segunda-feira, 30 de maio de 2016

Ebooks: Pela Chaminé Abaixo

Não se ainda é muito cedo ou já é demasiado tarde para falar no Natal, mas este conto leva-nos à nossa infância.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Não há ano que Simão não espere pelo Pai Natal. Também não há ano em que Simão não adormeça. Aquele, contudo, seria diferente. Naquele manter-se-ia acordado.E naquele aprenderia também que por onde chega um velhote de barbas brancas e barriga saliente, também outros podem chegar.


Este conto evoca o espírito natalício com facilidade, as descrições ajudam imenso a que o leitor mergulhe na história. É muito fácil identificado-nos com a personagem principal, embora, este tipo de narrativa beneficiasse mais de um narrador na primeira pessoa. A história mantém um certo nível de tensão que vai aumentando, culminando num final que recompensa a leitura.
Recomendo a miúdos e a graúdos!

Classificação: 3 estrelas

domingo, 29 de maio de 2016

Chá de Domingo #81: Construção de Mundos - Parte 3/4

Como construir um mundo que enriqueça a história que queremos contar? Esta é a pergunta que vou tentar responder hoje, em continuação deste e deste artigos.


Misturar coisas
Vivemos numa era de misturas e do reviver de culturas. Tudo o que não é inteiramente novo parece uma mistura de coisas que já conhecemos. No caso da construção de mundos, isso não é de todo uma má abordagem. Pode até ser uma coisas divertida de fazer! Mas é preciso ter um certo cuidado, quero-se uma mistura que resulte numa poção mágica e não apenas a mistura de dois tipos de água. Misturar Star Wars e Star Trek não é tão interessante como misturar Orwell com Dune imersos na cultura Siberiana com o sentido de humor do Pratchett. Acima de tudo o importante é não se ser preguiçoso e previsível. Usa o máximo de ideias, o mais dispares possível, para criar algo novo e único.

O problema do homem branco
Voltando um pouco atrás, à parte dos estereótipos, o problema do homem branco é algo que infesta a literatura e não só. Os protagonistas são tantas vezes homens brancos e fortes que já começa a enjoar. Nem a criação de mundos se safa disso. Há uma tendência nefasta para haver o privilégio do homem branco. A maioria dos escritores dá a desculpa de que na idade Média a mulher era um mero acessório e só os homens é que mandavam. Para começar, o mundo criado não tem de ser fiel a nenhuma realidade histórica. Para continuar, a história não é tão preto no branco como a maior parte das pessoas pensam: por exemplo Elisabete I da Inglaterra. E para terminar, isto são só desculpas. Há que evitar o problema do homem branco como qualquer outro estereotipo.

O diabo está nos detalhes
É uma frase que todos conhecem e que se aplica que nem uma luva à criação de mundos. É fácil estabelecer, e perder-se, nos grandes pilares da mundicriação: história, política e religião. Uma consequência disso são os blocos de texto que enfiamos a martelo no meio da história. Agora voltando ao início: o diabo está nos detalhes, e são esses detalhes que fazem a diferença entre um construção de mundo bem sucedida e uma que aborrece de morte o mais persistente dos leitores. Mostra o que é que eles comem às diferentes refeições. Mostra o que é que eles bebem. Mostra como são as casas deles. Mostra! Mostra! Mostra! Esta é a melhor maneira de construir um mundo.

O diabo também está nas interacções
Oh sim! Da mesma maneira que se mostra os pequenos detalhes que compõem o mundo, também se deve mostrar as interacções. Mostra de que maneira partilham a comida. Mostra como é que tratam os superiores. Mostra como são as relações românticas e como é que encaixam na norma. Mostra o mundo através do que as personagens fazem e dizem.

O mundo está vivo
Outro erro comum é construir um mundo estático. O mundo não é uma enciclopédia de raças esquecidas e culturas mortas. Claro que essas raças esquecidas podem lá estar, visto que dão uma profundidade adicional ao mundo, mas não podem ser o centro do mundo. O pilar do mundo devem ser as personagens vivas, a fazerem coisas reais que mandam o mundo. Deve-se combater a tendência de criar um mundo rígido e a desculpa de que todos fazem o mesmo. O nosso mundo nunca foi estático nem rígido. Por exemplo, ao olhar para um certo país temos uma certa ideia de como ele é, mas isso não significa que todas as pessoas sigam a norma. As pessoas são seres vivos e fazem decisões, nomeadamente a de aceitar ou recusar parte da cultura em que estão imersas.

Cortar a palha
Há uma certa tentação de acrescentar certos detalhes só que os consideram geniais. Até aí tudo bem, mas é necessário garantir que eles se ligam ao resto da história. A desculpa de que é um detalhe altamente não é suficiente. Se um certo detalhe ou vertente não tem ligação ao tema, tom ou personagens, o melhor é deixá-lo de fora. Podem usá-lo mais tarde noutra história ou noutro mundo em que a sua aparição seja mais plausível. Afinal não querem que a vossa ideia genial seja apenas um detalhe numa história maior quando pode ter a sua própria história, pois não?


Adaptador a partir deste artigo.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ebooks: Na Viagem do Caronte

Porque a ficção especulativa não é só prosa.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Vogando o rio vão as negras almas
Chorando e vagindo por suas penas
Fazendo lugar e vez de suas águas
Que em nada se dizem amenas.


A escrita é competente e as rimas estão bem conseguidas. Creio que este conto-poema teria beneficiado de imagens mais vívidas, visto que todo ele é uma imagem, mas que não foi convenientemente pintada pelo autor.
Recomendo a quem gostar de poesia e mitologia.

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Ebooks: Génesis

Assim que a história pega, é difícil de largar.



Autor: Pedro Pereira
Sinopse: Jado Mafawi é um dos geneticistas mais brilhantes do seu tempo. Ao ser contactado pessoalmente pelo Supremo Sacerdote, é recrutado pela Igreja para um misterioso projecto de investigação. Apanhado numa situação da qual não pode fugir, Jado acaba por colocar em jogo tudo aquilo que acredita ser correcto.


O início precisava de ser mais forte e com menos despejar de informação. A personagem principal necessitava de um pouco mais de personalidade. No entanto, assim que a trama se começa a desenvolver, a leitura torna-se mais fácil, prendendo o leitor até ao desenlace, que apesar de aberto é satisfatório. As descrições estão bem conseguidas. Em suma, após a primeira parte, o conto é uma leitura bastante agradável.
Recomendo a quem quiser descobrir ou redescobrir este autor português.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Ebooks: Devorador de Mundos

Fiquei contente por a história ser de ficção científica ao invés de fantasia, como o título parecia indicar.


Autora: Liliana Novais
Sinopse: Estava um dia horrível. Esperavam-no no CERN para dar início à sua experiência de colisão de partículas. Ele estava ansioso, toda a sua tese de doutoramento dependia dos resultados que obtivesse.


A personagem principal precisa de ser mais trabalhada. Todo o conto parece mais um resumo do conto do que o conto propriamente dito. Beneficiaria de uma abordagem mais de mostrar do que de contar. O final foi muito morno, creio que o conto poderia ter terminado um pouco antes, deixando o resto subentendido. Fora isso, é uma ideia com bastante potencial, que beneficiaria de uma revisão cuidada e uma reformulação.

Classificação: 2 estrelas

domingo, 22 de maio de 2016

Chá de Domingo #80: Construção de Mundos - Parte 2/4

Hoje vou continuar o artigo sobre a construção de mundos que iniciei aqui.


O Mundo é mais que um apoio à trama
A história não é só a trama. O que significa que o mundo criado terá de servir de pilar para o ambiente, tema, conflito, personagens e cultura da história.  Não deve ser só apresentado para fazer avançar a história, os detalhes devem envolver toda a narrativa e não se limitarem só à trama e à acção.

Mostrar, não contar
Isto é válido para outras vertentes da história. Nunca é demais chamar a atenção para um contar excessivo! Os detalhes do mundo devem ser trazidos pelos diálogos e pela acção. Nenhum leitor gosta de ter de enfrentar um monólito de descrição.

Simples ou Complexo?
Esta é uma questão que não tem um resposta última, depende muito da história que desejam contar. Certas histórias têm uma trama tão atraente ou personagens tão carismáticas que ofuscam por completo o mundo. Certos tipos de história exigem um mundo monocromático e simples (por exemplo: as fábulas e as "Era uma vez..."). As restantes devem afastar-se da construção simplista: estes são os bons e estes os maus. Por que é que acham que o Game of Thrones tem tanto sucesso? Não tem nenhuma personagem totalmente boa e inocente, nem nenhuma só má e perversa. Todas são um misto, que as diversas circunstâncias evidenciam determinadas características. Assim deve ser o vosso mundo. Não há grande novidade se o elfos forem os bons e os trolls os maus. É muito mais interessante se em cada raça houverem personagens realistas, ou seja, nem boas nem más. Agora é só extrapolar isto para as restantes vertentes.

Falar só sobre aquilo que se sabe
Este é um daqueles conselhos que vemos repetido um milhão de vezes. Em geral é um bom conselho e que deve ser seguido, mas há excepções e a construção de mundos é uma delas. Na ficção especulativa, é um daqueles conselhos que faz o escritor querer mandar com a cabeça na parede. Como raio vou escrever sobre o apocalipse? Como vou descrever homicídio? E como vou completar aquela cena de sexo entre um alien e um elfo? A maioria dos escritores aqui presentes só passou por apenas duas delas e numa estavam notoriamente embriagados. Como é que podemos então usar este conselho na construção de mundos? Não podemos! Pode ajudar na construção de personagens e situações, mas não de mundos. Não é totalmente verdade o que acabei de escrever: pode-se pegar em coisas que entendemos e extrapolar. Nem todos têm acesso às maquinações internas de um parlamento, mas até uma reunião de condomínios pode evidenciar o mesmo tipo de jogos e interesses, portanto o segredo é observar e adaptar. À falta disso, podem ir buscar inspiração à cultura, política e história. Leiam não-ficção sobre outros lugares e sobre outras pessoas. Não deixem que escrever só sobre aquilo que sabem seja uma barreira, mas um incentivo para saberem mais.

Uso de estereótipos
No caso da construção de mundos, e noutras coisas também, devem fugir dos estereótipos como o diabo da cruz. Heróis brancos e senhoras em apuros devem-se evitar, assim como uma uma raça que age toda do mesmo modo. Nenhuma cultura é monolítica, nem a cor da pele define o comportamento e muito menos as habilidades. Os homens e as mulheres não são coisas estáticas e cópias uns dos outros e totalmente estanques em termos de género. Os estereótipos são preguiça na melhor das hipóteses e insultuosos na pior. 

Este artigo foi adaptado a partir daqui.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Ebooks: O Anúncio do Corvo

Um fácil e rápido de se ler, que dará um especial gosto a todos os que se interessam por mitologia irlandesa.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Em véspera de batalha, um guerreiro é visitado por um augúrio.


A figura mitológica acaba por ser a personagem principal, apesar da história nos ser apresentada no ponto de vista de um homem. Não houve grande esforço nas descrições, o que poderia ter adicionado alguma beleza ao conto. A acção progride bem, embora lhe falte um clímax final. Apesar disso, é um conto que proporciona uma leitura muito agradável.
Recomendo a todos os amantes da mitologia irlandesa e a quem queira descobrir uma promissora autora portuguesa.

Classificação: 3 estrelas