sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Livros: A Hat Full of Sky

Um autor que me consegue sempre surpreender.


Autor: Terry Pratchett
Sinopse: Tiffany Aching, a hag from a long line of hags, is trying out her witchy talents again as she is plunged into yet another adventure when she leaves home and is apprenticed to a real witch. This time, will the thieving, fighting and drinking skills of the Nac Mac Feegle the Wee Free Men be of use, or must Tiffany rely on her own abilities?
This is the third novel in the junior Discworld series that started with the enormously popular tale:The Amazing Maurice and His Educated Rodents.



Em certos livros, vejo-me na obrigação de fazer uma crítica que esteja a par com a qualidade do livro. Este é um dos casos. Até agora, o único arrependimento que tenho em relação ao Terry Pratchett é não ter começado a ler os livros dele mais cedo.
Passando à crítica propriamente dita, tendo em conta que este livro foi escrito para um público mais juvenil, a personagem principal está muito bem construída. As personagens que a rodeiam, apesar de ocupar os lugares arquétipos normais,de algum modo acabam por subverter esse papel. Um bom exemplo disso são os Wee Free Men, as fadas que de fada não tem nada. A trama avança a um bom ritmo e com um humor contagiante e inteligente, como o autor nos habituou. Há voltas e reviravoltas, todas acessíveis ao público alvo. Para além disso, está escrito de tal maneira que agrada também a leitores mais crescidos.
Recomendo vivamente a todas as idades!

Classificação: 5 estrelas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Balanço dos passatempos - Fevereiro 2014

Como devem ter reparado, foram lançados vários passatempos em que o prémio era uma exemplar autografado do "Caderno Vermelho".


Aqui no blogue, ofereci um exemplar entre os dias 2 a 23 de Janeiro. Podem saber mais aqui. O vencendo foi o Alípio Vieira Firmino de Gondomar, que já recebeu o seu exemplar.
No blogue FLAMES MR, também foi oferecido um exemplar entre os dias 10 e 24 de Janeiro. Podem saber mais aqui. O vencedor foi o André silva que também já recebeu a sua cópia autografada.
Para quem participou nestes dois passatempos e não ganhou, ou até se esqueceu de todo de participar, podem ainda habilitar-se a ganhar o último exemplar a ser sorteado no blogue Bloguinhas Paradise. Saibam mais aqui. Despachem-se, o passatempo termina já dia 8 de Fevereiro!

Fiquem atentos, em breve haverá outros passatempos!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Livros: Samurai

Às vezes acontece-me comprar livros por impulso. Este foi um desses casos.


Autor: Bernard Marillier
Sinopse: O Japão é o único país que conheceu uma tradição guerreira, viva e rica, ininterrupta desde o século XI ao terceiro quartel do século XIX. esta tradição centrou-se numa personagem fascinante, impregnada de uma lealdade sem quebra, de um agudo sentido da honra e de um desprezo total pela morte (de resto elevada ao nível de obra de arte, nomeadamente pela prática do seppuku), sempre pronto a sacrificar-se pelo seu senhor ou para permanecer fiel a si próprio. Trata-se do samurai, figura marcial bastante comparável, quanto ao seu modo de ser, ao cavaleiro medieval europeu. A sua epopeia marcou profundamente a mentalidade dos Japoneses, que a perpetuaram pela literatura, o teatro clássico e o cinema.
Simultaneamente guerreiro e esteta, amando a vida e a morte com amor igual mas escolhendo esta sem hesitar mal a ocasião se apresentasse, como lhe recomendava o Haggakure, e submetido, mais do que ninguém, a um severo código ético (o bushidô), o samurai foi também, esquecemos-lo demasiadas vezes, o guardião de uma «pax japonica» sempre frágil e uma administrador eficaz.
Este «B.A.-Ba do Samurai» propõe ao leitor uma primeira abordagem que lhe permitirá abranger, num só livro, todas as facetas deste arquétipo do guerreiro tradicional, único na História, de comportamento e psicologia muitas vezes incompreensíveis para a mentalidade do Ocidente moderno, que nele não vê mais do que fanatismo e fatalismo, bem como, de um modo mais geral, todos os aspectos da arte guerreira do Japão tradicional, universo inseparável do samurai.
No final da obra, o leitor encontrará um certo número de documentos susceptíveis de o interessar, nomeadamente uma útil cronologia, a história e extractos do Haggakure e, numa nota adicional, um curto texto relativo ao primeiro dos escritores japoneses e último samurai que o Japão conheceu: Yukio Mishima.


O que salvou este livro foi o facto de o tema ser interessante e o autor ser preciso, sem ser demasiado extensivo ao ponto de se tornar maçador. É um livro adequado a quem quer ter um primeiro contacto com a cultura samurai. Contem algumas imagens representativas, se bem que a maioria delas não acrescentam muito ao texto. As anexos acrescentam valor ao livro. O maior problema deste livro é a fraca revisão a que foi sujeito: há erros ortográficos, a começar logo na contra-capa. Outro problema são os conceitos e palavras que não foram definidas antes não terem uma nota de rodapé.
Apesar disso, recomendo a quem quiser ter o primeiro contacto com os míticos guerreiros japoneses.

Classificação: 3 estrelas



domingo, 25 de janeiro de 2015

Chá de Domingo #27: Livros emprestados

Quem é que sofre com o empréstimo de livros?


Por fim, decidi deixar de usar esta rubrica para falar sobre mim mesmo e abordar outros assuntos de um interesse mais geral. A ideia para esta publicação deve-se ao conteúdo deste link.
Quem gosta de livros e literatura acaba por construir uma colecção, mais ou menos extensa das obras que mais gosta. Apesar do advento do ebook, muitas dessas colecções ainda são físicas.Uma prateleira com muitos livros, na maior parte das vezes vezes organizados é algo que inspira cobiça e mais tarde ou mais cedo alguém acaba por pedir um emprestado. O problema é que nem sempre devolvem o livro num prazo útil ou no mesmo estado. Eu fico bastante chateado quando isso acontece e nunca mais empresto nada a essa pessoa. Amigos, amigos, livros à parte!
Achei por bem ver se partilhavam da minha opinião, por isso perguntei a alguns bloguers: Como que é lidam com a situação de emprestarem um livro e ele não vos é devolvido no mesmo estado ou não é devolvido de todo?

"Só empresto livros a pessoas em quem confio e que tratam os livros como bebés tal como eu. Se demorarem mais de um ano a devolver chateio-os até à morte."
- Alexandra Rolo, Folha em Branco

"Fico chateada mas passa-me logo porque acho que não vale a pena ficar chateada por coisas materiais. Mas de certo que não volto a emprestar a essa pessoa."
- Roberta Frontini, FLAMES MR

"Fico triste e penso muito bem antes de emprestar de novo."
- Carlos Silva, Abracadabra

"Por norma estas situações não me acontecem, mas no caso de o livro vir danificado penso que tentaria ser compreensivo com a pessoa pois acontece (por norma empresto a pessoas amigas), no caso de não ser devolvido e goste muito do livro fico triste, tenho uma situação de ter um livro da Juliet Marillier da trilogia Sevenwaters assinado pela própria e duvido que venha a voltar a ver o livro. Mas como disse felizmente não tenho muitas situações dessas."

"Isso nunca me aconteceu, normalmente a quem empresto sabe o gosto que tenho pelos livros. Mas acho que ficava muito triste."
-Rosana Maia, Bloguinhas Paradise

 E vocês, como reagiriam a esta situação?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Livros: Todos os Nomes

Para quem gosta de reflectir, este é um bom livro.
Autor: José Saramago
Sinopse: O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro.


Mesmo deixando de parte as particularidades da escrita de Saramago, este livro não é fácil de ler. O autor tem o dom de nos deixar a pensar enquanto conduz a história com mestria e, sem repararmos estamos colados às páginas.
Como sempre a história começa de um modo inofensivo, um homem de meia idade que colecciona notícias sobre gente célebre até ao dia em que decide invadir o Registo Civil, onde é funcionário, para recolher informações exactas sobre essas pessoas. É nesse roubo que encontra o registo de uma mulher, a qual se torna a sua obsessão.
Já me habituei à maneira como Saramago escreve, tanto às suas longas frases, como aos diálogos em narração e até às digressões e listas exaustivas que ele tanto gosta. A personagem inspira a nossa simpatia e o mistério que se gera em trono da mulher desconhecida é um bom meio de manter o interesse. O tema não é tão relevante como outros livros. Por isso, se o compararmos a outras obras do mesmo autor poderemos ficar desapontados. Foi isso que me aconteceu
Em todo o caso, recomendo a todos os que gostem de Saramago ou de pensar sobre quem na verdade somos.

Classificação: 4 estrelas

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Livros: Night Train to Lisbon

Já andava de olho neste livro até que o meu antigo patrão mo ofereceu.


Autor: Pascal Mercier
Sinopse: A huge international best seller, this ambitious novel plumbs the depths of our shared humanity to offer up a breathtaking insight into life, love, and literature itself. A major hit in Germany that went on to become one of Europe’s biggest literary blockbusters in the last five years, Night Train to Lisbon is an astonishing novel, a compelling exploration of consciousness, The possibility of truly understanding another person, and the ability of language to define our very selves. Raimund Gregorius is a Latin teacher at a Swiss college who one day—after a chance encounter with a mysterious Portuguese woman—abandons his old life to start a new one. He takes the night train to Lisbon and carries with him a book by Amadeu de Prado, a (fictional) Portuguese doctor and essayist whose writings explore the ideas of loneliness, mortality, death, friendship, love, and loyalty. Gregorius becomes obsessed by what he reads and restlessly struggles to comprehend the life of the author. His investigations lead him all over the city of Lisbon, as he speaks to those who were entangled in Prado’s life. Gradually, the picture of an extraordinary man emerges—a doctor and poet who rebelled against Salazar’s dictatorship.


Posso dizer que a escrita deste autor me deixou viciado. O tema abordado ajudou imenso o que não não quisesse pousar o livro por um instante. É sempre interessante ver Portugal pelos olhos de um estrangeiro, ainda mais quando a história e o mistério que rodeia Amadeu de Prado é um condutor excelente de página para página.
É fácil criar empatia com a personagem principal, assim com Adriana e João Eça. Todos tem uma personalidade vincada e uma profundidade humana que me fará relembrá-los por muito tempo. Os dilemas que enfrentam são os mesmos que muitas vezes nós próprios enfrentamos. As revelações sucedem-se criando tensão. Os cenários são descritos de um modo que seja fácil de imaginar, não só como seria andar por lá, como imaginamos as personagens viverem os seus dramas como se fossemos nós próprios.
Recomendo vivamente a todos!

Classificação: 5 estrelas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Uma Noite Fria

O comboio parou na estação anterior àquela em que Marta costumava sair.
Diese Zug endet hier, bitte alle aussteigen! – Informaram pelos altifalantes.
Ficou de olhar fixo na direcção do som, esperando compreender o que tinha sido dito. As pessoas começaram a sair. Hesitou, mas a possibilidade de ficar sozinha acabou por ditar que as seguisse. Assim que os pés entraram em contacto com a plataforma isolada, em metal pintado de vermelho, viu no painel que o comboio iria voltar para trás.
Foi então que se lembrou que algo havia sido anunciado. Soprou com força o ar que tinha nos pulmões. Não entendia quase nada do que ouvia. Durante todo o dia era confrontada com o alemão. Ninguém falava inglês. Talvez não soubessem, talvez não quisessem. Apesar de estar a aprender, pouco mais captava que as gravações automáticas dos transportes públicos. Prestar atenção às palavras estranhas deixava-a com dores de cabeça e ignorar era tão mais fácil.
Ouviu os motores de um avião ali perto. Olhou para o céu e o som desapareceu tão rápido como tinha aparecido.
Reteve a respiração e o coração falhou uma batida. Tinham passado poucos dias desde que tivera aquela visão no largo em frente a casa. Esfregou os olhos. As pernas tremiam-lhe. Sentiu os joelhos enfraquecer.
– Malditos alemães! – Murmurou, cambaleando até se sentar num banco.
Odiava quase tanto a frieza dos povos germânicos como duvidar da sua própria sanidade. O comboio começou a movimentar-se no sentido de onde tinha vindo.
As forças regressaram-lhe. Levantou-se e desceu as escadas, saindo da estação, que ficava uns dois andares acima do nível do solo. A linha passava por cima da estrutura de betão que cobria o pequeno largo. Uma pequena multidão concentrava-se ali, esperando não se sabe bem pelo quê. Vagueou, esperando encontrar alguém que falasse uma língua que Marta compreendesse.


– Não sei, o Rui saiu meia hora antes de mim – explicou um trintão de boné na cabeça.
– Eles só fecharam às sete. A esta hora já deve estar em casa... – acrescentou uma mulher baixa e forte.
Receosa, aproximou-se do trio, deliciada por ouvir a língua materna ao vivo. Quando se deu conta, os olhares dos três estavam fixos nela, apercebendo-se que estava a fazer figura de parva.
– Boa noite, desculpem, podem-me dizer o que se passou com os comboios?
– Encontraram uma bomba e decidiram cortar o tráfego perto da ponte – respondeu o mais velho, que cultivava um bigode.
Marta franziu o sobrolho. Seria possível que esta loucura do terrorismo tivesse também chegado à Alemanha?
– E como é que posso ir para Veddel?
– Ui, só lá vais de táxi! – sugeriu o de boné.
Marta sabia que não tinha dinheiro para isso. Não contava ter de passar tanto tempo ao ar livre e as mãos começavam a gelar-lhe.
– E a pé?
– A pé não vais lá não!
– Ah! – exclamou, ficando de súbito interessada nas suas sapatilhas. – Obrigado, então... e boa noite.
Virou costas aos imigrantes, decidida a voltar para a plataforma e resguardar-se do vento frio.
A sirene fez-se ouvir. Um holofote varreu os céus.
Piscou os olhos. Nada, nem holofotes nem sirene. Tudo tinha voltado ao normal. Sentia-se ofegante. Da outra vez também tivera dois avisos antes de ser enviada, ou achar que o fora, para o passado.
Colapsou nos degraus da escada, com uma lágrima a nascer no canto do olho. Enterrou a cara nas mãos e nem assim o tremor no braço diminuiu. Tudo lhe parecera tão real. Sentia a sanidade escapar-lhe por entre os dedos.
O som de travagem de um autocarro fê-la levantar a cabeça. Tarde demais, as pessoas que se acumulavam à porta nunca conseguiriam entrar. Levantou-se, irritada por ter perdido a oportunidade de sair dali. Limpou as bochechas, ainda mais aborrecida por ninguém lhe ter perguntado se estava bem. A típica afabilidade alemã.
Depois de muita confusão, num estilo nada alemão, o autocarro partiu e uma pequena multidão continuava ali. Caminhou entre eles, reconhecendo as várias línguas que ali falavam. Espanhol. Italiano. Inglês. Harburg parecia ser o lugar dos imigrantes. Achegou-se à frente, disposta a não deixar escapar a próxima oportunidade de sair dali.
O frio era o mesmo e a escuridão muito mais densa. Um edifício do outro lado da rua estava bastante danificado. A multidão e a ponte haviam desaparecido. Um holofote varria os céus. O som dos motores zumbia por cima da sua cabeça. Olhou para o firmamento sem conseguir encontrar a fonte do ruído que parecia vir de todos os lados. Não se via vivalma na rua.
Ouviu um estrondo e depois outro. Haviam sido ali perto. Não percebeu se eram bombas a rebentar ou disparos das anti-aéreas que havia visto dois dias atrás num museu. O negrume oprimia-lhe os sentidos. A pouco mais de meia centena de metros, viu um par de sombras. Quando uma parca luz incidiu sobre eles, percebeu que eram soldados.
– Merda! – articulou, ao perceber o sarilho em que estava metida.
Tentou prever o que aconteceria quando eles a interpelassem e, tendo em conta a época em que viera parar, nenhuma das possibilidades lhe parecia promissora. O coração dava pulos no peito. Para piorar, deduziu que só falariam alemão. Susteve a respiração. Tudo se resumia a uma questão: ficar ou fugir?
As duas figuras avançaram em passo rápido. Marta, num arranque súbito, atravessou a estrada esburacada. Os militares gritaram qualquer coisa. Esperou ouvir disparos a qualquer momento. No instante seguinte, foi projectada para a frente. Tropeçara em algo. A queda pareceu-lhe durar uma eternidade. Não ia conseguir fugir. Fechou os olhos.
Os braços ampararam-lhe a queda. Uma buzina fez-se ouvir com intensidade. Sentiu uma dor aguda no cotovelo. Descerrou as pálpebras. Estava deitada no passeio do lado oposto da estrada. As pessoas e os carros haviam voltado. Deixou-se ficar no chão. Ninguém se preocupou em ajudá-la.
Estava a ficar maluca. O que acabara de acontecer era prova disso. A consciência da situação roubou o que lhe restava da vontade de se erguer. Autorizou lágrimas a percorrerem-lhe as bochechas. O frio do pavimento entranhou-se na roupa. Começou a tremer.
Pareceu-lhe real. Tal como da outra vez.
Levantou-se num ápice, atraindo as atenções de quem a rodeava, determinada a não se deixar vencer por um par de alucinações. Maluca ou não, a vida haveria de continuar.
A linha não tardou a ser restabelecida, num convite de regresso à sua rotina.



Imagem: "Hh-hammerbrook-bf-bahnsteig" by Staro1 at the German language Wikipedia. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hh-hammerbrook-bf-bahnsteig.jpg#mediaviewer/File:Hh-hammerbrook-bf-bahnsteig.jpg