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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Reabilitação

Felizmente, para a maioria, o processo não era longo. Uns dias e estava terminado. Quem ditava a necessidade de reabilitação eram os agentes do Estado. Uns sujeitos que vestiam fatos fora de moda e que imiscuíam em demasia na vida das pessoas. Tudo o que não estivesse nos conformes com o que se esperava dum cidadão exemplar podia ser punido. Esses agentes eram uma polícia que estava acima da polícia. Nem eles escapavam do controlo dos seus pares. Quem realmente os liderava, ninguém sabia ao certo, já que até o presidente e ministros podiam ser investigados.
Jorge viu-se no meio do processo numa manhã do fim de Julho de 2039, enquanto vendia cupões de alimentação, na rua de Santa Catarina. Um crime que não praticava por simples desobediência, mas por necessidade. Quando os agentes o abordaram, limitou-se a levantar os braços e fixar o olhar na calçada. Talvez não lhe dessem a pena mais pesada. Não houve juiz, nem advogados, nem sequer um julgamento. Mantiveram-no na cela minúscula durante um par de dias. Depois disso, obrigaram-no a entrar num camião com outra dezena de pessoas. Ninguém ousou trocar uma única palavra sobre o que se estava a passar. Talvez soubessem o que se ia passar. Jorge não sabia.
O camião percorreu quilómetros sem fim, até que, ao pôr-do-sol, chegaram ao acampamento. O recinto estava cercado de arame farpado. Não era claro se servia para impedir a entrada ou a saída. O silêncio imperava entre eles, como o aplicar de uma regra que não fora sequer enunciada. Foram distribuídos por casernas de madeira. Havia muitos mais na mesma situação.
Como refeição foi-lhes dado uma sopa insípida. Jorge estremeceu quando lhe colocaram um uniforme militar esburacado nos braços. Viu medo e resignação nos olhares dos outros. Também eles tinham compreendido o que os esperava. Com as roupas civis, desapareceu a esperança. Nos beliches não havia nem cobertores nem colchão, obrigando-os a dormir vestidos sobre as traves de madeira.
― Toca a levantar! A vossa reabilitação começa hoje! ― rugiu uma voz.
Jorge abriu os olhos. Ainda o Sol não tinha nascido. Mais uma vez, foram metidos em camiões. A viagem não foi longa. Pararam na encosta dum monte. Jorge contou cerca de uma centena de pessoas na mesma condição.
― A vossa reabilitação é simples ― explicou-lhes o sargento. ― Do outro lado da encosta há um rio e uma ponte atravessa esse rio. Quem chegar ao outro lado da ponte é livre e todos os seus crimes são esquecidos. Quem se acobardar é fuzilado. Boa sorte!
Depois passaram-lhe as armas para as mãos. A de Jorge deveria ter pelo menos uns cinquenta anos. Duvidou que sequer funcionasse.
O grupo subiu o resto do monte e quando chegou ao topo, viu que havia trincheiras escavadas por entre as ruínas de uma povoação. A cabeça do homem que estava a seu lado explodiu, numa mistura de osso, sangue e massa encefálica. Jorge atirou-se para o chão e os outros dispersaram de imediato, abrigando-se por detrás do entulho. Ouvia-se uma metralhadora ao longe. Sentiu a face húmida. Ao passar a mão, viu uma substância pastosa vermelha. A custo, conteve o vómito. Respirou fundo três vezes e correu para a pedra seguinte, vagamente consciente que o estavam a alvejar. Uns segundos depois atirava-se para a trincheira, onde se deixou ficar, ofegante. Como ele, a maioria tinha conseguido refugiar-se ali. No entanto, alguns haviam ficado para trás e parecia improvável que se voltassem a levantar.
― O que é que estão à espera? Avancem! Quem estiver nesta trincheira daqui a um minuto é fuzilado ― ouviu um militar ameaçar.
Hesitou. O coração aos pulos no peito. Apertou o cano da arma e galgou a extremidade de forma desastrada. A terra de ninguém não era extensa, mas não oferecia qualquer protecção. Duas dezenas de metros era o que os separava da ponte. Foram de imediato alvejados. Jorge não viu outra escolha que não fosse avançar e procurar a protecção da ponte. O som dos disparos desorientava-o. Houve quem saltasse para o rio. Outros tentaram atravessar a ponte por cima.
Ele não chegou tão longe. A primeira bala acertou-lhe acima do joelho, numa explosão de dor. A segunda no ombro, fazendo-o largar a arma. As três seguintes no tórax. O corpo avançou um par de passos e caiu para a frente, à entrada da ponte. A sua reabilitação terminara.


Foto: Ana Filipa Piedade

Este conto foi publicado originalmente no blogue Fantasy & Co.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Campo

Para além do muro ficava o campo proibido. E a bola de Fábio foi lá parar.
― Oh raios! Já é a terceira bola que vai lá parar este mês ― resmunga, atirando um cachaço ao Alberto. ― E a culpa é tua! Podias ter mais cuidado! Amanhã trazes tu a bola!
Fábio sabia que não podia passar para o outro lado e muito menos ir brincar lá. Todos os pais eram unânimes. Acontecesse o que acontecesse, não poderiam passar para além do muro. Era perigoso. Infelizmente, ao lado ficava o único local onde ainda podiam jogar futebol depois da escola.
― Grande bola! Era só um rolho de trapos ― defende-se o Alberto, tentando devolver a agressão de um modo desajeitado.
― Não interessa, quem estraga velho, paga novo! Amanhã trazes uma bola! São as regras! ― impôs o rapaz.
Os colegas acenam o seu apoio.
― Sabem que mais? Vocês são uns mariquinhas, eu vou saltar ao muro e buscar a porcaria da bola.
― Não tinhas coragem! ― espicaça o Hugo, o mais gordo.
― Já vão ver se tenho ou não. Vou lá buscar a bola e vou agora. Vocês, como são uns mijões, podem ficar aí à espera.
Dito isto, eleva-se para o muro, com a ajuda dos braços, apoiando os cotovelos e alçando uma perna. No instante seguinte desaparece do outro lado. Os colegas não deixam escapar o desafio e sobem também ao muro. Vêem a mesma imensa área que ninguém pisara durante mais de uma década. A erva crescia frondosa e pequenos arbustos tomavam conta do local. Já o tinham observado várias vezes, mas nenhum tivera a coragem de descer para o outro lado.
No meio da vegetação, Fábio procura a bola.
― Nunca percebi porque é que os adultos não nos querem aqui – questiona-se o Hugo. ― Isto é um sítio porreiro para tanta coisa!
― Se calhar havia aqui alguma coisa má e agora já não há – deduz o Paulo.
― Talvez, talvez…
― Olhem, o Alberto está lá em baixo e ainda não lhe aconteceu nada. Não podemos ficar aqui e deixar que ele goze connosco ― constata o Fábio.
O grupo salta para a terra de ninguém. Assim que pisam o tapete verde, riem-se. Iriam ter uma história para contar aos colegas no dia seguinte. Os mais velhos iam roer-se de inveja. Iriam ser os heróis da escola.
― Eu ouvi dizer que aqui foi a linha da frente durante a Grande Guerra Europeia, eles nunca conseguiram entrar no Porto ― explica o Carlos.
― Tchii, isso já foi há mais de dez anos. Será que há armas por aqui perdidas? ― imagina o Paulo.
― Às tantas…
― Se houver, eu aposto que…
Uma explosão corta o ar. O impacto da onda de choque é imediato. Os ouvidos ficam a zumbir. Vêem pedaços de terra, vegetação, e não sabem bem mais o quê, voar. Ouvem gritos estridentes. A trupe corre na direcção do som, detendo-se a alguns metros do amigo.
O choque é tal, que correm na direcção oposta. Nenhum deles hesita em abandonar Alberto. O único pensamento é galgar o muro em direcção à segurança. Ninguém jamais iria esquecer do corpo mutilado e desfeito do amigo.
Durante outra geração ninguém iria passar para além do muro.


Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Crítica: O Guarda-Livros

Este conto foi publicado em Maio e Junho de 2013 no Fantasy & Co. Enquanto escritor, foi um dos meu favoritos dessa fase, pois reflecte alguns dos meus receios para o futuro. Vou deixar-vos algumas das críticas que recebi.




E também a opinião de Inês Montenegro:


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Arraia

A noite desce sobre a serra como um manto, escondendo no seu âmago falésias rochosas e vales gelados. O vento assobia por entre granitos milenares. O quarto minguante da lua e as estrelas não deixam distinguir mais que algumas sombras.
Sou um desses vultos. Não sei quantos à minha volta serão reais. Parece que estou sempre a ouvir passos. Paro e olho para trás. Só o vento sopra. Estremeço e aperto o casaco contra o peito. Retomo a marcha, apoiado no cajado, caminhando tão rápido quanto a inclinação me permite.
Não faço ideia de quanto falta. A última refeição foi há dois dias. Tive sorte, o velho pastor para além de me dar janta e pernoita, ainda me deu indicações precisas do caminho a seguir. Não devo ser o primeiro que ele acolhe. Vi a foto de um rapaz pendurada ao lado de uma cruz. Trocamos um olhar e bastou. Não precisámos de dizer mais nada. Espero que nunca o descubram. Esforço-me por afastar esse pensamento da cabeça.
Deixei um bilhete na mesa da cozinha para a minha mãe. Apenas uma palavra: arraia. É o que precisa de saber. Como terá reagido? Talvez um dia o saiba. Espero que compreenda que não tenho outra escolha. Meio ano depois de o meu pai ter sido chamado, um tiro de morteiro deixou-o a uma distância que não pode ser vencida. Tiago, o meu irmão mais velho, foi dado como desaparecido faz este Natal um ano. O Vítor, o nosso vizinho de cima, ficou paraplégico numa derrocada. Parece que ainda lhe ouço os nocturnos, a fenderem a noite. E, como eles, tantos outros. Tinha de escapar. Não foi o mais brilhante dos planos, atravessar a serra no Inverno, no entanto o tempo estava a esgotar-se. Faço dezasseis anos daqui a um mês. Não deve demorar nem uma semana para que chegue a convocatória.
Chego ao topo da elevação. Ouço uivos à distância. O pastor tinha razão, não estou sozinho. A aldeia mais próxima fica a mais de dez quilómetros. Ninguém se aventura por aqui. Só cabras, pastores e a Divisão Hermínia. Avanço pelo meio das giestas, tão altas que me fustigam a face. As pálpebras pesam-me e os músculos doem-me, mas sei que se adormecer no meio deste frio, é possível que não acorde. Cada restolhar da vegetação faz-me saltar o coração. De acordo com o que o pastor me disse, devo estar nas Pedras Cruéis.
Os primeiros flocos batem-me nas pálpebras. Sou obrigado a parar num equilíbrio precário. Ergo os dedos gelados para proteger a face. Parece-me demasiado íngreme para descer. O fundo tanto pode estar a meio metro como a meia centena. O vento entra na roupa como se as costuras estivessem mal cosidas. Tremo ainda mais violentamente. Apalpo a roupa, sei que não tem muitos buracos. Volto atrás. De novo no topo, procuro a estrela polar. Segundo o velho, estou perto do ponto mais alto do país que se fragmentou há duas décadas. Aprendi na escola que Pena Tervinca passou a ser o mais alto.
Sigo pelo meio das urzes, a tentar evitar o vento. A minha atenção prende-se no piar de uma coruja vindo de uma árvore próxima. A vegetação agita-se. Sustenho a respiração. Um vulto veloz desaparece à minha direita. Aperto mais o cajado. Não sei se o conseguia soltar com os dedos assim enregelados.
Foi há dois meses que passámos a usar a velha Ponte Dona Maria. Nem tivemos outra escolha: a do Infante foi atingida num bombardeamento. Tivemos sorte: o nosso prédio foi dos poucos que escapou intacto. Quem me dera estar no quente da cozinha.
Quando a lua atinge o seu zénite, encontro-me à beira de um lago. Ao ver a água, apercebo-me da garganta seca. Mergulho a mão no líquido glacial e levo-a à boca. O frio espalha-se-me pelas entranhas. Recomeço a tremer. Bebo mais uma vez.
Passos ressoam nas pedras. Ergo-me e tento voltar à vegetação. Tropeço e caio num zimbro. Esbracejo para me libertar e, quando o consigo, escondo-me nos arbustos. O coração está a galope. Sustenho a respiração. Será que estou a imaginar coisas? Afasto-me dali o mais rápido que consigo. Os ramos castigam-me a cara. Não sei onde pára o cajado.
Quando dou por mim, estou no topo de outra elevação. Dor de burro, cortes nas mãos e na cara. Nada de grave. Cruzo os braços sobre o peito, apertando a roupa contra o corpo. A neve continua a cair, os flocos a acumularem-se sobre tudo. Ergo o olhar. Luzes ao fundo. O que serão? É melhor evitá-las, não vou arriscar. Por cima deste frágil manto branco que me envolve, uma nuvem cobre a lua.
– … não faço ideia – diz uma voz masculina.
Encolho-me no meio da vegetação.
– Nunca pensaste nisso? Dos que passam pra lá do rio, nenhum volta… Achas que se escapam disto? – devolve outra voz.
Os passos aproximam-se.
– Pensa lá um pouco… O que é que a gente faz quando apanha um Asturiano deste lado? Hã?…
Param quase colados a mim. Uma luz. Um cigarro é aceso. Consigo distinguir a sombra das armas. Estou demasiado perto. Respiro muito devagar. Os soldados partilham a mortalha em silêncio. As articulações doem-me. Não posso mexer um único músculo. Atiram a beata e esta aterra mesmo à minha beira. Deixo-os sumirem-se na noite antes de me mover novamente. Mal me consigo mexer.
Por sorte, encontro uma abertura perto, coberta de arbustos que afasto de modo atabalhoado. Cada movimento é uma tortura. Quando é que foi a última vez que dormi uma noite completa? Este recanto diminuto terá que servir. Deixo-me cair para o interior e encolho-me em posição fetal. O frio da rocha atravessa a roupa. Pelo menos aqui o vento não chega. O meu tremer é tão violento que se deve ouvir a metros. Não sei se vou conseguir dormir.
Na cozinha está-se bem. A mãe serve-me um prato de sopa, enquanto sorri. Diz-me que a ditadura e a guerra acabaram. Não me passa pela cabeça dizer-lhe que estava a pensar fugir no pico do Inverno. Sujeito a morrer nalgum buraco, perdido entre as patrulhas dum lado e do outro da arraia. Mergulho a colher na sopa e trago-a à boca. Sinto calor invadir-me o corpo, como o raiar da luz matinal. Até que enfim! Já não se sinto a tremer. Ainda bem, não deve faltar muito para o nascer do sol.


Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Rios de Sangue - Parte 2/2

Podem ler a primeira parte deste conto aqui.

Com a ajuda do companheiro, colocou o Zé às costas e seguiu pelos túneis, todo dobrado, para que nenhum deles pudesse ser atingido do exterior. Cada passo era doloroso. Zé murmurava coisas sem sentido. O sangue do colega ia-lhe ensopando a roupa.
― Aguenta-te pá, já estamos a chegar ― encorajou-o.
Ao chegar ao fim da trincheira, soube o que desafio estava prestes a iniciar-se. Teria de percorrer um quilómetro no meio de um ataque para chegar ao hospital. Os cozinheiros e os estafetas faziam o mesmo caminho todos os dias, mas nunca de dia. Isto equivalia a pintar um alvo nas costas. Estremeceu antes de meter o pé na escada.
A partir dali, mexeu-se o mais depressa que o peso lhe permitia. Os disparos multiplicavam-se nas suas costas. Nenhum parecia apontado para eles. Tanto pelo que sabia, bastava um. As costas doíam-lhe. Sentiu as pedras debaixo do pé moverem-se. No momento seguinte, estava em queda. O embate com o entulho expulsou-lhe o ar dos pulmões. O Zé aterrou ao lado dele.
Deixou-se ficar no chão. Estava farto desta guerra. Bastava uma bala e isto acabava. Quase ninguém conseguia cumprir o tempo de serviço com vida ou sem uma lesão permanente. Mais valia ficar ali e esperar pelo inevitável.
Veio-lhe uma lágrima ao canto do olho. A mãe iria chorar quando soubesse. E a doce Leonor também. Era demais, já não bastava a mãe ter perdido o marido e a irmã o pai naquelas margens amaldiçoadas, agora iriam perder o filho e irmão. Ou talvez dois filhos e dois irmãos. Não sabia onde andava o Francisco. Ninguém sabia. A divisão dele nunca parava no mesmo sítio.
Ouviu um gemido a seu lado. Era o Zé. A família nunca o iria perdoar se o deixasse morrer aqui. Ergueu-se, tentando não pensar na batalha que se desenrolava nas suas costas. Pegou o colega ferido ao colo e retomou o caminho. Um pé à frente do outro, foi subindo o monte. As feridas do companheiro eram profundas e o sangue corria em demasia. Apressou o passo, já se via o topo do monte. Faz um esforço, quase atingindo o passo de corrida. No cimo da elevação já se vêem o centro de comando, as artilharias, o paiol e o hospital, que não são mais do que o aproveitar das construções da antiga vila.
Um par de minutos e estava no hospital. Já tinham passado várias semanas desde que ali tinha estado. As camas encontravam-se sobrelotadas e os médicos não tinham mãos a medir. Não conseguia sequer ver as enfermeiras. Estendeu o Zé sobre uma maca. Ninguém pareceu dar de conta que chegaram.
― Alguém me ajude. Ele foi atingido por um morteiro ― protestou, em voz alta.
Por fim um dos médicos aproximou-se.
― Não é preciso gritar ― reclamou, observando o soldado. ― Pode ir, eu trato dele.
Roberto saiu, mas deixou-se ficar por ali. Já não se ouviam os disparos. Parecia que a investida terminara. Não vale a pena perguntar como é que terminou, tudo aparentava ter voltado ao normal. Excepto para os que não irão ver outro dia.
― O que é que o soldado está aqui a fazer? ― perguntou-lhe um oficial.
― Tenente ― fez-lhe continência, depois de se levantar à pressa. ― Vim trazer um companheiro ferido.
― E o que é que está à espera para voltar ao seu posto?
― Estou à espera do anoitecer ― constatou, não percebendo como é que não era óbvio.
O homem afastou-se sem lhe responder. Era provável que estivesse atarefado com qualquer coisa.
Ao pôr-do-sol, o médico veio ter com ele. Trazia uns papéis na mão.
― Entregue isto ao comandante do seu pelotão ― ordenou, virando logo costas.
Assim que ficou escuro, pôs-se a caminho junto com o cozinheiros. O passo era mais lento que os restantes e acabou por ficar para trás. Quando chegou, já a comida tinha sido distribuída. Não se preocupou, foi direito ao abrigo do tenente.
― Onde é que raio estiveste? ― inquiriu, aproximando-se da sua face.
― Levei o Zé para ser assistido ― respondeu, passando-lhe os papéis.
O tenente era mais novo, mas tinha chegado àquela posição por ter frequentado o colégio militar.
― Era só o que mais me faltava ― comentou, passando os olhos pelo formulário. ― Outra baixa. Estás dispensado.
Roberto voltou para a trincheira. Sentou-se ao lado de Fábio, que lhe passou a malga da sopa para a mão. Trocaram um olhar. Não precisava dizer-lhe que não voltariam a ver o Zé.


Este conto foi publicado originalmente no blogue Fantasy & Co.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Rios de Sangue - Parte 1/2

O dia estava calmo e o sol perto do Zénite. Para além do bombardeamento matinal e alguns tiros de aviso, não acontecera nada digno de nota. Para Roberto, fulcral era manter a cabeça abaixo da linha do solo. Tudo o resto eram detalhes.
Não havia muito para fazer, por isso, dedicou-se a desmontar e limpar a arma. O maior inimigo tinha duas armas: a morte e o aborrecimento. A transição entre uma e outra era brusca e nefasta. Tanto passavam dias aninhados naquelas poças de lama a morrer de doenças tratáveis, como em semanas de combates intensos. Uns e outros vinham e iam sem qualquer aviso. A fome e o sono eram como a paisagem, contribuíam só para o desconforto geral e já ninguém se queixava deles.
O som da metralhadora quebrou a monotonia e não anunciava nada de bom. Voltou a montar a arma e a carregá-la o mais rápido que pôde. Tinham sido eles a disparar, o que significava que o inimigo estava de novo a tentar atravessar o rio.
― E aqui vamos de novo ― comentou Igor, que se aninhara a seu lado.
Mais disparos. Ambos sabiam que não era boa ideia espreitar. Ao contrário de alguns, eles tinham tido miolos suficientes para não perderem a cabeça desse modo.
― O que se passa? ― gritou para os colegas da trincheira ao lado.
― Mais um ataque, nada de especial ― respondera-lhe de imediato.
O morteiro caiu a uns passos deles. A onda de choque derrubou-o, fazendo-o cair na lama. Um zumbido persistente apoderou-se-lhe dos ouvidos. Uma inspecção rápida mostrou-lhe que não estava ferido. Umas quantas assim e ficaria surdo. Igor já se havia recomposto. O Zé vinha da latrina e o Fábio do abrigo.
― Onde é que vocês estavam? Já perderam o início do fogo-de-artifício ― gozou Igor, atirando um murro no ombro do Zé.
Estes vinte metros estavam por conta deles. À frente ficava a terra de ninguém. Vinte metros de desolação até ao rio. As ordem eram simples: acontecesse o que acontecesse, nenhum inimigo podia jamais desembarcar.
As munições de artilharia continuavam a chover por ali. Umas mais perto que outras. Se tivesse escolha, preferia ficar nos abrigos individuais, onde o risco de ser atingido era mínimo. Eles separaram-se, indo cada um para o posto, uma saliência na vala. Por esta altura, já Igor estaria a usar o seu espelho para ver quem lá vinha. Olhou para arma. Esta lata podia ser do tempo da União Europeia, mas ainda funcionava bem. A primeira vez que encravasse podia ser o último dia da sua vida.
― Más notícias, pessoal. Eles estão a levar barcos até à praia. Não tarda que tentem atravessar ― gritou Igor, fazendo-se ouvir por cima do barulho dos disparos.
Ao longo dos anos, tinham havido centenas de investidas de ambos os lados, todas com o mesmo resultado: nenhum. Não fazia diferença quantos homens e recursos usavam. Ser destacado para um ataque era uma sentença de morte. Tanto que a expressão, que te escolham para a próxima investida, já se tornara um dos piores insultos. O pior eram os bandos de corvos que se banqueteavam nos corpos abandonados na terra de ninguém. O croquitar constante afectava até mesmo os que tinham nervos de aço.
Apesar de estarem no meio de uma ofensiva, a maior parte do tempo só podiam esperar. Uns segundos de acção e estava tudo acabado, de uma maneira ou de outra.
Outro salvo de artilharia atingiu as posições. Um dos projécteis caiu tão perto que sentiu a onda de choque nos ossos. O zumbido nos ouvidos parara por completo. Não ouvia nada. Apercebeu-se que aquilo explodira na borda da trincheira. Era raro acontecer e nada bonito de ver. O coração falhou uma batida. Caíra perto do Igor. A terra desabara naquele ponto, misturada com pedras. Viu Fábio do outro lado. Onde estava o Zé? Distinguiu um braço mutilado no meio do solo. Aproximou-se, percebendo que o resto do dono já não estava presente. A pouco foi encontrando outros pedaços ali perto. Igor não tinha salvação. O Fábio estava tentar desenterrar algo. Foi ajudá-lo. O Zé estava bastante maltratado, mas vivo. Trocou um olhar com Fábio. Ambas as alternativas eram arriscadas.
― Eu levo-o ― ofereceu-se Roberto.


Podem encontrar a segunda parte deste conto aqui.

Este conto foi publicado originalmente no Fantasy & Co.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Camp Nanowrimo: Abril de 2016 - Dia 1: O Início

Acabou de começar a primeira edição deste ano do Camp Nanowrimo.


Como vos falei aqui, decidi  juntar-me ao desafio, mesmo sem ter uma história delineada. O plano era escrever duas novelas, com cerca de 20000 palavras cada. No entanto, no último momento, optei por continuar o policial que andei a escrever no Nanowrimo anterior, O Jarro de Porcelana. A tarefa não ficou muito mais simples, visto que não tenho tido grande contacto com a história nos últimos tempos.

A meta a que me proponho são as 45000 palavras, que penso dar para terminar o livro. Caso ainda me faltem escrever algumas, irei criar mais alguns contos para o meu universo Era Dourada ou Porto e Galiza.

Assim sendo, às 7 da manhã meti mãos à obra. Aproveitei o tempo que tenho antes do trabalho para me levantar mais cedo e tratei de adiantar a minha contagem. Escrevi cerca de 500 palavras. Planeava escrever durante a hora de almoço, o que acabou por não acontecer e assim, quando cheguei a casa, consegui juntar cerca de 300 à conta, perfazendo um total diário de 813. Este valor é bastante abaixo da minha meta diária de 1500. Amanhã é Sábado e penso ser fácil recuperar.

E por hoje é tudo!

domingo, 29 de novembro de 2015

Chá de Domingo #58: Balanço do Nanowrimo 2015

Está na hora de irem buscar a vossa caneca, sentarem-se no vosso cadeirão favorito e desfrutarem do chá domingueiro.


Este mês aconteceu no Nanowrimo. Como é habitual, a edição de 2015 contou com milhares de escritores, que durante este mês se propuseram escrever um livro. Não interessa o género, não interessa se são famosos ou se nunca passaram da gaveta, nem tão pouco que escrevem à mão ou preferem o computador. 

Este ano, foi particularmente bem-sucedido. Rescrevi quase metade do Jarro de Porcelana e ainda lhe adicionei alguns capítulos. Em termos de contos, no universo Era Dourada, escrevi dois: O Mineiro e O Sentinela. O Mineiro está a ser publicado, por parte, no blogue Fantasy & Co. Para O Sentinela ainda não tenho um destino. No universo, Crónicas do Porto e Galiza, escrevi cinco contos e fiquei a meio de um sexto: O Campo, Memórias de Infância, Rios de Sangue, A Reabilitação e O Mais Belo Presente de Natal. O que ficou a meio tem o título provisório O Ministro. Ainda não tenho planos concretos para nenhum destes contos. É possível que faça um ebook com uma compilação de histórias deste universo para oferecer aos meus leitores no Natal.

À semelhança de 2012, consegui terminar uns dias antes do prazo. Uma das diferenças entre este e os outro anos foi a estratégia de me levantar mais cedo. Devo admitir que é bastante duro de se fazer, mas que a hora extra compensa bastante. Excepto as últimas 300 palavras, nunca escrevi no escritório. Tive bastantes alto e baixos. O dia em que escrevi menos foi o décimo, com 178 palavras, e o em que escrevi mais foi o vigésimo primeiro, com 4239 palavras. A média andou pelas 1853 palavras, portanto um pouco abaixo da meta de 2000 palavras a que me tinha proposto.

Para finalizar, os agradecimentos. Gostaria de agradecer à minha esposa pela compreensão que teve durante este mês e ao Pedro Galvão por toda a ajuda que me deu. 

E até para o ano!

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Nanowrimo 2015: Dias 22 a 24: A Recta Final!

Cheguei ao ponto em que o o objectivo está apenas a um pequeno passo.


Embora o Domingo não tenha sido tão produtivo como desejava, consegui dar um avanço considerável. Assim sendo, no dia 22 escrevi 1690 palavras, no dia 23 1720 e no dia 24 fiquei-me pelas 1076. O total está em 47469 palavras. Se comparar a 2014, estou quase 9000 palavras adiantado, apesar de estar ligeiramente atrasado em relação à meta que defini.

Aproveitei o último dia do fim-de-semana para avançar um pouco nos contos. Estão a ser arrancados a ferros! Consegui terminar um deles, mas receio que não irei conseguir fazer o mesmo com o outro. Noto que escrever pela primeira vez os capítulos adicionais é muito mais lento que rescrever. Nada que já não antecipasse, mas que se reflectiu nas contagem diárias. O facto de ter conseguir preparar os guias dos capítulos ajudou a que a quebra não fosse taça grande.

A faltar um pouco mais de 2500 palavras, irei continuar com a escrita do Jarro de Porcelana. Espero conseguir terminar nos próximos 3 dias. Até breve!



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Nanowrimo 2015: Dias 7 a 9: Altos e Baixos!

O Nanowrimo é isto mesmo: altos e baixos! Uma autêntica montanha russa emocional, pelo menos para o escritor.


Se bem se lembram, estava umas 2000 palavras atrasado na minha última actualização. Com uma média de 2855 palavras por dia, voltei a estar sem atrasos. No Sábado escrevi 3061, no Domingo 2851 e na Segunda-Feira 2653. Tenho menos umas 1000 que no ano passado.

Dediquei-me na maioria do tempo à reescrita dos primeiros capítulos do Jarro de Porcelana. Tenho continuando os dois contos pendentes, que ainda estou muito longe de terminar. A reescrita é um pouco mais rápida que a escrita da primeira versão. Eu obrigo-me as teclar cada uma das palavras de novo, acabando por modificar todas as frases. É um bom método de revisão, embora não o esteja a fazer com esse intuito.

A minha estratégia continua a ser levantar-me cedinho e dar um bom adiantamento, terminando à noite, depois do trabalho. Admito que é extenuante, mas não conto ter este ritmo o ano inteiro. Ainda não fim o novo plano, ando à espera de ter tempo. Terei de o fazer, visto que o que tenho só vai até dia 17.

Nos próximos dias vou continuar a reescrever O Jarro de Porcelana, mantendo uma vaga esperança de terminar os dois contos pendentes.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Nanowrimo 2015: Dias 4a 6 - O primeiro percalço!

E o Nanowrimo continua!


O dia 4 correu como o normal, rendendo-me 1991 palavras. Na quinta-feira senti-me doente e não consegui dar o devido rendimento e hoje ainda estou a recuperar. Estou umas 2000 palavras atrasado em relação ao ano passado.

Continuo de volta aos contos. Continuo a levantar-me às 6 da matina, hoje foi o único dia em que não fiz para poder descansar do dia de ontem. O avanço inicial todas as manhãs ajuda bastante. Assim, quando chega à noite, já tenho uma boa porção feita e custa muito menos chegar ao total programado. A minha média horária está muito acima das 500 palavras, é como se continuassem em ritmo de Word War.

Terminei mais três contos, que pertencem todos ao universo das Crónicas de Porto e Galiza. Ainda tenho que explorar muito neste mundo. Tanto que comecei mais dois contos, que ando a escrever aos solavancos. Ainda faltam pontas para atar no universo da Era Dourada, mas decidi deixar para mais tarde, quem sabe daqui a alguns dias ainda neste Nanowrimo. O interessante foi que os contos ficaram quase todos acima do limite de palavras que tinha previsto, o que não costuma a acontecer quando estou a escrever sobre pressão.

Nos próximos três dias espero terminar estes dois contos e começar a reescrever alguns capítulos do Jarro de Porcelana. Creio que terei de fazer um novo plano em breve, mas vou adiar até recuperar o atraso. Espero que este fim-de-semana seja produtivo.

sexta-feira, 20 de março de 2015

O Poeta - Parte 2 de 2

Podem ler a primeira parte aqui.


Os olhares não duraram mais do que um doloroso par de segundos. Já os jovens haviam perdido o interesse nele há alguns momentos e o coração ainda batia descompassado.
Vagueou ao acaso, tentando absorver o máximo desta realidade. As novas bandeiras faziam-lhe confusão. Ardia em curiosidade para saber o que acontecera, mas tinha receio de, ao perguntar, ser tomado como estrangeiro. Para além disso, não conversara com ninguém durante mais de uma década.
Recordou-se da última vez em que trocara impressões com o filho. Fora algures no início da década de vinte. Como era normal, ele deixara-lhe o almoço numa travessa à entrada do sótão e batera na madeira sólida. Ao abrir a porta, depara-se com um jornal ao lado da refeição.
― Tiago!
Ele voltara atrás, de olhar surpreendido.
― Obrigado pela comida ― agradeceu o idoso, acalmando-se.
― De nada, pai. Há alguma coisa de errado?
― Tiago, preferia que não me trouxesses jornais. Não me quero distrair com essas coisas. Quero conseguir concentrar-me totalmente na escrita.
― Desculpe, pai, não volta a acontecer ― ripostou o homem de meia-idade, voltando costas e desaparecendo sem esperar por uma resposta.
Depois do 11 de Setembro e do clima de Guerra Fria instalado contra um inimigo invisível e inventado pelos soberanos, Manuel perdera o interesse nas notícias. Os jornais diziam todos os dias o mesmo, interesses e interesses, excepto os seus.
Algo atraiu a sua atenção. Do outro lado da estrada havia uma livraria. Sem pensar duas vezes, atravessou a antiga faixa de rodagem, agora coberta com calçada portuguesa, e entrou no estabelecimento. Esforçou-se para mostrar um tom neutro enquanto procurava com o olhar a secção de História.
― Muito bom dia ― cumprimentou-o o lojista.
O coração falhou-lhe uma batida. Não esperava ser interpelado tão prontamente. O sotaque era-lhe familiar, mas não o que esperava de um habitante da Invicta.
― Bom dia.
O empregado, quase tão velho como ele, franziu o sobrolho.
― Em que posso ajudá-lo?
― Tem algum volume da história recente de Portugal?
O comerciante arregalou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir algo escandaloso.
― Desculpe, mas não temos nenhum livro desse género.
Pela segunda vez nesse dia, o maxilar descaiu-lhe. Nunca antes havia estado numa livraria em que não houvesse uma secção inteira dedicada ao tema.
― Podia ter a bondade de me indicar onde se situa a prateleira de História?
Sem mais uma palavra, o homem apontou para um dos cantos da loja. Manuel mancou até lá, sem se atrever a quebrar o silêncio. De toda a estante, só metade de uma prateleira é que era dedicada a História. As lombadas não deixavam margem para dúvidas, Portugal já não existia. Nenhum livro do quarteirão disponível abordava outro assunto que não fosse a História de Porto e Galiza.
Abandonou o estabelecimento sem sequer agradecer. Procurou regressar a casa pelo mesmo caminho, precisava de retornar ao seu refúgio. Concentrado em colocar uma perna à frente da outra sem forçar demasiado os joelhos, não reparou nos dois homens que se aproximavam.
A colisão atirou-o ao chão. Os óculos saltaram e a visão ficou turva. Os dois vultos permaneciam à sua frente.
― Peço imensa desculpa ― amenizou, enquanto os dedos procuravam os óculos.
Sentiu a haste com o dedo mindinho. Puxou a armação e colocou-a sobre o nariz, recuperando a sua visão normal. Como duas torres, os dois homens vestidos com um fato quase tão antigo como o seu, observavam-no com ar de poucos amigos.
― Mostre-nos a sua identificação ― exigiu o mais alto.
― Não tenho nada ― balbuciou a tremer.
― Então vai ter que nos acompanhar até à Direcção Regional dos Assuntos Internos. Vá levante-se ou temos que o arrastar à força? ― rugiu um deles, estendendo a mão e agarrando-o pelo colarinho.
Os dois agentes conduziram-no à bruta pelas ruas até chegarem ao que Manuel recordava ser uma antiga esquadra da PSP. Sem cerimónias ou explicações, fecharam-no numa das celas.
***
Sentado na cadeira e apoiado na bengala, Manuel esperava que Tiago regressasse à cozinha. Quando este transpôs a entrada, recebeu-o com um olhar de cachorro submisso.
― Desculpa…
O filho fitou-o com uma expressão indecifrável, suspirando de seguida.
― Não percebo, juro que não percebo! ― exasperou-se, abanando a cabeça.
― Eu estava bloqueado, não escrevia nada há dias…
― Mas sair assim de casa? Sem sequer avisar? Os tempos mudaram, o nosso país já não é o mesmo. Não se pode andar pela rua sem os documentos. Aliás, o pai não pode sequer abrir a boca que vão notar que tem um sotaque diferente. O pai passou demasiado tempo fechado naquele sótão. Outra coisa que não percebo ― despejou, acabando por se sentar em frente ao pai, ofegante, como se tivesse realizado um grande esforço físico.
― Eu queria criar a maior obra da língua portuguesa…
― Essa língua já não existe, pelo menos deste lado do Mondego. Nunca devia ter permitido que passasse tanto tempo trancado naquele cubículo!
Os olhares cruzaram-se, o de um velho cansado e de um quarentão zangado.
― Valeu a pena? ― perguntou o filho.
― Como? ― admirou-se Manuel, arregalando os olhos.
― Conseguiu escrever a obra que tanto ansiava?
O idoso fitou a ponta dos sapatos, sem se atrever a levantar a cabeça.
― Não ― confessou uns momentos depois. ― E acho que nunca a irei terminar. Queria honrar uma nação que já não existe. Não só a nível soberano, territorial ou linguístico, mas aquela ideia que permaneceu durante mais de 800 anos, de um país uno que deu novos mundos ao mundo. Sem isso não vale sequer a pena terminar.
A tremer, levantou-se da cadeira, quase num esforço sobre-humano. A velhice apoderara-se dele. Olhou o filho e deu-lhe o seu melhor sorriso. Abraçaram-se por fim.
― Desperdicei vinte anos da minha vida por isto. Devo ser o maior idiota que existe mas, pelo menos, aprendi a minha lição. Espero que me perdoes…
A expressão de Tiago deixou-o mais sossegado. Não eram necessárias palavras. Depois encaminhou-se para o seu sótão, disposto a queimar tudo, até à última folha.


segunda-feira, 16 de março de 2015

O Poeta - Parte 1 de 2

Manuel desenhou as letras na folha. Quatro de Março do ano da graça de 2032. Fixou o papel e as palavras não lhe vieram. Pousou a caneta e levantou-se da cadeira, abandonando a folha meio escrita, fruto das tentativas do dia anterior. De súbito, ao voltear com a sua bengala no reduzido quarto nas águas furtadas, o refúgio das duas últimas décadas pareceu-lhe uma prisão.
Mirou a porta por onde o filho lhe trazia três refeições por dia, uma resma de papel e duas canetas por semana. O olhar desviou-se para a janela, por onde observara as revoluções e batalhas dos últimos anos sem grande interesse. Recusara televisão, rádio e até mesmo jornais, ambicionando escrever a maior epopeia portuguesa de sempre.
Largou os chinelos e procurou uns sapatos no armário. Abaixou-se a custo, os joelhos e costas já não lhe obedeciam como outrora. Removeu as teias de aranha da primeira caixa e abriu-a, encontrando os seus velhos sapatos castanhos de camurça. Longe estavam os dias em que leccionara literatura clássica na Universidade. Num impulso, despiu a roupa gasta e tentou vestir o fato castanho que usara diariamente. Ficava-lhe muito apertado, o que o surpreendeu, pois não se sabia tão gordo. Completou a indumentária com a mesma gravata azul escura de sempre.
Em passo decidido, aproximou-se da entrada. A mão deteve-se ao tocar no puxador, apercebendo-se que não sabia nada sobre o que estava para além da porta. Vieram-lhe à memória os soldados e tanques na rua, os bombardeamentos nocturnos. Não fazia ideia sequer se não haviam sido invadidos pela Alemanha e se ainda seria possível falar português na rua. Sorriu e abanou a cabeça. Achou o pensamento absurdo. Quando se decidira fechar ao mundo, Portugal afundava-se com uma enorme dívida, mas com certeza não era razão suficiente para que as pessoas falassem alemão na rua.
As falanges dos dedos fecharam-se em torno do puxador. O trinco soltou-se e uma brecha surgiu. A porta entreabriu-se lentamente. Nos últimos vinte anos, nunca fora mais longe. Perdera a conta às vezes em que recuara com as escadas sombrias já à vista. Empurrou a pesada estrutura de madeira e meteu o pé direito no primeiro degrau. Os joelhos rangeram e uma dor atravessou-lhe a tíbia. Segurou-se ao corrimão com a mão esquerda e apoiou a bengala. A custo repetiu o processo, descendo lentamente até ao corredor mal iluminado.
As paredes cobertas com tinta amarela meio descascada e adornadas por candeeiros que mais pareciam peças de museu continuavam fiéis à sua memória. Avançou, tão rápido quanto a sua condição lhe permitia, até ao lanço de escadas seguinte. Não encontrou ninguém. Uma vez no rés-do-chão decidiu resistir ao impulso de bater à porta do filho, dirigindo-se à entrada do prédio.
Ao pisar as lajes brancas, as pernas começaram a tremer. Relembrou um dos primeiros dias de Janeiro de 2012 em que entregara uma pasta cheia de papéis ao filho.
― Deixei-te tudo como herança ― dissera-lhe. ― Quero dedicar-me à escrita a tempo inteiro e só te peço que me tragas comida três vezes ao dia, uma resma de folhas e duas canetas por semana.
Ele lançara-lhe um olhar de incredulidade.
― Eu sei o que estás a pensar ― interrompeu o seu descendente antes que este ripostasse. ― Não há nada que me possas dizer que me irá convencer. A minha decisão é final!
De volta ao presente, atento à rua. E pela primeira vez notou o silêncio. Esta parecia-lhe igual, com excepção do tráfico. Não passava um único carro na que fora uma das avenidas mais movimentadas do Porto.
Saiu. Os sapatos pousaram sobre a calçada. O piso irregular trouxe-lhe sentimentos agridoces. Quisera ser o maior poeta que Portugal alguma vez criara e acabara por se fechar durante vinte anos. Não se conseguia reconhecer.
Caminhou pela rua. Havia poucos transeuntes àquela hora e todos pareciam atarefados com qualquer trabalho. Deviam ser umas nove da manhã e a maioria deveria estar no trabalho. Saiu da sua rua, chegando ao que fora a rotunda da Boavista. Piscou os olhos, deixando o maxilar descair: o monumento dera lugar a sacos de areia empilhados que protegiam várias peças de artilharia. Rapazes, pouco mais que garotos, estavam em sentido em frente às armas. Um deles observava o céu com binóculos e o mais velho, que tinha uma farda diferente, passava em revista a guarnição.
Havia algo de familiar naquela organização. Já vira expressões semelhantes. Recordou-se então do dia em que o pai o levara a ver um desfile. Talvez tivesse uns oito anos, não sabia ao certo. Decerto acontecera no início dos anos setenta.
A rua estava cheia, todos queriam ver os seus filhos. O membro mais avançado levava uma enorme bandeira de Portugal. Todos caminhavam vestidos com os mesmos uniformes de aspecto militar. Seria, provavelmente, uma das últimas pessoas vivas que assistira a uma marcha da Mocidade Portuguesa.
Ao olhar para a instalação militar uma lágrima correu-lhe pelo canto do olho. Nem sequer a bandeira hasteada no ponto mais alto da base era a mesma. O escudo era semelhante, mas as cores eram diferentes, apesar de estranhamente familiares. Branco e azul claro.
― Galiza! ― exclamou, atraindo as atenções do pelotão.


Podem ler a segunda parte aqui.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Em breve mais um presente de Natal....

Em breve haverá mais um presente de Natal para os meus leitores:


Irei disponibilizar este livro para download gratuito entre o dia 24 até ao dia 31 de Dezembro de 2014. Incluí sete contos do meu universo ficcional "Porto e Galiza", um dos quais inédito. Haverá também um passatempo cujo o prémio será um exemplar do meu livro "Caderno Vermelho".