sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Ebooks: A Ruiva

Este é uma daquelas novelas que deixou uma impressão forte através das imagens sórdicas.


Autor: Fialho de Almeida
Sinopse: Não tinha a menor ideia do que fosse ter mãe ou ter amigas. No seu contacto com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de bestialidade que referve em cada homem, com um fragor de luxúria cruel. Vivera sempre em si própria, sem a reminiscência dum carinho que alma piedosa lhe houvesse prodigalizado. Quantos beijos deixara roubar aos moços do cemitério e quantas palavras tinha merecido aos gatos-pingados, todas vinham ervadas da mesma ideia e do mesmo intento. E assim crescera naquela incultura de espírito sem guia, sentindo dentro avigorar-se-lhe apenas uma tendência — a da cadela fértil, que vai entregar-se. Através da sensação rudemente nascida olhara o mundo, esfaimada e torpe como se fora um verme descomunal das sepulturas, incapaz, pelos desolados cenários que tinha contemplado nos seus dias de criança, de dar acesso na sua alma às multíplices emoções e susceptibilidades histéricas que fazem da mulher o precioso receptor das coisas mais subtis que a língua não exprime e os olhos mal sabem formular. (…) Foi o tio Farrusco quem cobriu de terra, sem comoção nem saudade, o corpo, espedaçado pelo seu escalpelo, da rapariga corroída de podridões sinistras, abandonada do berço ao túmulo, e pasto unicamente de desejos infames e de desvairamentos vis.


Infelizmente, a novela não começa logo na acção, mas dá-nos antes um detour para que nos preparemos ao que ai vem. As personagens centrais: Carolina e João são-nos bem descritas e contêm uma profundidade realista. As descrições são um pouco exaustivas e algumas redundantes, no entanto, é também nas descrições que está o melhor do livro: as imagens de miséria e tristeza estão de tal modo bem escritas que vão ficar na memória durante muito tempo. A trama desenvolve-se, embora sem grande surpresas visto que conhecemos o final de antemão. A leitura não é fácil devido aos blocos de descrição. Mas, se tivermos em conta o estilo da época, esta novela estava sem dúvida bem escrita para os parâmetros do realismo.
Recomendo a quem quiser um sentir como era a vida dos pobres de Lisboa no final do século XIX, contada por um contemporâneo.

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ebooks: Diabos Levem a Musa!

Dragões levem a Musa!


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Em véspera de data limite para entregar a sua mais recente obra, a Musa foge ao Escrivão para um jantar romântico com um Dragão.


Esta história está escrita num tom humorístico bem conseguido. Engraçamos com facilidade com a personagem principal e somos levados numa viagem por uma sopa de referências. Houve um bom jogo de estereótipos. Em suma, um conto com um bom potencial para entreter.
Recomendo a quem desejar um conto para matar o tempo.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Ebooks: O Sabre e o Corvo

Cinco contos contam uma história, cada um com o seu estilo próprio.


Autores: Carlos Silva, Sara Farinha, Vitor Frazão, Inês Montenegro e Pedro Pereira
Sinopse: Um antiquário onde reina o peculiar e o mágico. Um corvo de determinação sobrenatural. Um sabre cuja honra foi manchada pelo sangue de inocentes. Cinco escritores, cinco contos, interligados pelo desejo de justiça e pela vingança, onde o que parece pode não ser, e até uma alma se pode vender.


Como é normal em antologias, irei comentar cada um dos contos em separado e a classificação final  será derivada da média dos contos.

A Loja - Carlos Silva
Esta história é mais uma vinheta. Não há grande desenvolvimento e acaba por ser apenas o relatar de uma situação.
3 estrelas

Uma Herança Familiar - Sara Farinha
Acho que esta vinheta não foi bem conseguida. Relata muita coisa, mas não acontece nada.
2 estrelas

Último Desejo - Vitor Frazão
Gostei mais deste conto do que do anterior: há uma história com início, meio e fim; e há desenvolvimento da personagem.
3 estrelas

O Bom Negociante - Inês Montenegro
Outro fragmento. Esperava mais.
2 estrelas

Vingança - Pedro Pereira
Lavar uma espada com água e secá-la com um pano? Isto não é maneira de tratar uma espada: um pouco de pesquisa teria ajudado neste conto. Pelo menos este conto sempre encerra a história.
3 estrelas

Teria sido mais interessante se cada conto funcionasse isoladamente e não apenas como parte da história maior.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 25 de setembro de 2016

Chá de Domingo #93 : Ainda Sobre o Cyberpunk - Parte 2/5

Decidi explorar um pouco a génese e a essência do cyperpunk. Podem encontrar a primeira parte deste artigo aqui.


"Quando iniciamos o cyberpunk, queríamos realmente dar nas vistas - sair desta pequena sub-cultura de ficção cientifica - só para surpreender toda a gente. E conseguimos fazê-lo. Ninguém pode prever os futuros que nós imaginamos. As coisas mudaram desde os primeiros dias do cyberpunk e, para começar, eu estou muito mais interessado em problemas teóricos profundos. Claro que faço coisas do género MTV, flash imaginery - que ao início me parecem boas ideias mas que acabam por não me encher as medidas. Eu quero chegar à mente das pessoas. Eu quero chegar ao estado de conhecimento como poder."

"O que é realmente bom acerca do punk é que é rápido e denso. Tem carradas de informação. Se valoriza a informação acima de tudo, então não se preocupa com convenções. Não é 'Quem é que você conhece?'; é 'Quão rápido és? Quão denso?' Não é 'Fala como os meus colegas?' é 'Isto é interessante?' Então o que eu estou a dizer é que o cyberpunk é do género: a ficção científica não é fácil de ler, tem muita informação, e fala de novas formas de pensar que advém da revolução computacional."

"O que é mais importante é que Neuromancer é acerca do presente. Não é realmente sobre um futuro imaginado. É um modo de lidar com o espanto e o terror inspirado pelo mundo em que vivemos. Estou ansioso para saber o que irão achar dele no Japão."

"Como género literário, o que aconteceu foi o que acontece a qualquer coisa nova bem sucedida em todos os ramos da cultura pop. Cyberpunk passou de algo refrescante, inesperado e original para ser a última moda, para ser uma formula comercial, para ser um estilo repetido até à exaustão, com uma lista de elementos estilísticos completa e formas reverenciadas que necessitam de ser referenciadas para que alguém escreva um Verdadeiro Cyberpunk..."

"O tempo e a sorte foram gentis com os cyberpunks, embora eles tenham mudado com os anos. A doutrina central da teoria do movimento era 'intensidade visionária'. Mas, já passou algum tempo desde que um cyberpunk tivesse escrito algo verdadeiramente surpreendente, algo que se contorça, solte, uive, alucine e parta a loiça toda. No trabalho mais recente destes veteranos, nós vemos uma trama afinada, melhores personagens, uma prosa cuidada e muito 'futurismo perspicaz e sério'. Mas também vemos muito menos back-flips espontâneos e danças loucas em cima da mesa. Os cenários ficam cada vez mais perto da realidade presente, perdendo os arabescos barrocos da fantasia solta: os problemas em causa assemelham-se horrivelmente às preocupações corriqueiras de uma pessoa de meia idade. E isto pode ser esplêndido, mas não é guerrilha."

Podem ler a terceira parte do artigo aqui.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Ebooks: A Ponte das Almas Negras

Quem nunca leu nada de Carina Portugal, devia começar por este conto!


Autora: Carina Portugal
Sinopse: Durante mais de um século, Rouco manteve a sua guarda, sob a ponte de uma antiga vila. Algo negro habita-a, escondido entre as pedras degradadas e os líquenes, aguardando a chave da sua libertação. A pequena Aurora, apesar de cega, é a única que tem o dom de as conseguir ver. Contudo essa dádiva é também uma maldição que a persegue.


Desde a primeira linha que a história nos agarra. As personagens estão bem conseguidas e tanto nos fazem torcer por elas como odiá-las. O mundo ficcional está bem construído, embora eu gostasse de saber mais, não creio que tenha ficado nada de importante por mostrar. A autora consegue fazer descrições soberbas. Uma referência especial aos feitiços, que merecem ser lidos só por si mesmos. A trama segue um fio lógico, sem momentos mortos, num crescendo de tensão bastante adequado. O final não desaponta, embora o epílogo seja dispensável. O tom é adequado aos mais jovens, sem aborrecer o mais velhos. Em suma, um muito bom conto que merece muito mais atenção do que aquela que recebeu.
Recomendo vivamente a quem gostar de um bom conto de fantasia ligeira.

Classificação: 4 estrelas

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ebooks: Sete Vezes Sete

Um bom conto para quem adora o universo arturiano.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Na história da criação de Excalibur, muito foi o que Nimueh, Dama do Lago, perdeu.


A execução é competente. Apesar das diversas personagens e do foco ir mudando, há um fio condutor sólido. A trama vai-se desenrolando e os acontecimentos vão mantendo o leitor interessado. Gostaria que o conto se tivesse focado mais na personagem principal, que acabou por ser descrita de um modo muito superficial para o tamanho do conto. As descrições estão bem conseguidas, não se destacando nem se mostrando ausentes. Em suma, um bom conto em que lhe ficou a faltar a vivacidade das personagens.
Recomendo a quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho desta jovem escritora.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ebooks: Universos Literários

Quem quer dar uma volta pelos universos literários de sete autores portugueses?


Autores: Ana Ferreira, Carlos Silva, Carina Portugal, Liliana Novais, Pedro Cipriano, Pedro Pereira e Sara Farinha
Sinopse: A antologia contem os seguintes contos:
Imtharien - O Canto da Ninfa de Carina Portugal
Inbicta - Vamos Pintar os Franceses de Carmim de Ana Ferreira
Apocalipse - A Queda de Berlim de Pedro Pereira
Percepção - Túmulo 62 de Sara Farinha
Urbania - A Destilação do Absurdo de Carlos Silva
Ahelanae - O Primeiro Voo de Liliana Novais
Era Dourada - A Alvorada de Pedro Cipriano


Como é normal nestas antologias, vou passar o meu conto à frente. A pontuação da antologia será dada em função dos contos individuais através duma média aritmética.

O Canto da Ninfa - Carina Portugal
A história está bem escrita e não me desapontou. Gostaria apenas que a autora tivesse sido mais dinâmica na narrativa e não fosse apenas um seguimento de eventos.
3 estrelas

Vamos Pintar os Franceses de Carmim - Ana Ferreira
Gostei do tom humorístico e das personagens caricatas. Infelizmente não me cativou por aí além.
3 estrelas

A Queda de Berlin - Pedro Pereira
Esta história é mais um fragmento. Gostava de ter visto algum tipo de conclusão nos temas que abriu.
2 estrelas

Túmulo 62 - Sara Farinha
A personagem está bem explorada, é pena é não percebermos as suas motivações. Algumas partes podem ser confusas para quem não conhece este universo. Gostei do facto de o conto ter bastante tensão.
3 estrelas

A Destilação do Absurdo - Carlos Silva
Gostei do conto. O autor conseguiu descrever o processo sem contar, o que só por si é excelente. Para além disso, há uma reviravolta final que é muito recompensante.
4 estrelas

O Primeiro Voo - Liliana Novais
Outro fragmento. A história podia ter sido terminada um pouco antes sem deixar nada em aberto.
2 estrelas

Classificação: 3 estrelas