo a marcha, apoiado no cajado, caminhando tão rápido quanto a inclinação me permite.
Não faço ideia de quanto falta. A última refeição foi há dois dias. Tive sorte, o velho pastor para além de me dar janta e pernoita, ainda me deu indicações precisas do caminho a seguir. Não devo ser o primeiro que ele acolhe. Vi a foto de um rapaz pendurada ao lado de uma cruz. Trocamos um olhar e bastou. Não precisámos de dizer mais nada. Espero que nunca o descubram. Esforço-me por afastar esse pensamento da cabeça.
Deixei um bilhete na mesa da cozinha para a minha mãe. Apenas uma palavra: arraia. É o que precisa de saber. Como terá reagido? Talvez um dia o saiba. Espero que compreenda que não tenho outra escolha. Meio ano depois de o meu pai ter sido chamado, um tiro de morteiro deixou-o a uma distância que não pode ser vencida. Tiago, o meu irmão mais velho, foi dado como desaparecido faz este Natal um ano. O Vítor, o nosso vizinho de cima, ficou paraplégico numa derrocada. Parece que ainda lhe ouço os nocturnos, a fenderem a noite. E, como eles, tantos outros. Tinha de escapar. Não foi o mais brilhante dos planos, atravessar a serra no Inverno, no entanto o tempo estava a esgotar-se. Faço dezasseis anos daqui a um mês. Não deve demorar nem uma semana para que chegue a convocatória.
Chego ao topo da elevação. Ouço uivos à distância. O pastor tinha razão, não estou sozinho. A aldeia mais próxima fica a mais de dez quilómetros. Ninguém se aventura por aqui. Só cabras, pastores e a Divisão Hermínia. Avanço pelo meio das giestas, tão altas que me fustigam a face. As pálpebras pesam-me e os músculos doem-me, mas sei que se adormecer no meio deste frio, é possível que não acorde. Cada restolhar da vegetação faz-me saltar o coração. De acordo com o que o pastor me disse, devo estar nas Pedras Cruéis.
Os primeiros flocos batem-me nas pálpebras. Sou obrigado a parar num equilíbrio precário. Ergo os dedos gelados para proteger a face. Parece-me demasiado íngreme para descer. O fundo tanto pode estar a meio metro como a meia centena. O vento entra na roupa como se as costuras estivessem mal cosidas. Tremo ainda mais violentamente. Apalpo a roupa, sei que não tem muitos buracos. Volto atrás. De novo no topo, procuro a estrela polar. Segundo o velho, estou perto do ponto mais alto do país que se fragmentou há duas décadas. Aprendi na escola que Pena Tervinca passou a ser o mais alto.
Sigo pelo meio das urzes, a tentar evitar o vento. A minha atenção prende-se no piar de uma coruja vindo de uma árvore próxima. A vegetação agita-se. Sustenho a respiração. Um vulto veloz desaparece à minha direita. Aperto mais o cajado. Não sei se o conseguia soltar com os dedos assim enregelados.
Foi há dois meses que passámos a usar a velha Ponte Dona Maria. Nem tivemos outra escolha: a do Infante foi atingida num bombardeamento. Tivemos sorte: o nosso prédio foi dos poucos que escapou intacto. Quem me dera estar no quente da cozinha.
Quando a lua atinge o seu zénite, encontro-me à beira de um lago. Ao ver a água, apercebo-me da garganta seca. Mergulho a mão no líquido glacial e levo-a à boca. O frio espalha-se-me pelas entranhas. Recomeço a tremer. Bebo mais uma vez.
Passos ressoam nas pedras. Ergo-me e tento voltar à vegetação. Tropeço e caio num zimbro. Esbracejo para me libertar e, quando o consigo, escondo-me nos arbustos. O coração está a galope. Sustenho a respiração. Será que estou a imaginar coisas? Afasto-me dali o mais rápido que consigo. Os ramos castigam-me a cara. Não sei onde pára o cajado.
Quando dou por mim, estou no topo de outra elevação. Dor de burro, cortes nas mãos e na cara. Nada de grave. Cruzo os braços sobre o peito, apertando a roupa contra o corpo. A neve continua a cair, os flocos a acumularem-se sobre tudo. Ergo o olhar. Luzes ao fundo. O que serão? É melhor evitá-las, não vou arriscar. Por cima deste frágil manto branco que me envolve, uma nuvem cobre a lua.
– … não faço ideia – diz uma voz masculina.
Encolho-me no meio da vegetação.
– Nunca pensaste nisso? Dos que passam pra lá do rio, nenhum volta… Achas que se escapam disto? – devolve outra voz.
Os passos aproximam-se.
– Pensa lá um pouco… O que é que a gente faz quando apanha um Asturiano deste lado? Hã?…
Param quase colados a mim. Uma luz. Um cigarro é aceso. Consigo distinguir a sombra das armas. Estou demasiado perto. Respiro muito devagar. Os soldados partilham a mortalha em silêncio. As articulações doem-me. Não posso mexer um único músculo. Atiram a beata e esta aterra mesmo à minha beira. Deixo-os sumirem-se na noite antes de me mover novamente. Mal me consigo mexer.
Por sorte, encontro uma abertura perto, coberta de arbustos que afasto de modo atabalhoado. Cada movimento é uma tortura. Quando é que foi a última vez que dormi uma noite completa? Este recanto diminuto terá que servir. Deixo-me cair para o interior e encolho-me em posição fetal. O frio da rocha atravessa a roupa. Pelo menos aqui o vento não chega. O meu tremer é tão violento que se deve ouvir a metros. Não sei se vou conseguir dormir.
Na cozinha está-se bem. A mãe serve-me um prato de sopa, enquanto sorri. Diz-me que a ditadura e a guerra acabaram. Não me passa pela cabeça dizer-lhe que estava a pensar fugir no pico do Inverno. Sujeito a morrer nalgum buraco, perdido entre as patrulhas dum lado e do outro da arraia. Mergulho a colher na sopa e trago-a à boca. Sinto calor invadir-me o corpo, como o raiar da luz matinal. Até que enfim! Já não se sinto a tremer. Ainda bem, não deve faltar muito para o nascer do sol.


Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Rios de Sangue - Parte 2/2

Podem ler a primeira parte deste conto aqui.

Com a ajuda do companheiro, colocou o Zé às costas e seguiu pelos túneis, todo dobrado, para que nenhum deles pudesse ser atingido do exterior. Cada passo era doloroso. Zé murmurava coisas sem sentido. O sangue do colega ia-lhe ensopando a roupa.
― Aguenta-te pá, já estamos a chegar ― encorajou-o.
Ao chegar ao fim da trincheira, soube o que desafio estava prestes a iniciar-se. Teria de percorrer um quilómetro no meio de um ataque para chegar ao hospital. Os cozinheiros e os estafetas faziam o mesmo caminho todos os dias, mas nunca de dia. Isto equivalia a pintar um alvo nas costas. Estremeceu antes de meter o pé na escada.
A partir dali, mexeu-se o mais depressa que o peso lhe permitia. Os disparos multiplicavam-se nas suas costas. Nenhum parecia apontado para eles. Tanto pelo que sabia, bastava um. As costas doíam-lhe. Sentiu as pedras debaixo do pé moverem-se. No momento seguinte, estava em queda. O embate com o entulho expulsou-lhe o ar dos pulmões. O Zé aterrou ao lado dele.
Deixou-se ficar no chão. Estava farto desta guerra. Bastava uma bala e isto acabava. Quase ninguém conseguia cumprir o tempo de serviço com vida ou sem uma lesão permanente. Mais valia ficar ali e esperar pelo inevitável.
Veio-lhe uma lágrima ao canto do olho. A mãe iria chorar quando soubesse. E a doce Leonor também. Era demais, já não bastava a mãe ter perdido o marido e a irmã o pai naquelas margens amaldiçoadas, agora iriam perder o filho e irmão. Ou talvez dois filhos e dois irmãos. Não sabia onde andava o Francisco. Ninguém sabia. A divisão dele nunca parava no mesmo sítio.
Ouviu um gemido a seu lado. Era o Zé. A família nunca o iria perdoar se o deixasse morrer aqui. Ergueu-se, tentando não pensar na batalha que se desenrolava nas suas costas. Pegou o colega ferido ao colo e retomou o caminho. Um pé à frente do outro, foi subindo o monte. As feridas do companheiro eram profundas e o sangue corria em demasia. Apressou o passo, já se via o topo do monte. Faz um esforço, quase atingindo o passo de corrida. No cimo da elevação já se vêem o centro de comando, as artilharias, o paiol e o hospital, que não são mais do que o aproveitar das construções da antiga vila.
Um par de minutos e estava no hospital. Já tinham passado várias semanas desde que ali tinha estado. As camas encontravam-se sobrelotadas e os médicos não tinham mãos a medir. Não conseguia sequer ver as enfermeiras. Estendeu o Zé sobre uma maca. Ninguém pareceu dar de conta que chegaram.
― Alguém me ajude. Ele foi atingido por um morteiro ― protestou, em voz alta.
Por fim um dos médicos aproximou-se.
― Não é preciso gritar ― reclamou, observando o soldado. ― Pode ir, eu trato dele.
Roberto saiu, mas deixou-se ficar por ali. Já não se ouviam os disparos. Parecia que a investida terminara. Não vale a pena perguntar como é que terminou, tudo aparentava ter voltado ao normal. Excepto para os que não irão ver outro dia.
― O que é que o soldado está aqui a fazer? ― perguntou-lhe um oficial.
― Tenente ― fez-lhe continência, depois de se levantar à pressa. ― Vim trazer um companheiro ferido.
― E o que é que está à espera para voltar ao seu posto?
― Estou à espera do anoitecer ― constatou, não percebendo como é que não era óbvio.
O homem afastou-se sem lhe responder. Era provável que estivesse atarefado com qualquer coisa.
Ao pôr-do-sol, o médico veio ter com ele. Trazia uns papéis na mão.
― Entregue isto ao comandante do seu pelotão ― ordenou, virando logo costas.
Assim que ficou escuro, pôs-se a caminho junto com o cozinheiros. O passo era mais lento que os restantes e acabou por ficar para trás. Quando chegou, já a comida tinha sido distribuída. Não se preocupou, foi direito ao abrigo do tenente.
― Onde é que raio estiveste? ― inquiriu, aproximando-se da sua face.
― Levei o Zé para ser assistido ― respondeu, passando-lhe os papéis.
O tenente era mais novo, mas tinha chegado àquela posição por ter frequentado o colégio militar.
― Era só o que mais me faltava ― comentou, passando os olhos pelo formulário. ― Outra baixa. Estás dispensado.
Roberto voltou para a trincheira. Sentou-se ao lado de Fábio, que lhe passou a malga da sopa para a mão. Trocaram um olhar. Não precisava dizer-lhe que não voltariam a ver o Zé.


Este conto foi publicado originalmente no blogue Fantasy & Co.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Rios de Sangue - Parte 1/2

O dia estava calmo e o sol perto do Zénite. Para além do bombardeamento matinal e alguns tiros de aviso, não acontecera nada digno de nota. Para Roberto, fulcral era manter a cabeça abaixo da linha do solo. Tudo o resto eram detalhes.
Não havia muito para fazer, por isso, dedicou-se a desmontar e limpar a arma. O maior inimigo tinha duas armas: a morte e o aborrecimento. A transição entre uma e outra era brusca e nefasta. Tanto passavam dias aninhados naquelas poças de lama a morrer de doenças tratáveis, como em semanas de combates intensos. Uns e outros vinham e iam sem qualquer aviso. A fome e o sono eram como a paisagem, contribuíam só para o desconforto geral e já ninguém se queixava deles.
O som da metralhadora quebrou a monotonia e não anunciava nada de bom. Voltou a montar a arma e a carregá-la o mais rápido que pôde. Tinham sido eles a disparar, o que significava que o inimigo estava de novo a tentar atravessar o rio.
― E aqui vamos de novo ― comentou Igor, que se aninhara a seu lado.
Mais disparos. Ambos sabiam que não era boa ideia espreitar. Ao contrário de alguns, eles tinham tido miolos suficientes para não perderem a cabeça desse modo.
― O que se passa? ― gritou para os colegas da trincheira ao lado.
― Mais um ataque, nada de especial ― respondera-lhe de imediato.
O morteiro caiu a uns passos deles. A onda de choque derrubou-o, fazendo-o cair na lama. Um zumbido persistente apoderou-se-lhe dos ouvidos. Uma inspecção rápida mostrou-lhe que não estava ferido. Umas quantas assim e ficaria surdo. Igor já se havia recomposto. O Zé vinha da latrina e o Fábio do abrigo.
― Onde é que vocês estavam? Já perderam o início do fogo-de-artifício ― gozou Igor, atirando um murro no ombro do Zé.
Estes vinte metros estavam por conta deles. À frente ficava a terra de ninguém. Vinte metros de desolação até ao rio. As ordem eram simples: acontecesse o que acontecesse, nenhum inimigo podia jamais desembarcar.
As munições de artilharia continuavam a chover por ali. Umas mais perto que outras. Se tivesse escolha, preferia ficar nos abrigos individuais, onde o risco de ser atingido era mínimo. Eles separaram-se, indo cada um para o posto, uma saliência na vala. Por esta altura, já Igor estaria a usar o seu espelho para ver quem lá vinha. Olhou para arma. Esta lata podia ser do tempo da União Europeia, mas ainda funcionava bem. A primeira vez que encravasse podia ser o último dia da sua vida.
― Más notícias, pessoal. Eles estão a levar barcos até à praia. Não tarda que tentem atravessar ― gritou Igor, fazendo-se ouvir por cima do barulho dos disparos.
Ao longo dos anos, tinham havido centenas de investidas de ambos os lados, todas com o mesmo resultado: nenhum. Não fazia diferença quantos homens e recursos usavam. Ser destacado para um ataque era uma sentença de morte. Tanto que a expressão, que te escolham para a próxima investida, já se tornara um dos piores insultos. O pior eram os bandos de corvos que se banqueteavam nos corpos abandonados na terra de ninguém. O croquitar constante afectava até mesmo os que tinham nervos de aço.
Apesar de estarem no meio de uma ofensiva, a maior parte do tempo só podiam esperar. Uns segundos de acção e estava tudo acabado, de uma maneira ou de outra.
Outro salvo de artilharia atingiu as posições. Um dos projécteis caiu tão perto que sentiu a onda de choque nos ossos. O zumbido nos ouvidos parara por completo. Não ouvia nada. Apercebeu-se que aquilo explodira na borda da trincheira. Era raro acontecer e nada bonito de ver. O coração falhou uma batida. Caíra perto do Igor. A terra desabara naquele ponto, misturada com pedras. Viu Fábio do outro lado. Onde estava o Zé? Distinguiu um braço mutilado no meio do solo. Aproximou-se, percebendo que o resto do dono já não estava presente. A pouco foi encontrando outros pedaços ali perto. Igor não tinha salvação. O Fábio estava tentar desenterrar algo. Foi ajudá-lo. O Zé estava bastante maltratado, mas vivo. Trocou um olhar com Fábio. Ambas as alternativas eram arriscadas.
― Eu levo-o ― ofereceu-se Roberto.


Podem encontrar a segunda parte deste conto aqui.

Este conto foi publicado originalmente no Fantasy & Co.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Guia - Parte 4

Podem encontrar a primeira parte do conto aqui, a segunda aqui e a terceira aqui.

“Mas aquele que as ouve, e não as observa, é semelhante a um homem que edificou uma casa sobre a terra sem alicerces; na qual a torrente deu com ímpeto, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela casa.”
Lucas 6, 49

Desceu pelo caminho, aproveitando o sol matinal. Parou antes da curva que dava acesso ao acampamento. Inspirou de um modo profundo. Eram vidas que estavam em jogo, não podia falhar. Ao aproximar-se das tendas, já os nativos tinham dado pela sua presença. 
- Povo da floresta, chegou a vossa hora - clamou, estendendo os braços. - Venham comigo e serão salvos.
Os adultos olharam-no e um dos homens deu um passo em frente.
- Nós não queremos a tua ajuda. Nós somos felizes e livres aqui - declarou.
Já recebera respostas iguais. Não havia dúvidas na voz. No entanto, não queria baixar os braços.
-Há um inimigo poderoso que pode atacar a qualquer momento. Eu já os vi assim como a destruição que são capazes de fazer…
O homem trocou um olhar com o outro adulto.
- Nós somos fortes. Nós podemos combatê-los.
Amir notou, pela primeira vez, agressividade na expressão. Deixara de ser bem-vindo ali. Vislumbrou as armas, lanças primitivas. Não teriam hipótese. A sua missão falhara. Esperava-o uma longa viagem com apenas os seus demónios pessoais como companhia.
Poderia insistir, mas as forças faltavam-lhe. A velhice e o cansaço tomaram conta dele. Deixou de conseguir estar direito, encurvando-se e tomando apoio no cajado. Saber o destino que os aguardava, não ajudava em nada. Virou as costas e recomeçou a subir a colina.
A meio da subida, uma corneta fez-se ouvir em todo o vale. O coração falhou-lhe uma batida. Este era o som dos seus pesadelos. Desceu de volta o mais rápido que conseguiu, perdendo o fôlego. Não havia tempo a perder, eles poderiam chegar ali a qualquer momento. Quando chegou às habitações, viu que estavam num estado de aflição. Talvez fosse disto que precisavam para serem convencidos.
-O inimigo vem aí! Precisamos de fugir - suplicou-lhes.
Ninguém sequer olhou para ele. Notou que estavam a arrumar as suas coisas. O som repetiu-se, ecoando nos montes. Não os conseguia ver. Talvez ainda estivessem longe, mas a corneta significava que já tinham sido avistados.
- Têm de fugir agora! Eles podem chegar a qualquer momento!
As palavras já não tinham qualquer efeito. Encostou-se à árvore mais próxima e deixou-se deslizar até ao chão. A humidade começou a turvar-lhe os olhos. O destino deles estava traçado. O resto das forças abandonou-o. Sabia que cada segundo que perdesse ali diminuía as suas possibilidades de sobrevivência.
Já escapara outras vezes, para mais tarde voltar e não encontrar um único sobrevivente. Os corpos mutilados acompanhavam-no para onde quer que fosse, em especial quando estava sozinho. Os seus erros perseguiam-no. Ergueu-se com dificuldade e embrenhou-se pelo monte, sem se preocupar com os arranhões que os arbustos lhe causavam. As pernas ameaçavam deixar de responder a qualquer momento e os pulmões ardiam com o esforço.
Fez uma pausa a meio da encosta, apercebendo-se de que os nativos ainda se encontravam na aldeia. Nesse momento, os cavaleiros entraram no acampamento. Os dois homens foram atingidos por flechas. Os guerreiros estavam cobertos por uma armadura completa, que não deixava sequer ver a face. As armas estavam longe de ser primitivas. A mulher que parecida com Shira foi trespassada por uma lança. Os gritos preenchiam o ar, só abafados pelos cascos dos cavalos. Não conseguiu olhar mais. Não tardaria que os cavaleiros iniciassem as buscas nos bosques mais próximos.


Amir afastou-se dos caminhos trilhados. Ao longe os sons iam-se desvanecendo. A subida transformou-se em descida. Os joelhos suplicavam-lhe que parasse. Um grito mais profundo trespassou o ar. Era uma das mulheres. Ao pensar nas crianças, um arrepio subiu-lhe pela espinha.
E nesse momento sentiu uma dor lancinante no peito. Parou. Tentou agarrar-se ao tronco mais próximo mas os dedos não lhe responderam a tempo. Caiu no chão. Tentou inspirar. O ar não entrava. A dor espalhava-se pelo braço esquerdo. A visão turvou-se. O seu último pensamento foi para Bea.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Guia - Parte 3

Podem ler a primeira parte deste conto aqui e a segunda aqui.

"É semelhante a um homem que, edificando uma casa, cavou, abriu profunda vala e pôs os alicerces sobre a rocha; e vindo uma enchente, deu a torrente com ímpeto naquela casa, e não a pôde abalar, porque tinha sido bem edificada."
Lucas 6, 48


- Filhos da floresta, ouçam o meu chamamento – gritou em plenos pulmões.
Já ninguém parecia interessado nele. Faziam as suas tarefas como se não estivesse ali. Nunca lhe havia acontecido que o ignorassem por completo.
- O momento esta a chegar em que eles virão pelos vosso filhos. Eu vi com os meus próprios olhos. Não haverá momento do dia ou da noite em que estejamos seguros. Eles vêm de qualquer direcção. Os seus números são imensos e as suas armas mortíferas.
Uma das mulheres escutava-o. Uma era quanto bastava. Uma pessoa e o grupo viria todo.
- Vi-os levarem filhos e mães. Matarem e comerem a carne. Carne humana. Levaram muitos mais para nunca mais os vermos. Eles são maus e violentos. Eles são a encarnação do mal. Sozinhos não os podeis parar. Vinde comigo e podereis viver na nossa cidade que é segura. As portas estão abertas para vós.
A mulher trocou um olhar com a que estava a seu lado.
- Povo da floresta, eu sou vosso amigo. Vi ter com vocês desarmado e com palavras de salvação. De vós, apenas quero que me sigam, não por mim, mas por vocês mesmos.
Não havia muito mais que podia dizer. Sentia que as dúvidas da mulher ainda eram demasiadas. Conhecia bem aquela expressão. Vira-a centenas de vezes. Teria de jogar a sua última cartada. Fitou as suas faces, compreendia as suas dores e problemas. Já os experimentara ele próprio. Esperava que eles compreendessem isso.
- A vossa existência é precária. A vossa comida não é certa, nem o vosso abrigo. Há animais que vos atacam. Há um frio do qual não conseguem escapar. As vossas crianças morrem antes de darem os primeiros passos. Ouçam filhos da floresta. Eu construí a cidade com as minha mãos e com as dos meus filhos. Criamos um lugar seguro onde não há fome. Queremos que vós partilheis desse paraíso. Queremos que se juntem a nós.
Parou. Já não havia mais nada para dizer. A face das mulheres traia uma reflexão profunda. Era bom sinal. Era hora de ir embora.
- Povo da floresta. Amanhã eu irei voltar. Os que quiserem, poderão seguir-me e eu vos levarei à segurança, à cidade onde nunca falta comida. Povo da floresta, ouçam, é uma amigo que vos fala.
Ainda última palavra ecoava nos montes, já Amir virara costas. Uma vez na encosta perdeu-se nos seus costumes. Adorava observá-los. A sua maneira pura e natural de viver a vida seria a melhor, não fosse o mundo estar a mudar.
As mulheres continuavam as suas tarefas. Pareciam conversar entre si. Talvez debatessem o que haviam ouvido. Esperava que sim. Os homens voltaram a meio da tarde. Haviam caçado algo grande. Noutras circunstâncias, Amir ficaria contente com o seu sucesso, contudo, neste caso não ajudava ao seu argumento. Pelo menos, haveria comida para todos.
Desviou o olhar para uma pequena planta que crescia ao lado. Tinha picos e era da mesma espécie que o arranhara no primeiro dia que vira o sol. Crescia apenas em solos férteis e as bagas escuras eram deliciosas e ricas. Lembrava-se desse dia como se tivesse acontecido ontem. Os sons, as cores, os cheiros, sabores e o tacto inundavam-no com sensações que julgara impossíveis. Dentro de si, crescia um desejo incontrolável. Era uma energia sem fim que se apoderava dele. Cada célula do seu ser exigia uma e só uma coisa. A culpa fora dele. Fora toda dele. Reconhecia que havia uma coisa boa na sua idade, há mais de dez anos que não procurava parceira. Duvidou que conseguisse resistir se encontrasse uma e ela o deixasse. Podia suportar muitas privações e desconfortos, mas essa dor estava para além do seu ser.


Voltou a focar-se na aldeia. A mulher que duvidara fazia-lhe lembra Bea. A sua doce Bea. Tinha os mesmos traços embora fosse mais madura. Era mais velha do que a sua irmã e amante, que morrera a dar à luz o segundo filho. Ambas as crianças, de olhar e corpo disforme tinham também perecido. Apertou um ramo da planta, deixando que os espetos se enterrassem na carne. Um fio de sangue percorreu o fundo do punho velho e calejado, começando a alimentar o solo. Havia dias que necessitava de dor física para acalmar o sentimento de culpa. O braço começou-lhe a tremer. Relaxou a mão e abriu-a. Tinha quatro buracos na palma. Afastou-se uns passos, procurando as folhas que podiam curar os ferimentos. Quando as encontrou, mascou-as e usou a pasta resultante para cobrir os cortes.
Apoiou-se na árvore e deixou-se deslizar até ao chão. Encoberto pelos arbustos, ninguém o poderia ver ali. O nó na garganta era grande e as lágrimas teimavam em não sair. Deixou que a noite caísse. Não quis sair dali, nem sequer para observar o acampamento. Não tinha vontade para se mover sequer, mas a dança de pensamentos não o deixou dormir. Quase que nem sentia a temperatura a descer. Bea. Era o seu dever protegê-la e acabou por ser ele o carrasco. À medida que os anos passavam essa noção perseguia-o cada vez com mais vigor. O cerco apertava-se a cada dia. Nesses momentos tinha receio que a sua mente falhasse primeiro que o seu corpo.
A madrugada encontrou-o com os músculos doridos e frios. Nada disso o incomodou. Tinha uma missão importante a cumprir. Era hora de ir buscar a tribo para a civilização.

Podem ler a última parte deste conto aqui.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Pinheiro de Natal

Ouviu a voz pela primeira vez ao encinhar as bicas. Raul ergueu-se apoiado no encinho, olhando em volta. Estava certo que não havia ninguém por ali.
“Devo estar a imaginar coisas” concluiu, dobrando-se para juntar o resto das agulhas que jaziam debaixo do pinheiro manso no quintal da avó. A árvore fora plantada pelo avô há quase uma década e já tinha a altura de duas pessoas. O dia estava solarengo e nessa noite noite poderiam usá-las para apeirar o fogo no borralho. Com a forquilha, encheu o carro-de-mão.
— Espero que tenhas um bom Natal — ouviu.
O seu coração deu um salto. Conseguia visualizar o velho de bigode branco e cabelo desgrenhado. A voz corresponderia na perfeição, não fosse o avô ter morrido há mais de cinco anos. À pressa, arrumou as ferramentas junto com a palha que ficara abandonada e trancou a porta. Pegou no carrinho de mão e saiu dali o mais depressa que conseguiu.
Ao voltar para casa, assolado pelo vento frio, pensou na avó. Pela primeira vez ela iria passar o Natal longe da família devido a uma doença súbita. Talvez mais logo rezasse um terço pelas melhoras da anciã hospitalizada, que estava já perto dos oitenta anos.
Apesar de ter quase trinta anos, Raul ainda vivia em casa dos pais. Não era por querer, o ordenado que a fábrica lhe pagava não dava para arrendar nada. E estudar era só para os ricos.
Várias centenas de metros e alguns terrenos em baldio separavam as duas casas. A estrada de alcatrão velho já conhecera melhores dias. Quando caísse a noite, só metade dos postes daria luz. Raramente um veículo motorizado atravessava a rua. Aquela zona rural era o fim do mundo e, à medida que a população ia envelhecendo, ficava cada vez mais deserta.



Assim que chegou a casa, que só fora decorada com um discreto presépio, dedicou-se à tarefa de apeirar um bom fogo para a noite de Consoada.
— Não te preocupes com a avó, eu tomo conta dela.
A acha caiu-lhe das mãos, e Raul olhou em volta. Estava sozinho em casa, tinha a certeza. De onde raio teria vindo a voz?
Várias vezes tinha ouvido a avó dizer que o marido tomava conta dela mesmo depois de ter falecido. Nunca acreditara nela. Como poderia ser verdade? Só podia estar a ficar maluco! Ela ficara num estado de depressão assim que ele morrera de forma súbita. Contudo, a avó recuperara quase milagrosamente pouco depois, quando passara a achar que ele lhe falava. Ninguém se atrevia a contrariá-la.
Fechou os olhos e inspirou fundo. Fez uma cama de agulhas e sobre ela depositou uma pinha. Cobriu a construção com galhos, duas achas mais finas e um toro não rachado. Riscou um fósforo e colocou na base, deixando que o fogo apeirasse. As chamas cobriram a matéria volátil e propagaram-se rapidamente.
— Em breve estaremos os dois juntos.
Estremeceu, deixando-se ficar no mesmo sítio a observar o fogo. Imagens do casal inundaram-lhe a mente. Uma lágrima escorreu-lhe pela face.
A família chegou dos empregos pouco antes da hora normal, com os semblantes cansados. O pai nem mudou de roupa e a irmã enfiou-se num roupão, longe iam os tempos em que a Missa do Galo era insubstituível. Durante a Consoada, saborearam o bacalhau no forno que só comiam em épocas de festa, Raul nunca deixou de ouvir a voz do avô na sua mente. Eram só quatro naquela mesa nesse ano.
— Estás estranho — comentou a mãe.
— Não é nada, deve ser do cansaço — desculpou-se, de olhar fixo no prato.
À meia-noite trocaram os presentes simbólicos, quando já só restavam as brasas da fogueira. Foi nessa altura que ouviu a voz pela última vez.
— Agora estamos juntos. É o ciclo da vida. Sê feliz.
Ele interrompeu o que estava a fazer, o coração falhando-lhe uma batida. Ninguém se apercebeu.
Quando as últimas brasas perderam o seu brilho igneo, todos se foram deitar. Raul ficou na cama, durante muito tempo, a olhar fixamente para o tecto. Não conseguia deixar de pensar no que havia acontecido. Adormeceu somente de madrugada, cansado e confuso.
Acordou com o tocar do telefone. Ouviu uma troca indistinta de palavras entre o pai e a pessoa do outro lado da linha. Pouco depois, a figura paterna surgiu à entrada do quarto. Trazia abundantes lágrimas na face.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Guia - Parte 2

Podem ler a primeira parte do conto aqui.

"Todo aquele que vem a mim e ouve as minhas palavras e as observa, eu vos mostrarei a quem é semelhante."
Lucas 6, 47

Ainda era noite cerrada quando Amir despertou. Doía-lhe o corpo, em especial as costas. Não era o modo mais confortável de dormir. Desceu com cuidado. Os ossos estalavam a cada movimento. Tinha uma ligeira dor de cabeça. Era uma boa hora para ir procurar alimento. O luar abundante ajudava-o na tarefa. 
Na clareira que encontrou à frente, consumiu as pétalas retraídas das flores de Verão. Algumas folhas eram comestíveis, mas o estômago pedia mais. A sua vista podia já não ser o que era, mas conseguiu distinguir uma árvore na orla. Os seus frutos arredondados eram raros mas nutritivos. Aprendera isto ao longo da vida. Aproximou-se, constatando que nem precisava de subir para os conseguir colher. Comeu quantos quis.
Todavia, o homem não fora feito para morar na floresta. O seu habitat era a cidade. Como fora antes do cataclismo. Ultimamente, já ninguém falava nele, parecia que o tinham esquecido. Haviam passado cento e dois anos e Amir não tinha esquecido. Às vezes encontrava restos das cidades antigas, cobertas de vegetação. Em algumas não sobrava muito, fruto da arma que a humanidade jamais deverá construir de novo. Havia, no computador planos para o fazer. Não os compreendera e, no fim, decidira apagá-los de vez. Acontecera no dia depois da morte de Vera.
Cada vez que a recordava, era como se lhe arrancassem um pedaço do coração. Ela dera-lhe oito filhos, dos quais cinco ainda se contavam entre os vivos, só para um vómito terrível a levar. O único consolo que tinha é que ficara com ela até ao fim. Nestes momentos, recordar a cidade ajudava-o a desviar a mente do pior. Não era tão grande como as de outrora. Talvez os antigos não lhe chamassem sequer cidade. As casas eram de pedra, com telhados sólidos e lá viviam quase trezentas pessoas. Todos os anos nasciam duas ou três dezenas de crianças. Os campos em redor eram férteis e a muralha já os protegera da ameaça três vezes. Um monte de pedras e um portão de madeira era tudo o que havia entre eles e a morte. Era o preço que haviam pago por se tornarem sedentários. Era o preço a pagar pela civilização.
O céu começou a clarear. Era a hora de voltar a falar com eles. Desceu a encosta, aproximando-se da aldeia como se lá morasse. Sentiu as palmas das mãos suarem. Sabia que não era a vida dele que estava em jogo mas isso não deixava relaxar. Chegou antes do nascer do sol, enquanto despertavam. As mães dormiam com os filhos em seu redor. As crianças estava magras, mas pareciam saudáveis. Nestas condições, só os mais fortes sobrevivem.



- Filhos da floresta, ouçam a minha mensagem – clamou, com todo o seu ser. - O momento está perto. Ouçam a minha mensagem e viverão. Ignorem-na e serão tragados pela terra, vós e os vosso filhos. Ouçam-me, o momento está perto. Partam comigo, deixem tudo para trás se quereis viver.
As faces fitavam-mo com surpresa, mas a excitação do dia anterior já não existia. Não era um bom sinal. Não percebia porquê é que resultara tantas vezes e depois ficara mais e mais difícil. Preocupava-o saber que o mundo estava a mudar de maneiras que não compreendia.
- Que é ele? - ouviu uma das mulher perguntar.
Até a ouvir, tivera dúvidas de que falassem a mesma língua. Não era comum, mas j+a lhe acontecera. Teria de insistir. Teria de os fazer ver.
- Se quereis que os vossos filhos e filhas vivam, terão de vir comigo. Que ficar irá morrer.
Os olhares ficaram desconfiados. Amir achou que era melhor deixá-los por agora. Voltou ao seu refugio devagar, parando sempre que encontrava algo comestível. Sentia-se cansado. Não podia ficar mais do que um dois dias. Se eles não viessem, teria de os abandonar ao seu destino certo e sangrento. Estremeceu ao pensar nisso. Apesar de tudo, ele não mereciam isso. Ninguém merecia isso. Não tinha palavras para descrever os horrores que havia presenciado.
Vagueou, até encontrar um curso de água onde matou a sede. Voltou ao seu posto e ficou a mirá-los. Havia um par de peles maiores a secar ao sol. Era impressionante terem conseguido matar um animal tão grande com as suas armas primitivas. Talvez o tivessem encontrado morto. Os dois homens, os prováveis pais daquela prole, saíram com as suas lanças pouco depois. Será que sabiam que havia cada vez menos animais? O cataclismo também os havia dizimado. Havia alguns que já não via há mais de dez anos. Sem sabe se já teriam morto o último. Por isso é que a agricultura era a única forma subsistência. Tudo o resto estava condenado ao fracasso.
Olhou-os com ternura no olhar. Lembravam-lhe os seus filhos. De certo modo, se o seguissem, seriam seus filhos. Iriam renascer para uma vida melhor.
O calor aumentava, de modo que procurou a sombra de uma árvore. Mesmo ali, as gotículas de água formavam-se na sua testa. Sentia-se indolente. Acabou por adormecer.
O sonho levou-o à cidade. As muralhas tinham desaparecido. Eles vinham aí. Ordenou que se trancassem nas suas casas. As portas e as paredes eram massivas. Estavam assustados. Tentou confortá-los, para descobrir que nem sequer o ouviam. As crianças choravam e os adultos abraçavam-nas. Então algo começou a embater contra a porta. O barulho era ensurdecedor. Não se conseguia mexer. Tentou dar ordens, descobrindo que ficara sem voz. Ninguém procurava a sua ajuda sequer, como haviam feito nos últimos vinte e tal anos. As pancadas aumentavam de intensidade. A madeira começou a rachar, como se de simples galhos se tratasse. A porta desabou num estrondo e eles entraram.
Acordou sobressaltado. Estava banhado em suor. Apercebeu-se que tremia. Na sua cabeça sabia que era um sonho, mas parecia-lhe tão real. Tanto pelo que sabia, podia estar a ocorrer neste exacto momento.
Fraco mas determinado, levantou-se. Estava na hora de dizer à tribo aquilo que vira. Se isso não os convencesse, não saberia o que o poderia fazer.

Podem continuar a ler este conto nesta ligação.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O Jardim do Éden - Parte 2

Podem ler a primeira parte do conto aqui.

E o Senhor Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida,
bem como a árvore da vida no meio do jardim,
e a árvore do conhecimento do bem e do mal.
Génesis 2, 9



Olhou para o irmão.
― O que fizeste?
Ele olhou-a com um ar amedrontado.
― Nada, juro, nada! Estava aqui e a contagem começou.
― O que é que isto significa? ― insistiu, levantando a voz.
― Não faço ideia. Sei tanto como tu!
O olhar percorreu os monitores: todos tinham a mesma contagem decrescente excepto um. Tinha lá qualquer coisa escrita. Os dois irmãos aproximaram-se. A missiva estava assinada pelo pai e dizia-lhes que em breve a sua vida iria mudar. Tinha chegado o momento de lhes mostrar o passado e dava-lhes a palavra passe para desbloquear o computador central. Amir foi mais rápido que ela, apropriando-se da cadeira e introduzindo a palavra passe no terminal. As credenciais foram aceites, passando a ter privilégios de administrador. O barulho calou-se de imediato.
Bea deu uma volta à sala, tentando conciliar os factos na sua cabeça. Sobretudo não gostava do tom misterioso do pai. O nervosismo miúdo habitual ameaçava tomar conta dela.
― Olha o que eu encontrei! Há aqui milhares de ficheiros que estavam escondidos... ― anunciou Amir, bastante excitado.
Bea olhou para o monitor, onde uma parte da lista interminável preenchia todo o espaço. Os títulos eram um tanto crípticos. Havia um ficheiro para cada um dos que havia habitado ali. Eram perto de uma centena. Excepto eles os dois, todos tinham morrido e sido deitados no incinerador. Muitos também haviam nascido ali, mas os mais antigos não. Descobriram que Amir tinha dezasseis anos e Bea doze. Tudo aquilo era muito estranho.
A revelação apareceu-lhes como um choque. Há sessenta e cinco anos atrás, o mundo tinha sucumbido a uma guerra apocalíptica, que o tinha deixado devastado e incapaz de sustentar vida humana. Tinha havido uma noite total durante anos. Eles eram os bisnetos dos que se haviam refugiado no abrigo quando o cataclismo acontecera. As últimas linhas informavam que as portas estavam programadas para se abrirem quando os níveis de gases tóxicos e radioactividade fossem aceitáveis, ou seja, passado sessenta e cinco anos.
Os irmãos olharam-se, tentando captar as implicações. Quando aquela contagem decrescente chegasse ao fim, poderiam sair dali. Só tinham visto algumas imagens e filmes do mundo exterior. Sabiam que era imenso e pouco mais. Bea não conseguia decidir se estava excitada ou amedrontada com as possibilidades.
Ainda tinham algum tempo antes de as portas se abrirem. O resto dos ficheiros ensinava a caçar, fazer abrigos e outras coisas que não compreendiam para que serviam. Leram-nos a correr, saltando a maioria.
Os últimos cinco minutos passaram-nos em frente à porta blindada, como se pudessem fazer com que se abrisse mais depressa. Bea olhou para o irmão. Parecia determinado. Teve a certeza que ele não sentia os mesmos receios. Num impulso deu-lhe a mão, mexendo freneticamente os dedos dos pés.
As sirenes recomeçaram a apitar, estridentes, e as luzes vermelhas a piscar furiosas. Os segundos esgotavam-se. A contagem chegou a zero. As luzes e as sirenes desligaram-se. Não aconteceu mais nada. Olharam um para o outro. Amir tomou a iniciativa e puxou a alavanca da porta. À abertura da primeira frincha entrou uma porção de ar. As duas imensas lajes metálicas deslizaram com lentidão. Bea sentiu frio. Do fundo vinha uma luz azul e tudo o resto estava mergulhado na escuridão. Assim que a abertura era larga o suficiente, saíram os dois.
À direita e à esquerda algo se mexeu. Havia algumas plantas que trepavam pelas paredes. Bea demorou algum tempo a encontrar a palavra que definia o espaço: Hangar Subterrâneo. A luz exterior cegava-a. Não se comparava a nenhum dos filmes que tinha visto. As cores eram muito mais vivas. De mãos dadas, correram para o exterior.
Sob o céu azul, viram-se rodeados de vegetação. Mal podiam andar. Ouviu-se o canto de uma ave. Algo rastejou um pouco mais à frente. Havia tantas árvores e arbustos diferentes que não sabia os nomes de quase nenhuns. Havia também ervas e flores. Tudo entrelaçado e misturado. Um festim para o olhar. Os cheiros deixaram-na inebriada e os sons em êxtase. Tocou nas folhas, sentido-as vivas e frescas. Passou os dedos pelas suaves pétalas. Um insecto voador passou num voo rasante à sua cabeça. Cada planta tinha um cheiro único. Ao fundo via-se uma montanha. As nuvens do céu tinham padrões que lhe lembravam objectos. Avançaram, sem se importar com os arranhões. Ocorreu-lhe uma palavra capaz de descrever aquilo: paraíso.
Ao passar sobre uma planta espinhosa, reconheceram as bagas escuras.
― Sim Bea, são comestíveis, o pai ensinou-me ― confirmou Amir, retirando uma e levando-a à boca.
Ela fez o mesmo. O sabor era tão intenso e a textura era única. Era melhor que qualquer coisa que já comera. Mais à frente reconheceram outra árvore com frutos comestíveis. E assim foram andando, experimentado cada uma. Até os frutos amargos lhe eram agradáveis.
Quando chegaram à margem de um lago, Bea sentou-se numa pedra.
― Anda! ― pediu o irmão.
― Não posso, as pernas doem-me.
Nunca andara tanto em tão pouco tempo. Bea achegou-se à beira da água e bebeu. Ao erguer-se a mão de Amir tocou-lhe no ombro. Estremeceu. Os braços dele envolveram-na. O coração disparou. Sabia que era errado, mas não conseguia resistir-lhe. Havia algo dentro de si mais forte. Os pêlos do braço eriçaram-se. Os lábios de ambos tocaram-se, como muitas vezes tinham visto os pais fazerem. Por estranho que fosse, a boca dele sabia melhor que os frutos. Se calhar não é errado, pensou, enquanto as mãos do irmão desciam até à sua cintura. Um fervilhão de sensações assaltava-a a cada toque deles.
Despiram as roupas e exploraram-se mutuamente de um modo desajeitado. Inebriada com o odor, acariciou a barba que lhe crescia na face. Sentiu-se húmida. Hesitou e acabou por retrair a mão. Os dedos dele envolveram-lhe o seio direito. A sensação surpreendeu-a tanto que se deixou levar. A cada momento tensão crescia. Era viciante. Por fim, os corpos uniram-se num frenesim, num misto de dor e prazer que não conseguiam interromper. Sentiu contracções incontroláveis e uma sensação desconhecida atingiu-lhe a cabeça. Sentiu que algo era depositado dentro de si. Amir parou e deitou-se a seu lado.
As lágrimas começaram a correr-lhe pela face. Bea começou a chorar também. Abraçaram-se. Ambos haviam compreendido o que os pais não queriam que acontecesse. Ela lembrou-se da palavra que definia a situação: pecado.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Hoc Signo Vinces - Com Este Sinal Vencerás


Os cinco exércitos cercam-nos neste monte alentejano. Estamos em Ourique, embrenhados em território inimigo. O sol de Verão está perto do horizonte. Não iremos combater hoje. Todavia, amanhã a batalha será inevitável.
Olho para os meus capitães vejo que eles esperam que lhes diga o que fazer. Sempre foi assim, desde que o meu pai morreu que todos esperam milagres de mim, o príncipe do condado Portucalense. É preciso traçar um plano para a batalha. Não me ocorre nada.
— Como podemos enfrentá-los? pergunto, olhando para o esquema do terreno.
O silêncio abate-se sobre os homens mais valorosos de Portucale. Eu sei o que eles estão a pensar. Não devíamos ter vindo tanto para Sul. Irrita-me não mo dizerem abertamente. Os inimigos excedem-nos em cinco para dois. E os nossos homens estão com medo. Até estes diante de mim estão cheios de receios. Não os posso julgar, se soubesse o que sei agora, nunca teria embarcado nesta sortida.
— Se ninguém tem ideias, eu vou pedir-vos que se retirem. Preciso reflectir. Mantenham sentinelas durante a noite e preparem o exército. Iremos dar batalha aos mouros de madrugada. Dar-vos-ei mais detalhes ao nascer do Sol.
Um a um, abandonaram a tenda. Estudo o esquema de novo. No topo do monte estamos seguros. Conseguimos defender ataques vindos de qualquer direcção. No entanto, não conseguimos sair daqui com facilidade. Se tentarmos romper o cerco nalguma direcção, eles conseguem contra-atacar pelos flancos e pela retaguarda. Preciso de algo que possa mudar o rumo da batalha decisivamente. E, claro, algo que moralize os meus homens.
O céu escurece sem que me surja nenhuma ideia. Estou a ver que irei passar uma noite em branco. Um dos servos entra na tenda com o meu jantar.
— Não desejo comer explico, acenando para que me deixe. Não desejo ser incomodado até uma hora antes do nascer do sol. Preciso de orar.
Sou de imediato deixado só. A desculpa da oração resulta sempre. Não tenho intenções de o fazer, pelo menos não agora. Todavia, seria perfeito se aparecesse Jesus Cristo e me dissesse como ganhar esta batalha.
— Deus tem muitas formas constata um idoso, vestido em trapos.
Não dei pela entrada dele. Como teria passado os guardas?
— Eu disse que...
— … que querias ficar sozinho completou o velho, sorrindo.
— Como é que entrou aqui? pergunto incrédulo.
— A pergunta certa não é como, mas para quê. Dom Afonso, quão forte é a tua fé? inquire, aproximando-se.
— A minha fé é forte e sempre será replico, a mesma frase que repeti vezes sem conta.
— O que dizes não é totalmente verdade. E digo-te mais, se a tua fé for forte, vencerás a batalha e serás rei. Se a tua fé vacilar por um momento, a derrota e morte esperam-te aqui.
— Como assim?
— Hoc Signo Vinces diz-me, mostrando-me as palmas das mãos, as quais ostentam uma enorme cicatriz cada.
E desvaneceu-se no ar.

***


Assim que o escudeiro acabou de me prender a armadura, abandonei a tenda, encontrando os capitães à entrada. Tinham um ar cansado. Não devem ter conseguido dormir. Eu passei a noite em oração, ainda sem saber se Jesus realmente me visitou.
A escuridão ainda era quase completa. Os soldados atarefavam-se nos preparativos para a batalha. Sons distantes indicavam que o inimigo fazia o mesmo. Desde cavaleiros em armadura completa a lanceiros, todos receavam o combate.
— Durante a noite orei comuniquei-lhes, elevando a voz para que os soldados comuns o ouvissem também. E Jesus Cristo apareceu-me, mostrou-me as suas chagas e disse-me Hoc Signo Vinces, com este símbolo vencerás. Os infiéis não nos poderão vencer enquanto a nossa fé for forte.
Várias cabeças se voltaram. Espero que a fé deles seja tão forte como a minha.
— Preparem-se, é o nosso dever derrotar os infiéis! comando, aproximando-me dos capitães.
Faço-lhes sinal para se aproximarem.
— O grosso do exército deve formar uma coluna única, excepto a cavalaria pesada que irá ficar na retaguarda e fora de vista. A cavalaria ligeira deve atacar o inimigo com armas de arremesso para o forçar a atacar, mas deve recuar assim que ele avance explico, colocando o elmo.
Afasto-me em direcção à minha guarda de honra, os mais valorosos cavaleiros do Condado. A luminosidade aumentava, revelando os cinco campos do inimigo. Cinco exércitos contra um. Em coluna única, posicionamo-nos na encosta, o Sol irá nascer nas nossas costas. Os batalhões inimigos formam-se à pressa, não estavam preparados para que tomássemos a iniciativa nem que lhes déssemos batalha tão cedo. A cavalaria não perde tempo, atirando lanças e flechas contra as fileiras sarracenas. O efeito em termos de baixas era reduzido. Olho para os soldados mais próximos. Parecem estar mais confiantes que eu.
Ainda sem estar completamente organizado, os mouros avançam pela colina acima. Dois dos exércitos inimigos ainda não se movimentaram. Estão descoordenados. A cavalaria continua a atacar a infantaria almorávida. Os cavaleiros adversários juntam-se à investida. Preparamo-nos para o embate.
O choque de metais é terrível. Deito um olhar furtivo à minha volta. As fileiras ameaçam ceder em vários pontos. A minha guarda protege-me do pior. Assim que termina o ataque, ordeno que o estandarte com a cruz de Cristo seja erguido. O campo está adornado de corpos, tanto de cavalos como de soldados. Não consigo saber se levamos vantagem ou não, mas sei que não resistimos a outra investida semelhante.
O encontro de infantarias está prestes acontecer. Trocam-se flechas e lanças. Quando as espadas se encontram com os escudos e as lanças com as armaduras, noto que a cavalaria está prestes a executar a manobra que eu lhe ordenei.
— Pater noster, qui es in cælis... oro, apertando apega do escudo.
Duas fileiras ordenadas, uma de cada lado, com as lanças em riste, preparando-se para a carga. Duzentos cavaleiros, cem de cada lado.
Sanctificétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua sicut in cælo, et in terra...
E num instante não são duzentos soldados. São muitos mais. Cada um torna-se em dois. E o efeito repete-se. A linha fica com uns vinte cavaleiros de espessura. Tenho a certeza que são mais de mil! Parece que multiplicaram-se por dez.
Nesse momento, o inimigo rompe o contacto e tenta recuar. Vejo o pânico nos seus olhares. A matança começa. A cavalaria persegue os mouros pela encosta abaixo, causando inúmeras baixas. Os restantes exércitos, desistem de se juntar à batalha e iniciam a retirada.
— É um milagre! comenta um dos meus guardas.
— A fé salvou-nos!
Não tarda que se juntem todos em meu redor.
— É um sinal dos céus conclui um dos capitães mais religiosos.
— Um sinal de que não estamos perante um príncipe, mas de um rei anuncia Dom Gualdim Pais.
— A vontade divina assim o ditou disse o velho, que entretanto aparecera entre os soldados.
E assim me aclamaram como rei, ainda no campo de batalha.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Os Cadáveres


Sou um homem morto. Respiro, o meu coração bate e ainda raciocino. Apesar disso, sou um homem morto. Aperto a arma que trago dentro do casaco e dou uns passos em frente. Os ouvidos zumbem. Não vale a pena sequer buscar o carro. Não iria funcionar. Sinto uma dor aguda no ombro, acho que o desloquei. É a menor das minhas preocupações. Aliás, um homem morto não tem preocupações. Passo a mão pela testa e vejo-a coberta de sangue. Só há uma coisa que gostaria de fazer. Mais que gostar, que tenho de fazer. Alguém me agarra o braço e aponta para uma vitima que jaz numa poça de sangue. Sacudo-a com um safanão. Outras pessoas arrastam-se pela rua devastada. Outras pessoas não, cadáveres como eu. Talvez gritem. Parece-me que sim, não tenho como saber. O maldito zumbido continua. Vejo-os agitar os braços, enquanto correm em ziguezague à procura de ajuda. Alguns não se mexem. Estão apenas um pouco mais mortos que eu. A ajuda não virá. Estamos por nossa conta. E há um amaldiçoado vento, que sopra na pior direcção. Era polícia, enquanto estava vivo. Deveria auxiliar os feridos e impedir o caos. Não vale a pena. No passeio jaz uma mulher de meia-idade com os membros torcidos em ângulos impossíveis. Há uma criança empalada num sinal de trânsito. Vomitaria se ainda tivesse algo no estômago. Há quem olhe para o meu uniforme desfeito com um raio de esperança. Ingénuos. O que fui antes da morte não vos pode valer. Passo a passo, vou-me aproximando do meu destino. Há pequenos fogos um pouco por todo o lado. Vi roupas incendiarem-se nos corpos dos seus donos. As folhas de papel arderam também. E, claro, a pele. As piores lesões são as queimaduras que desfiguram rostos. Vidros partidos espalhados por todo o lado. Perdi por completo o uso da audição. Nunca mais vou ouvir o riso da minha esposa. Ridículo! Mesmo que os meus ouvidos funcionassem, não irei escutar mais que gritos e choro. Um corpo em convulsões com vários pedaços de vidro espetados na face. Os que tiveram uma morte instantânea foram os mais afortunados. Sinto as pernas fraquejar. Não posso parar, nem desistir. Em breve terei uma eternidade de descanso. Tanto entulho. Os edifícios ruíram. Sobrou apenas a estrutura, que se ainda se ergue como um esqueleto vazio de vida. Tal como nós. Humanos projectados contra os objectos. Objectos projectados contra humanos. Toneladas de entulho. Sem distinção. Sem piedade. Partidos em vários pedaços. Quebrados. Esmagados. Esfarelados. Foram os mais afortunados. Outros ficaram soterrados. Não consegui ouvir os gritos deles, mas consigo imaginá-los. Não posso fazer nada por eles. Ninguém pode. Eu não posso fazer nada por ninguém. Mas há uma coisa que tenho de fazer. Sinto líquido quente na boca. Cuspo sangue. Não interessa, estou morto. Vejo um par de pernas debaixo de um monte de entulho. Há uma viatura enfiada numa casa. Há um corpo esmagado entre a parede e o automóvel. Estou a chegar à minha rua. Aqui nem todas as casas ruíram. Há um grupo de pessoas que tenta ajudar outra. Ingénuos. Não sentem o vento? É tarde demais. Não interessa, somos todos cadáveres, só que alguns ainda não sabem disso. Eu sei. Há umas horas atrás, se me perguntassem se tinha medo da morte, eu afirmaria, sem hesitar, que sim. Mas isso foi antes de morrer. Agora, desejo apenas a grande escuridão. E não vai tardar. A luz. A grande luz. Não vi a grande luz. Gostaria de ter visto a grande luz. Tudo teria sido mais fácil. Mais imediato. Sem dor, nem sofrimento. Pensei nos meus dois filhos. A esta hora já deviam estar em casa. Horas. Um morto não conta horas. O tempo deixou de existir. Estes são apenas instantes com os quais fui amaldiçoado. A casa de rés-do-chão ainda está de pé. Bem, quase toda. O pátio foi esmagado e a varanda arrancada. Já não tem janelas. A madeira não está chamuscada. As forças faltam-me. Sou cada vez mais cadáver. Somos todos. Entrei pela porta escancarada. Atravesso um corredor cheio de detritos e paredes danificadas. Não preciso procurar, sei que estão na cozinha. Ao atravessar o vão da porta, vejo-os num canto. Já nada me pode surpreender. Aquela que foi o meu amor em vida olha-me e um sorriso trespassa-lhe o rosto. O meu coração contrai-se. Por favor, não tornes tudo mais difícil. Ela está sentada no chão e abraça a minha filha. As queimaduras de ambas são extensas. Há enormes áreas de carne viva na cara, nos braços e nas pernas. Há lágrimas. Vejo que sofrem. A miúda chora com gritos que só consigo imaginar. O mais novo está no chão. O peito mexe-se com dificuldade. Um pedaço de madeira alojado no ventre. Há compressas embebidas em líquido sobre a mesa. Tentativas fúteis. Claro que compreendem o que aconteceu. Quem poderia não compreender? Ela diz-me algo. E a mais pequena também. Não quero lembrar-me do nome dela. Não quero lembrar o nome de ninguém. Não respondo. Não me mexo. Mantenho a expressão de morto. Um morto que aceita aquilo que é. Eles ainda não aceitaram. Não pensei que fosse tão difícil. No entanto, é a coisa certa a fazer. Será que não compreendem? Os olhares dizem-me que não. Os lábios movem-se de novo. Não entendo, não quero entender. Não respondo. A brisa que outrora nos acariciou a pele molesta-nos a cada momento. Maldito vento. Amaldiçoada luz. Infeliz momento em que nascemos. Não vale a pena esperar mais. Meto a mão dentro do casaco e empunho a arma. Sou recebido com um olhar de surpresa e medo. Um disparo. Ela cai com a cara desfeita. A garota começa a gritar. Outro disparo. Uma mancha de sangue, ossos, massa encefálica e cabelos espalha-se pelo chão. Mais um disparo. O mais novo deixou de sofrer. Desde a grande luz não passou mais de um instante. Encosto a arma à têmpora. Sou um homem morto.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Uma Noite Fria

O comboio parou na estação anterior àquela em que Marta costumava sair.
Diese Zug endet hier, bitte alle aussteigen! – Informaram pelos altifalantes.
Ficou de olhar fixo na direcção do som, esperando compreender o que tinha sido dito. As pessoas começaram a sair. Hesitou, mas a possibilidade de ficar sozinha acabou por ditar que as seguisse. Assim que os pés entraram em contacto com a plataforma isolada, em metal pintado de vermelho, viu no painel que o comboio iria voltar para trás.
Foi então que se lembrou que algo havia sido anunciado. Soprou com força o ar que tinha nos pulmões. Não entendia quase nada do que ouvia. Durante todo o dia era confrontada com o alemão. Ninguém falava inglês. Talvez não soubessem, talvez não quisessem. Apesar de estar a aprender, pouco mais captava que as gravações automáticas dos transportes públicos. Prestar atenção às palavras estranhas deixava-a com dores de cabeça e ignorar era tão mais fácil.
Ouviu os motores de um avião ali perto. Olhou para o céu e o som desapareceu tão rápido como tinha aparecido.
Reteve a respiração e o coração falhou uma batida. Tinham passado poucos dias desde que tivera aquela visão no largo em frente a casa. Esfregou os olhos. As pernas tremiam-lhe. Sentiu os joelhos enfraquecer.
– Malditos alemães! – Murmurou, cambaleando até se sentar num banco.
Odiava quase tanto a frieza dos povos germânicos como duvidar da sua própria sanidade. O comboio começou a movimentar-se no sentido de onde tinha vindo.
As forças regressaram-lhe. Levantou-se e desceu as escadas, saindo da estação, que ficava uns dois andares acima do nível do solo. A linha passava por cima da estrutura de betão que cobria o pequeno largo. Uma pequena multidão concentrava-se ali, esperando não se sabe bem pelo quê. Vagueou, esperando encontrar alguém que falasse uma língua que Marta compreendesse.


– Não sei, o Rui saiu meia hora antes de mim – explicou um trintão de boné na cabeça.
– Eles só fecharam às sete. A esta hora já deve estar em casa... – acrescentou uma mulher baixa e forte.
Receosa, aproximou-se do trio, deliciada por ouvir a língua materna ao vivo. Quando se deu conta, os olhares dos três estavam fixos nela, apercebendo-se que estava a fazer figura de parva.
– Boa noite, desculpem, podem-me dizer o que se passou com os comboios?
– Encontraram uma bomba e decidiram cortar o tráfego perto da ponte – respondeu o mais velho, que cultivava um bigode.
Marta franziu o sobrolho. Seria possível que esta loucura do terrorismo tivesse também chegado à Alemanha?
– E como é que posso ir para Veddel?
– Ui, só lá vais de táxi! – sugeriu o de boné.
Marta sabia que não tinha dinheiro para isso. Não contava ter de passar tanto tempo ao ar livre e as mãos começavam a gelar-lhe.
– E a pé?
– A pé não vais lá não!
– Ah! – exclamou, ficando de súbito interessada nas suas sapatilhas. – Obrigado, então... e boa noite.
Virou costas aos imigrantes, decidida a voltar para a plataforma e resguardar-se do vento frio.
A sirene fez-se ouvir. Um holofote varreu os céus.
Piscou os olhos. Nada, nem holofotes nem sirene. Tudo tinha voltado ao normal. Sentia-se ofegante. Da outra vez também tivera dois avisos antes de ser enviada, ou achar que o fora, para o passado.
Colapsou nos degraus da escada, com uma lágrima a nascer no canto do olho. Enterrou a cara nas mãos e nem assim o tremor no braço diminuiu. Tudo lhe parecera tão real. Sentia a sanidade escapar-lhe por entre os dedos.
O som de travagem de um autocarro fê-la levantar a cabeça. Tarde demais, as pessoas que se acumulavam à porta nunca conseguiriam entrar. Levantou-se, irritada por ter perdido a oportunidade de sair dali. Limpou as bochechas, ainda mais aborrecida por ninguém lhe ter perguntado se estava bem. A típica afabilidade alemã.
Depois de muita confusão, num estilo nada alemão, o autocarro partiu e uma pequena multidão continuava ali. Caminhou entre eles, reconhecendo as várias línguas que ali falavam. Espanhol. Italiano. Inglês. Harburg parecia ser o lugar dos imigrantes. Achegou-se à frente, disposta a não deixar escapar a próxima oportunidade de sair dali.
O frio era o mesmo e a escuridão muito mais densa. Um edifício do outro lado da rua estava bastante danificado. A multidão e a ponte haviam desaparecido. Um holofote varria os céus. O som dos motores zumbia por cima da sua cabeça. Olhou para o firmamento sem conseguir encontrar a fonte do ruído que parecia vir de todos os lados. Não se via vivalma na rua.
Ouviu um estrondo e depois outro. Haviam sido ali perto. Não percebeu se eram bombas a rebentar ou disparos das anti-aéreas que havia visto dois dias atrás num museu. O negrume oprimia-lhe os sentidos. A pouco mais de meia centena de metros, viu um par de sombras. Quando uma parca luz incidiu sobre eles, percebeu que eram soldados.
– Merda! – articulou, ao perceber o sarilho em que estava metida.
Tentou prever o que aconteceria quando eles a interpelassem e, tendo em conta a época em que viera parar, nenhuma das possibilidades lhe parecia promissora. O coração dava pulos no peito. Para piorar, deduziu que só falariam alemão. Susteve a respiração. Tudo se resumia a uma questão: ficar ou fugir?
As duas figuras avançaram em passo rápido. Marta, num arranque súbito, atravessou a estrada esburacada. Os militares gritaram qualquer coisa. Esperou ouvir disparos a qualquer momento. No instante seguinte, foi projectada para a frente. Tropeçara em algo. A queda pareceu-lhe durar uma eternidade. Não ia conseguir fugir. Fechou os olhos.
Os braços ampararam-lhe a queda. Uma buzina fez-se ouvir com intensidade. Sentiu uma dor aguda no cotovelo. Descerrou as pálpebras. Estava deitada no passeio do lado oposto da estrada. As pessoas e os carros haviam voltado. Deixou-se ficar no chão. Ninguém se preocupou em ajudá-la.
Estava a ficar maluca. O que acabara de acontecer era prova disso. A consciência da situação roubou o que lhe restava da vontade de se erguer. Autorizou lágrimas a percorrerem-lhe as bochechas. O frio do pavimento entranhou-se na roupa. Começou a tremer.
Pareceu-lhe real. Tal como da outra vez.
Levantou-se num ápice, atraindo as atenções de quem a rodeava, determinada a não se deixar vencer por um par de alucinações. Maluca ou não, a vida haveria de continuar.
A linha não tardou a ser restabelecida, num convite de regresso à sua rotina.



Imagem: "Hh-hammerbrook-bf-bahnsteig" by Staro1 at the German language Wikipedia. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hh-hammerbrook-bf-bahnsteig.jpg#mediaviewer/File:Hh-hammerbrook-bf-bahnsteig.jpg

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Jogador

Jorge rasgou um pedaço da folha mais próxima e escreveu nela dois pares de coordenadas, as horas e as frotas a enviar. Apressou-se a desligar o computador, já passava das onze e vinte e as pálpebras pesavam-lhe toneladas. Um olhar para os apontamentos relembrou-o que deveria ter passado o dia a estudar para os exames do fim de semestre.


Arrastou-se até ao quarto e deixou-se cair na cama. Pousou o papel na cómoda. Sem vontade para se levantar, meteu as instruções da noite anterior dentro do livro mais próximo. Programou o despertador do telemóvel para as duas menos um quarto, a altura em que queria enviar a primeira frota. Puxou os volumosos cobertores para cima de si e apagou a luz.
De olhos fechados e confortável, fez o balanço do dia. Duas defesas e uma captura de frota valeram-lhe nove lugares, colocando-o nos cinquenta melhores. Sorriu, feliz com o progresso. A sua aliança iria vencer!
O som do despertador fê-lo emergir do vazio. Estendeu o braço, atravessando o ar gelado, e puxou o telemóvel para dentro dos cobertores. Iniciou o navegador e ligou-se à sua conta. Outra incursão pelo frio siberiano do quarto trouxe-lhe o papel com as coordenadas. Deu a ordem de lançamento. Estendeu o braço do outro lado e ligou o aquecedor. Programou o despertador para dali a cinquenta minutos. Antes de devolver o telemóvel à cómoda e fechar os olhos, confirmou que ninguém o atacava.
Ouviu o despertador no seu sonho vago. Pegou no telemóvel e lançou a segunda frota. Atirou o telemóvel para a cómoda. Hesitou, com a mão ainda fora dos cobertores, agarrando-o de seguida para meter o despertador a tocar a um quarto para as seis.
O barulho irritante do despertador fez-se ouvir mais uma vez. Pegou no aparelho. Passava pouco das duas e meia da manhã. Era capaz de jurar que já tinha lançado a segunda frota pouco antes das três. Ao ligar-se ao jogo foi recebido por uma mensagem em enormes letras vermelhas, informando-o que estava sob ataque de dois milhões de naves. Pelos números deduziu que seriam caças e que não valia a pena reagir, provavelmente seria um falso ataque. Fechou os olhos, esperando não adormecer até ser hora de lançar a frota.
O despertador arrancou-o da escuridão. Faltavam cinco minutos para as duas e vinte. O número de naves atacantes subira para os quinze milhões. Ligou a luz e levantou-se, aborrecido por ter que ligar o computador. Ao olhar pela janela, surpreendeu-se por não ver luzes no exterior. Do outro lado havia apenas uma escuridão sólida. Abriu a porta do quarto e deparou-se com um vazio escuro. Percebeu que estava a sonhar, decidindo saltar para o infinito de negrume.
O tom do despertador e a escuridão rodeavam-no. Não caía, flutuava. Uma sensação de dormência e calor invadiu-o. O som ecoava-lhe nos ouvidos. Quis acordar, mas cada vez que abria os olhos o mesmo vazio o rodeava.
Silêncio.
Voltou ao quarto. O despertador tocou mais uma vez. Agarrou no telemóvel e desactivou o toque. O seu corpo repousava com uma calma espectral. A palidez aflorava-lhe as faces. Não respirava. Percebeu então que a culpa era do aquecedor defeituoso. Um traço de sorriso aflorava-lhe nos lábios.
Esperava sentir tristeza ou medo do que viria a seguir. Para além de uma urgência em sair dali, não sentia nada. Uma força irresistível atraía-o para a janela. Aproximou-se dela e abriu-a, içando-se para o parapeito. Lá fora a imensa escuridão reinava. Deitou um último olhar ao corpo que jazia naquela cama antes de se lançar para o vazio. Era hora de partir em direcção às estrelas.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Um Céu Nublado


A visão da suástica preta na enorme bandeira vermelha fez Marta estremecer. O coração da jovem falhou uma batida. Piscou os olhos.
Nada.
Não havia nenhuma bandeira. Do outro lado do largo existia apenas um enorme edifício de tijolo vermelho. Confusa, afastou-se da janela, virando-se para o quarto pintado de branco com soalho de madeira. Aproximou-se da mala, aberta no meio da divisão.



– Só pode ser cansaço – murmurou, agarrando nuns jeans.
Aterrara naquela manhã de Setembro em Hamburgo, ao abrigo do programa Erasmus. Licenciatura em História e perspectivas de emprego nulas. Não era de admirar que os pais se tivessem oposto à despesa de viver um ano na Alemanha.
Só pode ser do stress e do sono, concluiu, relembrando o ambiente de cortar à faca durante a despedida. Olhou para o portátil sobre a mesa. Estava excitada para contar aos colegas a aventura em que se metera. A dor de cabeça voltou e fê-la mudar de ideias. Atirou com os jeans para o armário e decidiu preparar o jantar.
Achtung! – Gritou uma voz masculina, vinda do exterior.
Espreitou de novo pela janela. O largo estava deserto. A respiração e a pulsação aceleraram.
Agarrou nas chaves da casa e saiu do quarto. Deteve-se a meio do corredor. Voltou para trás, agarrando num casaco de malha. As noites eram mais frias do que estava habituada em Portugal. Abandonou o apartamento, iniciando a penosa descida de quatro andares. Aqueles prédios já ali estavam desde os anos vinte. Nenhum deles tinha elevador.
Tomou nota mental para deixar de jogar Wolfenstein, reduzir na Internet e dormir mais uma hora cada noite. Uma nova cidade, uma nova vida. Uma boa altura para deixar os velhos vícios, constatou com um sorriso, galgando os degraus dois a dois.
Apesar de passar um pouco das nove da noite, a rua estava quase deserta. Contornou o prédio dirigindo-se ao largo.
Ao virar a esquina, voltou a ver a bandeira Nazi a dobrar. Duas enormes faixas vermelhas desciam do edifício de cinco andares. Meia dúzia de veículos em forma de cabeça de cachorro estavam estacionados no largo pavimentado. Calculou que tivessem pelo menos uns setenta anos.
Fechou os olhos e cerrou os punhos, tentando varrer a alucinação da cabeça. Quando os abriu, o vermelho berrante feriu-lhe os olhos. Questionou-se como seria possível, lembrando-se que tais símbolos eram proibidos.
A mão esquerda começou a tremer. Olhou em volta. Parecia que tinha recuado no tempo. Até as lâmpadas eram diferentes, só a noite nublada se mantinha.
Um jovem de uniforme preto, com uma metralhadora ao ombro e uma faixa vermelha no antebraço, patrulhava as imediações.
Quis afastar-se dali, mas os pés estava pregados ao chão. Esperou, como um rato espera que a cobra o devore, enquanto o soldado completava a ronda. Sem se conseguir mexer, susteve a respiração. Ele virou e os olhares cruzaram-se. O soldado arregalou os olhos e os dedos procuraram a coronha da arma. O coração de Marta quase lhe saltava do peito.
Fraulein, bitte…
Uma dose de adrenalina percorreu-lhe o corpo. Virou-se e começou a correr na direcção de onde viera. Ouviu o destrancar da patilha da arma.
A colisão deixou-a atordoada. Um telemóvel topo de gama caíra ao chão. Acabara de chocar com um homem de meia idade. Ainda no chão, levantou a cabeça e olhou para trás. Viu apenas um jardim vazio e escuro.
Sem se incomodar com o barafustar do homem, ficou a observar o largo, sem coragem para entrar nele. Esperou até não aguentar mais o frio. Nada mudou.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O Cupão




Uma troca involuntária de olhares com o desconhecido foi suficiente. Daniel interrompeu o vaivém pelo passeio, que o mantivera ocupado durante a manhã, e enveredou por uma ruela. O homem seguiu-o.
Tem cupões? ― interpelou-o o desconhecido.
Daniel virou-se e observou o homem. Não teria mais de quarenta anos, usava um fato escuro gasto e uns óculos redondos de vidro esverdeado.
Tenho o meu! Mas que raio de pergunta é essa? ― devolveu, contendo-se para não soltar um gesto obsceno.
O homem sorriu e Daniel fez o mesmo. Deixou as mãos nos bolsos da gabardina castanha-clara e os músculos da face relaxar. Sabia o que estava prestes a acontecer e não podia fazer nada para o evitar.
Peço desculpa ― respondeu-lhe o sujeito, levando a mão ao bolso.
Outro desconhecido surgiu à entrada da rua. Este era mais novo e usava uma indumentária semelhante. Avaliou o segundo homem, percebendo que nunca poderia correr mais do que eles.
Com a sua licença, eu tenho outros assuntos a tratar... ― desculpou-se Daniel, virando costas aos sujeitos.
Espere! ― prosseguiu o homem, esperando até ele olhar de volta. ― Eu vi o senhor andar de trás para a frente nesta rua durante toda a manhã. Tanto passeou que, de certeza, não haverá problema se o retivermos por mais uns breves momentos.
Polícia de Segurança Interna ― identificou-se o segundo, retirando o cartão do bolso. ― Levante os braços e fique quieto!
Está bem, não tenho nada a esconder... ― levantou os braços e acenou com as palmas das mãos abertas.
Os dois agentes aproximaram-se. Um agarrou-lhe no braço direito e torceu-o até Daniel cair de joelhos. O outro vasculhou-lhe os bolsos, enquanto a dor se intensificava e alastrava pela perna esquerda.
Seu traficante de meia-tigela, vais pagar caro por estes teus negócios! ― prometeu o que lhe segurava o braço.
Apontando-lhe uma pistola à face, obrigando-o a despir o casaco e a tirar os sapatos. O produto da busca foi amontoado sobre o passeio. Os agentes fixaram o olhar no único cartão amarelo.
Daniel Pereira, quem é esta pessoa? ― interrogou-o o agente, lendo o nome no cupão.
Sou eu, veja na minha carteira... ― respondeu-lhe, ainda no chão.
Os polícias abriram a carteira e inspeccionaram os documentos.
Senhor Daniel Pereira, parece que desta vez se safou ― disse-lhe o mais velho, atirando a carteira para o chão de modo a que o conteúdo se espalhasse.
Os dois homens viraram costas e afastaram-se.
Ainda com os joelhos e pulsos doridos, levantou-se e recolheu os seus pertences espalhados pelo beco. Cerrou os punhos e suspirou ruidosamente. Ajeitou as roupas e voltou à rua principal.
Não tinha dúvidas que os agentes o iriam seguir nos próximos dias. A tarefa que tinha em mãos não podia esperar tanto. Precisava de comprar um cupão no mercado negro antes do fim do dia. Sem aquele papel amarelo, era impossível comprar comida.
Num passo determinado, desceu em direcção à estação de São Bento. Parou uma ou duas vezes de frente às montras, certificando-se que um sujeito de óculos escuros esverdeados seguia no seu encalço. Decidiu pôr em prática uma das manobras do manual.
Entrou na estação e desatou a correr, saindo pela outra porta. Esperou um momento antes de voltar à rua. Com o coração aos pulos, caminhou em passo apressado de volta para onde os agentes o tinham interpelado.
Sorriu ao ver o velho no seu banco de madeira habitual. Ele sentava-se sempre nas mesmas tábuas verdes, para esperar à sombra de um plátano centenário. Sentou-se ao seu lado, tentando estimar quanto tempo teria até os agentes lhe encontrarem de novo o rasto.
Bons olhos te vejam, meu filho ― disse-lhe o homem
Que Deus o abençoe e o guarde de todo o mal.
O idoso passou-lhe um envelope castanho e Daniel enfiou-o no casaco do sobretudo. Levantou-se sem se despedir. Dirigiu-se ao mercado da rua de Santa Catarina. Era quase hora de almoço e nem assim o movimento diminuía. As barracas amontoavam-se, ocupando espaços que não lhe estavam destinados. De quando em quando, os gritos das vendedoras de tecido sobrepunham-se aos outros ruídos.
Há sete anos atrás ainda era possível comprar comida no mercado da capital, mas à medida que a guerra se prolongava, toda a produção estava cativa do estado. Ninguém poderia obter alimentos sem apresentar o cartão. A luta do Norte contra o Sul já tinha feito correr rios de sangue. As dores esporádicas na perna esquerda, fruto de um disparo de metralhadora, relembravam-no o porquê de não cumprir oito anos de serviço obrigatório.
Embrenhou-se na multidão, lutando para passar. Sabia que os polícias nunca o encontrariam no meio da confusão.
Percorreu metade da feira antes de se deparar com o comerciante que procurava. Era um homem magro que usava uma barbicha excessivamente longa. Todos o que o conheciam concordavam, era impossível estimar a idade do sujeito, só sabiam que ele era mesmo muito velho.
Bom dia, meu jovem, em que posso ajudá-lo? ― cumprimentou com um sorriso que mostrava uma dentição ainda perfeita.
Estou interessado nos seus produtos.
Esteja à vontade ― convidou o comerciante, estendendo a mão sobre a mesa que servia de balcão.
Durante um momento, Daniel fingiu estar interessado nos relógios de parede. Não tinha pressa, pois sabia que um acto irreflectido deitaria tudo a perder. De um modo subtil, abriu o envelope que lhe havia sido dado sem o retirar do sobretudo, ficando com o diminuto pedaço de papel na palma da mão.
Eu gostaria de ter um relógio que marcasse as horas das refeições... ― pediu, olhando o homem nos olhos.
Quem vive em sua casa?
Uma senhora.
E ela é nova ou velha?
Nova.
Então eu aconselho-lhe a levar este aqui ― sugeriu, apontando para um relógio branco redondo.
Parece-me bem, quanto custa?
Oitenta contos de reis.
Retirou um maço de notas do envelope e pagou ao homem. O velho contou duas vezes o dinheiro antes de lhe dar o relógio.
Deixou o mercado e desceu para a parte velha da cidade. Alguns dos prédios tinham, pelo menos, o dobro da idade da Grande Guerra Europeia. Aquela parte do Porto ainda não fora bombardeada, o que não era de admirar, não era preciso lançar bombas naquela vizinhança para os prédios caírem, eles desmoronavam-se sem precisar de ajuda.
Ao chegar ao seu edifício, deparou-se com dois homens que esperavam do outro lado da rua. Vestiam camisas brancas e calças de feltro, não tinham aspecto de trabalhadores. O coração quase lhe saltou da caixa torácica.
Cada passo era uma tortura e tinha de se obrigar a dá-lo. Um dos homens olhou-o e um arrepio frio percorreu-lhe a coluna. Adivinhou que seria o fim da sua carreira, o que tinha na sua posse era mais do que suficiente para o incriminarem. Seria acusado de tráfico, traição, encobrimento de agentes estrangeiros. Cada uma dessas acusações era suficiente para servir num batalhão penal, onde pagaria em sangue pelos seus crimes.
A agente que chegaria no dia seguinte seria também capturada. As chances de alguma vez destruir esta oligarquia estavam reduzidas. Em particular, chateava-o não ter conseguido vingar o seu irmão, morto na linha do Mondego.
Os dois sujeitos tocaram à campainha, ignorando-o por completo. Ainda com as mãos a tremer entrou no seu prédio. Subiu as escadas e trancou-se no seu apartamento. Colou-se à janela da cozinha.
Um dos homens conversava agora com o vizinho da frente. O outro saiu do interior do edifício com uma volumosa caixa de madeira. Um par de notas trocaram de mãos e os dois homens desceram a rua com a mercadoria.
Respirou de alívio, percebendo que a sua mente pregara-lhe apenas uma partida. A revolução iria acontecer.