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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ebooks: Universos Literários

Quem quer dar uma volta pelos universos literários de sete autores portugueses?


Autores: Ana Ferreira, Carlos Silva, Carina Portugal, Liliana Novais, Pedro Cipriano, Pedro Pereira e Sara Farinha
Sinopse: A antologia contem os seguintes contos:
Imtharien - O Canto da Ninfa de Carina Portugal
Inbicta - Vamos Pintar os Franceses de Carmim de Ana Ferreira
Apocalipse - A Queda de Berlim de Pedro Pereira
Percepção - Túmulo 62 de Sara Farinha
Urbania - A Destilação do Absurdo de Carlos Silva
Ahelanae - O Primeiro Voo de Liliana Novais
Era Dourada - A Alvorada de Pedro Cipriano


Como é normal nestas antologias, vou passar o meu conto à frente. A pontuação da antologia será dada em função dos contos individuais através duma média aritmética.

O Canto da Ninfa - Carina Portugal
A história está bem escrita e não me desapontou. Gostaria apenas que a autora tivesse sido mais dinâmica na narrativa e não fosse apenas um seguimento de eventos.
3 estrelas

Vamos Pintar os Franceses de Carmim - Ana Ferreira
Gostei do tom humorístico e das personagens caricatas. Infelizmente não me cativou por aí além.
3 estrelas

A Queda de Berlin - Pedro Pereira
Esta história é mais um fragmento. Gostava de ter visto algum tipo de conclusão nos temas que abriu.
2 estrelas

Túmulo 62 - Sara Farinha
A personagem está bem explorada, é pena é não percebermos as suas motivações. Algumas partes podem ser confusas para quem não conhece este universo. Gostei do facto de o conto ter bastante tensão.
3 estrelas

A Destilação do Absurdo - Carlos Silva
Gostei do conto. O autor conseguiu descrever o processo sem contar, o que só por si é excelente. Para além disso, há uma reviravolta final que é muito recompensante.
4 estrelas

O Primeiro Voo - Liliana Novais
Outro fragmento. A história podia ter sido terminada um pouco antes sem deixar nada em aberto.
2 estrelas

Classificação: 3 estrelas

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ebook: Histórias Fantásticas de Portugal

Partes da história de Portugal contadas com um pouco de fantasia à mistura!


Autores: Carina Portugal, Pedro Cipriano, Pedro Pereira e Ricardo Dias
Sinopse: "O Anel do Rei", de Pedro Pereira
D. Afonso Henriques, príncipe herdeiro do condado, lidera o exército dos barões portucalenses contra as forças de Fernão Peres de Trava. Porém, no frente-a-frente com o conde, quando tudo parecia estar perdido, Afonso recebe uma preciosa ajuda de uma velha amiga…

"Hoc Signo Vinces: Com este Sinal Vencerás", de Pedro Cipriano

Os cinco exércitos cercam uma expedição cristã num monte alentejano. Estão em Ourique, embrenhados em território inimigo. Os inimigos excedem-nos em cinco para dois. E os homens estão com medo. Será a fé do príncipe forte o suficiente para vencer a batalha? 

"A Pedra de Dighton", de Carina Portugal

Há mais de 500 anos, o navegador português Miguel Corte-Real desapareceu na costa atlântica do Novo Mundo. A única pista do seu paradeiro distante está contida nas misteriosas inscrições da Pedra de Dighton. E Cecília, sua descendente, não descansará até desvendar a verdade que há nelas.

"O Relatório para o Marquês", de Ricardo Dias

Um investigador apresenta-se perante um conselho secreto, encabeçado por uma das figuras mais proeminentes da época, para relatar a verdadeira causa do Terramoto de 1755.


Como é normal nestas antologias, a classificação será a média aritmética das pontuações individuais de cada conto excluindo o meu.

O Anel do Rei - Pedro Pereira
As falas inicias são demasiado informais e a linguagem usada é anacrónica. Fora estas imprecisões históricas, a história tem um bom ritmo e é capaz de entreter com facilidade.
3 estrelas

Hoc Signo Vinces: Com Este Sinal Vencerás - Pedro Cipriano
Creio que vou saltar este.

A Pedro de Dighton - Carina Portugal
Gostei da história mas achei que gostaria de saber um pouco mais da personagem principal. As descrições estão bem conseguidas e a trama prende o leitor, excepto para duas pequenas quebras de ritmo: uma no início e outra no final.
3 estrelas

O Relatório para o Marquês - Ricardo Dias
Uma boa ideia, que poderia ter tido uma melhor execução. Gostei da explicação criada para justificar o terramoto de Lisboa. Preferia que o autor tivesse usado outra táctica narrativa.
3 estrelas

Classificação: 3 estrelas

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Ebooks: Antologia Steampunk

Esta antologia vem tornar o panorama steampunk português um pouco mais rico.


Autores: Carina Portugal, Inês Montenegro, Pedro Cipriano e Ricardo Dias
Sinopse: Quatro contos de quatro escritores, onde é explorado um pouco do imenso mundo movido a vapor que é o Steampunk.

"Relógios e Bruxarias", por Inês Montenegro:
Numa sociedade em que a magia é ilegal e a bruxaria perseguida, o desejo de Mina em ver vingar o seu negócio leva-a a afastar sentimentos e preocupações.
Até ao dia em que Helena lhe pede auxílio.

"A Ascensão e Queda de “Zé Saltador”", por Ricardo Dias:

Spring-heeled Jack, mito urbano e criminoso profissional, decide escapar de Inglaterra e usar Portugal para iniciar uma carreira internacional. Mas nem tudo corre como planeado...

"A Mina de Carvão", por Carina Portugal:

Em colaboração com o Império Português, Charlotte Reeve, uma das melhores agentes da Coroa Britânica, é enviada para a cidade de Tete, em Moçambique. A sua missão é capturar vivo um dos mais retorcidos traficantes de humanos. Mas consegui-lo-á?

"A Canção da Fornalha", por Pedro Cipriano:

A grande fornalha é o coração da cidade. A sua música não deixa ninguém indiferente, muito menos o mestre das caldeiras.


Como é normal neste tipo de antologia, irei dar uma pontuação a cada um dos contos e a pontuação da antologia será a média dos contos, excluindo o meu.

Relógios e Bruxarias - Inês Montenegro
O final ficou demasiado em aberto. A trama consegue prender o leitor desde a primeira página até à última. As descrições ajudam a contar a história. Gostaria que a autora tivesse explorado um pouco mais o mundo. Creio que a alternância entre as duas personagens principais não beneficiou o conto.
3 estrelas

A Ascensão e Queda de "Zé Saltador" - Ricardo Dias
Apesar de tudo, conseguimos uma certa empatia com a personagem principal. É um conto com boas descrições da tecnologia e boa ambientação. Consegue manter a tensão e o interesse do leitor. Fiquei na dúvida se isto é steampunk ou atompunk.
4 estrelas

A Mina de Carvão - Carina Portugal
A autora conseguiu criar um excelente empatia com a personagem principal. A ambientação steampunk num cenário africano foi muito bem pensada e melhor conseguida. A tensão é mentida desde a primeira página e o final não desaponta. Só achei um pouco redundante a cena final.
5 estrelas

A Canção da Fornalha - Pedro Cipriano
Não tenho por hábito fazer uma crítica aos meus próprios trabalhos e conto continuar assim.

Classificação: 4 estrelas

segunda-feira, 21 de março de 2016

Ebooks: Homenagens

Outra excelente iniciativa do grupo Fantasy & Co.


Autores: Ana Filipa Ferreira, Carina Portugal, Carlos Silva, Pedro Cipriano, Pedro Pereira, Sara Farinha, Vitor Frazão

Sinopse: Antologia onde diversos autores homenageiam autores mais famosos:
Luar Sangrento - Pedro Pereira
Estel - Sara Farinha
Outra Coimbra - Vitor Frazão
É só uma piada - Carlos Silva
O enigma da cartola - Carina Portugal
A caçadora de Corrinos - Pedro Cipriano
Tempestade de gelo numa alma quebrada - Ana Ferreira



Luar Sangrento - Pedro Pereira
Um conto curtindo que dá para ter uma ideia do universo homenageado. Não se sabe muito sobre a personagem principal, o que acaba por não ser necessário. Gostei da descrição da batalha.
3 estrelas

Estel - Sara Farinha
As primeiras frases tem demasiada informação. As descrições das personagens e dos seus actos estão muito bem conseguidas. Gostei deste recontar da famosa história de amor do Senhor dos Anéis. 
3 estrelas

Outra Coimbra - Vitor Frazão
Sendo que esta é a segunda vez que estou a ler esta antologia, este conto foi o que me ficou mais na memória. As personagens estão bem desenvolvidas, assim como o mundo criado. As descrições fazem-nos viajar até a essa Coimbra de Baixo. Para além disso, avivou a nostalgia dos meus tempos de estudante. Muito bom em todos os aspectos.
5 estrelas

É só uma Piada - Carlos Silva
O formato acaba por empatar a leitura. É curtinho e permite uma leitura rápida, apesar de não ser aconselhável para se apreciarem as subtilezas. Para um leitor que não conheça o universo, creio que não terá grande interesse, no entanto, é um mimo para todos os aficionados.
3 estrelas

O Enigma da Cartola - Carina Portugal
Foi feito um excelente aproveitamento das personagens do universo da Alice no País das Maravilhas. Numa segunda leitura, consegue-se encontrar detalhes que nos escaparam na primeira. As descrições e a trama estão muito bem conseguidas.
4 estrelas

A caçadora de Corridos - Pedro Cipriano
Creio que é sensato não criticar este.

Tempestade de Gelo numa Alma Quebrada - Ana Filipa Ferreira
Este conto oscila entre dois tempos verbais distintos. Gostei das personagens, bastante humanas e cheias de medos e incertezas. As descrições estão bastante competentes. É pena a trama arrastar um pouco e não ser muito clara no primeiro terço do conto.
4 estrelas

A nota final é uma média dos contos, excluindo o meu.

Classificação: 4 estrelas

sexta-feira, 18 de março de 2016

Ebooks: Nanozine nº7

Muitos contos de diversos autores portugueses é que vos espera neste número da Nanozine.


Autores: Ana Filipa Ferreira, Telmo Marçal, Marcelina Leandro, Rui Tinoco, Joel Puga, Carlos Silva, Olinda P. Gil, Joel G. Gomes, Célia Loureiro, Pedro Cipriano e Maria João Moreira.
Sinopse: Uma ezine com vários artigos e contos:
Artigo: Críticos de Gaveta - Ana Filipa Ferreira
Contos: O Solucionador - Telmo Marçal
Carrosséis - Marcelina Leandro
O Desenho - Rui Tinoco
O Saltador - Joel Puga
A Última Viagem do Sud Expresso - Carlos Silva
Destilação - Olinda P. Gil
A Sopa - Joel G. Gomes
O Livro das Horas - Célia Loureiro
O Fruto Proibido - Pedro Cipriano
Poesia: Saberás - Maria João Moreira
Entrevistas: Carla M. Soares e Cláudia Silva




Este número abre com um artigo fundamental, escrito pela Ana Ferreira, para quem deseja enveredar pela carreira da crítica literária, seja ela a um nível amador ou mais profissional. Há também duas entrevistas interessantes: Carla M. Soares e Cláudia Silva.

O Solucionador - Telmo Marçal
Este conto tem um bom sentido de humor, que esconde logo o problema das divagações. No global é um conto agradável e divertido de se ler.
3 estrelas

Carrosséis - Marcelina Leandro
Um conto de terror que teve uma boa execução. No entanto, parece que lhe faltou algo, talvez descrições mais vívidas ou um criar de suspense.
3 estrelas

O Desenho - Rio Tinoco
Sinceramente não percebo o objectivo deste conto. Houve quem dissesse que era humorístico: não consegui entender
2 estrelas

O Saltador - Joel Puga
Gostei deste conto. Simples e directo, com uma mensagem.
3 estrelas

A Última Viagem do Sud Expresso - Carlos Silva
Creio que o ponto alto deste conto foi a complexidade da personagem principal. A acção arrasta um pouco, o que se consegue tolerar bem por estarmos a querer descobrir mais sobre a personagem principal. O final foi quiçá demasiado filosófico.
4 estrelas

Destilação - Olinda Gil
Achei o conto bastante confuso. Tive recomeçar umas três vezes para conseguir seguir o fio à meada. Gostei bastante da ideia.
2 estrelas

A Sopa - Joel G. Gomes
Este conto prima pela ideia original, ao estilo de Jorge Luis Borges. Infelizmente, não tenho a certeza se captei o objectivo do conto, que acaba por ser demasiado surrealista.
4 estrelas

O Livro das Horas - Célia Loureiro
Este conto tem alguns problemas de ritmo. Contudo, acaba por ser uma leitura agradável, em especial pela reviravolta final.
3 estrelas

O Fruto Proibido - Pedro Cipriano
Não irei comentar este por razões óbvias.

Saberás - Maria João Moreira
É-me difícil avaliar poesia e este poema passou-me um pouco ao lado.
2 estrelas

Infelizmente, continua a haver erros de paginação. Por outro lado, o design está apelativo. Notou-se que apostaram em vozes distintas, umas mais conhecidas que outras, o que acaba por ser a grande força desta ezine. A classificação é a média dos contos.
Recomendo a quem quiser conhecer o que melhor se faz em Portugal.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 14 de março de 2016

Ebooks: Nanozine 6

Este número acabou por ser um dos mais falados de sempre!


Autores: Vitor Frazão, Anton Stark, Pedro Cipriano, Marcelina Leandro, Álvaro Holstein, Carina Portugal, Rui Serra, Rui Alex
Sinopse: Uma webzine com um número dedicado ao Steampunk e outros tipos de punk.
Contos:
O preço: parte II | Vitor Frazão
Uma corda quebrada | Anton Stark
A alergia | Pedro Cipriano
Do carvão pra metralha | Marcelina Leandro

Poesia:
Um Assobio Longe | Álvaro de Sousa Holstein
Semeador de chumbo | Rui Serra
Hangar do coração | Carina de Portugal

Entrevista a:
Anton Stark
ClockWork Portugal

Ilustração:
Um Adeus Longíquo | Rui Alex (BD)
Cupcake bunny | Bernardo Dias

Artigos:
Roménia punk | Michael Haulica
Abney Park | Alexandra Rolo
O presente e futuro do punk | Adeselna Davies
Porque é que escrevo Steampunk? | Shelley Adina

Crítica literária:
Contos para o Kindle
Incarceron de Catherine Fisher
Leviathan de Scott Westerfeld
Viridis de Calista Taylor
Lady of devices & Her own devices de Shelley Adina

Subordinado ao Steampunk, este número contêm imensa informação, tanto para quem não conhece o tema como para quem já conhece: é explicado o que é o Steampunk, depois são várias dadas sugestões de livros. Existem duas entrevistas: à Clockwork Portugal e ao autor Anton Stark. Para além disso, há alguns artigos subordinamos ao tema punk e críticas a vários livros do género.

O Preço (Parte 2) - Vitor Frazão
O mesmo problema do anterior: o autor conta demais. O final decepciona um bocado. Definitivamente, não é dos melhores contos do autor.
2 estrelas

Uma Corda Quebrada - Anton Stark
Este conto está muito bom em todos os aspectos: seja na caracterização das personagens, como no ritmo da trama ou na construção do mundo. Infelizmente, é um tanto previsível.
4 estrelas

A Alergia - Pedro Cipriano
Por razões óbvias, não vou comentar este.

Do Carvão Pra Metralha - Marcelina Leandro
Este conto gasta algum tempo a introduzir o mundo criado, mas acaba por desenvolver bem. Podia ser melhorado ao nível de mostrar versus contar e em questões de linguagem.
3 estrelas

Um Assobio ao Longe - Álvaro Holstein
Parece faltar-lhe musicalidade.
3 estrelas

Semeador de Chumbo - Rui Serra
Este poema consegue mostrar-nos imagens e contar um história.
4 estrelas

Hangar do Coração - Carina Portugal
Um contraste interessante entre o vivo e a máquina.
4 estrelas

Um Adeus Longínquo - Rui Alex
Esta BD é visualmente muito atractiva. A personagem principal está muito bem conseguida.
4 estrelas

O número de colunas aleatório, por vezes não ajuda à leitura. Há também algumas gralhas. Fora isso, temos aqui um excelente manual de introdução ao Steampunk, que foi muito bem organizado e executado. Recomendo vivamente a todos!

Classificação: 4 estrelas

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ebooks: O Legado de Eros

Um antologia com histórias eróticas e românticas para todos os gostos.


Autores: Inês Montenegro, Sara Farinha, Carlos Silva, Vitor Frazão, Pedro Cipriano e Carina Portugal.
Sinopse: Antologia de Contos Românticos e Eróticos do Fantasy & Co, com trabalhos de Inês Montenegro, Sara Farinha, Carlos Silva, Vitor Frazão, Pedro Cipriano e Carina Portugal.


A Presa e o Caçador - Inês Montenegro
Num misto de erotismo e sobrenatural, a autora consegue criar tensão e interesse pelas personagens. As descrições não desapontam. O conto foi bem desenvolvido e o final surpreende.
4 estrelas


Rumo a Casa - Sara Farinha
Este conto conseguiu deixar-me uma forte impressão que não se desvaneceu com o tempo. Apesar de a reviravolta final ser, de certo modo, expectável, isso só contribui para criar tensão. Foi bem conseguido no seu todo.
4 estrelas


Carta para os Cosmos - Carlos Silva
A premissa é poderosa e foi bem desenvolvida. A tensão foi crescendo, sem sabermos que tipo de final esperar.
4 estrelas


Amor-Perfeito - Vitor Frazão
Do ponto de vista da criação de personagens e da trama não tenho nada a apontar, no entanto, o conto falhou no momento de conseguir despertar sentimentos no leitor. É a única falha. O resto foi bem conseguido.
4 estrelas


A Primavera - Pedro Cipriano
Não vou opinar sobre este, por razões óbvias.


Sementes de Fada - Carina Portugal
Acabou por ficar o melhor conto para o final. Neste conto a autora conseguiu ser fiel a si mesma e mesmo assim inovar um pouco. Gostei das personagens e do desenvolvimento do conto, que consegue prender o leitor até ao final.
4 estrelas


Classificação: 4 estrelas

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Ebooks: 7 Pecados

As antologias do Fantasy & Co são um excelente meio para descobrir novos escritores.



Autores: Carina Portugal, Carlos Silva, Liliana Novais, Pedro Cipriano, Pedro Pereira, Sara Farinha e Vitor Frazão. 
Sinopse: A antologia 7 pecados reúne contos de autores portugueses emergentes, um por cada pecado mortal. 


Como é normal, irei dar classificar cada um dos contos individualmente.

Gula - Carina Portugal
O conto é um perfeito exemplo do que o terror deve ser. Cria tensão e dá-nos um final que nos deixa a desejar mais. Gostei muito!
4 estrelas

A Cidade Perdida - Um Conto Acerca do Orgulho - Liliana Novais
Uma história engraçada mas cliché. Não há obstáculos nem tensão o que prejudica em muito a narrativa.

2 estrelas

Ira - Pedro Pereira
Um conto interessante, que teria beneficiado de um final melhor. Gostei do setting.

3 estrelas

Luxúria - Sara Farinha
Apesar da história ser um pouco cliché e o final não ser totalmente inesperado, gostei da ambientação e tensão criadas.

3 estrelas


Preguiça - Carlos Silva
Gostei do conto, apesar de ser só narrado sem criar  grande ligação com a personagens. Fazer melhor? É possível, mas nada fácil.
4 estrelas

Desejo - Vitor Frazão
Curto e engraçado. Serve o seu propósito, mas podia ser mais expandido.
3 estrelas

Nada e Tudo - Pedro Cipriano
Não vou comentar nem classificar este por razões óbvias.

A classificação final é baseada na média dos contos. Apesar de haver uma certa disparidade em termos de qualidade dos contos, creio que é um antologia que irá entreter muitos leitores.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Ebooks: 7 Virtudes

Hoje decidi pegar numa das primeiras antologia do Fantasy and Co.


Autores: Ana Filipa Ferreira, Carina Portugal, Carlos Silva, Pedro Cipriano, Pedro Pereira e Sara Farinha
Sinopse: 7 contos inspirados nas virtudes.
Corpo, Alma e Coração - Carina Portugal
O que não cura - Satisfaz - Ana Ferreira
O Paciente é o Mais Forte - Pedro Pereira
Castidade - Sara Farinha
Diligência - Carlos Silva
O Documento - Ana Ferreira
O Protótipo - Pedro Cipriano


Corpo, Alma e Coração - Carina Portugal
Este conto sobre a caridade, pouco fala sobre o tema. Apesar disso, mantem-nos agarrados até à última linha causando-nos arrepios.
4 estrelas

O que não cura - Satisfaz - Ana Ferreira
Este conto está muito bem escrito, prendendo o leitor. Um dos melhores que li desta autora até ao momento.
4 estrelas

O Paciente é o Mais Forte - Pedro Pereira
Este conto foi desenvolvido muito ao estilo de parábola, acabando por prejudicar.
3 estrelas

Castidade - Sara Farinha
Este conto foi bem explorado, pena que o final tenha ficado em aberto. Apesar disso, um dos melhores que li da autora.
4 estrelas

Diligência - Carlos Silva
Um conto que entretém, mas não é memorável. Mesmo tendo em conta que o tema não era fácil, o autor podia ter explorado melhor a ideia.
3 estrelas

O Documento - Ana Ferreira
Na mesma antologia, a autora consegue ter prestações tão dispares. Este conto funciona mais como parábola. Podia ter sido melhor explorado.
3 estrelas

O Protótipo - Pedro Cipriano
Não vou classificar este por razões óbvias.

Classificação final obtida pela média aritmética das classificações de todos os contos, excepto "O Protótipo".

Classificação: 4 estrelas

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ebooks: Géneros Literários

Um antologia para quem quer descobrir novos géneros literários.



Autores: Ana Ferreira, Carina Portugal, Liliana Novais, Pedro Cipriano, Pedro Pereira e Sara Farinha
Sinopse: Uma antologia com contos de vários géneros.
Steampunk: O Homem Voador - Pedro Pereira
New Wierd: A Luz dos Vermes - Carina Portugal
História Alternativa: A Vingança é um Prato que se Serve Frio - Pedro Cipriano
Terror: O Medo é a Raiz de Todos os Males - Sara Farinha
Fantasia Urbana: Máscaras de Pedra - Ana Ferreira
Ficção Científica: Esperança - Liliana Novais


O Homem Voador – Pedro Pereira
Não é dos contos mais originais do género, visto que o tema já foi explorado de mil e uma maneiras. O autor conseguiu dar-lhe um certo cunho pessoal. A tensão vai aumentando à medida que o conto vai avançando até chegar ao desenlace esperado.
3 estrelas

A Luz dos Vermes – Carina Portugal
Confesso que este foi o meu primeiro contacto com o género. Adorei a mestria surreal com que a autora executou o conto. Excelente a todos os níveis.
5 estrelas

A Vingança é um prato que se serve frio – Pedro Cipriano
Este não vou comentar por razões óbvias.

O Medo é a Raiz de Todos os Males – Sara Farinha
A tensão vai crescendo durante o conto prendendo o leitor. O final foi um pouco anti-climáx e acabou por ser estragar o conto. Um bom exemplo de um conto de terror.
4 estrelas

Máscaras de Pedra – Ana Ferreira
Não gostei da introdução nem da frase inicial, que acabam por ser quase totalmente acessórias. As personagens estão bem construídas e a trama avança a um bom ritmo, contudo parece-me que falta a qualquer coisa ao conto.
3 estrelas

Esperança – Liliana Novais
O conto foi um despejar de informação imenso. Não criou qualquer empatia pela personagem principal. Para terminar, o final aberto desapontou imenso.
2 estrelas

Pontuação da antologia calculada a partir da média aritmética de todos os contos excepto “A Vingança é um Prato que se Serve Frio”.

Classificação: 3 estrelas

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Jardim do Éden - Parte 1

"Então plantou o Senhor Deus um jardim, da banda do oriente, no Éden;
e pôs ali o homem que tinha formado."
Génesis 2, 8


Cada visita à despensa relembrava Bea do problema. A divisão podia ser imensa, mas a maioria das gavetas em forma de prateleira que puxava da parede só continham pó. A garota sabia que o dia em que acabaria a comida estava a chegar. Com receio no olhar, pegou na última lata de conserva e voltou para a cozinha.
As luzes acendiam-se e apagavam-se à sua passagem. De tempos a tempos, Amir, o irmão, percorria o abrigo subterrâneo trocando as lâmpadas estragadas e afinando os velhos sensores como o pai lhe havia ensinado. Aquele sítio era mais velho que qualquer um deles. Segundo o computador central, quase sessenta e cinco anos haviam passado desde que estavam ali. O conceito de anos era estranho para ela. Cada ano eram 365 dias, outro conceito estranho. Cada vez que as luzes se apagavam e voltavam a acender passava um dia. Nunca compreendera o porquê. Os pais prometeram responder a todas questões quando fossem mais velhos, contudo, morreram sem o fazer.
― Só isso? ― perguntou Amir, que tinha uma tez um pouco mais morena que a irmã.
― É a última ― declarou ela, contendo as lágrimas.
Amir abriu-a, era atum. Bea torceu o nariz. O irmão partilhou o conteúdo acompanhando com pão que haviam feito. Ela forçou-se a engolir tudo até à última migalha.
Existiam galerias sem fim. Algumas partes estavam destruídas e outras permanentemente seladas. O computador decidia onde eles podiam ou não ir. O que acontecera nos últimos sessenta e quatro anos antes não era claro. Nem o computador central lhes dava respostas. A única coisa certa é que não havia maneira de sair.
― Bea, tenho fome ― queixou-se ele.
Ela suspirou. Apesar de ser quatro anos mais nova, parecia que tinha passado a ser a mãe dele.
― Não podemos comer mais, há que racionar ― impôs, cruzando os braços como vira a mãe fazer.
Amir calou-se e desviou o olhar. Bea sabia que tinha razão. Desde que tinham notado, há alguns meses atrás, que a comida estava a escassear, tinham decidido reduzir a quantidade diária. Os pais tinham-nos avisado que isso ia acontecer na derradeira carta. Também tinham dito que os seus corpos começariam a mudar em breve pelo que deveriam dormir separados e, sobretudo, evitar o contacto físico. Bea sabia que isso já tinha começado, não fossem pêlos terem começado a crescer em sítios estranhos e o peito aumentar de volume. Era tudo inexplicável, até o cheiro. O pior de tudo fora o sangue que aparecera há um par de meses. Não fosse a mãe uma vez ter-lhe explicado que isso iria acontecer, Bea pensaria que estava para morrer. O instinto, na forma da mãe, dizia-lhe que não devia partilhar essas coisas.
Lembrou-se do dia em que encontrara os corpos. Pareciam ter morrido em pleno sono. Eles já lhes tinham explicado o que era a morte, apesar de nunca terem presenciado nenhuma. Estavam tão calmos que pareciam quase felizes. Tentou abaná-los e até espetou as unhas no braço do pai. Já estavam frios. Deixou-se cair, com a cabeça apoiada na cama. As lágrimas e a confusão dominaram-na, até o irmão surgir atrás de si.
― Anda, eles estão mortos ― disse-lhe num fio de voz.
Nesse dia colocaram os corpos na fornalha onde deitavam todo o lixo, tal como lhes haviam pedido na folha de papel que ficara sobre a mesa. As outras coisas que estavam escritas nesse papel não faziam sentido de todo. Disseram que eles seriam herdeiros de algo que não tem valor e que veriam coisas que nunca haviam visto nas suas vidas. Lera a carta inúmeras vezes, mas acabara por a queimar num momento de fúria.
Não era só a comida que estava a escassear. Eram também os livros e as distracções em geral. Não havia muito mais que pudessem fazer que já não tivessem feito. A biblioteca principal estava selada e o computador não autorizava a sua abertura. Ficar o dia todo deitada era demasiado aborrecido.
Os passos erráticos acabaram por levá-la à sala principal, coberta de monitores que mostrava o estado de cada um dos sistemas. Uma olhada pelos ecrãs confirmou que estava tudo bem. O facto de os valores estarem próximos dos mínimos em quase todas as vertentes não a preocupava. Sempre fora assim durante a sua vida.
De súbito, apeteceu-lhe atirar o monitor mais próximo ao chão. Despedaçar cada uma daquelas maquinetas. Odiava que lhe controlassem a vida. Odiava ainda mais que os pais não lhe tivessem deixado a palavra passe. Com ela poderiam abrir qualquer porta e até mesmo alterar as definições do computador. Não compreendia porque os pais haviam feito aquilo. Quanto mais pensava no assunto, mais lhe parecia que eles se tinham matado de propósito. Haviam-nos deixado sozinhos.
Sentiu uma mão no seu ombro. Um arrepio subiu-lhe pela espinha.
― Amir! – protestou, virando-se.
― O que se passa? ― inquiriu, parecendo confuso.
― Os pais foram bem claros que não devíamos tocar-nos ― censurou.
Desde há um ano para cá, o toque dele dava-lhe sensações estranhas. Conseguia compreender que estava a ficar mais parecida com a mãe e ele com o pai. E se os pais se podiam tocar e estar sempre juntos, por que não poderiam eles?
― Dá-me um abraço, Bea ― insistiu.
Ao olhar para o irmão, viu apenas uma criança assustada. Não podia. Era errado. Saiu da sala a correr com lágrimas nos olhos. Percorreu os corredores sem olhar para trás e quando chegou ao quarto, meteu o dedo no leitor. A porta abriu-se e ela esgueirou-se para o interior. Ao meter o dedo no leitor interior, deu ordem para que a porta fosse trancada.
Atirou-se para cima da cama e deixou que as lágrimas fluíssem. Irritava-a mais que tudo nunca lhe terem dado qualquer explicação para as regras. Porque não haveriam de as poder quebrar? Não haveria castigo. Como poderia haver castigo se só estavam ali eles os dois? Pelas histórias que lera, sabia que havia mais pessoas, mas nenhuma delas alguma vez viera ali. A sensação estranha persistia nela. Como um calor indescritível.
O sinal de alarme soou nesse momento. Levantou-se da cama e limpou as lágrimas. Na sua vida só se lembrava de isso acontecer duas vezes: quando deflagrara um fogo e quando o gerador principal deixara de funcionar. Tinha de ser algo sério. Apressou-se na direcção da sala principal e, quando lá chegou, viu que em todos os monitores estava uma contagem decrescente. Dentro de uma hora algo aconteceria.



Podem ler a segunda parte do conto aqui.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Hoc Signo Vinces - Com Este Sinal Vencerás


Os cinco exércitos cercam-nos neste monte alentejano. Estamos em Ourique, embrenhados em território inimigo. O sol de Verão está perto do horizonte. Não iremos combater hoje. Todavia, amanhã a batalha será inevitável.
Olho para os meus capitães vejo que eles esperam que lhes diga o que fazer. Sempre foi assim, desde que o meu pai morreu que todos esperam milagres de mim, o príncipe do condado Portucalense. É preciso traçar um plano para a batalha. Não me ocorre nada.
— Como podemos enfrentá-los? pergunto, olhando para o esquema do terreno.
O silêncio abate-se sobre os homens mais valorosos de Portucale. Eu sei o que eles estão a pensar. Não devíamos ter vindo tanto para Sul. Irrita-me não mo dizerem abertamente. Os inimigos excedem-nos em cinco para dois. E os nossos homens estão com medo. Até estes diante de mim estão cheios de receios. Não os posso julgar, se soubesse o que sei agora, nunca teria embarcado nesta sortida.
— Se ninguém tem ideias, eu vou pedir-vos que se retirem. Preciso reflectir. Mantenham sentinelas durante a noite e preparem o exército. Iremos dar batalha aos mouros de madrugada. Dar-vos-ei mais detalhes ao nascer do Sol.
Um a um, abandonaram a tenda. Estudo o esquema de novo. No topo do monte estamos seguros. Conseguimos defender ataques vindos de qualquer direcção. No entanto, não conseguimos sair daqui com facilidade. Se tentarmos romper o cerco nalguma direcção, eles conseguem contra-atacar pelos flancos e pela retaguarda. Preciso de algo que possa mudar o rumo da batalha decisivamente. E, claro, algo que moralize os meus homens.
O céu escurece sem que me surja nenhuma ideia. Estou a ver que irei passar uma noite em branco. Um dos servos entra na tenda com o meu jantar.
— Não desejo comer explico, acenando para que me deixe. Não desejo ser incomodado até uma hora antes do nascer do sol. Preciso de orar.
Sou de imediato deixado só. A desculpa da oração resulta sempre. Não tenho intenções de o fazer, pelo menos não agora. Todavia, seria perfeito se aparecesse Jesus Cristo e me dissesse como ganhar esta batalha.
— Deus tem muitas formas constata um idoso, vestido em trapos.
Não dei pela entrada dele. Como teria passado os guardas?
— Eu disse que...
— … que querias ficar sozinho completou o velho, sorrindo.
— Como é que entrou aqui? pergunto incrédulo.
— A pergunta certa não é como, mas para quê. Dom Afonso, quão forte é a tua fé? inquire, aproximando-se.
— A minha fé é forte e sempre será replico, a mesma frase que repeti vezes sem conta.
— O que dizes não é totalmente verdade. E digo-te mais, se a tua fé for forte, vencerás a batalha e serás rei. Se a tua fé vacilar por um momento, a derrota e morte esperam-te aqui.
— Como assim?
— Hoc Signo Vinces diz-me, mostrando-me as palmas das mãos, as quais ostentam uma enorme cicatriz cada.
E desvaneceu-se no ar.

***


Assim que o escudeiro acabou de me prender a armadura, abandonei a tenda, encontrando os capitães à entrada. Tinham um ar cansado. Não devem ter conseguido dormir. Eu passei a noite em oração, ainda sem saber se Jesus realmente me visitou.
A escuridão ainda era quase completa. Os soldados atarefavam-se nos preparativos para a batalha. Sons distantes indicavam que o inimigo fazia o mesmo. Desde cavaleiros em armadura completa a lanceiros, todos receavam o combate.
— Durante a noite orei comuniquei-lhes, elevando a voz para que os soldados comuns o ouvissem também. E Jesus Cristo apareceu-me, mostrou-me as suas chagas e disse-me Hoc Signo Vinces, com este símbolo vencerás. Os infiéis não nos poderão vencer enquanto a nossa fé for forte.
Várias cabeças se voltaram. Espero que a fé deles seja tão forte como a minha.
— Preparem-se, é o nosso dever derrotar os infiéis! comando, aproximando-me dos capitães.
Faço-lhes sinal para se aproximarem.
— O grosso do exército deve formar uma coluna única, excepto a cavalaria pesada que irá ficar na retaguarda e fora de vista. A cavalaria ligeira deve atacar o inimigo com armas de arremesso para o forçar a atacar, mas deve recuar assim que ele avance explico, colocando o elmo.
Afasto-me em direcção à minha guarda de honra, os mais valorosos cavaleiros do Condado. A luminosidade aumentava, revelando os cinco campos do inimigo. Cinco exércitos contra um. Em coluna única, posicionamo-nos na encosta, o Sol irá nascer nas nossas costas. Os batalhões inimigos formam-se à pressa, não estavam preparados para que tomássemos a iniciativa nem que lhes déssemos batalha tão cedo. A cavalaria não perde tempo, atirando lanças e flechas contra as fileiras sarracenas. O efeito em termos de baixas era reduzido. Olho para os soldados mais próximos. Parecem estar mais confiantes que eu.
Ainda sem estar completamente organizado, os mouros avançam pela colina acima. Dois dos exércitos inimigos ainda não se movimentaram. Estão descoordenados. A cavalaria continua a atacar a infantaria almorávida. Os cavaleiros adversários juntam-se à investida. Preparamo-nos para o embate.
O choque de metais é terrível. Deito um olhar furtivo à minha volta. As fileiras ameaçam ceder em vários pontos. A minha guarda protege-me do pior. Assim que termina o ataque, ordeno que o estandarte com a cruz de Cristo seja erguido. O campo está adornado de corpos, tanto de cavalos como de soldados. Não consigo saber se levamos vantagem ou não, mas sei que não resistimos a outra investida semelhante.
O encontro de infantarias está prestes acontecer. Trocam-se flechas e lanças. Quando as espadas se encontram com os escudos e as lanças com as armaduras, noto que a cavalaria está prestes a executar a manobra que eu lhe ordenei.
— Pater noster, qui es in cælis... oro, apertando apega do escudo.
Duas fileiras ordenadas, uma de cada lado, com as lanças em riste, preparando-se para a carga. Duzentos cavaleiros, cem de cada lado.
Sanctificétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua sicut in cælo, et in terra...
E num instante não são duzentos soldados. São muitos mais. Cada um torna-se em dois. E o efeito repete-se. A linha fica com uns vinte cavaleiros de espessura. Tenho a certeza que são mais de mil! Parece que multiplicaram-se por dez.
Nesse momento, o inimigo rompe o contacto e tenta recuar. Vejo o pânico nos seus olhares. A matança começa. A cavalaria persegue os mouros pela encosta abaixo, causando inúmeras baixas. Os restantes exércitos, desistem de se juntar à batalha e iniciam a retirada.
— É um milagre! comenta um dos meus guardas.
— A fé salvou-nos!
Não tarda que se juntem todos em meu redor.
— É um sinal dos céus conclui um dos capitães mais religiosos.
— Um sinal de que não estamos perante um príncipe, mas de um rei anuncia Dom Gualdim Pais.
— A vontade divina assim o ditou disse o velho, que entretanto aparecera entre os soldados.
E assim me aclamaram como rei, ainda no campo de batalha.

sexta-feira, 20 de março de 2015

O Poeta - Parte 2 de 2

Podem ler a primeira parte aqui.


Os olhares não duraram mais do que um doloroso par de segundos. Já os jovens haviam perdido o interesse nele há alguns momentos e o coração ainda batia descompassado.
Vagueou ao acaso, tentando absorver o máximo desta realidade. As novas bandeiras faziam-lhe confusão. Ardia em curiosidade para saber o que acontecera, mas tinha receio de, ao perguntar, ser tomado como estrangeiro. Para além disso, não conversara com ninguém durante mais de uma década.
Recordou-se da última vez em que trocara impressões com o filho. Fora algures no início da década de vinte. Como era normal, ele deixara-lhe o almoço numa travessa à entrada do sótão e batera na madeira sólida. Ao abrir a porta, depara-se com um jornal ao lado da refeição.
― Tiago!
Ele voltara atrás, de olhar surpreendido.
― Obrigado pela comida ― agradeceu o idoso, acalmando-se.
― De nada, pai. Há alguma coisa de errado?
― Tiago, preferia que não me trouxesses jornais. Não me quero distrair com essas coisas. Quero conseguir concentrar-me totalmente na escrita.
― Desculpe, pai, não volta a acontecer ― ripostou o homem de meia-idade, voltando costas e desaparecendo sem esperar por uma resposta.
Depois do 11 de Setembro e do clima de Guerra Fria instalado contra um inimigo invisível e inventado pelos soberanos, Manuel perdera o interesse nas notícias. Os jornais diziam todos os dias o mesmo, interesses e interesses, excepto os seus.
Algo atraiu a sua atenção. Do outro lado da estrada havia uma livraria. Sem pensar duas vezes, atravessou a antiga faixa de rodagem, agora coberta com calçada portuguesa, e entrou no estabelecimento. Esforçou-se para mostrar um tom neutro enquanto procurava com o olhar a secção de História.
― Muito bom dia ― cumprimentou-o o lojista.
O coração falhou-lhe uma batida. Não esperava ser interpelado tão prontamente. O sotaque era-lhe familiar, mas não o que esperava de um habitante da Invicta.
― Bom dia.
O empregado, quase tão velho como ele, franziu o sobrolho.
― Em que posso ajudá-lo?
― Tem algum volume da história recente de Portugal?
O comerciante arregalou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir algo escandaloso.
― Desculpe, mas não temos nenhum livro desse género.
Pela segunda vez nesse dia, o maxilar descaiu-lhe. Nunca antes havia estado numa livraria em que não houvesse uma secção inteira dedicada ao tema.
― Podia ter a bondade de me indicar onde se situa a prateleira de História?
Sem mais uma palavra, o homem apontou para um dos cantos da loja. Manuel mancou até lá, sem se atrever a quebrar o silêncio. De toda a estante, só metade de uma prateleira é que era dedicada a História. As lombadas não deixavam margem para dúvidas, Portugal já não existia. Nenhum livro do quarteirão disponível abordava outro assunto que não fosse a História de Porto e Galiza.
Abandonou o estabelecimento sem sequer agradecer. Procurou regressar a casa pelo mesmo caminho, precisava de retornar ao seu refúgio. Concentrado em colocar uma perna à frente da outra sem forçar demasiado os joelhos, não reparou nos dois homens que se aproximavam.
A colisão atirou-o ao chão. Os óculos saltaram e a visão ficou turva. Os dois vultos permaneciam à sua frente.
― Peço imensa desculpa ― amenizou, enquanto os dedos procuravam os óculos.
Sentiu a haste com o dedo mindinho. Puxou a armação e colocou-a sobre o nariz, recuperando a sua visão normal. Como duas torres, os dois homens vestidos com um fato quase tão antigo como o seu, observavam-no com ar de poucos amigos.
― Mostre-nos a sua identificação ― exigiu o mais alto.
― Não tenho nada ― balbuciou a tremer.
― Então vai ter que nos acompanhar até à Direcção Regional dos Assuntos Internos. Vá levante-se ou temos que o arrastar à força? ― rugiu um deles, estendendo a mão e agarrando-o pelo colarinho.
Os dois agentes conduziram-no à bruta pelas ruas até chegarem ao que Manuel recordava ser uma antiga esquadra da PSP. Sem cerimónias ou explicações, fecharam-no numa das celas.
***
Sentado na cadeira e apoiado na bengala, Manuel esperava que Tiago regressasse à cozinha. Quando este transpôs a entrada, recebeu-o com um olhar de cachorro submisso.
― Desculpa…
O filho fitou-o com uma expressão indecifrável, suspirando de seguida.
― Não percebo, juro que não percebo! ― exasperou-se, abanando a cabeça.
― Eu estava bloqueado, não escrevia nada há dias…
― Mas sair assim de casa? Sem sequer avisar? Os tempos mudaram, o nosso país já não é o mesmo. Não se pode andar pela rua sem os documentos. Aliás, o pai não pode sequer abrir a boca que vão notar que tem um sotaque diferente. O pai passou demasiado tempo fechado naquele sótão. Outra coisa que não percebo ― despejou, acabando por se sentar em frente ao pai, ofegante, como se tivesse realizado um grande esforço físico.
― Eu queria criar a maior obra da língua portuguesa…
― Essa língua já não existe, pelo menos deste lado do Mondego. Nunca devia ter permitido que passasse tanto tempo trancado naquele cubículo!
Os olhares cruzaram-se, o de um velho cansado e de um quarentão zangado.
― Valeu a pena? ― perguntou o filho.
― Como? ― admirou-se Manuel, arregalando os olhos.
― Conseguiu escrever a obra que tanto ansiava?
O idoso fitou a ponta dos sapatos, sem se atrever a levantar a cabeça.
― Não ― confessou uns momentos depois. ― E acho que nunca a irei terminar. Queria honrar uma nação que já não existe. Não só a nível soberano, territorial ou linguístico, mas aquela ideia que permaneceu durante mais de 800 anos, de um país uno que deu novos mundos ao mundo. Sem isso não vale sequer a pena terminar.
A tremer, levantou-se da cadeira, quase num esforço sobre-humano. A velhice apoderara-se dele. Olhou o filho e deu-lhe o seu melhor sorriso. Abraçaram-se por fim.
― Desperdicei vinte anos da minha vida por isto. Devo ser o maior idiota que existe mas, pelo menos, aprendi a minha lição. Espero que me perdoes…
A expressão de Tiago deixou-o mais sossegado. Não eram necessárias palavras. Depois encaminhou-se para o seu sótão, disposto a queimar tudo, até à última folha.


quarta-feira, 18 de março de 2015

Os Cadáveres


Sou um homem morto. Respiro, o meu coração bate e ainda raciocino. Apesar disso, sou um homem morto. Aperto a arma que trago dentro do casaco e dou uns passos em frente. Os ouvidos zumbem. Não vale a pena sequer buscar o carro. Não iria funcionar. Sinto uma dor aguda no ombro, acho que o desloquei. É a menor das minhas preocupações. Aliás, um homem morto não tem preocupações. Passo a mão pela testa e vejo-a coberta de sangue. Só há uma coisa que gostaria de fazer. Mais que gostar, que tenho de fazer. Alguém me agarra o braço e aponta para uma vitima que jaz numa poça de sangue. Sacudo-a com um safanão. Outras pessoas arrastam-se pela rua devastada. Outras pessoas não, cadáveres como eu. Talvez gritem. Parece-me que sim, não tenho como saber. O maldito zumbido continua. Vejo-os agitar os braços, enquanto correm em ziguezague à procura de ajuda. Alguns não se mexem. Estão apenas um pouco mais mortos que eu. A ajuda não virá. Estamos por nossa conta. E há um amaldiçoado vento, que sopra na pior direcção. Era polícia, enquanto estava vivo. Deveria auxiliar os feridos e impedir o caos. Não vale a pena. No passeio jaz uma mulher de meia-idade com os membros torcidos em ângulos impossíveis. Há uma criança empalada num sinal de trânsito. Vomitaria se ainda tivesse algo no estômago. Há quem olhe para o meu uniforme desfeito com um raio de esperança. Ingénuos. O que fui antes da morte não vos pode valer. Passo a passo, vou-me aproximando do meu destino. Há pequenos fogos um pouco por todo o lado. Vi roupas incendiarem-se nos corpos dos seus donos. As folhas de papel arderam também. E, claro, a pele. As piores lesões são as queimaduras que desfiguram rostos. Vidros partidos espalhados por todo o lado. Perdi por completo o uso da audição. Nunca mais vou ouvir o riso da minha esposa. Ridículo! Mesmo que os meus ouvidos funcionassem, não irei escutar mais que gritos e choro. Um corpo em convulsões com vários pedaços de vidro espetados na face. Os que tiveram uma morte instantânea foram os mais afortunados. Sinto as pernas fraquejar. Não posso parar, nem desistir. Em breve terei uma eternidade de descanso. Tanto entulho. Os edifícios ruíram. Sobrou apenas a estrutura, que se ainda se ergue como um esqueleto vazio de vida. Tal como nós. Humanos projectados contra os objectos. Objectos projectados contra humanos. Toneladas de entulho. Sem distinção. Sem piedade. Partidos em vários pedaços. Quebrados. Esmagados. Esfarelados. Foram os mais afortunados. Outros ficaram soterrados. Não consegui ouvir os gritos deles, mas consigo imaginá-los. Não posso fazer nada por eles. Ninguém pode. Eu não posso fazer nada por ninguém. Mas há uma coisa que tenho de fazer. Sinto líquido quente na boca. Cuspo sangue. Não interessa, estou morto. Vejo um par de pernas debaixo de um monte de entulho. Há uma viatura enfiada numa casa. Há um corpo esmagado entre a parede e o automóvel. Estou a chegar à minha rua. Aqui nem todas as casas ruíram. Há um grupo de pessoas que tenta ajudar outra. Ingénuos. Não sentem o vento? É tarde demais. Não interessa, somos todos cadáveres, só que alguns ainda não sabem disso. Eu sei. Há umas horas atrás, se me perguntassem se tinha medo da morte, eu afirmaria, sem hesitar, que sim. Mas isso foi antes de morrer. Agora, desejo apenas a grande escuridão. E não vai tardar. A luz. A grande luz. Não vi a grande luz. Gostaria de ter visto a grande luz. Tudo teria sido mais fácil. Mais imediato. Sem dor, nem sofrimento. Pensei nos meus dois filhos. A esta hora já deviam estar em casa. Horas. Um morto não conta horas. O tempo deixou de existir. Estes são apenas instantes com os quais fui amaldiçoado. A casa de rés-do-chão ainda está de pé. Bem, quase toda. O pátio foi esmagado e a varanda arrancada. Já não tem janelas. A madeira não está chamuscada. As forças faltam-me. Sou cada vez mais cadáver. Somos todos. Entrei pela porta escancarada. Atravesso um corredor cheio de detritos e paredes danificadas. Não preciso procurar, sei que estão na cozinha. Ao atravessar o vão da porta, vejo-os num canto. Já nada me pode surpreender. Aquela que foi o meu amor em vida olha-me e um sorriso trespassa-lhe o rosto. O meu coração contrai-se. Por favor, não tornes tudo mais difícil. Ela está sentada no chão e abraça a minha filha. As queimaduras de ambas são extensas. Há enormes áreas de carne viva na cara, nos braços e nas pernas. Há lágrimas. Vejo que sofrem. A miúda chora com gritos que só consigo imaginar. O mais novo está no chão. O peito mexe-se com dificuldade. Um pedaço de madeira alojado no ventre. Há compressas embebidas em líquido sobre a mesa. Tentativas fúteis. Claro que compreendem o que aconteceu. Quem poderia não compreender? Ela diz-me algo. E a mais pequena também. Não quero lembrar-me do nome dela. Não quero lembrar o nome de ninguém. Não respondo. Não me mexo. Mantenho a expressão de morto. Um morto que aceita aquilo que é. Eles ainda não aceitaram. Não pensei que fosse tão difícil. No entanto, é a coisa certa a fazer. Será que não compreendem? Os olhares dizem-me que não. Os lábios movem-se de novo. Não entendo, não quero entender. Não respondo. A brisa que outrora nos acariciou a pele molesta-nos a cada momento. Maldito vento. Amaldiçoada luz. Infeliz momento em que nascemos. Não vale a pena esperar mais. Meto a mão dentro do casaco e empunho a arma. Sou recebido com um olhar de surpresa e medo. Um disparo. Ela cai com a cara desfeita. A garota começa a gritar. Outro disparo. Uma mancha de sangue, ossos, massa encefálica e cabelos espalha-se pelo chão. Mais um disparo. O mais novo deixou de sofrer. Desde a grande luz não passou mais de um instante. Encosto a arma à têmpora. Sou um homem morto.



segunda-feira, 16 de março de 2015

O Poeta - Parte 1 de 2

Manuel desenhou as letras na folha. Quatro de Março do ano da graça de 2032. Fixou o papel e as palavras não lhe vieram. Pousou a caneta e levantou-se da cadeira, abandonando a folha meio escrita, fruto das tentativas do dia anterior. De súbito, ao voltear com a sua bengala no reduzido quarto nas águas furtadas, o refúgio das duas últimas décadas pareceu-lhe uma prisão.
Mirou a porta por onde o filho lhe trazia três refeições por dia, uma resma de papel e duas canetas por semana. O olhar desviou-se para a janela, por onde observara as revoluções e batalhas dos últimos anos sem grande interesse. Recusara televisão, rádio e até mesmo jornais, ambicionando escrever a maior epopeia portuguesa de sempre.
Largou os chinelos e procurou uns sapatos no armário. Abaixou-se a custo, os joelhos e costas já não lhe obedeciam como outrora. Removeu as teias de aranha da primeira caixa e abriu-a, encontrando os seus velhos sapatos castanhos de camurça. Longe estavam os dias em que leccionara literatura clássica na Universidade. Num impulso, despiu a roupa gasta e tentou vestir o fato castanho que usara diariamente. Ficava-lhe muito apertado, o que o surpreendeu, pois não se sabia tão gordo. Completou a indumentária com a mesma gravata azul escura de sempre.
Em passo decidido, aproximou-se da entrada. A mão deteve-se ao tocar no puxador, apercebendo-se que não sabia nada sobre o que estava para além da porta. Vieram-lhe à memória os soldados e tanques na rua, os bombardeamentos nocturnos. Não fazia ideia sequer se não haviam sido invadidos pela Alemanha e se ainda seria possível falar português na rua. Sorriu e abanou a cabeça. Achou o pensamento absurdo. Quando se decidira fechar ao mundo, Portugal afundava-se com uma enorme dívida, mas com certeza não era razão suficiente para que as pessoas falassem alemão na rua.
As falanges dos dedos fecharam-se em torno do puxador. O trinco soltou-se e uma brecha surgiu. A porta entreabriu-se lentamente. Nos últimos vinte anos, nunca fora mais longe. Perdera a conta às vezes em que recuara com as escadas sombrias já à vista. Empurrou a pesada estrutura de madeira e meteu o pé direito no primeiro degrau. Os joelhos rangeram e uma dor atravessou-lhe a tíbia. Segurou-se ao corrimão com a mão esquerda e apoiou a bengala. A custo repetiu o processo, descendo lentamente até ao corredor mal iluminado.
As paredes cobertas com tinta amarela meio descascada e adornadas por candeeiros que mais pareciam peças de museu continuavam fiéis à sua memória. Avançou, tão rápido quanto a sua condição lhe permitia, até ao lanço de escadas seguinte. Não encontrou ninguém. Uma vez no rés-do-chão decidiu resistir ao impulso de bater à porta do filho, dirigindo-se à entrada do prédio.
Ao pisar as lajes brancas, as pernas começaram a tremer. Relembrou um dos primeiros dias de Janeiro de 2012 em que entregara uma pasta cheia de papéis ao filho.
― Deixei-te tudo como herança ― dissera-lhe. ― Quero dedicar-me à escrita a tempo inteiro e só te peço que me tragas comida três vezes ao dia, uma resma de folhas e duas canetas por semana.
Ele lançara-lhe um olhar de incredulidade.
― Eu sei o que estás a pensar ― interrompeu o seu descendente antes que este ripostasse. ― Não há nada que me possas dizer que me irá convencer. A minha decisão é final!
De volta ao presente, atento à rua. E pela primeira vez notou o silêncio. Esta parecia-lhe igual, com excepção do tráfico. Não passava um único carro na que fora uma das avenidas mais movimentadas do Porto.
Saiu. Os sapatos pousaram sobre a calçada. O piso irregular trouxe-lhe sentimentos agridoces. Quisera ser o maior poeta que Portugal alguma vez criara e acabara por se fechar durante vinte anos. Não se conseguia reconhecer.
Caminhou pela rua. Havia poucos transeuntes àquela hora e todos pareciam atarefados com qualquer trabalho. Deviam ser umas nove da manhã e a maioria deveria estar no trabalho. Saiu da sua rua, chegando ao que fora a rotunda da Boavista. Piscou os olhos, deixando o maxilar descair: o monumento dera lugar a sacos de areia empilhados que protegiam várias peças de artilharia. Rapazes, pouco mais que garotos, estavam em sentido em frente às armas. Um deles observava o céu com binóculos e o mais velho, que tinha uma farda diferente, passava em revista a guarnição.
Havia algo de familiar naquela organização. Já vira expressões semelhantes. Recordou-se então do dia em que o pai o levara a ver um desfile. Talvez tivesse uns oito anos, não sabia ao certo. Decerto acontecera no início dos anos setenta.
A rua estava cheia, todos queriam ver os seus filhos. O membro mais avançado levava uma enorme bandeira de Portugal. Todos caminhavam vestidos com os mesmos uniformes de aspecto militar. Seria, provavelmente, uma das últimas pessoas vivas que assistira a uma marcha da Mocidade Portuguesa.
Ao olhar para a instalação militar uma lágrima correu-lhe pelo canto do olho. Nem sequer a bandeira hasteada no ponto mais alto da base era a mesma. O escudo era semelhante, mas as cores eram diferentes, apesar de estranhamente familiares. Branco e azul claro.
― Galiza! ― exclamou, atraindo as atenções do pelotão.


Podem ler a segunda parte aqui.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Um Céu Nublado


A visão da suástica preta na enorme bandeira vermelha fez Marta estremecer. O coração da jovem falhou uma batida. Piscou os olhos.
Nada.
Não havia nenhuma bandeira. Do outro lado do largo existia apenas um enorme edifício de tijolo vermelho. Confusa, afastou-se da janela, virando-se para o quarto pintado de branco com soalho de madeira. Aproximou-se da mala, aberta no meio da divisão.



– Só pode ser cansaço – murmurou, agarrando nuns jeans.
Aterrara naquela manhã de Setembro em Hamburgo, ao abrigo do programa Erasmus. Licenciatura em História e perspectivas de emprego nulas. Não era de admirar que os pais se tivessem oposto à despesa de viver um ano na Alemanha.
Só pode ser do stress e do sono, concluiu, relembrando o ambiente de cortar à faca durante a despedida. Olhou para o portátil sobre a mesa. Estava excitada para contar aos colegas a aventura em que se metera. A dor de cabeça voltou e fê-la mudar de ideias. Atirou com os jeans para o armário e decidiu preparar o jantar.
Achtung! – Gritou uma voz masculina, vinda do exterior.
Espreitou de novo pela janela. O largo estava deserto. A respiração e a pulsação aceleraram.
Agarrou nas chaves da casa e saiu do quarto. Deteve-se a meio do corredor. Voltou para trás, agarrando num casaco de malha. As noites eram mais frias do que estava habituada em Portugal. Abandonou o apartamento, iniciando a penosa descida de quatro andares. Aqueles prédios já ali estavam desde os anos vinte. Nenhum deles tinha elevador.
Tomou nota mental para deixar de jogar Wolfenstein, reduzir na Internet e dormir mais uma hora cada noite. Uma nova cidade, uma nova vida. Uma boa altura para deixar os velhos vícios, constatou com um sorriso, galgando os degraus dois a dois.
Apesar de passar um pouco das nove da noite, a rua estava quase deserta. Contornou o prédio dirigindo-se ao largo.
Ao virar a esquina, voltou a ver a bandeira Nazi a dobrar. Duas enormes faixas vermelhas desciam do edifício de cinco andares. Meia dúzia de veículos em forma de cabeça de cachorro estavam estacionados no largo pavimentado. Calculou que tivessem pelo menos uns setenta anos.
Fechou os olhos e cerrou os punhos, tentando varrer a alucinação da cabeça. Quando os abriu, o vermelho berrante feriu-lhe os olhos. Questionou-se como seria possível, lembrando-se que tais símbolos eram proibidos.
A mão esquerda começou a tremer. Olhou em volta. Parecia que tinha recuado no tempo. Até as lâmpadas eram diferentes, só a noite nublada se mantinha.
Um jovem de uniforme preto, com uma metralhadora ao ombro e uma faixa vermelha no antebraço, patrulhava as imediações.
Quis afastar-se dali, mas os pés estava pregados ao chão. Esperou, como um rato espera que a cobra o devore, enquanto o soldado completava a ronda. Sem se conseguir mexer, susteve a respiração. Ele virou e os olhares cruzaram-se. O soldado arregalou os olhos e os dedos procuraram a coronha da arma. O coração de Marta quase lhe saltava do peito.
Fraulein, bitte…
Uma dose de adrenalina percorreu-lhe o corpo. Virou-se e começou a correr na direcção de onde viera. Ouviu o destrancar da patilha da arma.
A colisão deixou-a atordoada. Um telemóvel topo de gama caíra ao chão. Acabara de chocar com um homem de meia idade. Ainda no chão, levantou a cabeça e olhou para trás. Viu apenas um jardim vazio e escuro.
Sem se incomodar com o barafustar do homem, ficou a observar o largo, sem coragem para entrar nele. Esperou até não aguentar mais o frio. Nada mudou.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O Cupão




Uma troca involuntária de olhares com o desconhecido foi suficiente. Daniel interrompeu o vaivém pelo passeio, que o mantivera ocupado durante a manhã, e enveredou por uma ruela. O homem seguiu-o.
Tem cupões? ― interpelou-o o desconhecido.
Daniel virou-se e observou o homem. Não teria mais de quarenta anos, usava um fato escuro gasto e uns óculos redondos de vidro esverdeado.
Tenho o meu! Mas que raio de pergunta é essa? ― devolveu, contendo-se para não soltar um gesto obsceno.
O homem sorriu e Daniel fez o mesmo. Deixou as mãos nos bolsos da gabardina castanha-clara e os músculos da face relaxar. Sabia o que estava prestes a acontecer e não podia fazer nada para o evitar.
Peço desculpa ― respondeu-lhe o sujeito, levando a mão ao bolso.
Outro desconhecido surgiu à entrada da rua. Este era mais novo e usava uma indumentária semelhante. Avaliou o segundo homem, percebendo que nunca poderia correr mais do que eles.
Com a sua licença, eu tenho outros assuntos a tratar... ― desculpou-se Daniel, virando costas aos sujeitos.
Espere! ― prosseguiu o homem, esperando até ele olhar de volta. ― Eu vi o senhor andar de trás para a frente nesta rua durante toda a manhã. Tanto passeou que, de certeza, não haverá problema se o retivermos por mais uns breves momentos.
Polícia de Segurança Interna ― identificou-se o segundo, retirando o cartão do bolso. ― Levante os braços e fique quieto!
Está bem, não tenho nada a esconder... ― levantou os braços e acenou com as palmas das mãos abertas.
Os dois agentes aproximaram-se. Um agarrou-lhe no braço direito e torceu-o até Daniel cair de joelhos. O outro vasculhou-lhe os bolsos, enquanto a dor se intensificava e alastrava pela perna esquerda.
Seu traficante de meia-tigela, vais pagar caro por estes teus negócios! ― prometeu o que lhe segurava o braço.
Apontando-lhe uma pistola à face, obrigando-o a despir o casaco e a tirar os sapatos. O produto da busca foi amontoado sobre o passeio. Os agentes fixaram o olhar no único cartão amarelo.
Daniel Pereira, quem é esta pessoa? ― interrogou-o o agente, lendo o nome no cupão.
Sou eu, veja na minha carteira... ― respondeu-lhe, ainda no chão.
Os polícias abriram a carteira e inspeccionaram os documentos.
Senhor Daniel Pereira, parece que desta vez se safou ― disse-lhe o mais velho, atirando a carteira para o chão de modo a que o conteúdo se espalhasse.
Os dois homens viraram costas e afastaram-se.
Ainda com os joelhos e pulsos doridos, levantou-se e recolheu os seus pertences espalhados pelo beco. Cerrou os punhos e suspirou ruidosamente. Ajeitou as roupas e voltou à rua principal.
Não tinha dúvidas que os agentes o iriam seguir nos próximos dias. A tarefa que tinha em mãos não podia esperar tanto. Precisava de comprar um cupão no mercado negro antes do fim do dia. Sem aquele papel amarelo, era impossível comprar comida.
Num passo determinado, desceu em direcção à estação de São Bento. Parou uma ou duas vezes de frente às montras, certificando-se que um sujeito de óculos escuros esverdeados seguia no seu encalço. Decidiu pôr em prática uma das manobras do manual.
Entrou na estação e desatou a correr, saindo pela outra porta. Esperou um momento antes de voltar à rua. Com o coração aos pulos, caminhou em passo apressado de volta para onde os agentes o tinham interpelado.
Sorriu ao ver o velho no seu banco de madeira habitual. Ele sentava-se sempre nas mesmas tábuas verdes, para esperar à sombra de um plátano centenário. Sentou-se ao seu lado, tentando estimar quanto tempo teria até os agentes lhe encontrarem de novo o rasto.
Bons olhos te vejam, meu filho ― disse-lhe o homem
Que Deus o abençoe e o guarde de todo o mal.
O idoso passou-lhe um envelope castanho e Daniel enfiou-o no casaco do sobretudo. Levantou-se sem se despedir. Dirigiu-se ao mercado da rua de Santa Catarina. Era quase hora de almoço e nem assim o movimento diminuía. As barracas amontoavam-se, ocupando espaços que não lhe estavam destinados. De quando em quando, os gritos das vendedoras de tecido sobrepunham-se aos outros ruídos.
Há sete anos atrás ainda era possível comprar comida no mercado da capital, mas à medida que a guerra se prolongava, toda a produção estava cativa do estado. Ninguém poderia obter alimentos sem apresentar o cartão. A luta do Norte contra o Sul já tinha feito correr rios de sangue. As dores esporádicas na perna esquerda, fruto de um disparo de metralhadora, relembravam-no o porquê de não cumprir oito anos de serviço obrigatório.
Embrenhou-se na multidão, lutando para passar. Sabia que os polícias nunca o encontrariam no meio da confusão.
Percorreu metade da feira antes de se deparar com o comerciante que procurava. Era um homem magro que usava uma barbicha excessivamente longa. Todos o que o conheciam concordavam, era impossível estimar a idade do sujeito, só sabiam que ele era mesmo muito velho.
Bom dia, meu jovem, em que posso ajudá-lo? ― cumprimentou com um sorriso que mostrava uma dentição ainda perfeita.
Estou interessado nos seus produtos.
Esteja à vontade ― convidou o comerciante, estendendo a mão sobre a mesa que servia de balcão.
Durante um momento, Daniel fingiu estar interessado nos relógios de parede. Não tinha pressa, pois sabia que um acto irreflectido deitaria tudo a perder. De um modo subtil, abriu o envelope que lhe havia sido dado sem o retirar do sobretudo, ficando com o diminuto pedaço de papel na palma da mão.
Eu gostaria de ter um relógio que marcasse as horas das refeições... ― pediu, olhando o homem nos olhos.
Quem vive em sua casa?
Uma senhora.
E ela é nova ou velha?
Nova.
Então eu aconselho-lhe a levar este aqui ― sugeriu, apontando para um relógio branco redondo.
Parece-me bem, quanto custa?
Oitenta contos de reis.
Retirou um maço de notas do envelope e pagou ao homem. O velho contou duas vezes o dinheiro antes de lhe dar o relógio.
Deixou o mercado e desceu para a parte velha da cidade. Alguns dos prédios tinham, pelo menos, o dobro da idade da Grande Guerra Europeia. Aquela parte do Porto ainda não fora bombardeada, o que não era de admirar, não era preciso lançar bombas naquela vizinhança para os prédios caírem, eles desmoronavam-se sem precisar de ajuda.
Ao chegar ao seu edifício, deparou-se com dois homens que esperavam do outro lado da rua. Vestiam camisas brancas e calças de feltro, não tinham aspecto de trabalhadores. O coração quase lhe saltou da caixa torácica.
Cada passo era uma tortura e tinha de se obrigar a dá-lo. Um dos homens olhou-o e um arrepio frio percorreu-lhe a coluna. Adivinhou que seria o fim da sua carreira, o que tinha na sua posse era mais do que suficiente para o incriminarem. Seria acusado de tráfico, traição, encobrimento de agentes estrangeiros. Cada uma dessas acusações era suficiente para servir num batalhão penal, onde pagaria em sangue pelos seus crimes.
A agente que chegaria no dia seguinte seria também capturada. As chances de alguma vez destruir esta oligarquia estavam reduzidas. Em particular, chateava-o não ter conseguido vingar o seu irmão, morto na linha do Mondego.
Os dois sujeitos tocaram à campainha, ignorando-o por completo. Ainda com as mãos a tremer entrou no seu prédio. Subiu as escadas e trancou-se no seu apartamento. Colou-se à janela da cozinha.
Um dos homens conversava agora com o vizinho da frente. O outro saiu do interior do edifício com uma volumosa caixa de madeira. Um par de notas trocaram de mãos e os dois homens desceram a rua com a mercadoria.
Respirou de alívio, percebendo que a sua mente pregara-lhe apenas uma partida. A revolução iria acontecer.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Crónicas do Porto e Galiza

Tal como prometido, vou disponibilizar o seguinte ebook de forma gratuita:

https://dl.dropboxusercontent.com/u/5059373/Cronicas.pdf


Autor: Pedro Cipriano
Sinopse: Imagine que a própria União Europeia acabou numa violenta luta do Norte contra o Sul. Imagine um Portugal que se fragmentou em três estados. Imaginem que um desses estados vive mergulhado num regime fascista cujo objectivo único é dominar o resto da península Ibérica. Esta é a realidade de Rui, Bruno, Leonor, Manuel, Miguel, Ana e Daniel, assim como o de milhares de outros cidadãos.


Espero que gostem! Boas leituras!