domingo, 5 de junho de 2016

Chá de Domingo #82: Construção de Mundos - Parte 4/4

Como construir um mundo ficcional que seja coerente e interessante? Foi o que eu procurei ensinar nestes três artigos (parte 1, parte 2 e parte3).


Estabelecer as Regras
A construção de mundos implica a criação de regras. Mais concretamente, porque é que e como é que certa coisa funciona. Porque é que certas magias são proibidas? Quem fez as pirâmides gigantes? (É óbvio que foram os extraterrestres) O que é que acontece se meteres um colher de prata no caldeirão de uma bruxa numa Quinta-feira à tarde? As regras são necessárias para ajudar os leitores a compreender o mundo criado e como é que os acontecimentos da história o irão afectar. Mas, como nos detalhes do mundo, a enumeração das regras pode criar um bloco de texto que fará vacilar o mais motivados dos leitores. A menos que sejam as regras Figth Club! Não precisam de enunciar as regras, basta que dêem pistas para que os leitores cheguem lá.

Pesquisa?
Preciso de pesquisar para construir o meu mundo ficcional? Sim! Política, comércio, religião, literatura, arte, guerra, etc. Saber como esta coisas funcionam no mundo real, fará com que consigam idealizá-las no vosso mundo fictício.

Conflito?
Sempre! Até o próprio mundo deve estar à beira de um conflito, como o nosso mundo real: seja guerra, fome, injustiça, racismo, etc. Torna o vosso mundo mais interessante e vivo. Por fim, é bom para a história e podem até conjugar com os conflitos das vossas personagens.

Tudo afecta tudo
Há que ter cuidado com a complexidade inerente à construção de mundos. Tudo depende de tudo! As consequências pode não óbvias à primeira vista, mas podem criar resultados interessantes. Por exemplo, pensem no impacto de uma tecnologia no mundo: prensa, electricidade, Internet, viagens pelo hiperespaço. Outro exemplo é a escassez de um recurso crítico: comida, água, óleo, café, deutério, etc. Pequenas alterações no sistema económico podem causar o caos. Uma nova técnica industrial pode destruir o ambiente ou resolver o problema. Tudo tem impacto em tudo, o que torna a construção de mundos interessante e ao mesmo tempo complexa.

Nas entrelinhas
As personagens dizem muito nas entrelinhas. O mundo deve fazer o mesmo. Algumas coisas ficam melhores se ficarem implícita ao invés de explícitas.

Preservar o Mistério é Fundamental
Um universo totalmente revelado é um universo aborrecido. Mistério em conjunto com o conflito, são essenciais para manter os leitores presos. Deixa muitas perguntas por responder e vai respondendo-as ao longo do livro. Preserva a incerteza no mundo que criaste e nunca puxes a cortina toda de uma vez. Deixa o leitor preso e expectante em relação à próxima revelação.

Criação de Mundos e Narração
Uma boa criação de mundo não significa uma boa narração. Se compararmos o Episódio 1 de Star Wars com o Episódio 4, notamos que o worlbuilding está mais desenvolvido e robusto no 1, no entanto, isso não faz com que a narrativa seja mais apelativa, antes pelo contrário: parece que rouba parte do poder da história.

Construir Mundos que Fascinem
Em primeiro lugar, o mundo construído tem de te fascinar. Tem de te prender o interesse! Se não gostas dele, por mais esforço que faças, toda a construção irá parecer morta. Entusiasma-te com a criação do mundo. Grita: Faça-se luz! Observa os teus maiores sonhos e medos tomarem forma numa explosão de cores, sons e cheiros! É garantido que irás construir um mundo que irá fascinar e prender também o leitor.


Este artigo foi inspirado e baseado neste.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ebooks: O Industrioso SL4V3

Este conto tem um certo sentido de humor negro que gostei bastante.


Autor: Ricardo Dias
Sinopse: Num planeta desconhecido, um robot de manutenção zela pela nave que o levou lá enquanto aguarda dedicadamente o regresso dos seus mestres humanos. Só que a fauna local não lhe tenciona facilitar a tarefa...


Esta história tem uma personagem principal nada comum, com bastante personalidade. Toda a trama à volta de uma certa coisa, acabando por dar uma reviravolta completa no final. Gostei especialmente disso, o conto mantém a tensão e fecha com um final nada previsível. As descrições estão bem conseguidas, cumprindo a sua função. É uma leitura fácil e agradável.
Recomendo a quem goste de um bom conto de ficção científica.

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ebooks: Livre

Pelo título, esperava um conto totalmente diferente.


Autor: Pedro Cipriano
Sinopse: Presa durante milénios, Leviatã vê-se agora novamente em liberdade num mundo estranho e desconhecido. Porém, as suas lealdades permanecem, e o seu único desejo é reunir-se com o seu amo, Lúcifer, o Senhor das Trevas.


Mais uma vez, estou autor nos mostrou um pedaço do universo que criou. A personagem principal é interessante. As informações dadas no texto são suficientes para nos situarmos na história. As descrições são adequadas. O único problema do conto está na trama: falta-lhe tensão. A personagem principal não enfrente dificuldades nem decisões difíceis, o que poderá afastar o leitor menos persistente.
Recomendo a quem queria saber um pouco mais sobre este universo literário.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Ebooks: Pela Chaminé Abaixo

Não se ainda é muito cedo ou já é demasiado tarde para falar no Natal, mas este conto leva-nos à nossa infância.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Não há ano que Simão não espere pelo Pai Natal. Também não há ano em que Simão não adormeça. Aquele, contudo, seria diferente. Naquele manter-se-ia acordado.E naquele aprenderia também que por onde chega um velhote de barbas brancas e barriga saliente, também outros podem chegar.


Este conto evoca o espírito natalício com facilidade, as descrições ajudam imenso a que o leitor mergulhe na história. É muito fácil identificado-nos com a personagem principal, embora, este tipo de narrativa beneficiasse mais de um narrador na primeira pessoa. A história mantém um certo nível de tensão que vai aumentando, culminando num final que recompensa a leitura.
Recomendo a miúdos e a graúdos!

Classificação: 3 estrelas

domingo, 29 de maio de 2016

Chá de Domingo #81: Construção de Mundos - Parte 3/4

Como construir um mundo que enriqueça a história que queremos contar? Esta é a pergunta que vou tentar responder hoje, em continuação deste e deste artigos.


Misturar coisas
Vivemos numa era de misturas e do reviver de culturas. Tudo o que não é inteiramente novo parece uma mistura de coisas que já conhecemos. No caso da construção de mundos, isso não é de todo uma má abordagem. Pode até ser uma coisas divertida de fazer! Mas é preciso ter um certo cuidado, quero-se uma mistura que resulte numa poção mágica e não apenas a mistura de dois tipos de água. Misturar Star Wars e Star Trek não é tão interessante como misturar Orwell com Dune imersos na cultura Siberiana com o sentido de humor do Pratchett. Acima de tudo o importante é não se ser preguiçoso e previsível. Usa o máximo de ideias, o mais dispares possível, para criar algo novo e único.

O problema do homem branco
Voltando um pouco atrás, à parte dos estereótipos, o problema do homem branco é algo que infesta a literatura e não só. Os protagonistas são tantas vezes homens brancos e fortes que já começa a enjoar. Nem a criação de mundos se safa disso. Há uma tendência nefasta para haver o privilégio do homem branco. A maioria dos escritores dá a desculpa de que na idade Média a mulher era um mero acessório e só os homens é que mandavam. Para começar, o mundo criado não tem de ser fiel a nenhuma realidade histórica. Para continuar, a história não é tão preto no branco como a maior parte das pessoas pensam: por exemplo Elisabete I da Inglaterra. E para terminar, isto são só desculpas. Há que evitar o problema do homem branco como qualquer outro estereotipo.

O diabo está nos detalhes
É uma frase que todos conhecem e que se aplica que nem uma luva à criação de mundos. É fácil estabelecer, e perder-se, nos grandes pilares da mundicriação: história, política e religião. Uma consequência disso são os blocos de texto que enfiamos a martelo no meio da história. Agora voltando ao início: o diabo está nos detalhes, e são esses detalhes que fazem a diferença entre um construção de mundo bem sucedida e uma que aborrece de morte o mais persistente dos leitores. Mostra o que é que eles comem às diferentes refeições. Mostra o que é que eles bebem. Mostra como são as casas deles. Mostra! Mostra! Mostra! Esta é a melhor maneira de construir um mundo.

O diabo também está nas interacções
Oh sim! Da mesma maneira que se mostra os pequenos detalhes que compõem o mundo, também se deve mostrar as interacções. Mostra de que maneira partilham a comida. Mostra como é que tratam os superiores. Mostra como são as relações românticas e como é que encaixam na norma. Mostra o mundo através do que as personagens fazem e dizem.

O mundo está vivo
Outro erro comum é construir um mundo estático. O mundo não é uma enciclopédia de raças esquecidas e culturas mortas. Claro que essas raças esquecidas podem lá estar, visto que dão uma profundidade adicional ao mundo, mas não podem ser o centro do mundo. O pilar do mundo devem ser as personagens vivas, a fazerem coisas reais que mandam o mundo. Deve-se combater a tendência de criar um mundo rígido e a desculpa de que todos fazem o mesmo. O nosso mundo nunca foi estático nem rígido. Por exemplo, ao olhar para um certo país temos uma certa ideia de como ele é, mas isso não significa que todas as pessoas sigam a norma. As pessoas são seres vivos e fazem decisões, nomeadamente a de aceitar ou recusar parte da cultura em que estão imersas.

Cortar a palha
Há uma certa tentação de acrescentar certos detalhes só que os consideram geniais. Até aí tudo bem, mas é necessário garantir que eles se ligam ao resto da história. A desculpa de que é um detalhe altamente não é suficiente. Se um certo detalhe ou vertente não tem ligação ao tema, tom ou personagens, o melhor é deixá-lo de fora. Podem usá-lo mais tarde noutra história ou noutro mundo em que a sua aparição seja mais plausível. Afinal não querem que a vossa ideia genial seja apenas um detalhe numa história maior quando pode ter a sua própria história, pois não?


Adaptador a partir deste artigo.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ebooks: Na Viagem do Caronte

Porque a ficção especulativa não é só prosa.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Vogando o rio vão as negras almas
Chorando e vagindo por suas penas
Fazendo lugar e vez de suas águas
Que em nada se dizem amenas.


A escrita é competente e as rimas estão bem conseguidas. Creio que este conto-poema teria beneficiado de imagens mais vívidas, visto que todo ele é uma imagem, mas que não foi convenientemente pintada pelo autor.
Recomendo a quem gostar de poesia e mitologia.

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Ebooks: Génesis

Assim que a história pega, é difícil de largar.



Autor: Pedro Pereira
Sinopse: Jado Mafawi é um dos geneticistas mais brilhantes do seu tempo. Ao ser contactado pessoalmente pelo Supremo Sacerdote, é recrutado pela Igreja para um misterioso projecto de investigação. Apanhado numa situação da qual não pode fugir, Jado acaba por colocar em jogo tudo aquilo que acredita ser correcto.


O início precisava de ser mais forte e com menos despejar de informação. A personagem principal necessitava de um pouco mais de personalidade. No entanto, assim que a trama se começa a desenvolver, a leitura torna-se mais fácil, prendendo o leitor até ao desenlace, que apesar de aberto é satisfatório. As descrições estão bem conseguidas. Em suma, após a primeira parte, o conto é uma leitura bastante agradável.
Recomendo a quem quiser descobrir ou redescobrir este autor português.

Classificação: 3 estrelas