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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O mar e o ser Português


É inegável a presença do vocabulário relacionado com o mar na língua portuguesa. Infelizmente, a relevância desse pensar marítimo escapa-nos em muitas ocasiões. Desde sempre que o português olhou tal vastidão, não como uma fronteira, mas como uma fonte inesgotável de possibilidades.

A extensa costa e posição periférica no continente fizeram com que o mar estivesse omnipresente na nossa história. De lá vieram os cruzados que ajudaram na conquista de Lisboa. A ele os portugueses se fizeram para conquistar Ceuta. Por ele navegaram, procurando novos mundos, pois o conhecido já não lhes bastava. Mote da epopeia heróica escrita por Camões, foi também tábua de salvação da família real aquando das invasões francesas. É tema central numa das obras mais emblemáticas de um dos nossos maiores escritores: a Mensagem, e, finalmente, para lá nos voltamos quando o mundo embarcou na mais destrutiva das guerras.

Volvidos 26 anos desde que nos juntamos à União Europeia, o pensar português mutou-se para algo que não corresponde a si mesmo. À custa de tanto importar o pensamento europeu, nós esquecemos as nossas origens. Na actualidade, quando se fala em mar, não é mais para relembrar as regiões autónomas e a zona económica exclusiva. Lentamente viramos as costas aos países de língua portuguesa e deixamos que o mar que antes unia, separe.

Contudo, apesar deste esquecimento, esperemos que momentâneo, as influências linguísticas permanecem, assim como o reconhecer, ainda que débil, do potencial inerente dessa imensa massa de água salgada. Desde “ficar a ver navios” até “ir de vento em popa” passando por “trazer água no bico”, a língua está cheia de expressões que remetem para o nosso passado marítimo. Esses ecos despertam na alma uma saudade de um tempo em que estávamos mais perto do mar.

É neste momento turvo da nossa história, em que o português se vê refém de interesses financeiros, que voltamos ao mar. Enquanto sentem o país a afundar-se, muitos abandonam -no em busca de uma tábua de salvação. Já não precisamos de caravelas nem bravos marinheiros, pois basta apenas um avião para chegar ao Brasil, Angola ou até Timor. Muitos emigrantes enveredam por essa opção, ao invés de embarcarem numa Europa na qual não conhecem nem língua nem cultura, e com a qual não se identificam. Sem medo e insatisfeito por natureza, o português procura além fronteiras aquilo que não encontrou dentro delas, numa repetição do que aconteceu no passado.

Assim como as caravelas vaguearam rumo à descoberta, o português navega no imenso oceano da sua imaginação. Hoje refugia-se no sonho, como o fez quando D. Sebastião desapareceu ou durante o Estado Novo o sufocou. Com tanto onírico marear se perde e esquece da realidade.

O mar é para o português uma promessa de um mundo melhor. Nele depositamos a nossa esperança e fé, numa perigosa viagem ao desconhecido. E continuemos a fazê-lo enquanto nos deixarem, porque sem mar não somos portugueses.
 

Este ensaio foi originalmente publicado na revista Nova Águia número 11 - "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Presente aos meus leitores - 2012

Decidi criar uma compilação com os três textos mais visitados durante o ano de 2012. O ebook já não está disponível.

A distribuição é permitida (e encorajada), desde que dêem o devido crédito aos intervenientes. Espero que gostem!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 7/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A sexta parte deste ensaio pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_08.html

Educação


Em Portugal, a educação tornou-se mais acessível durante os últimos cem anos ao ponto de se ter tornado obrigatória para todos. Todavia, a qualidade da mesma fica aquém das reais necessidades. A educação é servida como qualquer outro bem ou serviço, de uma forma impessoal e distante. Sendo que a educação interfere em períodos críticos da formação de valores e personalidade, a sua influência não deve ser desprezada.
Várias imperfeições afectam severamente a qualidade e utilidade da educação, hoje em dia. Pretende-se passar o maior volume de conhecimento possível, aumentando o número de horas que os alunos são retidos nas escolas, contudo, o ensino e estímulo ao pensamento crítico ainda é praticamente inexistente. O pensamento holístico é desencorajado e há uma especialização quase ao ponto do ridículo pois o mundo do trabalho assim o exige, deturpando a imagem global da realidade e descartando todos aqueles que não estão habilitados ou não sou capazes de uma tal focalização. A oferta e procura estão desajustadas criando desemprego em todas as áreas de formação, pois criam-se cursos sem empregabilidade originando armadilhas e becos sem saída para os menos informados. A formação não está completamente acessível a todos, pois propinas e outros custos impedem que realmente haja liberdade de escolha nos caminhos académicos. O racionalismo excessivo em algumas áreas impede a abertura de horizontes para outras dimensões do ser. Por fim, o conhecimento excessivamente teórico e desajustado da realidade faz com que haja um grande hiato entre o que se aprende e o que se pratica.
Convém referir que os factores económicos e políticos condicionam a educação pública que temos, pois há interesses adjacentes à forma como é organizada e, claramente, não são os interesses da população e nem sequer minimamente compatíveis. O panorama nos outros países não é melhor pois, em geral, os mesmos erros são cometidos um pouco em todo o lado, nalguns casos por negligência e noutros de forma intencional.
Em Portugal há a agravante do sistema de ensino ter sido importado de outros países. Usamos a receita, ou melhor, uma mistura de receitas, esperando que resolva os problemas, quando, na verdade, é a a fonte da maioria deles. À semelhança de outros países, paira sobre os portugueses a ameaça da privatização da educação por via das pressões geradas pela dívida externa, pois pretende-se que este sector fundamental passe para o controlo de empresas sem escrúpulos e cujo único interesse é o lucro.
As consequências de uma educação sem qualidade não são visíveis de imediato, sendo que apenas a geração seguinte as irá reflectir. Infelizmente, os primeiros sinais já surgem, fazendo adivinhar um futuro nada promissor. Os receptores da educação de hoje serão os professores de amanhã, de modo que se poderá cair num ciclo vicioso sem fim à vista.
Existem alternativas a este cenário negro, sendo um exemplo os planos sugeridos por Agostinho da Silva para uma educação ajustada ao meio e à realidade, que junte tanto a teoria como a prática. A sociedade assumiria a educação como uma das suas obrigações, fazendo com que cada um se responsabilizasse por ela. Deixaríamos de ter um tempo, um local e uma idade para a escola, passando a haver uma formação contínua, totalmente gratuita, dada e recebida por todos, estando adaptada às necessidades e que abrisse os horizontes a todos.
É pertinente questionamos-nos se dará Portugal um exemplo de uma educação de qualidade ou continuará a copiar os paradigmas estrangeiros.

Conclusão


No próximo século, vários desafios se apresentarão a Portugal e ao seu povo. Este artigo abordou alguns desses desafios com destaque para algumas tendências. Contudo, reconheço que está incompleto e, por vezes, tendencioso devido às minhas convicções. Seria de uma arrogância imperdoável assumir o contrário.
No geral, dois caminhos foram apresentados, um primeiro em que as tendências actuais são seguidas com os seus defeitos até ao extremo; e um segundo em que há uma ruptura em relação a essas tendências e se evolui por outro caminho, guiando o país para uma realidade deferente. Não me considero pessimista ao ponto de afirmar que se seguirá pelo primeiro caminho, nem idealista afirmando que se se seguirá o segundo. As minhas expectativas, que espero ser mais realistas, apontam-me para um caminho intermédio.
Daqui a 100 anos o mundo terá mudado e, com ele, Portugal. Diversos autores escreveram sobre o futuro, muitos expressando as suas preocupações, as quais hoje nos parecem excessivas mas que, pelo contrário, ajudaram a despertar a consciência para problemas escondidos. Outros criaram visões de mundos, que a maioria considerou utópicas, talvez numa tentativa de inspirar as gerações vindouras para a construção de um mundo melhor, que ainda não se realizou. Nem uns nem outros acertaram, ficando geralmente a realidade contida entre essas duas fronteiras imaginárias.
Espero que o povo português possa tomar consciência destes desafios e se empenhe numa mudança que não seja arrastada pelas linhas invisíveis de uma elite. Só assim pode Portugal realmente cumprir-se. Um Portugal de Quinto Império: ideal, exemplo e ponte entre a diversidade do mundo.




Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 6/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A quinta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_07.html

Sociedade

A sociedade transformou-se enormemente no último século. Questionaram-se práticas seculares, a própria organização da sociedade e prometeram-se direitos a todos. Infelizmente, a maioria dessas alterações não tiveram uma repercussão global, sendo que apenas alguns beneficiaram das mesmas. A maioria da população nem sequer sabe da sua existência e outros apenas as olham como algo impossível de acontecer.
Em 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas criou um documento intitulado Declaração Universal dos Direitos Humanos, um documento notável que define os direitos fundamentais do Homem. Nunca antes tinha surgido um documento deste género, tão completo e dizendo ser suportado por tantas nações. Porém, convém agora olhar para o outro lado da moeda e tentar ver quantos desses direitos são realmente garantidos. Ao fazer isso, descobre-se que em cada um desses direitos há uma excepção, mesmo dentro das nações que os assinaram. Os que estabeleceram os direitos são, na maioria das situações, os primeiros a negar a sua aplicação na realidade por questões de conveniência e interesse. Sessenta anos depois desta declaração, a maioria dos direitos ainda são apenas uma miragem.
O fim da monarquia prometia o fim da sociedade hierárquica, onde a ascendência definia os papéis a representar. Na verdade, com a república, com a ditadura que se seguiu e com a nova república, o poder limitou-se a mudar de mãos, sem que a sociedade deixasse de estar hierarquizada. A nova organização, imposta e aceite actualmente, prende-se com a capacidade económica. Até as crianças de tenra idade já tomam parte neste jogo insano, criando grupos baseados nas marcas de roupa que vestem ou na riqueza aparente dos país.
A sociedade actual é modelada pelo medo: medo da fome, medo do desemprego, medo da pobreza, medo do terrorismo, medo da guerra, medo das alterações climáticas, medo de epidemias e medo de estranhos. Medos de inimigos visíveis e invisíveis, alguns reais e outros criados e impingidos à nossa sociedade. Sob o medo da fome, milhares são obrigados a emigrar, deixando para trás o seu país e, por vezes, a sua cultura, em nome de uma abundância e prosperidade que nem sempre correspondem à realidade. Sob o medo do desemprego, as pessoas são levadas a aceitar empregos degradantes, tanto para a mente como para o corpo, tornando-se quase escravos dessa parca fonte de rendimento, que poderá cessar quando já não servir os interesses dos patrões. Sob o medo da pobreza, coloca-se o materialismo como prioridade e cresce uma febre de acumular mais e mais, sem se ter consciência que essa atitude é a principal causa da pobreza. Sob o medo do terrorismo, os cidadãos de inúmeras nações são forçados a abdicar da privacidade, liberdade e outros direitos em nome da segurança, que nunca será realidade enquanto servir os interesses dos governantes políticos e económicos. Sob o medo da guerra, milhares são forçados a fugir do seu próprio país e a viver em autênticos campos de concentração, ou então forçados a lutar contra um inimigo pintado como inumano e demoníaco, respondendo à guerra com mais guerra, quando no fundo a guerra só serve os interesses de uma elite, sendo o povo quem mais sofre com ela. Sob o medo das alterações climáticas, é proibido o desenvolvimento económico de vários países, ao invés de se apostar numa mudança racional dos nossos estilos de vida, enquanto isso, os que mais contribuem para essas alterações continuam a manter o seu estilo de vida insustentável, fazendo recair a factura e um complexo de culpa em quem pouca ou nenhuma culpa tem. Sob o medo de epidemias, milhares foram coagidos a tomar vacinas que eram mais perigosas que as próprias doenças, numa atitude criminosa por parte da industria farmacêutica. Sob o medo de estranhos, o ser humano fecha-se cada vez mais em si mesmo, alimentando sentimentos xenófobos num ciclo que se sustenta a si mesmo gerando mais medo e desconfiança, impedindo-o de conhecer o outro e a sua cultura. Esses medos são alimentados porque servem interesses, citando Mia Couto nas conferências do Estoril em 2011: “há quem tenha medo que o medo acabe”, pois é ele que sustenta esta sociedade doente.
Se estas tendências se mantiverem, o mundo irá cair num autêntico pesadelo Orwelliano, em que a população será forçada a aceitar todas as perversões da realidade sem as questionar, por via do medo e da repressão. Uma sociedade em que se abdicará de direitos em nome de uma falsa segurança.
Vimos nos últimos meses, no mundo e em Portugal, o surgimento de movimentos populares que lutam por uma mudança na sociedade. Apesar de muitos dos movimentos estarem ainda em estado embrionário, é bom ver que ainda há pessoas capazes de ter consciência das falhas e, sem medo,  lutar contra elas. Falta ainda coesão, adesão, coragem e renúncia ao comodismo para que esses movimentos produzam alterações na sociedade e, consequentemente, para que esta passe a reflectir as vontades reais da população. Estes movimentos procuram lutar por uma solução alternativa aos problemas inerentes a esta sociedade de repressão e medo que actualmente nos molda e restringe, apesar de muitos não saberem que o fazem ou porque o fazem, acabando por lutar contra os efeitos ao invés de atacar as causas. Contudo, esta abertura de horizontes é necessária, aumento de responsabilidade e participação por parte das pessoas para que estes movimentos não enveredem pelos mesmos caminhos dos do século passado, que acabaram degenerados e distorcidos ao ponto de apenas servirem os interesses de uma minoria, nunca corrigindo os defeitos crónicos da sociedade.
O povo português terá de enfrentar e desconstruir os seus medos com vista à construção de uma sociedade mais humana e justa. Se não o fizer, ficará fechado num ciclo vicioso em que o medo gera mais medo, aceitando as soluções impostas que foram, à partida desenhadas para não resolverem os problemas fundamentais.

A sétima e última parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio.html


Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/
Um excerto desta parte foi comentado em:  http://movv.org/2012/07/19/pedro-cipriano-a-sociedade-atual-e-modelada-pelo-medo/

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 5/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A quarta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_06.html

Pensamento


A capacidade de pensamento crítico sofreu um declínio durante o último século. Como já referi, a disponibilidade de informação não parece contribuir para uma abertura de horizontes. É claro que a educação contribui de maneira decisiva para a castração do pensamento, contudo, o tema da educação será abordado mais à frente.
A religião, com os seus dogmas; a cultura, com a sua massificação; a sociedade com a sua alergia à mudança e a educação, com sua componente fortemente cartesiana, contribuem para o adormecimento das mentes, anestesiando-as para a realidade. Em vários momentos do século passado a intelectualidade foi fortemente reprimida por via de regimes totalitários, não só em Portugal como no resto do mundo. Nos dias de hoje, essa repressão continua de um modo implícito e não se não se notam grandes diferenças a nível qualitativo em relação ao passado. Todos podem falar, contudo, ninguém diz nada de útil, pois o comodismo e a falta de perspectiva muitas vezes impedem a maioria de contribuir para o fim deste marasmo intelectual. Tudo vale, excepto pensar por si mesmo e questionar.
Esta liberdade intelectual é muitas vezes apenas teórica. Tomando como exemplo a ciência, nem todos os tópicos são bem recebidos, pois os interesses económicos e por vezes, apenas mesquinhos, influenciam os caminhos seguidos pela mesma. Formas de pensar cartesianas, normalizadas e estandardizadas invadiram o panorama intelectual. Passa-se a mensagem de que a capacidade para se ser criativo está apenas ao alcance de alguns. A elite que nos governa não quer que criemos respostas para os problemas, pois prefere que nos voltemos para eles sempre que precisamos de soluções. Até mesmo o comum indivíduo exerce uma pressão para que não se pense diferente da norma. Desta forma a sociedade reprime toda a capacidade de renascimento intelectual. Hoje em dia, ainda é perigoso pensar diferente, pois vários rótulos podem ser atribuídos a quem o faz, desde extremista a lunático, passando por sonhador e utopista. Quando tudo isso falha, as ideias são retiradas do seu contexto para serem ridicularizadas, levando ao descrédito. Nesta sociedade, a maioria não tem uma mente livre, e os que a tem estão fechados em si mesmos, com medo da punição que a sociedade lhes reserva. Esperavam-se grandes mudanças com a queda das monarquias e dos estados totalitários, quando se assumiram estatutos em que a liberdade de pensamento e expressão era um direito fundamental, que não chegaram a acontecer.
A comunicação parece ser mais fácil nos dias de hoje do que era há cem anos atrás, por via do melhoramento dos serviços postais, da disseminação do uso do telefone e do aparecimento da Internet. Independentemente da relevância, muitos procuram passar uma mensagem, seja ela original ou não.
Contudo, falta analisar um ponto relevante. Para haver comunicação: não podemos apenas considerar o emissor, o meio e o receptor, pois a mensagem, relevância e compreensão da mesma são fundamentais. De que serve transmitir para o mundo se nenhuma das pessoas que recebe a mensagem é capaz de a entender? No fim acabamos bombardeados com informação inútil, quando as grandes ideias, problemas e questões são relegados para segundo plano, não conseguindo furar a barreira implacável da não-comunicação.
Se esta tendência se mantiver, o pensamento crítico poderá estar ameaçado. Sem aprender com os erros do passado, cada vez mais, a sociedade procura respostas naqueles que causam os problemas e cada vez mais fica satisfeita com respostas incompletas e tendenciosas daqueles que estão autorizados a pensar. Reflectir sobre a realidade é considerado fútil e, por vezes, até perigoso. Faz falta à população saber que o sonho neoliberal só funciona se a maioria estiver adormecida.
Num cenário alternativo, a maioria reaprende a pensar e não terá medo de o fazer, causando um despertar massivo primeiro de si mesmo e, consequentemente, dos restantes indivíduos. Deixariam de procurar respostas somente nos líderes e, acima de tudo, saberiam produzi-las eles mesmos, para si mesmos. Deixaria de haver medo de questionar. As consciências expandir-se-iam e interagiriam com o mundo, numa simbiose com vista ao aperfeiçoamento mútuo.
Serão os portugueses capazes de se mostrarem acordados e exprimirem o seu pensamento dualistas num mundo em que a maioria está adormecida ou, pelo contrário, irão deixar-se levar pela maré do marasmo intelectual, sendo apenas mais alguns, cada vez mais semelhantes aos restantes?


A sexta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_08.html

Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

Foi comentado em: http://movv.org/2012/09/16/pedro-cipriano-a-capacidade-de-pensamento-critico-sofreu-um-declinio-durante-o-ultimo-seculo-a-disponibilidade-de-informacao-nao-parece-contribuir-para-uma-abertura-de-horizontes-e-claro-qu/

domingo, 6 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 4/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A terceira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_05.html

Espiritualidade


A vivência da religião alterou-se grandemente no último século. À primeira vista é fácil concordar com esta afirmação, dando como exemplo que ainda não se contam muitos anos desde que, nas zonas rurais, os homens assistiam à missa separados das mulheres. Contudo, não é desse tipo de alterações que se pretende discutir aqui, já que a ligação entre espiritualidade e religião é cada vez mais ténue e não se pretende redigir um tratado sobre a adaptação das religiões à passagem do tempo.
Aparte da vivência social, a experiência pessoal da espiritualidade tem-se alterado gradualmente. As pressões consumistas e as distracções providenciadas pela auto-estrada da informação furtam tempo que anteriormente era dedicado à vida espiritual. O crescimento do ateísmo pode também em parte ser explicado pelo enfraquecimento da influência da igreja na sociedade, pessoas que anteriormente eram forçadas pela sociedade à participação na vida espiritual são hoje elas a influenciar para que não se tome parte. O crescimento do ateísmo não é só devido à mudança da importância da religião na sociedade, mas também à educação fortemente racional, que não admite inexplicáveis e muito menos crenças. Estas mudanças não são totalmente negativas, já que a espiritualidade deve ser sobretudo uma vivência pessoal.
Os teístas, ou os que se julgam como tal, também mudaram a sua maneira de viver a religião. Muitos são aqueles que praticam alguma religião só porque sim, sem se esforçarem por compreender os fundamentos da mesma. Vivem de ritos, que vêm como receitas que devem ser seguidas à risca e que já ninguém sabe porquê nem para quê.
O crescimento do número seitas lideradas por charlatães, burlistas e extremistas deve-se ao descontentamento com a forma com que as grandes religiões reagem à sociedade. Infelizmente, todo o clero de alto nível é semelhante à politica de alto nível, pois ambas estão imersas em corrupção, em que os factores-chave na tomada de decisões são interesses de individualidades ou elites.
A maioria subestima a importância da espiritualidade na sociedade, considerando-a como um subproduto inútil. Contudo, essa espiritualidade é um dos principais canais para a transmissão de valores entre indivíduos e até mesmo gerações. Felizmente, não é o único canal, pois inúmeros exemplos mostram-nos que é possível a transmissão desses valores por outras vias. Por outro lado, a vivência da espiritualidade aumenta a coesão da sociedade. A desagregação que sentimos hoje em dia é devida à falta dessa vivência, pois cada um está apenas focado em si e nas suas coisas.
Infelizmente a religião tem sido usada, ao longo da história, como meio de justificar incontáveis crimes. Já para não falar no oportunismo da extrema-direita em relação à coesão social gerada pela religião para cumprir as suas agendas. Um exemplo actual disso são as tensões entre cristãos e muçulmanos, que surgiram após o 11 de Setembro de 2001. A culpa dos atentados terroristas foi atribuída a um grupo fanático muçulmano e, a partir daí, a comunicação social e a demagogia política trataram de extrapolar essa convicção para todos os árabes. É fácil perceber que tudo não passa de jogos políticos e de interesses económicos, em que só uma reduzida elite lucra. Após um século de grandes mudanças a nível social, a religião oficial continua no seu lugar de sempre, feita de rituais vazios, cuja única função é o controlo da população.
Se a actual tendência for seguida, cada vez mais a religião estará vazia de significado, mais misturada com concepções políticas e usada como argumento para se realizarem actos abomináveis, tal como aconteceu no último século. A religião estará assim cada vez mais centralizada e tratará os seus fiéis como ovelhas cegas que seguirão sem questionar para onde os seus líderes lhes ordenarem.
Por outro lado, poderá haver uma ruptura. A religião poderá tornar-se mais pessoal, mais espiritual, em que cada pessoa a vive por e para si mesma. Esta vivência privada não implicará o fim das religiões oficiais nem à cessação da partilha da experiência espiritual, mas antes um soltar de amarras em relação à cabeça das mesmas que, em várias ocasiões, mostrou estar doente. Portugal já anteriormente mostrou que isso era possível.
A cada um é colocado o desafio de dar o exemplo para a vivência espiritual genuína, separando-a definitivamente dos interesses políticos e económicos.


A quinta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_07.html


Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

sábado, 5 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 3/7



Cultura


A cultura é considerada por alguns um sector secundário da nossa sociedade. Ouve-se muitas vezes dizer que não é importante, pois não enche o estômago nem a carteira. Esse é o sinal mais evidente de que atravessamos uma crise de valores. Pessoas que desprezam a cultura como fundamento e fim em si mesma, nunca serão capazes de contribuir efectivamente para o desenvolvimento intelectual do país, para além de que actuam como uma massa inerte, resistente às mudanças na direcção de uma abertura de consciência para os desafios da humanidade.
Durante o último século, avanços tecnológicos levaram à multiplicação do número de editoras e, com à redução do preço, tornando acessíveis bons livros e numerosas revistas e jornais à maioria da população. Porém, a quantidade de lixo e sensacionalismo aumentou também a um ritmo exponencial. A disseminação da rádio, que passou a estar presente em muitos lares, fez com que a informação e as ideias fluíssem mais rapidamente. Depois, com o aparecimento e estabelecimento da televisão a comunicação assumiu uma nova dimensão. Recentemente, a Internet já entrou na casa da maioria dos portugueses, tornando a auto-estrada da informação acessível a quase todos.
Olhando para esta mudança dramática ocorrida nos últimos anos, seriamos tentados, numa aproximação ingénua, a afirmar que isso contribuiu somente de uma maneira positiva para a divulgação e vivência da cultura. Creio que não há nada mais falso que essa suposição, sendo que a maioria do que é divulgado resume-se ao estilo de vida doentio e insustentável promovido pelos interesses económicos. Bombardeiam-nos e confundem-nos a cada momento com a publicidade da cultura do vazio, uma cultura de relações nada humanas em que uma máquina, um produto ou uma máscara é o interface. Surge então como uma cultura de superficialidade, banalidade e sensacionalismo, que lentamente desvanecendo e destruindo todas as culturas genuínas em nome do lucro de uma elite.
A cultura dos nossos antepassados foi substituída por uma versão mais ligeira, diluída e imediata, em que toda e qualquer referência a espiritualidade ou valores morais é ridicularizada. Alguns lutam pela manutenção de certos rituais, contudo o espírito lusófono raramente existe neles. A maioria apenas quer saber do último escândalo que envolva alguma celebridade ou do resultado do último jogo de futebol, deixando de lado, por exemplo, a leitura de um bom livro que a nossa vasta literatura tem para nos oferecer. É fácil culpar os políticos e os interesses económicos. No entanto, neste caso a culpa não é exclusivamente deles, já que cada um de nós mata o nosso espírito lusófono através da negligência. Depois de um início de século em que a cultura portuguesa renasceu devido à contribuição de muitas personalidades notáveis, a sua existência como cultura viva encontra-se seriamente ameaçada.
Devido à tolerância intrínseca do povo português, o choque de culturas nos séculos anteriores sempre teve efeitos mais ligeiros neste país plantado à beira-mar do que, por exemplo, nos nosso vizinhos europeus. Apesar de terem havido períodos em que se cometeram atrocidades, no geral coabitámos com uma harmonia possível e desejável com os judeus, árabes e africanos. Um dos exemplos dessa convivência foi a miscigenação e abolição pioneira da escravatura, dando exemplo a outros países.
Contudo, a crise de valores que atravessamos está a fazer desaparecer essa tolerância. Pode-se considerar erradamente que não há intolerância hoje em dia pois, apesar de não ser explícita, esta cresce sem parar, não só no mundo como dentro do nosso país. Já ninguém considera possível realizar as atrocidades racistas que aconteceram no século XX, contudo a descriminação continua bem presente, desta vez duma forma silenciosa. A desigualdade de oportunidades é o maior sintoma deste problema. Desde dos anos setenta que ficou patente que o cultural nunca será bem sucedido e todos o que apostarem nele em detrimento do multiculturalismo estarão destinados ao fracasso.
O crescente movimento de pessoas irá aumentar a tensão entre culturas. Os primeiros efeitos começam a ser visíveis na Europa, quando imigrantes não têm um tratamento igual aos restantes cidadãos, chegando por vezes ao extremo, como é o caso de França. Por vezes, a própria comunicação social culpa etnias inteiras por problemas provocados apenas por alguns elementos, ou até mesmo pela sociedade como um todo, levando essa generalização ao preconceito e aumentando o hiato entre as diversas culturas. Deste modo, caminha-se para uma xenofobia extrema, em que é impossível uma aproximação de pessoas e ainda menos das suas culturas.
Outro caminho possível é o da tolerância e compreensão, onde cada um tem interesse na cultura e etnicidade do seu país, esforçando-se por as entender, viver e representar. Por outro lado deve-se manter uma mente aberta, pronto a receber influências de outras visões do mundo, para assim poder ter uma percepção mais completa da realidade. Em resumo, solução para estes problemas passa por compreensão da sua nossa cultura e o estabelecer uma ponte entre as restantes.
O grande desafio para o próximo século prende-se com a sobrevivência do espírito lusófono face à pressão de uma cultura das massas, vazia e consumista.


A quarta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_06.html


Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/
Um excerto desta parte foi comentado em: http://movv.org/2012/08/25/a-geracao-copy-paste/
E outro foi comentado em:  http://movv.org/2012/07/25/pedro-cipriano-httpwww-marcosdellantonio-net-durante-o-ultimo-seculo-avancos-tecnologicos-levaram-a-multiplicacao-do-numero-de-editoras-e-com-a-reducao-do-preco-tornando-acessiveis-bons/

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 2/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

Economia


Muito se fala e se escreve sobre a crise, sendo que a comunicação social não nos deixa esquecê-la nem por um momento. Embora muitos expressem a opinião de que a crise que atravessamos seja mais de valores morais do que económicos, eu irei por agora apenas focar-me nos segundos.
A 24 de Outubro de 1929, a Quinta-Feira Negra foi um ponto de viragem. A queda brusca do valor das acções da bolsa de Nova Iorque desencadeou a maior crise económica do século XX. Os mercados entraram num ciclo vicioso colapsando por completo nos dias seguintes. Muitas empresas foram forçadas a fechar portas por via de o seu capital ter literalmente desaparecido numa questão de horas. Seguiu-se uma grande inflação, quebrando ainda mais o consumo e levando milhares ao desemprego. A principal causa deste colapso foi o completo desajuste entre a produção e o consumo, que já se fazia sentir há alguns meses através de uma recessão moderada.
Essa crise propagou-se pelo mundo inteiro, afectando a maioria de todos os países. A recessão daí derivada durou vários anos. Afectando os país consoante o seu grau de dependência dos países capitalistas. Nalguns, colocou no poder e fortaleceu a posição de partidos extremistas que, com discursos populistas, conseguiram o apoio da população. Alguns desses regimes duraram décadas, causando uma estagnação intelectual, uma corrupção dos valores morais, uma degradação da qualidade de vida, culminando no desrespeito pelos direitos humanos. É inegável a responsabilidade desses mesmos regimes comunistas, fascistas e nazistas no escalar do segundo conflito mundial.
Ironicamente, com o começo da guerra, os efeitos da crise foram-se desvanecendo até desaparecerem por completo. A razão para tal era simples, pois o efeito infinitamente destrutivo da guerra balanceara o desequilíbrio entre a produção e o consumo. Durante o crescimento económico espectacular dos anos vinte tal crise era inconcebível, contudo os erros dos passado ajudam-nos a perceber as tendências do futuro. O actual sistema económico gere-se por períodos cíclicos de crescimento e recessão.
O sistema económico actual prevê e necessita de um crescimento continuo e acelerado devido às regras impostas pelas mecânicas modernas de criação e movimento de dinheiro, um ritmo exponencial segundo a matemática. Os empréstimos são o melhor espelho desse mesmo crescimento. Num planeta de recursos finitos isso simplesmente não é possível, traduzindo-se na prática em recessões cíclicas seguidas de recuperação. Uma das maneiras de impedir que isso aconteça é equilibrando a balança do consumo com a da produção. Uma primeira aproximação seria limitar a produção de certos bens de modo a que só o fossem à medida que o mercado os conseguisse escoar. Contudo, essa alternativa não é compatível com o desejo de crescimento exponencial. Quando chega a altura de aprovar as leis, é notório o peso que lobbys com grande volume de capital têm nesse processo. No plano prático, só resta aumentar o consumo, sendo o método mais comum o da publicidade. Todavia, é fácil de adivinhar que nem mesmo a publicidade mais perfeita pode aumentar indefinidamente o consumo, pois a certa altura deixa de haver potenciais clientes com meios para compra-los. A segunda alternativa é a expansão do mercado através da globalização económica que, mais uma vez face ao tamanho finito do nosso planeta, sabemos que não é uma solução viável a longo prazo. As crescentes pressões para a privatização de certos sectores chave da economia são um reflexo disso mesmo. A terceira alternativa é a destruição intencional do produto, método usado durante os primeiros meses da grande depressão dos anos trinta, quando os produtores tentavam em vão aumentar os preços dos seus produtos. Outro método é o da obsolescência programada, uma tendência seguida pelos produtores tecnológicos, em que um equipamento é desenhado de tal modo que, ao fim de alguns anos, se torna obsoleto e tem de ser substituído. Todavia, a maneira mais fácil de realizar este equilíbrio é através de uma destruição massiva, ou seja uma guerra, pois nenhuma outra actividade humana consegue sorver tão grande quantidade de material e mão-de-obra de uma forma tão eficiente.
Pela análise dos ciclos de Kondratiev, que tentam modelar os ritmos de recessão e recuperação global a longo termo, anteriormente descritos, sabemos que estamos numa recessão, caminhando a passos largos para outra crise. No topo disso, há a ameaça do fim do petróleo barato, pelo qual já se iniciaram algumas agressões armadas da parte do Ocidente contra o Médio Oriente. A crise energética está deste modo intimamente ligada à crise económica.
O problema da regulação da economia não é novo nem puramente académico. Numerosas soluções foram já propostas, contudo, a ganância de uma elite previne que estas possam efectivamente ser aplicadas. O poder instituído faz-nos crer que uma economia e moeda globais são a solução para a crise. No entanto, É notório que isso apenas servirá para aumentar o fluxo de riqueza para aqueles que já são ricos, sem que isso melhore em nada a vida dos restantes. Tendemos perigosamente para os ricos ficarem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Um exemplo actual é o caso da União Europeia, em que os estados membros são obrigados a importar produtos que podiam produzir por si mesmos, fazendo com que a sua dívida externa cresça sem parar. As pessoas são obrigadas a aceitar empregos que não querem para pagar os empréstimos que contraíram. Certos países estão lentamente a tornar-se fonte de mão-de-obra barata para outros mais ricos, inclusive dentro da Europa. Os pobres são mantidos pobres para, através do medo, impedirem a classe média de se libertar desta prisão laboral. Em suma, esse ultra-neoliberalismo económico é a escravatura do século XXI.
Na outra ponta da mesa há a economia e moeda locais, prevendo que a riqueza de uma dada comunidade se mantenha relativamente constante, limitando o fluxo de produtos entre comunidades ao mínimo essencial, sendo exactamente o oposto da economia global, na qual se promove um fluxo contínuo de todo o tipo de bens. Projectos promissores foram iniciados em várias cidades europeias e, felizmente, Portugal não se deixou ficar atrás. Apesar de ainda ser quase que uma miragem, se houve dedicação, esforço e essencialmente vontade, poderá ser uma solução viável para os problemas económicos do próximo século. A mudança acontecera quando as pessoas tomarem consciência de que a economia é um jogo que não são obrigadas a jogar.
A questão-chave que se coloca é se continuará Portugal, durante o próximo século, a contribuir para o hiato entre ricos e pobres ou se, por outro lado, será um exemplo na construção de uma economia mais justa e humana

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 1/7

Introdução


É impossível dissertar sobre o futuro de uma nação sem primeiro perceber a actualidade da mesma e das outras que com ela interagem. No caso de Portugal existe o espaço europeu, para o qual esta actualmente virado, e o espaço lusófono, o qual se tem vindo a afastas apesar dos últimos cinco séculos de história.
Os vários sectores da sociedade não podem também eles ser analisados individualmente. Visto que estão fortemente relacionados, ao negligenciar as correlações entre eles, subtraímos o realismo e a abrangência à projecção.
São diversas as tendências e contra-tendências já existentes, cuja importância irá certamente variar. Vimos surgir no século XX várias inovações intelectuais e tecnológicas, as quais mudaram a maneira de percepcionar o mundo. Vimos também surgir inúmeras guerras devastadoras e horrendos crimes contra a humanidade. Sem compreender as causas e consequências dos mesmos, não é possível conjecturar sobre o quanto um país pode mudar durante um século. Os desafios que se apresentam à humanidade neste início de século não são os mesmos que se apresentavam no século passado e, contudo, as aspirações por um mundo melhor continuam bem actuais.
Na maioria dos casos a projecção depende da minha opinião e como tal poderá ser tendenciosa e parcial. Em suma, este artigo pretende definir algumas tendências, preocupações e aspirações, sem, contudo, pretender ser um guia, nem tão pouco um profeta, dos futuros acontecimentos deste século que ainda está no seu início.

Política


Bruxelas, aclamada por muitos como a capital da Europa, nunca esteve tão perto de efectivamente o ser. Durante o século passado, a Europa foi berço dos dois conflitos armados mais mortíferos e destruidores de sempre, que cresceram até uma escala mundial, afectando milhões de pessoas. A criação de uma Comunidade Europeia do Aço e do Carvão foi o primeiro passo para a unificação dos diversos países, numa tentativa de impedir conflitos armados na Europa. A Guerra Fria em tudo contribuiu para fortalecer esses laços. O recente conflito no Kosovo mostrou que essa promessa ainda não foi cumprida.
Devido ao regime ditatorial fascista e fechado que vigorou em Portugal durante metade do século passado e a sua posição periférica na Europa, este escapou à margem das consequências mais nefastas destes conflitos. Viu, no entanto, a partir da década de sessenta, o início do desmembrar do seu império colonialista com a perda de Goa. Poderá até argumentar-se que com a independência do Brasil ou a conjuntura politico-social do mundo ocidental de pois da segunda Guerra Mundial em relação às colónias anunciava que o desmoronamento do império era inevitável, contudo foi com a perda de Goa que essa realidade nos bateu à porta. Esse fim, do que erradamente se julgava eterno, obrigou Portugal a uma revisão da estratégia política e obrigando-o a voltar-se para a Europa que tinha ignorado desde os anos trinta. Ao entrar nesta Comunidade, em 1986, subscreveu implicitamente a participação activa nos assuntos europeus.
A introdução do Euro como moeda única e a abertura das fronteiras, foram vistos pela maioria como passos positivos. Todavia, poucos são aqueles que conseguem ver que esses laços são compromissos que, caso quebrados, irão criar inúmeros problemas.
Com o tratado de Lisboa, as diversas organizações europeias tornaram-se numa só: cada um dos estados membros perdeu parte da sua soberania, delegando-a para União Europeia. Com este passo, os países são vistos meramente como estados, pois perderam a capacidade de intervir e regular diversas áreas-chave. Sessenta anos depois do primeiro tratado e como mais acordos no horizonte, caminhamos lentamente para sermos os Estados Unidos da Europa, um cenário que há cem anos atrás era inconcebível.
O grande problema que se avizinha é o da capacidade e possibilidade de haver uma governação justa nestas condições. Todos sabemos a dificuldade que é tentar criar medidas sentado em Lisboa, quando, por exemplo, não se tem consciência da situação em Évora ou Braga. Actualmente, o poder senta-se cada vez mais em Bruxelas, contudo a mesma questão se levanta: como é que um poder tão fortemente centralizado terá consciência da situação de Portugal ou de qualquer outro país da União Europeia? Para cúmulo, algumas das instituições europeias não são eleitas, apenas nomeadas, furtando ao cidadão a capacidade de ter influência nas decisões.
Este cenário só se poderá desenvolver num de dois sentidos: por um lado, esta união poderá estabilizar e tornar-se permanente, tornando os países em estados; por outro, isso poderá levar à ruptura da mesma, voltado à situação do início do século.
Deixando a realidade europeia de lado e concentrando-nos na realidade portuguesa vejo dois cominhos possíveis no plano político. No primeiro, os mesmos dois grandes partidos, PS e PSD, continuarão a governar indefinidamente, alternando entre si, contentando-se os outros três, CDU, BE e PP, em fazer uma oposição passiva e, esporadicamente, criando uma ou outra coligação com um dos grandes partidos. Os restantes partidos continuarão a existir quase à margem, sem sequer furar a barreira imposta pela comunicação social, chegando ao cúmulo de que a maioria das pessoas só fica a saber da sua existência no boletim de voto no momento em que vai votar. No segundo, haverá maior participação de outros partidos e forças cívicas independentes, um parlamento com outras cores que não o rosa e o laranja que actualmente o dominam, capazes de conduzir Portugal por outros caminhos que mais se identifiquem com a vontade do povo. Criadas essas condições Portugal poderá renovar as suas estruturas de governação, tornando-se um exemplo de governação justa, credível e séria, como defendi na número 6 desta revista.
Os planos para a organização política de Portugal propostos por Agostinho da Silva, mas não só, são exactamente o oposto dessas tendências. Escalar e descentralizar as instituições políticas à medida das necessidades das pessoas, abandonando a representatividade e prevendo uma participação activa de cada um. Prevê também a abertura dos horizontes para a construção de uma comunidade activa no espaço lusófono, tendência cada vez mais esquecida, distante e recalcada por quem comanda os destinos do nosso país. Diversas correntes do bio-regionalismo e seus derivados, apesar de não serem alternativas conhecidas por muitos, mostram ser uma solução possível para os problemas que se avizinham.
O grande desafio político que se coloca para o próximo século é o da existência de Portugal como país autónomo e dos cidadãos como seres humanos livres e independentes


A segunda parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_04.html

Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Mensagem na educação em Portugal

Considero que é importante discutir a forma como Fernando Pessoa é ensinado nas nossas escolas. O argumento é simples, é necessário educar os jovens de hoje, para que possam ser os construtores do novo mundo de amanhã.
Se perguntarem a alguém que tenha completado recentemente o ensino secundário o que sabe sobre Fernando Pessoa, é muito provável que essa pessoa cite os nomes dos seus mais conhecidos heterónimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares; e talvez também a que é considerada a maior obra maior do seu homónimo: A Mensagem. Isto é possível porque são temas que fazem parte do programa geral do ensino de Português do 12º ano. No entanto, se de seguida perguntarem a essas mesmas pessoas qual o propósito da Mensagem, a situação complica-se, sendo possível notar de um modo embaraçoso quão superficial é esse conhecimento. São poucos os que têm a noção da intenção última do poeta, e ainda menos os que o vêem como um visionário.
O Quinto Império ainda é visto pela maioria das pessoas como uma construção idealista e imaginária duma pessoa com aparentes distúrbios mentais, que inventava numerosos alter-egos para assinar as suas obras e que passava o tempo a beber absinto e a fumar ópio. Felizmente, essa mensagem não é transmitida directamente no ensino mas, ao falharem na clarificação da génese e das intenções da obra, o espaço para a especulação fica naturalmente em aberto, apresentando consequências nefastas. É necessário que a juventude de hoje consiga ver para além do óbvio. O Quinto Império é um projecto para Portugal, para os portugueses e dos portugueses para o mundo. Foi idealizado pelo grande imperador da língua portuguesa, Padre António Vieira, traça as linhas para um novo mundo, uma nova idade, a idade do Espírito Santo; uma mensagem que continua actual e que não é explorada no programa de Português nem de Filosofia.
O sistema actual de educação em Portugal não foi feito para nem pelos portugueses, sendo uma cópia tirada de outros países na Europa. Uma das suas grandes falhas é a forte influência cartesiana, onde apenas existem respostas correctas e erradas. Eventualmente, este sistema pode funcionar de modo razoável em disciplinas de ciências naturais mas, quando se trata de literatura e Filosofia, esta aproximação não será certamente a mais correcta. Como pode alguém ter a arrogância de afirmar que a interpretação de um determinado aluno é errada, aceitando por outro lado a interpretação de outrém como definitiva? Na verdade, nenhum aluno é livre de apresentar uma opinião própria sobre uma obra, mesmo que fundamentada. Ao invés disso, uma determinada interpretação é imposta e qualquer opinião que ultrapasse os seus limites será automaticamente excluída. Gradualmente, este método leva à castração da mente crítica, emergindo assim uma mente que cria as suas opiniões através de um processo de osmose das opiniões de outros. Por outro lado, o facto da interpretação da obra ser imposta ao aluno, impedindo-o de construí-la a baseada nos seus valores e experiência de vida, leva a uma perda de interesse por parte do mesmo. O professor deveria comportar-se como um guia, ajudando os seus alunos a construir a sua interpretação da obra e a desenvolver um interesse pela mesma, mas isso está longe de ser real. Neste contexto, é natural que poucos se interessem pela Mensagem após o fim desse ciclo de estudos.
Esse panorama piora com a associação errada que algumas pessoas fazem entre o Estado Novo e a obra, por encontrarem nela linhas de pensamento semelhantes. O Estado Novo adoptou essencialmente o tema do nascimento mitológico do país como via para motivar um nacionalismo que considerava necessário para a manutenção do país. A Mensagem adopta o mesmo nascimento como via para justificar a missão maior, a construção do Quinto Império, do qual as navegações foram a primeira e menos importante parte, e cujo o cerne ainda se encontra por concretizar. A maioria dos portugueses ainda vive com o estigma da ditadura Salazarista e do colonialismo e tudo o que possa eventualmente estar associado a isso ainda é relegado para segundo plano na sociedade portuguesa como na educação. Isso trazendo graves consequências para o país, que se recusa olhar para o passado para aprender como agir no futuro, como por exemplo na questão da CPLP que, apesar de baseada nos planos de Agostinho da Silva, ainda continua longe daquilo que ele pretendia.
Lamentavelmente, a renascença portuguesa é ainda grandemente ignorada no programa geral de Filosofia do ensino secundário. Autores importantes como Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra e Agostinho da Silva não são sequer mencionados durante programa de estudos geral. Fernando Pessoa é estudado, mas de uma maneira que ainda se encontra muito longe da adequada.
A meu ver, é necessária pelo menos uma revisão dos conteúdos programáticos e métodos de ensino de Filosofia e de Português do ensino secundário. O ideal seria uma reorganização do sistema de ensino, feita por portugueses e a pensar nos portugueses. Enquanto aqueles que comandam os destinos do país se preocuparem mais com os números que enviam para a Europa do que com a qualidade da educação isso não será possível.


Este pequeno ensaio foi escrito para a revista Nova Águia e publicado no sétimo número da mesma.
http://novaaguia.blogspot.de/

Foi comentado em: http://movv.org/2011/05/29/o-quinto-imperio-e-um-projeto-para-portugal-para-os-portugueses-e-dos-portugueses-para-o-mundo/

sábado, 28 de abril de 2012

A república e o sonho português


É importante reflectir primeiramente sobre as diferenças entre monarquia e república.
A monarquia por definição é uma forma de governo em que uma única pessoa governa como chefe de estado, na maioria dos casos de maneira vitalícia. Existem vários tipos de monarquia, mas convém apenas referir a monarquia constitucional, aquela que esteve presente em Portugal desde 1820 até 1910. Na monarquia constitucional, um monarca já não têm um poder absoluto, o poder é limitado por uma constituição.
A república é por definição uma forma de governo em que o chefe de estado, vulgarmente o presidente, é escolhido pelo povo através de um voto secreto e periódico.
A partir destas definições pode-se ver uma diferença entre os períodos de mandato: a da monarquia é vitalícia enquanto a da república é periódica. Idealmente, a república parece ser mais justa, já que, teoricamente, coloca o poder de eleição nas mãos do povo.
A mudança em Portugal ocorreu de uma forma violenta pela mão do partido Republicano com a ajuda da Maçonaria, no inicio de Outubro de 1910. A monarquia estava fraca, e mesmo os que eram a favor dela não tiveram vontade de lutar contra a revolução.
A força do partido Republicano era a sua promessa de mudar as coisas. Mas, o anticlericalismo militante e a falta de programa social acabaram por destruir a própria república, que apenas durou dezasseis anos, sendo substituída por uma ditadura.
Deixemos agora os detalhes históricos e reflectindo na actualidade, pode-se ver que a segunda república é avaliada pelos olhos da sociedade como uma república mais responsável. O império português terminou, foi abandonado é provavelmente a expressão mais adequada. Portugal, que durante a ditadura pouco se pareceu importunar com os problemas europeus, fechando-se no seu mundo, de um momento para o outro parece acordar para se voltar para a Europa, talvez em busca do desenvolvimento tão desejado.
Não querendo ofender a opinião de ninguém e sob pena de ser parcial, penso que a República até agora foi apenas uma experiência que correu mal. Continua a haver classes, o Portugal sonhado não existe e o poder ainda não é do povo.
Os estratos sociais existem, e não parece que estejam diminuir o hiato entre eles, antes pelo contrário. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Todos os dias se fala na crise, e culpa-se o povo de querer viver acima das suas capacidades, e de se sobre endividar. Os apoios sociais, nomeadamente o rendimento de inserção social, parece apenas contribuir para a proliferação de um classe tida por muitos como parasita. Um novo olhar, sobre estes problemas é necessário. Aos olhos de muitos parece que da parte dos que tem o poder o interesse em mudar a situação fica muito além do necessário. Na minha opinião, limitam-se a tentar curar as consequências sem se preocupar com as causas.
O Portugal sonhado não existe. Portugal sempre teve muitos tidos como sonhadores pela maioria, mas que na verdade eram visionários. O país idealizado por eles não existe. Onde está o Quinto Império? O que aconteceu aos planos de globalização traçados pelo padre António Vieira? Não se trata do poder político, económico ou militar, trata-se de algo mais simples como a cultura e os valores. O espírito português é algo que está em vias de extinção, não é com meia dúzia de grupos folclóricos que esse espírito se preserva. Quando falo do espírito, falo dos valores, da língua, do sonho português de uma globalização diferente da imposta pelas nações dominantes. Somos diariamente invadidos pela cultura estrangeira, não que devamos fechar-nos e ignorar toda essa influência potencialmente produtiva, mas também não é correcto deixamo-nos levar completamente esquecendo a nossa própria identidade. A nossa língua está a cair no esquecimento, é ridículo a sobre utilização do inglês não nos importando com o lento sufocar do português. A indústria controla a cultura, e isso é a causa da maioria dos problemas, já que a industria não se preocupa com os valores culturais, mas, apenas com o lucro. A culpa, na minha opinião, é também do governo, que não se parece importar com espírito nacional nem tão pouco fazer algo de sério para regulamentar essa indústria da cultura. A globalização é uma realidade, mas está longe do sonhado por Portugal, sendo apenas um conceito económico e traçada pelos países e grupos económicos dominantes a seu belo prazer. Portugal, através dos seus órgãos de soberania, devia voltar-se mais para os países de língua oficial portuguesa. Nenhum povo se pode julgar superior culturalmente a outro povo, porque quando assim é porque não conhece a cultura do outro povo. Quantos livros de escritores Angolanos estão nas nossas livrarias? Quantos cds de músicos Moçambicanos estão nas nossas lojas? Neste ponto nem sequer é necessário que sejamos idealistas e propor apenas uma maior troca cultural, uma troca económica significativa pode e deve existir também.
O poder ainda não é do povo, dois partidos estão continuamente e alternadamente no poder. O povo limita-se a escolher entre duas pessoas escolhidas por esses partidos. Os outros partidos nem todos juntos têm expressão, a menos que se juntem a um desses. Por sua vez, os partidos são manipulados pelos interesses económicos e industriais. Este ciclo vicioso fez a maioria do povo cair numa apatia, e a prova disso é o nível de abstenção. Esse nível é talvez o indicador mais importante e preocupante, o povo sente que não pode fazer nada. É necessário encorajar o povo a participar mais activamente no governo, sem o desmotivar com sensação de impotência. É necessário que o comande realmente e exclusivamente os destinos da nação. Lutar contra os interesses económicos instituídos não é fácil, e só quando todos sem excepção decidirem pôr-lhe um fim é que é possível vencer esta guerra.
A república, tal como existe nos dias de hoje, não é ainda uma solução viável para Portugal. No entanto eu aceito esta república como um passo necessário, mas olhando para um futuro, que espero próximo em que a república se renove ou se transforme em algo melhor. Espero que todos possam olhar para trás e aprender com os erros, um erro seria tentar mudar as coisas pela força, outro seria perder o folgo da mudança e cair novamente na estagnação e apatia. A mudança não têm que ser violenta, nem sequer brusca, nem terá que substituir de uma vez as instituições existentes ou a sua maneira de agir, mas terá que existir e ser gradual.
O sonho português ainda se pode realizar, mas para tal é necessário uma mudança radical a começar pelo topo, para que o nosso governo possa finalmente ser aquilo que devia ser: um modelo para o povo e para os outros governos do mundo. Um modelo de um governo justo, credível e sério.


Este pequeno ensaio foi escrito para a revista Nova Águia e publicado no sexto número da mesma.
http://novaaguia.blogspot.de/
http://www.zefiro.pt/livro_novaaguia006.htm


Foi comentado em: http://movv.org/2011/03/29/pedro-cipriano-a-republica-ate-agora-foi-apenas-uma-experiencia-que-correu-mal/
http://movv.org/2011/02/04/pedro-cipriano-a-industria-controla-a-cultura/
http://movv.org/2010/11/28/pedro-cipriano-o-poder-ainda-nao-e-do-povo-dois-partidos-estao-continuadamente-e-alternadamente-no-poder-o-povo-limita-se-a-escolher-entre-duas-pessoas-escolhidas-por-esses-partidos/