sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Ebooks: Os Sobreviventes

Quem está pronto para um conto em forma de diário? Confesso que este tipo de relatos me fascina.


Autor: Pedro Pereira
Sinopse: Um diário perdido de um médico encontrado num hospital de campanha abandonado revela uma macabra história de um acidente e do horror que se seguiu...


Somos catapultados para o centro da acção nas primeiras linhas. Creio que as missivas são demasiado curtas para criarem o suspense e tensão que este tipo de história merece. As descrições estão bem conseguidas. Gostaria que o autor tivesse explorado um pouco mais a causa disto, nem que fosse através de especulação da personagem principal. Em suma, um conto razoável com muito potencial para se tornar numa história por si mesma.
Recomendo quem gostar de um conto epistolar. 

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Ebooks: A Barca

Uma homenagem actual ao conto de Gil Vicente.


Autor: Pedro Pereira
Sinopse: Um porto, duas barcas, uma leva ao inferno e a outra ao paraíso. Uma homenagem à obra de Gil Vicente, o Auto da Barca do Inferno.

Começando pelas personagens: muito actuais e muito bem escolhidas. Os estereótipos foram bem usados conseguido criar um efeito cómico. O autor podia ter usado mais algumas rimas para aumentar o efeito de comédia. Gostava que autor tivesse usado o formato de peça. Em suma, uma justa homenagem.
Recomendo a quem queria relembrar esta famosa sátira social.

Classificação: estrelas

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ebooks: A Faca

O Fantasy and Co acaba de ganhar um novo autor residente.


Autor: André Alves
Sinopse: Rui, um jovem residente na ilha turística, que serve de paragem para quem parte para as estações espaciais, vê-se a ter visões demasiado realistas da morte do seu melhor amigo Gonçalo. Morte essa causada por si, num ato de fúria. Mas tal como vê a morte do amigo, vê-lo a passear vivo como se nada se passasse...


É sempre um prazer conhecer um novo autor, para mais quando ele ainda está a dar os primeiros passos. A trama é um pouco confusa, mas acabamos por perceber que é intencional. Quanto mais nos aproximamos do final, mas vai crescendo um nervoso miudinho de não sabermos ao certo o que está a acontecer. Gostava que o autor tivesse desenvolvido mais as personagens. O mundo criado não tem grande relevância na história, mas a temática de universos paralelos torna tudo muito mais interessante. Nada a apontar às descrições. Em suma, é um bom conto se tivermos em conta que são os primeiros passos deste autor.
Recomendo a quem quiser conhecer e apoiar um promissor e jovem escritor.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 9 de outubro de 2016

Chá de Domingo #95: Ainda Sobre o Cyberpunk - Parte 4/5

Nesta série de artigos estou a explorar a essência e a origem do cyberpunk. Podem ler a primeira parte aqui, a segunda aqui e a terceira aqui.


"O que muita gente se esquece... é que o futuro de gancho de açougue sombrio não é um pós-apocalipse ao estilo de Mad Max, em que todos andam aos tiros uns aos outros protegidos em armaduras feitas de pneu de tractor e roupas Wilson's Leather que sobrarem. Esse futuro - imaginado por muitos como um antídoto para os espetaculares futuros cromados do Star Trek e da ficção cientifica inflexível dos anos 50 - é, de facto, inteiramente ridículo e bastante improvável assim como qualquer palermice em forma de fetiche tecnológico que os transhumanistas se lembrarem. É uma fantasia machista pelos libertários que secretamente rezam para que os pobres se revoltem e iniciem uma guerra para que os seus amigos que se parem de rir do facto de terem um arsenal de armas automáticas ao lado do seu Lexus na garagem do enclave dos subúrbios."
- Jushua Ellis

"Bem-vindo ao futuro J.G. Ballard - que rapidamente se torna um consenso pelo seu próprio mérito - onde o futuro é essencialmente banal. De momento, é a opinião mais sensata a ter. Um escritor chamado Venkatesh Rao usou recentemente o termo 'normalidade em série' para descrever isto. Tudo está pensado para activar a disposição psicológica para acreditar que nós vivemos num presente estático e aborrecido. Intemporalidade é a condição (dominante) do início do século XXI... Através da normalidade em série ninguém vence porque todos ficam adormecidos e a realidade nunca será melhorada. Mas vou sugeri-vos algo. Todas as teorias de normalidade em série e história zero podem ser destruídas por uma única coisa: olhar em volta."

"Se o futuro está morto, então temos de o invocar e aprender como vê-lo correctamente. Não se pode ver o presente em condições através do retrovisor porque ele está à frente. Hoje há seis pessoas a viver no espaço. Há pessoas a imprimir protótipos de órgãos humanos e pessoas a imprimir nanofio biológico que se ligará ao tecido humano. Já fotografamos a sombra de um único átomo. Temos pernas robóticas controladas por ondas cerebrais. Exploradores já estiveram no local insubmerso mais fundo da terra - uma cave a mais de dois quilómetros de profundidade abaixo de Abkhazia. A NASA está a preparar-se para lançar três satélites do tamanho de uma chávena de café que serão controlados por uma aplicação de smartphone. Voyager One está a mais de onze mil milhões de milhas de distância e o seu computador de 64K com fitas magnéticas de oito pistas ainda está funcional."
Warren Ellis

Podem encontrar a quinta e última parte aqui.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Rios de Sangue - Parte 1/2

O dia estava calmo e o sol perto do Zénite. Para além do bombardeamento matinal e alguns tiros de aviso, não acontecera nada digno de nota. Para Roberto, fulcral era manter a cabeça abaixo da linha do solo. Tudo o resto eram detalhes.
Não havia muito para fazer, por isso, dedicou-se a desmontar e limpar a arma. O maior inimigo tinha duas armas: a morte e o aborrecimento. A transição entre uma e outra era brusca e nefasta. Tanto passavam dias aninhados naquelas poças de lama a morrer de doenças tratáveis, como em semanas de combates intensos. Uns e outros vinham e iam sem qualquer aviso. A fome e o sono eram como a paisagem, contribuíam só para o desconforto geral e já ninguém se queixava deles.
O som da metralhadora quebrou a monotonia e não anunciava nada de bom. Voltou a montar a arma e a carregá-la o mais rápido que pôde. Tinham sido eles a disparar, o que significava que o inimigo estava de novo a tentar atravessar o rio.
― E aqui vamos de novo ― comentou Igor, que se aninhara a seu lado.
Mais disparos. Ambos sabiam que não era boa ideia espreitar. Ao contrário de alguns, eles tinham tido miolos suficientes para não perderem a cabeça desse modo.
― O que se passa? ― gritou para os colegas da trincheira ao lado.
― Mais um ataque, nada de especial ― respondera-lhe de imediato.
O morteiro caiu a uns passos deles. A onda de choque derrubou-o, fazendo-o cair na lama. Um zumbido persistente apoderou-se-lhe dos ouvidos. Uma inspecção rápida mostrou-lhe que não estava ferido. Umas quantas assim e ficaria surdo. Igor já se havia recomposto. O Zé vinha da latrina e o Fábio do abrigo.
― Onde é que vocês estavam? Já perderam o início do fogo-de-artifício ― gozou Igor, atirando um murro no ombro do Zé.
Estes vinte metros estavam por conta deles. À frente ficava a terra de ninguém. Vinte metros de desolação até ao rio. As ordem eram simples: acontecesse o que acontecesse, nenhum inimigo podia jamais desembarcar.
As munições de artilharia continuavam a chover por ali. Umas mais perto que outras. Se tivesse escolha, preferia ficar nos abrigos individuais, onde o risco de ser atingido era mínimo. Eles separaram-se, indo cada um para o posto, uma saliência na vala. Por esta altura, já Igor estaria a usar o seu espelho para ver quem lá vinha. Olhou para arma. Esta lata podia ser do tempo da União Europeia, mas ainda funcionava bem. A primeira vez que encravasse podia ser o último dia da sua vida.
― Más notícias, pessoal. Eles estão a levar barcos até à praia. Não tarda que tentem atravessar ― gritou Igor, fazendo-se ouvir por cima do barulho dos disparos.
Ao longo dos anos, tinham havido centenas de investidas de ambos os lados, todas com o mesmo resultado: nenhum. Não fazia diferença quantos homens e recursos usavam. Ser destacado para um ataque era uma sentença de morte. Tanto que a expressão, que te escolham para a próxima investida, já se tornara um dos piores insultos. O pior eram os bandos de corvos que se banqueteavam nos corpos abandonados na terra de ninguém. O croquitar constante afectava até mesmo os que tinham nervos de aço.
Apesar de estarem no meio de uma ofensiva, a maior parte do tempo só podiam esperar. Uns segundos de acção e estava tudo acabado, de uma maneira ou de outra.
Outro salvo de artilharia atingiu as posições. Um dos projécteis caiu tão perto que sentiu a onda de choque nos ossos. O zumbido nos ouvidos parara por completo. Não ouvia nada. Apercebeu-se que aquilo explodira na borda da trincheira. Era raro acontecer e nada bonito de ver. O coração falhou uma batida. Caíra perto do Igor. A terra desabara naquele ponto, misturada com pedras. Viu Fábio do outro lado. Onde estava o Zé? Distinguiu um braço mutilado no meio do solo. Aproximou-se, percebendo que o resto do dono já não estava presente. A pouco foi encontrando outros pedaços ali perto. Igor não tinha salvação. O Fábio estava tentar desenterrar algo. Foi ajudá-lo. O Zé estava bastante maltratado, mas vivo. Trocou um olhar com Fábio. Ambas as alternativas eram arriscadas.
― Eu levo-o ― ofereceu-se Roberto.


Podem encontrar a segunda parte deste conto aqui.

Este conto foi publicado originalmente no Fantasy & Co.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Ebooks: Dispersão

E vou-me aventurar uma vez mais pela poesia!


Autor: Mário de Sá-Carneiro
Sinopse: Um pouco mais de sol — eu era brasa,
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d’espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quasi vivido…

Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim — quasi a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
— Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim… —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos d’herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…


Ao longo das curtas páginas deste livro, que foi, na maioria, escrito no espaço de uma semana, fica-nos o desespero do poeta. Procura-se e não se encontra e volta-se a perder em si mesmo. Mário de Sá-Carneiro escreveu-o com 22 anos, uns meros 3 anos antes de suicidar. Estes versos já mostravam os dilemas e o estado de profunda depressão do poeta. Por isso, não é uma leitura leve. A poesia não se mostra com grandes artifícios, no entanto a cadência transmite parte do desespero ao leitor.
Recomendo a quem quiser conhecer um dos autores mais influentes do início do século XX, da geração d'Orpheu, assim como como Almada Negreiros e Fernando Pessoa.

Classificação: 4 estrelas

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Ebooks: Dá-me o Nome

Para quem gosta de contos de visita ao Outro Lado...


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: A paisagem do Gêres pouco tem de desconhecido a Denise. Mas após tantos anos, o nome dele ainda lhe é vedado, e o crime dela pouco esquecido.


Apesar do início estar um pouco murcho, depressa a história impõe um bom ritmo. A ligação à  personagem principal é fácil. Uma das personagens secundárias deveria ter sido mais explorada para que o final fizesse um pouco mais sentido. As descrições estão boas, mas gostava que a autora tivesse mostrado um pouco mais do Outro Lado. A trama mantêm o leitor agarrado até à última página, culminando num final previsível mas recompensante. Em suma, um conto que irá entreter a  maioria dos leitores, incluindo os mais exigentes.
Recomendo vivamente a quem gostar desta temática e/ou quero conhecer melhor o trabalho desta jovem promessa nacional.

Classificação: 4 estrelas