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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Primavera - Parte 2/2


Este conto faz parte da antologia Legado de Eros:

Podem encontrar a primeira parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/11/a-primavera-parte-12.html

As sirenes ouviram-se a meio do jantar. Num momento de hesitação, mãe e filha fitaram-se. Ana levou a taça à boca e sorveu o resto da sopa sem respirar. Levantou-se num pulo e foi ao quarto buscar um cobertor, encontrando a mãe à porta com uma vela e fósforos. A progenitora trancou a porta, havia sempre quem se aproveitasse da confusão para se apoderar do alheio. Desceram as escadas, saindo pelas traseiras do prédio.
Apressaram-se a galgar os degraus que conduziam ao abrigo. A construção subterrânea em betão maciço fora feita para proteger os residentes do edifício. Contudo, mal havia espaço para todos se sentarem. Assim que fecharam a porta, Ana sentiu falta de ar. Ficara com um medo irracional de espaços fechados depois de quase ter sido soterrada num bombardeamento. Nesse Inverno era pouco mais do que uma criança e trauma mantivera-se até à idade adulta.
Aconchegou-se o melhor que pôde, partilhando o cobertor com a mãe e o espaço com duas dezenas de pessoas. A área era semelhante à do seu quarto. Não havia janelas. A porta era reforçada e do exterior pouco mais se ouvia que o alarme. A luz mantinha-se acesa, espalhando uma parca luminosidade pelas paredes nuas e faces receosas. Só podiam esperar.
― Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo ― iniciou alguém.
― Ámen ― responderam em coro.
Debitando a oração sem ter de pensar, Ana fixou o olhar nos chinelos. O pensamento voou para a estação de São Bento, meio ano antes. Lá fora as folhas castanhas caíam das árvores. Miguel envergava o seu uniforme novo e a metralhadora pendia nas costas. Cumpria o destino de todos os rapazes que haviam nascido em 2019. A mãe chorava. Ana também não conseguiu conter as lágrimas. Só o pai e os irmãos pareciam conseguir aguentar a tensão do momento. O revisor apitou.
Sem se preocupar com o que os pais iriam pensar, lançaram-se num beijo apaixonado, perdendo-se nos lábios um do outro. Durou um momento apenas, mas foi como se uma vida inteira se tivesse passado. O amor de ambos estava definitivamente selado.
Separaram-se. Miguel correu para a carruagem, galgando os degraus no último momento. As portas fecharam-se. O comboio desapareceu. Foram precisos vários minutos para que ela se atrevesse a mexer um único músculo.
No abrigo a oração terminava, recomeçando logo de seguida. Ana olhou para a lâmpada solitária, esperando que o seu amado estivesse livre de perigo.


Ao ouvirem a artilharia rugir, os soldados aninharam-se na vala. Miguel segurou a arma com força e deitou-se de barriga para baixo. A água ensopou-o de imediato e a lama infiltrou-se em cada poro. Ajeitou o capacete, mantendo a boca aberta, como lhe haviam ensinado. O salvo aterrou ali perto. Não tardou que os canhões daquele lado do rio respondessem com a mesma ferocidade.
Um foguete iluminou o céu. Miguel ergueu-se, sem se preocupar com a gosma que o cobria. Mais foguetes subiam, tornando a noite em dia. Ouviu o soltar da patilha de segurança de uma metralhadora.
Aventurou um olhar, o inimigo atravessava o rio. As primeiras balas foram disparadas. De quando a quando uma tracejante definia a trajectória. Os morteiros iniciaram a sua maldita tarefa. As primeiras explosões acertaram ao lado, mas não tardou que cada munição despedaçasse uma pequena embarcação. Os inimigos não pouparam nas munições, atingindo a trincheira. Manteve-se imóvel, numa crença parva de que isso o poderia salvar
Assim que os primeiros barcos chegaram à costa, Miguel soltou o trinco da arma. O combate era inevitável.


No abrigo, as pessoas ainda rezavam. Enquanto as bombas caíam, a oração continuou. A filha de três anos dos vizinhos de cima começou a chorar e a mãe pouco mais pôde fazer do que pegá-la ao colo. A prece persistiu num tom monocórdico.
Ali perto, uma rápida sucessão de explosões fez as paredes estremecerem e pequenos detritos caírem do tecto. A luz enfraqueceu por momentos.
Ana deu por si agarrada à mãe. Tinha saudades de quando era criança e não tinha de se preocupar com aviões, nem abrigos, nem morte.
O velhote que dirigia a oração apertava as contas do terço com tanta força que o sangue lhe havia fugido das falanges.
― Pai nosso que estais no céu... ― continuou o idoso
Ana começou a tremer. Desejava que o Pai estivesse mesmo no céu e não permitisse que esta selvajaria acontecesse.
― O pão nosso de cada dia nos dai hoje...
A luz falhou no meio da resposta.


O dedo de Miguel exerceu uma ligeira pressão no gatilho, disparando uma curta rajada contra as tropas que desembarcavam. Apontou para as silhuetas a poucas dezenas de metros, um dos vultos caiu e os outros lançaram-se ao chão. Não os conseguia ver claramente, o que não o impediu de atirar até ficar sem balas.
Agachou-se, soltando o carregador, substituindo-o pelo que tinha no cinto. Levantou-se de novo, tentando deter o avanço das sombras rastejantes. As explosões sucediam-se. As munições esgotaram-se. Mais uma vez, trocou o carregador.
Ao elevar-se, foi projectado para trás. Uma bala atingira-o por cima do olho direito. Morreu antes de chegar ao chão.


No abrigo, a mãe da Ana foi a mais rápida a reagir, acendendo uma vela. A oração tinha terminado. O silêncio e o medo imperavam sobre aquelas almas. Os ouvidos ainda zumbiam e não deixavam ouvir mais nada do que se passava no exterior. Ninguém se atreveria a abandonar a casamata antes que as sirenes voltassem a tocar.
De súbito, o barulho de motores fez-se ouvir sobre as suas cabeças. A explosão foi ensurdecedora e o abrigo sacudido com violência. Ana percebeu que a bomba deveria ter atingido o seu prédio.
O prédio desabou um segundo depois sobre o abrigo, fazendo-o colapsar. Uma das pedras atingiu Ana na cabeça. Ela perdeu os sentidos, entrando num sono do qual não iria acordar.


Quando amanheceu, as flores lilás jaziam espezinhadas. As folhas e pétalas haviam sido separadas do talo e estavam espalhadas pela terra negra, misturadas com fragmentos de músculo, ossos, metal, sangue e madeira. Uma pétala perdida parecia adornar um dos cadáveres desfigurados, dando-lhe o único funeral que provavelmente receberia. Iriam passar muitas primaveras antes que voltassem a crescer flores naquela margem.

FIM



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Anjos da Morte


Bruno sabia que o inimigo ia chegar a qualquer momento.
Alinhou o avião com a pista e levou o motor ao máximo de rotação. O caça ganhou velocidade, percorrendo a faixa delimitada pela dupla fileira de luzes. Ia a meio da pista quando o aparelho de João levantou voo. Esperou uns segundos e puxou os controlos, consciente que outro avião o seguia. A aeronave deixou o solo, seguindo a de João.
Rangeu os dentes e apertou os comandos com força para não tremer. Era a sua primeira missão e a cidade estava sobre ataque. Faltavam uns minutos para o ano novo e metade dos pilotos estavam bêbados.
– Que altura mais conveniente para um bombardeamento – dissera-lhe Ricardo, momentos antes.
A noite e a poluição luminosa não o deixavam ver quase nada. Continuou a ganhar altitude até ultrapassar a cobertura de nuvens. Descreveu uma longa circunferência tentando localizar os restantes membros do grupo. A luz pálida do luar fê-lo encontrar as silhuetas dos três aviões sob o seu comando.
– Delta Quatro para Deltas. Sigam para Sul – ordenou pelo rádio.
– Delta Um para Delta Quatro. Recebido – confirmou um deles, sendo imitado pelos restantes.
Os colegas formaram num trapézio tridimensional, como tantas vezes haviam treinado.
– Base para Deltas. Alvo a Su-sudest, seis unidades, altitude 1100 metros, visível em dois minutos.
O grupo tomou a nova rota. Ricardo estava bêbado e João andava com a cabeça no ar por causa da enfermeira do F2. O maior trunfo de um piloto é a concentração. Quatro contra seis naquelas condições era arriscado.
Um movimento à esquerda chamou-lhe a atenção.
– Delta Quatro para Delta Três. Caça inimigo às 10 horas – comunicou ao seu par, fazendo o avião ganhar altitude.
Delta Três mudou de direcção, descrevendo um longo círculo, aproximando-se do oponente pela esquerda. Delta Quatro passou várias centenas de metros acima dos dois. Bruno viu o avião de Ricardo, Delta Três, envolver-se numa disputa por uma boa posição para disparar. Bruno deu meia volta, começando a descer e os dois pilotos entraram num movimento em forma de espiral.
Sentiu a aeronave ganhar velocidade, esperando que o par do outro caça estivesse ocupado com os outros Deltas. Os dois combatentes aproximavam-se com rapidez.
– Delta Quatro para Delta Três, cheguei.
Enquanto Bruno passava atrás dos dois aviões, continuando a descer, Ricardo quebrou a espiral, afastando-se. Perdendo o oponente de vista, o inimigo endireitou a aeronave, encontrando-o a umas centenas de metros. Esse foi o seu erro. Bruno usou a velocidade que trazia para subir, aproximando-se pelas costas, vindo de baixo e uns graus à direita, o ponto cego. Disparou duas curtas rajadas, apontando de forma a compensar o movimento do alvo. Deu uma guinada forte para a direita, afastando-se também.
Quando voltou a olhar, a aeronave inimiga deixava um rasto de fumo, o motor fora atingido. Não tardou que perdesse altitude, desaparecendo entre as nuvens.
– Caça inimigo fora de combate. Delta Quatro fez as honras da casa – ouviu Ricardo anunciar.
Os dois pilotos posicionaram-se de modo a poderem cobrir o ponto cego do companheiro, preparando-se para ajudar os outros.
– Caça inimigo fora de combate. Delta Um manda cumprimentos aos Lusos – celebrou João.
– Base para Deltas. Alvo a Nor-noroeste. Quatro unidades, altitude 700 metros. Distância 3000 metros.
O esquadrão deu a volta. O altímetro marcava 1200 metros, calculando que os inimigos estivessem abaixo da linha das nuvens.
– Delta Quatro para Deltas. Vamos acelerar ao máximo e fazer um Eder-Mayer – comandou Bruno, empurrando a alavanca ao máximo.
Os outros demoraram a confirmar, seguindo-o na descida. Ao atravessar a grossa camada branca, percebeu que eles tinham medo de executar a manobra. Todos tinham medo dessa. Conheciam até quem se tivesse mijado ao ensaiá-la em treinos. Quando a névoa se dissipou, viram-se rodeados de escuridão.
– Delta dois para Deltas. Inimigo à uma hora.
Bruno mal conseguia distinguir os contornos. Os quatro aviões continuaram com os motores no máximo. Calculou que se iriam cruzar com eles em dez segundos. Os caças passaram por cima dos bombardeiros. Houve uma breve troca de tiros. Os Deltas continuaram e os oponentes mantiveram a rota. Não havia danos severos. Bruno contou até vinte.
– Delta Quatro para Deltas. Quando eu disser um, virar, quando disser seis disparar, quando disser oito desviem-se. Apontar à cabine. Um – explicou Bruno, dando uma guinada para a esquerda.
– Dois.
O avião virava mais lento do que gostaria.
– Três.
Sabia que só tinham uma oportunidade.
– Quatro.
Nivelou o avião. Os inimigos estavam mil e quinhentos metros à sua frente.
– Cinco.
Apontou para a aeronave em frente. Eles aproximavam-se a uma velocidade vertiginosa.
– Seis.
Premiu o gatilho, esperando que as balas encontrassem o alvo a mil metros de distância.
– Sete.
Lembrou-se que João estava bêbado, só esperava que ele se conseguisse desviar a tempo.
– Oito.
Guinou para a direita, descendo. Os bombardeiros passaram a escassos metros. Ouviu um choque de metais, seguido de uma explosão. Deu meia volta, preparando-se para enfrentar as fortalezas aladas inimigas.
– Delta Um fora de combate.
A surpresa de ter sido Miguel a não se ter desviado só durou um momento. Um dos bombardeiros havia desaparecido, outros dois perdiam altitude rapidamente e o último descrevia uma curva tentando voltar para trás. O perfil estava exposto, tornando-o um alvo fácil. Bruno apontou e disparou contra o alvo indefeso.
A vitória pertencia-lhes. No solo, a cidade ardia com violência.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A Primavera - Parte 1/2


Este conto faz parte da antologia Legado de Eros:

As tímidas flores roxas foram as primeiras a despontar naquele ano. Floresciam solitárias naquela margem do Mondego, uma ilha de vida no meio da terra vazia, arautos da primavera. Inúmeras covas artificiais espalhavam-se em volta. Milhares de fragmentos de metal misturavam-se no húmus e na rocha pulverizada. As flores eram o único ser vivo que aparentava não se aperceber da desolação que as rodeava.

Miguel ouviu a agitação propagar-se pelas trincheiras. Não era preciso muito para se gerar uma comoção por ali, tudo o que quebrasse a monotonia de estar aninhado nas valas era fonte de excitação para aqueles jovens. Um arrepio de antecipação percorreu-lhe a espinha.
O barulho foi-se aproximando. O tenente dobrou a esquina. Passou-lhe um envelope para a mão e estendeu um embrulho a Daniel, seguindo o seu caminho.
Sentaram-se os dois no banco improvisado. Apesar de estar a arder por dentro, Miguel abriu o sobrescrito com cuidado. As primeiras linhas levaram-no de volta a uma primavera que pertencia a outra existência.
Ela apareceu de vestido azul claro com rebordos folhados e inocência no olhar. Cabelos curtos e escuros. O olhar focou-se nas mãos delicadas.
― Quem é ela? ― perguntou ao colega do lado, depois de lhe dar um safanão.
― É a Ana, não conheces?
― Não, e tu vais-me apresentar.
O amigo devolveu-lhe um olhar de aborrecimento, acabando por concordar. Ao aproximar-se dela, pareceu-lhe que o fixava de volta.
― Olá, Ana, este é o Miguel ― disse-lhe, estendendo a mão.
Os olhares teimavam em não se desviar, precisando de uma enorme força de vontade para se inclinar e cumprimentá-la.
O som de um papel a ser rasgado trouxe-o de volta ao presente. A seu lado, Daniel sentado nas tábuas e com as botas na lama, desembrulhava um pedaço de pão e uma chouriça. Retirou a faca da bainha e cortou uma fatia generosa de ambos, dando-lhe uma enorme dentada.
― Quem te escreveu? ― perguntou-lhe o companheiro.
Miguel levantou os olhos da carta, contrariado pela interrupção. Retirou uma fotografia impermeabilizada do bolso do uniforme e mostrou-a ao amigo.
― É da minha noiba ― respondeu, mostrando-lhe uma foto de uma jovem de cabelo curto, deixando a sua expressão abrir-se num sorriso de saudade.


Ana rodou a chave, abrindo a porta de entrada. O primeiro olhar para o chão destruiu-lhe a esperança de encontrar um envelope deixado pelo carteiro. Largou na mesa o saco de legumes que lhe havia sido dado no ponto de distribuição. Os braços e a cabeça doíam-lhe do trabalho repetitivo e barulhento da fábrica têxtil.
Empilhou algumas achas no borralho por cima de uma camada de bicas e uma pinha. Chegou-lhe um fósforo deixando que o fogo apeirasse. Atirou a grelha para cima e depois a panela. A custo, despejou duas tigeladas de água para o interior. Retirou os legumes do saco, tentando não pensar muito no assunto. Dedicou-se à tarefa de lavar e cortar os ingredientes para uma sopa.
A mãe entrou em casa quando ela dividia as batatas ao meio. Os cabelos prateados multiplicavam-se naquela figura demasiado magra. Desde que o pai fora chamado que fora obrigada a trabalhar por dois. A mulher cumprimentou a filha com um abraço, ajudando-a na preparação do jantar.
Com uma pitada de sal, Ana completou a receita. Ao endireitar-se, calhou olhar para a varanda, recordando-se da primeira vez que ele a viera visitar a casa. Fora apenas um instante, enquanto os pais conservadores não os observavam. Uma desculpa nada inocente levara-os àquela varanda e um beijo rápido selou, pela primeira vez, o seu amor. Se fechasse os olhos ainda conseguia sentir os lábios dele, saboreá-los, cheirá-lo. Quase como se estivesse à sua frente.
― Oh filhinha, não fiques triste. Ele há-de voltar! ― prometeu a mãe, pousando a mão no ombro.
Ana encarou a progenitora e acenou com um sorriso tímido. A noite caía lentamente, revelando um céu estrelado e sem nuvens, o estado do tempo mais odiado pelos portuenses. As condições perfeitas para um bombardeamento aéreo.


Durante o lusco-fusco, Miguel ouviu os motores na outra margem. O som chegou a todos os que habitavam na trincheira. O olhar de Daniel transparecia medo.
Com o estômago meio cheio de minúsculos cubos de toucinho e legumes envolvidos em água aquecida, a que chamavam sopa, sabia que não poderia esperar uma noite tranquila. Pelo menos não era dos piores dias, em que fome lhe toldava os sentidos. Com a arma apertada firme na mão e futuro incerto, relembrou outra refeição.
Os seus pais haviam convidado os dela para jantar. A sala tinha a mesa grande coberta por uma toalha branca bordada, que só era usada em ocasiões especiais. Os pratos e talheres eram novos, tinham estado em caixas por mais de dez anos.
Miguel andou para trás e para a frente, depois às voltas. A mãe dissera-lhe para ficar calmo e não se preocupar, mas estar assim parado não o ajudava em nada. Quisera entrar na cozinha para se assegurar que tudo estava a correr pelo melhor. A mãe fechara-lhe a porta na cara, enviando-o de volta para a sala.
Ouviu a campainha. O coração quase falhou uma batida. Alisou o casaco e passou a mão pelo cabelo, apressando-se na direcção da porta. Com as mãos a tremer puxou o trinco, revelando o casal acompanhado pela filha.
― Senhor José ― cumprimentou, apertando-lhe a mão. ― Senhora Maria ― murmurou, pegando-lhe a palma com suavidade enquanto se inclinava. ― E a menina Ana ― concluiu, corando.
Levou-os até à mesa e, um momento depois, os pais trouxeram a comida. Bifes de porco. Valiam pelo menos cinco contos de reis, o ordenado de uma semana. A água nasceu-lhe na boca assim que os cheirou. Não comia nada assim há meses. As batatas e a carne foram distribuídos, iniciando-se a refeição, regada por um bom vinho.
Quando terminaram, o pai chamou a atenção e apontou na sua direcção. Sentiu todos os olhos postos em si e o suor a escorrer-lhe pela testa. Parecia que tinha um tijolo entalado na garganta.
― Senhor José ― murmurou, por fim. ― Gostaria de pedir a mão da sua filha.
Sentado na trincheira, sentiu um aperto no peito. Não iria deixar passar o dia seguinte sem lhe escrever. As cartas eram o seu único conforto.
O barulho dos motores aumentou de intensidade. Os soldados olharam para o céu, distinguindo as silhuetas de um esquadrão de bombardeiros. Mais uma carpete de morte seguia na direcção da capital. Sentiu um aperto no coração. Não saiba como iria viver se acontecesse algo à alegria dos seus dias.


Podem ler a segunda parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/11/a-primavera-parte-22.html

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Boas Festas vindas do céu

Dezembro de 2032

O bimotor atravessava os céus nocturnos à velocidade de cruzeiro. Aos comandos do arcaico bombardeiro, Rui não pôde evitar estremecer ao reconhecer a faixa escura no solo, a terra de ninguém. Deixara os limites do seu estado.
Com as tensões a escalarem de dia para dia, não era preciso ser filósofo para perceber que a paz não podia durar. Depois do grande conflito do início de século, Portugal ficara dividido em três. O Norte aliara-se à Galiza e o Sul declarara independência, instaurando um governo neocomunista. O governo de Lisboa recusava-se a aceitar a divisão. Para o piloto, este voo era apenas mais um passo no caminho do inevitável.
Duas centenas de bombardeiros e quase uma centena de caças atravessavam a escura imensidão. O tamanho da frota inspirava confiança aos soldados, tanta quanto um número poderia dar. A tonelagem de explosivos nos compartimentos de carga chegava para atear fogo a uma grande cidade. Mesmo que o pudessem fazer, ninguém ousou questionar as ordens recebidas. Era claro que as negociações tinham falhado.
A missão que lhes fora confiada pelo general era simples: bombardear o Porto até à submissão. Era o último dia do ano e era previsível que a maioria dos soldados estivesse embriagada. A correr como planeado, não encontrariam sequer uma defesa organizada.
Consultou as horas no relógio de pulso.
― Feliz ano novo ― murmurou, esperando sobreviver para os festejos.
Haviam passado cinco minutos em território inimigo. Era certo que os radares já os tinham detectado. Em menos de meia hora estariam sobre a capital inimiga. Estremeceu ao ter consciência que haviam atravessado o ponto sem retorno.
Ainda se lembrava do período antes da guerra, quando a Europa era una e a paz reinava. As cidades cresciam, cheias de vida e actividade. A crise económica estalara enquanto dormia no berço e Lisboa fora ocupada durante a sua adolescência. Na prepotência da juventude, atirara pedras aos tanques franceses. O colapso do petróleo terminou a guerra e com ela a ocupação. Quando atingiu a idade adulta quis ser piloto, na ilusão de proteger o país. E, nesse momento, preparava-se para largar sobre outros a miséria que tão bem conhecia.
De súbito, uma avalanche de mensagens em código jorrou dos auscultadores. O inimigo reagia. Apertou os comandos com força. Não valia a pena filosofar sobre as decisões políticas quando o mais importante era voltar vivo.
Os dois caças à esquerda ganharam altitude, desaparecendo acima das nuvens. Iriam iniciar o seu jogo de gato e rato, enquanto Rui seria o queijo. Desejou poder fazer o mesmo. Aquele avião era uma presa fácil tanto para as defesas antiaéreas como para as aeronaves inimigas, mais leves e velozes. Nem a metralhadoras instaladas nas asas o deixavam mais descansado. Nos céus a agilidade era tudo, justamente aquilo que não dispunha.
Os bombardeiros mais pequenos desceram em voo picado, alvejando as artilharias. Era um duelo de vida ou morte. Rui olhou em frente, concentrando-se apenas no alvo. Os elementos mais rápidos haviam já largado bombas incendiárias visíveis a vários quilómetros, marcando o alvo principal. Sabia que tanto podiam ser fábricas como uma zona residencial. Empurrou esses pensamentos para segundo plano, concentrando-se em alinhar a trajectória com as chamas. Não interessava qual o alvo, ou se atingiriam de todo, só queria largar a carga mortífera e dar meia volta.
De súbito, a asa do avião à sua direita irrompeu em chamas. Só então viu as balas tracejantes. Os caças apareceram de seguida, atacando a nave inimiga. As chamas alastravam-se pelo bombardeiro de Francisco. Um motor parou e a aeronave começou a perder altitude, arrastada pela imensa carga, numa luta inútil para se manter no ar. Relembrou a noitada que tinham tido duas semanas antes. O compartimento de carga a abriu-se, lançando as bombas aleatoriamente. O avião começou a rodopiar, envolto em fumo, desaparecendo de vista. Não voltaria a vê-lo.
― Graças a Deus que não fui eu ― pensou, rangendo os dentes.
Os caças dos defensores foram repelidos. Dos bombardeiros encarregados de destruir as defesas não havia qualquer sinal, nem dos aviões encarregados de os proteger.
À beira de um ataque de pânico, reduziu a velocidade e a altitude. Era o momento em que estaria mais vulnerável, apenas umas centenas de metros o separavam do solo. Se fosse dia poderia ver os edifícios e até os carros nas ruas como se uma miniatura se tratasse. Imaginou o enorme perfil do avião visto do solo, engolindo em seco. Alinhou-se com o bombardeiro que seguia à frente e que mal via. Desviou-se um pouco para a direita, de modo a evitar a turbulência. Se se aproximasse demais a força de suspensão iria terminar e o avião cairia.
As chamas aproximavam-se mais lentas do que gostaria. O alvo, tão perto e ao mesmo tempo tão longe. O suor escorreu-lhe da testa. Sentiu os joelhos a fraquejar. Bastava uma bala num dos motores ou no piloto para não voltar a casa. Os braços começaram a tremer sem que os conseguisse controlar. Não havia qualquer aliado à vista. Não sabia onde estavam as defesas antiaéreas. Um caça podia aproximar-se dele pelo ângulo cego.
A respirar com dificuldade, accionou as portas do compartimento de carga, libertando os explosivos. Um. Manteve-se direito, na direcção das chamas. Dois. Combateu a tentação de mudar de altitude ou direcção. Três. As bombas haviam sido largadas. Acelerou os motores ao máximo, apontando o nariz da nave para os céus.
O avião ganhou velocidade e altitude. Cada segundo parecia uma eternidade. O perfil prateado do aeronave podia ser vista do solo. Estava vulnerável e não havia nada que pudesse fazer contra isso.
Ao atravessar as nuvens, viu-se na companhia dos outros aviões. Deu-se ao luxo de olhar mais uma vez para o relógio, passava meia hora da meia-noite. Descreveu um arco, dando meia volta e seguindo os companheiros de volta a casa. Tentou não pensar nas consequências dos seus actos, desejando que a festa esperada valesse a pena.


Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 4/4


Quando acordou, demorou um par de segundos a entender o que se passava. As imagens da cidade em chamas voltaram a sua memória, despertando-o à mesma velocidade que um corrente de ar frio o faria. Ainda estava calçado e vestido como na noite anterior e só um cobertor velho o resguardava. Levantou-se do sofá que lhe fora cedido pela família e olhou através da janela.
Amanhecera sem nuvens. Ao consultar o relógio, viu que já passavam muito da hora de abertura da loja. Só deu dois passos antes de perceber que com a cidade assim, não valia a pena abrir o negócio de todo. Isto era, se é que o edifício ainda estava de pé.
Depois lembrou-se dos livros. Assim que removessem os destroços, era provável que os encontrassem. Um calafrio subiu-lhe pela espinha ao recordar a pena que o esperava se fosse apanhado.
Um cheiro a ovos fritos atraiu-o à cozinha, lembrando-o que nas última coisa que comera fora uma amostra de peixe. A família tomava o pequeno-almoço e havia um lugar vazio.
– Sente-se aqui connosco, deve estar com fome – ofereceu o chefe de família, levantando-se.
– Eu não queria incomodar... – desculpou-se, olhando para a ponta dos sapatos.
– Ora essa, não incomoda nada. Tenho a certeza que se estivesse no nosso lugar faria o mesmo.
Acenou com a cabeça e sentou-se. Era uma família numerosa e, se calhar, passava dificuldades financeiras e mesmo assim partilhavam o pouco que tinham com ele. Comoveu-o essa generosidade e ficou com um nó na garganta, mal conseguindo engolir a dentada que dera no pão do dia anterior.
Ao sair para a rua ainda tinha fome, mas não conseguira aceder aos pedidos da família para comer mais. A visão diurna da rua revelava-lhe detalhes mais dramáticos que a da noite anterior. Havia entulho um pouco por todo o lado e a destruição era quase total. Todavia, o que mais o impressionou foi as faces de desespero de quem perdera tudo. Não conseguiu deixar de se sentir triste ao perceber que não eram somente perdas materiais.
A sua casa passara a quatro meias paredes e um monte de entulho. As outras duas famílias procuravam recuperar alguns haveres no meio da pilha de detritos. Pelas expressões dos seus vizinhos, não deveria haver muito que se pudesse recuperar. Nem acho que valesse a pena tentar a sua sorte, por isso sentou-se num dos blocos que fora projectado para o passeio.
A questão da noite anterior voltou-lhe a atormentar o espírito. Perguntou-se porque é que se dedicava a salvar livros enquanto as pessoas morriam à sua volta. Não quis ficar parado a cismar, por isso levantou-se a caminhou ao acaso.
A guerra contra o Sul fora declarada no Inverno de há dois anos atrás. O Porto acusava Lisboa de ter começado e, pelo que sabia, os inimigos tinham a opinião contrária. Fora a única altura da vida em que ficara contente por estar em envelhecer. Como ultrapassara a idade da recruta, não foi chamado a defender as fronteiras. Durante meses a guerra desenrolara-se com alguns incidentes que incendiavam as tensões, mas que mantinham o conflito num cauteloso impasse. Se acreditasse nas notícias, ofensiva recente do Sul quebrara esse precário equilíbrio.
– … Não iremos tolerar o ataque traiçoeiro que sofremos esta noite – ouviu da rua, a partir de uma das casas.
Aproximou-se para tentar ouvir o discurso. Pela primeira vez queria absorver cada palavra, na esperança que os governantes lhe dessem a protecção de que tanto carecia.
– Cidadãos, as perdas materiais e humanas foram avultadas. O nosso estado está de luto por tal afronta, mas, não temais! Por cada bomba que eles largaram, iremos largar dez. Por cada bala disparada, iremos disparar cem. Por cada casa, destruiremos uma rua. Por cada familiar pedido destroçaremos uma família. O inimigo trouxe a guerra às nossas portas, cabe-nos a nós mandá-la de volta para as suas cidades. Cada soldado, cada operário, cada agricultor, cada cidadão é importante! Unidos iremos fazer a vingança cair-lhes em cima e esmagá-los com a nossa justiça...
O discurso ficou-lhe gravado na memória como uma queimadura na pele. Quase hipnotizado pela doutrina totalitarista, nem reparou que os passos o levavam ao seu local de trabalho.
A livraria já não existia. Os remorsos falaram mais alto, indicando-lhe que era a punição pela sua revolta. Nem se preocupou em procurar os livros entre o entulho. Aliás, já não queria ouvir mais falar em literatura, quer fosse proibida ou autorizada. Estava farto de viver num mundo de ficção, enquanto a realidade lhe escapava a cada momento.
Entusiasmado não sabia bem com o quê, voltou à sua rua. Num autêntico acto de contrição, dedicou-se a ajudar os vizinhos a remover os destroços. Aquela tarefa árdua trouxe-lhe uma espécie de alivio que há muito tempo não sentia, como se o peso do mundo lhe tivesse saído dos ombros.
Nessa noite partilharam um jantar de enlatados que havia sido providenciado pelas autoridades. Fora uma refeição frívola mas suficiente. A promessa de reconstrução dada pelo líder da freguesia trouxera novo alento àquelas almas desesperadas. Nessas escassas horas, Carlos foi feliz, ao redescobrir a simplicidade e generosidade humana.
A felicidade estendeu-se durante o resto da semana, enquanto ajudava na limpeza e reconstrução. Ao ver um cartaz de recrutamento para uma fábrica de armamento, achou que o acaso lhe tinha indicado o caminho a seguir. Acreditou que o seu futuro durante a guerra estava decidido.
Contudo, o aparecimento de dois homens com fatos fora de moda e óculos com pelo menos vinte anos de idade indicaram-lhe que estava errado. Aceitou a pena com resignação e foi recompensado por não a ter de a suportar por mais de um mês.

FIM



quarta-feira, 27 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 3/4


– O livreiro não está nada bem...
– Não se preocupem, acho que sofro de claustrofobia – mentiu, apoiando-se na parede.
Respirou fundo e concentrou toda a atenção em acalmar-se.
– Não podemos fazer mais do que esperar, por isso, propunha que dividíssemos uma das conservas. As crianças devem estar com fome – sugeriu, apontando para as três latas guardadas ao canto.
A ideia foi aceite e pouco depois Carlos mastigava o seu terço de sardinha. Durante a sua juventude sonhara ser escritor, mas vicissitudes da vida tinham ditado que seria apenas livreiro. Quando a guerra entre o Norte e o Sul da Europa estalara, fora chamado a servir na fronteira Sul. Madrid e Lisboa caíram nos primeiros dias mas o resto das regiões não se submeteu, forçando os Franceses avançaram para tentar capturar o Porto. A Invicta montara uma defesa avançada e uma luta de recuos estratégicos, procurando causar o máximo de baixas no inimigo. Ajudados pelos galegos, a estratégia fora bem-sucedida e o colapso energético obrigara ao fim da ocupação. Pudera então voltar a casa e reabrir a sua loja.
O seus pensamentos foram interrompidos pelo soar das sirenes.
Ao ler a notícia no jornal, apercebeu-se que corria um enorme perigo por manter aquele caixote nas traseiras. Nesse Outono várias pessoas haviam sido presas. A lista de livros não autorizados passou a ser a lista de livros proibidos.
Nessa noite havia removido várias tábuas do soalho, escondendo lá os volumes. Sabia que no século anterior houvera outra ditadura, que durara quarenta e oito anos. Era muito tempo. Ao olhar para os tomos a que se fora afeiçoando, soube que provavelmente não viveria até ao fim deste regime e que não poderia guardá-los tanto tempo.
Deitou-se, sem conseguir pregar olho. Sabia que era uma questão de tempo até alguém decidir revistar a sua casa. Faziam-no com tanta frequência que se tornara parte de rotina. Não tinha esperanças que o esconderijo não fosse descoberto por um olho mais atento. A pena para tal infracção fazia tremer o mais corajoso dos homens. Servir dois anos num batalhão penal, desempenhando tarefas suicidas equivalia na prática à pena de morte.
Ao amanhecer a solução chegou-lhe como uma revelação. Iria esconder os livros por toda a cidade, na esperança que alguns pudessem ser encontrados no futuro. Sentiu-se vivo como não se sentia há muito tempo. Tinha uma missão a cumprir.
A artilharia respondeu em força. Carlos deu por si a roer as unhas, um hábito que pensara ter perdido há anos. Era demasiada tensão para um dia só e, ao olhar os restantes, viu que não era o único a pensar assim. O sinal de costa livre não tardou a chegar.
Deu por si a desejar a morte dos inimigos, reacendendo sentimentos nacionalistas que julgava ter ultrapassado. Conseguia ver finalmente o sentido nas palavras dos líderes. Os responsáveis por este ataque a inocentes tinham de pagar pelos seus crimes. Deu por si a desejar que fossem bombardeados com o dobro da intensidade. Sentiu-se parvo por se preocupar com meia dúzia de livros enquanto as pessoas à sua volta morriam. Para que proteger a memória de um passado comum quando eram inimigos e largavam bombas sobre a sua cidade?
Era como se tivesse acordado de um sonho perturbador. Todos os ideais se tinham invertido em poucos minutos. Portugueses eram como os franceses, ambos hostis. Deixou-se cair no degrau, cheio de remorsos. Sentia que traíra a sua nação com actos e intenções.
Naquela madrugada não havia conseguido dormir. Embrulhou o livro e saiu ao despontar do dia. Ao vaguear pelas ruas quase desertas, encontrou um local onde andavam a trocar o alcatrão por pavimento. Sem pensar duas vezes, enterrara-o com rapidez no sítio onde iriam calcetar nesse dia.
– O senhor está bem? – perguntou a menina de oito anos.
Carlos olhou-a nos olhos e o remorso voltou. Quantas raparigas da idade dela sofreriam naquele momento? Valeria a pena defender um idealismo inconsequente?
– Realmente, você está mesmo pálido – confirmou a mãe da miúda.
– Deve ser dos nervos, nunca me vi numa situação destas...
A mulher acenou como se lhe fosse responder, mas acabou por não dizer nada.
Fechou os olhos. Queria esvaziar a mente como um dos colegas do exército lhe havia ensinado. Veio-lhe à memória a imagem do que restara dele quando fora atingido por um disparo de artilharia. Passos. Abriu os olhos estonteado pondo-se à escuta. Os passos continuavam lá ao longe.
– Está alguém aqui perto! – exclamou, levantando-se.
– Socorro, estamos soterrados! – gritou a mais gorda das mulheres.
Outras vozes se juntaram numa algazarra ensurdecedora.
– Calem-se um momento, para ver se temos resposta – pediu o mais baixo dos homens.
– Já vos ouvimos, os bombeiros não tardam a chegar aqui – tranquilizaram-nos do lado de fora.
Carlos foi o último a sair do abrigo. Apesar de o prever, nada o preparou para o que encontrou. O prédio fora atingido por uma bomba e pouco mais que algumas paredes se mantinham de pé. Parte dele tinha desabado sobre o abrigo. A rua tinha sido severamente atingida e poucos eram os edifícios que não apresentavam danos. Ao longe, contrastando com a escuridão da noite, alguns fogos ardiam ainda. Ouviu gritos de dor. Não queria pensar sequer nas pessoas que haviam ficado soterradas nos escombros. Conseguiu apenas imaginar as manchetes da manhã como: “Maior bombardeamento da década”.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 2/4


Podem encontrar a primeira parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/03/o-guarda-livros-parte-14.html


Ao abrir as três caixas que haviam sido entregues naquela manhã, percebeu que a compensação do estado não lhe agradava. Os novos livros eram apenas versões distorcidas dos que lhe haviam sido retirados. O valor deles não chegava sequer para cobrir metade do prejuízo e escrever um agradecimento ao Ministério da Cultura fora o maior frete da sua vida.
Foi depois de almoço que encontrara um monte de livros que não havia sido inspeccionado. Olhou para a pilha sem saber se deveria seguir a sensatez ou a consciência. Só a irritação com a situação facilitou a escolha.
O som estridente impelia-o a andar. Saiu porta fora em direcção ao abrigo ao lado do edifício. Olhou para a esfera celestial de fim de tarde. Só algumas nuvens polvilhavam o céu de Setembro e dos aviões nem sinal.
Supondo que o alarme fora dado no momento certo, calculou que ainda tinha um par de minutos. Apressado voltou atrás e trancou a porta do apartamento. Não queria que andassem a bisbilhotar nas suas coisas enquanto estivesse na cave. Entretanto as outras duas famílias tinham abandonado o prédio, sendo ele o último a descer as escadas.
Até ao momento em que alguém conseguiu acender uma solitária vela a escuridão fora quase total. Assim como tinham começado, as sirenes calaram-se. Ele sabia que a razão para isso acontecer era simples, grande parte dos sistemas de defesa anti-aérea usava o som como referência.
O silêncio foi quebrado pelo metralhar de uma automática. Os motores dos aviões ouviam-se ao longe e, a cada momento, mais alto. Apesar de já contarem com isso, a queda da primeira bomba sobressaltou-os. O prédio estremeceu ligeiramente e as crianças olharam para os pais assustadas. O barulho aumentou de intensidade. A artilharia disparava de modo cadenciado e as bombas iam caindo, ora mais perto, ora mais longe.
A terra abanou e o barulho foi de tal modo ensurdecedor que ficou com um zumbido nos ouvidos. Algo caiu sobre o abrigo, fazendo com que parte do estuque se desprendesse do tecto. A poeira começou a invadir o pequeno espaço. As crianças desataram a chorar e os adultos olharam uns para os outros com um ar grave.
Lá fora a batalha pelos céus da capital continuava.
Havia sido num doce dia de Verão. Mais que o desejo de ler, só o ar quente da rua convidava a entrar na livraria. A campainha presa à porta anunciou a entrada do homem magro de meia-idade. Carlos levantou os olhos do jornal e olhou para o desconhecido.
– Boa tarde, em que posso servi-lo?
– Eu procuro alguns livros – declarou, passando-lhe um papel dobrado.
O livreiro desdobrou a folha encontrando uma única referência manuscrita.
– Minha Nossa Senhora, os Lusíadas...
O homem levou o dedo aos lábios. Ele observou-o em minúcia, desconfiado que se tratava de um agente do governo. No entanto, ao olhar nos olhos dele, viu o mesmo receio espelhado. Acabou por concluir que após mais de um ano de más vendas, não se podia dar ao luxo de desperdiçar um cliente.
– Siga-me – indicou, levando-o até à salinha adjacente onde guardava o resto da mercadoria.
O outro homem guardava alguma distância dele, ficando à porta. O medo permanecia nos seus olhos.
– O que tenho está nesta caixa, foi o que escapou quando a polícia cá esteve.
Como o cliente não se mexia, acabou por se abaixar e abrir a caixa de cartão. Um momento depois estendia-lhe um livro de capa vermelha que deveria ter um pouco mais de vinte anos de idade.
Assim que o desconhecido agarrou a mercadoria, as explosões voltaram, muitas assustadoramente próximas. As mães agarravam-se aos filhos e os pais observavam impotentes. O único conforto era ainda ouvirem a resposta ininterrupta das anti-aéreas.
O barulho cessou. O silêncio era tão pesado que lhe feria os ouvidos. Ninguém se mexeu. Sentia-se cansado, o desgaste emocional tornara-se físico. A luz extinguiu-se. Ouvia o respirar cadenciado dos outros e teve a certeza que todos podiam escutar o bater do seu coração.
As sirenes voltaram a tocar, indicando que já era seguro saírem. Carlos venceu a inércia e empurrou a porta do abrigo. Esta resistiu-lhe e após um empurrão mais forte, descobriu que estava algo a bloqueá-la. O chefe de família do andar de cima veio ajudá-lo, mas nem com o conjunto dos quatro homens disponíveis foi possível mexê-la.
– Oh meu Deus, vamos morrer soterrados... – constatou uma mulher antes de desmaiar.
Relembrou que demorara dois dias depois para se habituar à ideia. Mantivera sempre o grosso envelope junto ao peito, sem saber como usá-lo sem despertar suspeitas. Um livreiro nunca seria rico enquanto o estado atravessasse a maior recessão que havia memória.
O mesmo homem entrou na loja pouco antes do fecho. Desta feita, a lista era maior e incluía todo o tipo de livros não autorizados.
– Quero tudo o que tiver – acrescentou o homem.
Depressa perceberam que não iam conseguir sair sem ajuda, já que todo o esforço se traduzira numa pequena fresta. Lá fora ouviam-se ao longe os bombeiros. Uma das mulheres tinha conseguido reacender a vela.
– Não te preocupes querida, que já nos vêm salvar. Alguém há-de ver que a entrada do abrigo está tapada – confortou um dos maridos.
Isto só seria verdade se o ataque não tivesse sido muito severo, constatou Carlos em silêncio. Depois lembrou-se dos livros. Se se desse o caso de o procurarem em casa, poderiam encontrá-los. O coração começou a bater descontroladamente e a respiração ficou entrecortada.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 1/4


As tardes favoritas de Carlos eram as de Domingo. O movimento era pouco e podia dedicar-se à sua actividade preferida sem ser incomodado.
Caminhou pelas ruas desertas do Porto. A população ouvia a emissão de rádio em suas casas. A hora era perfeita, mais cedo havia namorados no parque e mais tarde seria suspeito. Entrou pelo portão principal semi-oculto pelo chapéu de feltro e sobretudo de gola alta, todo vestido de preto. Queria poder passar por um agente do governo. Ensinaram-lhe que quando se tratava de actividades proibidas, nada podia ser deixado ao acaso.
Passeou pelo parque, procurando uma zona sossegada. Antes de se abaixar, olhou em volta, verificando que a costa estava livre. A adrenalina entrou-lhe no sangue e o batimento cardíaco aumentou. Retirou o pé de cabra de dentro do casaco e levantou uma laje. Com uma pequena pá, fez um buraco rectangular, colocando a terra num saquinho de ráfia. Retirou o livro já embalado em várias camadas de isolamento impermeável e meteu-o no buraco. Fez uma carícia de despedida ao livro, era a sua última cópia de “Os Maias” de Eça de Queiroz. Atirou algum solo para cima e recolocou a laje, fixando-a com um pequeno martelo. Devido ao par de anos de prática, todo o processo demorara menos de um minuto.
Ao levantar-se, distinguiu pelo canto do olho uma silhueta. Sem hesitar, afastou-se dali em passo apressado. A respiração e pulsação aceleraram ainda mais. Olhou por cima do ombro. Não viu ninguém. Despejou o saco de terra num canteiro e saiu pela outra entrada. Ao virar a esquina, viu que a figura ainda o seguia à distância.
Quando os soldados entraram na livraria ele fez a única coisa que a sobrevivência lhe aconselhou: sorrira e dissera-lhe para levarem tudo o que quisessem.
A esperança que a vida iria melhorar com fim da guerra Europeia morrera nesse momento. Todavia, tudo piorara quando um governo extremista de aspirações megalómanas se apoderara do pequeno estado. Com o antigo país dividido em três, já não havia lugar para os livros que relembrassem que um dia houvera Portugal.
Haviam chegado munidos de uma lista e disseram-lhe para se manter calmo, que tudo correria bem. Prometeram-lhe até que o estado lhe daria uma compensação pelos danos. Haviam levado quatro em cada cinco livros.
Continuara a caminhar ao acaso pelas ruas até perder o vulto de vista, só depois retomou a sua rota.
Assim que chegou a casa, retirou as ferramentas que lhe pesavam horrivelmente e guardou-as na despensa. Pendurou o chapéu e casaco na entrada do piso térreo do edifício de três andares. Sentou-se no sofá e ligou o rádio para ouvir o resto da emissão.
– Cidadãos de Porto e Galiza, os nossos inimigos Portugueses tentaram mais uma vez atravessar a linha do Mondego com uma ofensiva traiçoeira. Ameaçando as nossas famílias e os nossos campos. Contudo, a heróica divisão blindada do Sul conseguiu repelir o ataque...
Só havia uma voz que odiava mais do que a do ministro da defesa: a do ministro dos assuntos internos. Sabia ser tudo propaganda para incitar ao ódio.
Com o pé de cabra levantou algumas tábuas do velho soalho. Retirou a folha amarelecida do topo. Era uma lista encriptada de todos os locais onde havia enterrado livros. Sorriu de satisfação, sem este pedaço de papel, só virando a cidade do avesso é que conseguiriam encontrá-los a todos. Nem mesmo Carlos se conseguia recordar dos cento e dois lugares que já usara.
– ...Iremos atacá-los sem piedade e mostrar-lhes que cometeram um erro grave. Quem diz que deveríamos esquecer as divergências e procurar a paz não é mais do que um agente do inimigo, infiltrado entre nós para plantar a dúvida no povo. Cidadãos, todos o que se opuserem ao nosso nobre propósito devem enfrentar as consequências dessa traição...
Nunca prestava atenção às palavras do governante, apenas ligava o rádio para ter a certeza que o vizinho de cima o ouvia e de modo a abafar os ruídos da sua actividade ilícita.
Anotou com cuidado o local com uma mistura ininteligível de números e letras. Por um momento, observou os nove livros que ainda lhe restavam. Agarrou no “Felizmente há Luar!” e envolveu-o com cuidado na película impermeável. Fixou as tábuas de volta e sentou-se de volta no sofá.
– ...Merecem a morte. Não podemos tolerar tal falta de nacionalismo! A pena será capital! Cidadãos de Porto e Galiza...
Ouviu-se uma sirene. Carlos levantou-se num pulo e desligou o rádio. Uma segunda e uma terceira tocaram também, num tom impossível de ignorar. Um ataque aéreo à cidade estava eminente.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A solução


O desfiladeiro aproximou-se. A maquilhagem estava toda borratada. Lá ao fundo, num mar revoltado e tempestuoso, estava a solução para os seus problemas. Já não havia lágrimas na sua face. Sentia uma calma como há muito tempo não desfrutava. Deu mais um passo em frente, ficando à beira do abismo. Debruçou-se sobre o oceano e olhou-o com atenção. Uma chuva miudinha começou a cair.

Ela sabia que era possível uma pessoa morrer por amor. Era um bom dia para isso voltar a acontecer. Não compreendia como é que ele a trocara por ela. Fosse como fosse, tinha de resolver o problema e iria fazê-lo naquele momento. Só havia uma coisa a fazer. Doía-lhe o coração só de pensar nas pessoas que iriam sofrer com a decisão dela. Se ainda fosse outra pessoa, ainda poderia esquecer ou ignorar. Desde sempre haviam sido as melhores amigas. Suprimiu as lágrimas e afastou-se da borda.

Abriu a porta do carro que estava parado a uma dezena de metros. Debruçando-se sobre o corpo da amiga libertou o travão de mão. O carro começou a descer o pelo terreno inclinado. Ela ficou a vê-lo precipitar-se pelo desfiladeiro.


Este conto foi escrito como desafio de um grupo de escrita.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A primeira vez

Fábio fora meticulosamente escrutinado pelo segurança antes de o deixarem entrar. Desde o momento em que colocara os pés naquela discoteca que se sentia nervoso. O fumo quase o deixava a chorar. Cada objecto daquele local gritava a palavra promiscuidade.
O sentimento de nervosismo era mais antigo que isso, vinha desde o momento em que decidira ir lá da última vez. Quisera ir sozinho. Quem mais o poderia acompanhar? Em algumas coisas, era melhor estar-se sozinho, e a noite numa discoteca chamada Orgulho era uma delas.
A vida era feita de escolhas e ele fizera a sua. Talvez não tivesse sido o melhor sitio onde começar, nem a sua escolha a mais acertada. Quem poderia saber?
Sem saber como agir, furou pelo meio da multidão que dançava freneticamente. Dirigiu-se ao balcão e pediu uma bebida. Qualquer bebida servia. Engoliu-a num trago e esperou que o líquido operasse a sua magia. Não tardou que bebesse uma segunda.
Num momento alguém se aproximou dele. Ele deixou. Precisava de sentir o toque. Precisava de algo que nunca tinha recebido. Precisava naquele momento.
Foram um tanto confusas as palavras trocadas. Saíram da discoteca juntos. O carro arrancou logo de seguida, conduzido a um apartamento. Foi levado a uma cama, as roupas voaram e, pela primeira vez, ele conseguiu aceitar-se tal como era.
Partilharam o prazer carnal como se o fim do mundo estivesse para chegar. Experimentaram até à exaustão.
No fim, ficaram deitados a olhar um para o outro. Fábio viu que dificilmente algum dia amaria aquela face barbeada e uns bons dez anos mais velha. Mesmo assim, dera-lhe algo que nunca tivera. De manhã seria outro dia e eles iriam separa-se como se nunca se tivessem conhecido.

Este conto foi escrito como desafio semana de um grupo de escrita.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O Duende


Naquele dia Carlos não conduzia o seu habitual carro de patrulha. Não estava de serviço, nem tão pouco poderia alguma vez explicar aos seus superiores o que tinha em mente para aquele fim-de-tarde. O sol ainda ai alto quando o quarentão saiu da esquadra para procurar o Duende.

É certo e sabido que os duendes são criaturas baixas, que andam por aí a assobiar, sempre prontos a pregar alguma partida, quais crianças travessas. Tudo isso era irrelevante, já que a única coisa que interessava aquele policia de meia idade era justamente o prémio que se obtêm quando se captura uma dessas criaturas. Se por acaso alguém lhe lesse os pensamentos naquele momento, iria certamente achar que estava na presença de um lunático.

Conduziu até à zona adjacente à zona de risco. Mais não se atrevia, pois conheciam a sua face e a última coisa que queria era ser apanhado por algum gangue. Enquanto fosse dia e se mantivesse neste bairro, não haveria problemas. Estacionou perto da escola e saiu do carro. Olhou em volta e com um ar confiante colocou os óculos escuros. Era a altura do espectáculo.

A qualquer momento os alunos iriam sair das aulas e com eles apareceria o Duende. Se o apanhasse, poderia finalmente pagar as duas prestações da casa que tinha em atraso. Fez o melhor que conseguiu para se fundir no ambiente e não chamar às atenções.

Num instante o pátio da secundária e a saída foram invadidos por uma multidão jovem. Carlos começou a entrar em pânico, o que lhe parecera fácil, estava a complicar-se a olhos vistos. O tentava perscrutar cada uma das faces, mas com tanto movimento, a tarefa era praticamente impossível.

Quando estava prestes a desistir, notou algo estranho pelo canto do olho. Um baixote, vestido com trapos coloridos e um chapéu esquisito. Passaria por uma criança em ponto grande ou um jovem com problemas mentais. Assobiava e caminhava alegremente em direcção à entrada.

O agente começou a caminhar na direcção do Duende, tentando parecer casual. Todos continuavam a desempenhar descontraidamente as suas rotinas e ninguém parecia ter ainda dado pela presença de ambos. Tudo pararia se soubessem a tensão daquele momento.

– Anda comigo, precisamos de falar. – ordenou Carlos, pegando o Duende pelo braço.

– Eu não fiz nada... – respondeu-lhe o jovem, entre o surpreendido e o assustado.

– Não te vai acontecer nada se fizeres o que te mando... – e aproximando-se do ouvido do rapaz, segredou-lhe – Estou armado, por isso não tentes nenhuma graçola.

O rapaz acenou afirmativamente com a cabeça. Tudo correra como previsto, pensou o polícia enquanto os dois se dirigiam ao carro, já que somente meia dúzia de pessoas se tinha apercebido.

– Ora bem, tu tens duas hipóteses. Primeira, tu dás-me o dinheiro do produto que andas a vender. Eu não te conheço, tu não me conheces e a história acaba bem. Segunda, a história acaba mal.

Felizmente para ambos, o Duende decidira pelo final feliz e assim Carlos pode pagar uma das prestações em atraso.


Este texto foi escrito como trabalho de um grupo de escrita.