segunda-feira, 23 de maio de 2016

Ebooks: Devorador de Mundos

Fiquei contente por a história ser de ficção científica ao invés de fantasia, como o título parecia indicar.


Autora: Liliana Novais
Sinopse: Estava um dia horrível. Esperavam-no no CERN para dar início à sua experiência de colisão de partículas. Ele estava ansioso, toda a sua tese de doutoramento dependia dos resultados que obtivesse.


A personagem principal precisa de ser mais trabalhada. Todo o conto parece mais um resumo do conto do que o conto propriamente dito. Beneficiaria de uma abordagem mais de mostrar do que de contar. O final foi muito morno, creio que o conto poderia ter terminado um pouco antes, deixando o resto subentendido. Fora isso, é uma ideia com bastante potencial, que beneficiaria de uma revisão cuidada e uma reformulação.

Classificação: 2 estrelas

domingo, 22 de maio de 2016

Chá de Domingo #80: Construção de Mundos - Parte 2/4

Hoje vou continuar o artigo sobre a construção de mundos que iniciei aqui.


O Mundo é mais que um apoio à trama
A história não é só a trama. O que significa que o mundo criado terá de servir de pilar para o ambiente, tema, conflito, personagens e cultura da história.  Não deve ser só apresentado para fazer avançar a história, os detalhes devem envolver toda a narrativa e não se limitarem só à trama e à acção.

Mostrar, não contar
Isto é válido para outras vertentes da história. Nunca é demais chamar a atenção para um contar excessivo! Os detalhes do mundo devem ser trazidos pelos diálogos e pela acção. Nenhum leitor gosta de ter de enfrentar um monólito de descrição.

Simples ou Complexo?
Esta é uma questão que não tem um resposta última, depende muito da história que desejam contar. Certas histórias têm uma trama tão atraente ou personagens tão carismáticas que ofuscam por completo o mundo. Certos tipos de história exigem um mundo monocromático e simples (por exemplo: as fábulas e as "Era uma vez..."). As restantes devem afastar-se da construção simplista: estes são os bons e estes os maus. Por que é que acham que o Game of Thrones tem tanto sucesso? Não tem nenhuma personagem totalmente boa e inocente, nem nenhuma só má e perversa. Todas são um misto, que as diversas circunstâncias evidenciam determinadas características. Assim deve ser o vosso mundo. Não há grande novidade se o elfos forem os bons e os trolls os maus. É muito mais interessante se em cada raça houverem personagens realistas, ou seja, nem boas nem más. Agora é só extrapolar isto para as restantes vertentes.

Falar só sobre aquilo que se sabe
Este é um daqueles conselhos que vemos repetido um milhão de vezes. Em geral é um bom conselho e que deve ser seguido, mas há excepções e a construção de mundos é uma delas. Na ficção especulativa, é um daqueles conselhos que faz o escritor querer mandar com a cabeça na parede. Como raio vou escrever sobre o apocalipse? Como vou descrever homicídio? E como vou completar aquela cena de sexo entre um alien e um elfo? A maioria dos escritores aqui presentes só passou por apenas duas delas e numa estavam notoriamente embriagados. Como é que podemos então usar este conselho na construção de mundos? Não podemos! Pode ajudar na construção de personagens e situações, mas não de mundos. Não é totalmente verdade o que acabei de escrever: pode-se pegar em coisas que entendemos e extrapolar. Nem todos têm acesso às maquinações internas de um parlamento, mas até uma reunião de condomínios pode evidenciar o mesmo tipo de jogos e interesses, portanto o segredo é observar e adaptar. À falta disso, podem ir buscar inspiração à cultura, política e história. Leiam não-ficção sobre outros lugares e sobre outras pessoas. Não deixem que escrever só sobre aquilo que sabem seja uma barreira, mas um incentivo para saberem mais.

Uso de estereótipos
No caso da construção de mundos, e noutras coisas também, devem fugir dos estereótipos como o diabo da cruz. Heróis brancos e senhoras em apuros devem-se evitar, assim como uma uma raça que age toda do mesmo modo. Nenhuma cultura é monolítica, nem a cor da pele define o comportamento e muito menos as habilidades. Os homens e as mulheres não são coisas estáticas e cópias uns dos outros e totalmente estanques em termos de género. Os estereótipos são preguiça na melhor das hipóteses e insultuosos na pior. 

Este artigo foi adaptado a partir daqui.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Ebooks: O Anúncio do Corvo

Um fácil e rápido de se ler, que dará um especial gosto a todos os que se interessam por mitologia irlandesa.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Em véspera de batalha, um guerreiro é visitado por um augúrio.


A figura mitológica acaba por ser a personagem principal, apesar da história nos ser apresentada no ponto de vista de um homem. Não houve grande esforço nas descrições, o que poderia ter adicionado alguma beleza ao conto. A acção progride bem, embora lhe falte um clímax final. Apesar disso, é um conto que proporciona uma leitura muito agradável.
Recomendo a todos os amantes da mitologia irlandesa e a quem queira descobrir uma promissora autora portuguesa.

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ebook: És o Que Pareces, Por Não o Seres

Bruxas, fantasmas e rituais sombrios... o que mais se pode desejar num conto de fantasia?


Autora: Carina Portugal
Sinopse: A fotografia girava sobre o seu dedo, cortando o ar em redor como uma lâmina. A velocidade de rotação aumentou, até a mão se abrir de súbito, paralisando-a. Da imagem sorriam-lhe duas pessoas, num reflexo da mais pura felicidade: ela própria, e um bonito rapaz de olhos de safira e cabelos cor de palha. As cabeças encostadas faziam com que os cabelos de ambos se misturassem, e os dedos das mãos entrelaçavam-se. Soltou um rosnar de fúria e voltou costas à fotografia. Com isto, o feitiço quebrou-se, e o retrato caiu sobre o tampo da mesa, ocultando ambos os sorrisos. 


O início, apesar de perturbador e intenso, alonga-se em demasia. Demoramos e conhecer a personagem principal, que me parece demasiado superficial. Contudo, a partir dai o conto desenvolve-se, sem nunca aliviar atenção, até ao final que por um lado é previsível mas por outro acaba por surpreender.  Gostei das descrições, que ajudam a criar o ambiente da história.
Recomendo a quem gostar deste fantasia.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ebooks: Fome

Um dos melhores contos que li da autora.


Autora: Liliana Novais
Sinopse: Os seus músculos encontravam-se entorpecidos pelos séculos de descanso. Despertara faminto. Ele sabia que se não se alimentasse, não recuperaria a sua força.



As personagens podem não ter muito profundidade e o tema ser um pouco cliché, mas o resultado acaba por ser bom. A autora dá demasiada informação, mas o facto de ser um conto curtinho não é tão grave, sendo a história dominada pelas acções. Em suma, a autora surpreendeu-me pela positiva.
Recomendo a quem nunca leu nada desta autora.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 15 de maio de 2016

Chá de Domingo #79: Corte do Norte

Conheçam a Corte do Norte, a qual tive o prazer de entrevistar, tal como tinha prometido aqui.

É um grupo de pessoas que tem experiência individual em participação e voluntariado de eventos, e que organizou colectivamente a EuroSteamCon 2015 de Portugal. Entre os membros contam-se escritores, músicos, designers, costureiros, roleplayers, e claro, aficionados pelo género steampunk.
(adaptado do site)

1 - Entre tantos géneros literários e artísticos, porquê o Steampunk?
A Corte do Norte não é exclusivamente um grupo de steampunk. Somos, antes de mais, um grupo de amigos com bastantes interesses em comum, quer seja livros, filmes, jogos, banda-desenhada, entre outros. O steampunk é apenas um desses géneros, visto que junta tanto daquilo que gostamos: história, época vitoriana, aventuras, gadgets, e a oportunidade de nos vestirmos a rigor e termos justificação para o fazer. Segundo experiência própria as pessoas normais tendem a olhar-nos de lado se nos vestíssemos sempre assim.

2 - Como é que se envolveram na organização do EuroSteamCon? A Corte do Norte foi criada para esse efeito ou já existia antes?
A Corte do Norte existia como um grupo informal de amigos escritores, que se conheceram através do Nanowrimo, um concurso de escrita. Estivemos nas duas edições anteriores da EuroSteamCon Portugal, e foi com pena que registamos a sua ausência em 2014. Depois de atirar algumas ideias ao ar e de muita ambição entre nós, perguntamo-nos “porque não fazermos nós?”. Com tantas pessoas de áreas diferentes no nosso grupo, com certeza que conseguiríamos fazer algo interessante. Depois de falar com a organização anterior e de obter a sua bênção, procedemos então a um ano inteiro de organização, entrevistas, e brincadeiras.

3 - Que outros projectos têm para além desse?
Ideias é algo que não nos falta, mas torná-las em projectos finais é mais difícil. Ora por ambição a mais, ora por falta de apoio por organizações e instituições do país, este tipo de convenções ou eventos ainda não têm muitas oportunidades em Portugal.
Mas temos outros projectos que podemos organizar entre nós, e estamos neste momento a debater alguns! Em breve talvez tenhamos notícias.

4 - Como está o género em Portugal, tanto em termos de artistas como de público?
Em parte aliado ao que referimos acima, Portugal ainda tem muito para desenvolver neste campo. Convenções grandes como a Comic Con ou a IberAnime têm resultados, mas projectos mais pequenos têm bastante dificuldade em vingar. Muitas vezes porque os espaços não são cedidos, ou pedem fundos que não existem em grupos sem fins lucrativos como nós. Outras vezes porque ainda não há público suficiente para garantir sucesso em eventos assim.
A comunidade steampunk em Portugal, embora não muito grande, é bastante activa. Nós não somos um grupo especificamente deste género, mas a Liga Steampunk em Lisboa é, e podemos vê-los em vários eventos ao longo do ano. Há várias pessoas a vestirem-se do género, a fazerem photoshoots, cosplays… É uma comunidade leal ao género e activa.
Mesmo assim, organizámos uma campanha de Indiegogo para trazer cá um convidado na próxima EuroSteamCon Portugal e não conseguimos o mínimo necessário. Talvez a comunidade não seja grande o suficiente, ou talvez cá ainda não haja o mindset necessário para apostar em projectos deste género. Talvez tenha sido a crise! Portugal tem potencial, mas ainda tem bastante que crescer.

5 - Steampunk não é só literatura, é também BD, Ilustração e Vestuário. Falem-nos um pouco dessas vertentes, e de outras, e do que existe em Portugal.
Infelizmente ainda não existe muito nesta área em Portugal. Se formos a ver, o steampunk é um nicho dentro dos géneros de fantasia e ficção-científica, e mesmo os autores e artistas desses géneros não são uma multidão neste país. Temos alguns artistas com banda-desenhada no género, como a dupla Marta Patalão e Tiago Bulha, ou Diogo Carvalho, e Carla Rodrigues. A SkyPirate Creations e a Elfic Wear fazem roupas steampunk. Mas o mercado steampunk português, fora dos Almanaques publicados em 2012, 2013, e 2015, tem ainda pouco (embora bom) a mostrar.

6 - Para quem nunca leu nada de Steampunk, nem tem nenhuma ideia do que se trata, qual seria o livro que aconselhariam a essa pessoa para que tivesse uma boa impressão do género? Porquê?
Escolher um só livro é limitativo, porque mesmo os fãs de steampunk têm gostos diversos! Existem várias escolhas:
- Qualquer uma das séries da Gail Carriger para quem gosta de heroínas independentes em mundos com criaturas sobrenaturais, e gadgets steampunk misturados com regras de etiqueta social;
- Os livros da Cherie Priest, história alternativa com zombies, zepelins, e bastante aventura pelos Estados Unidos em guerra civil.
- Por outro lado Scott Westerfeld em Leviathan pega na Primeira Guerra Mundial, numa mistura de máquinas steampunk e monstros criados através destas tecnologias.
Existem tantas possibilidades, não só em livros. O ano passado escrevemos um guia na revista Bang! precisamente sobre este tema. Aqui está o link para a edição online: http://revistabang.com/2015/08/04/bang-18-disponivel-online/

7 - Podem adiantar algo sobre o EuroSteam Con deste ano?
O que podemos adiantar para já é que em principio, devido à campanha Indiegogo não ter sido bem sucedida, não irá haver EuroSteamCon Portugal 2016. Talvez haja algo diferente, outro tipo de evento, mas nada como no formato do ano passado. Temos ideias e projectos que queremos anunciar, dependendo de como tudo correr, e em princípio estaremos na mesma presentes na Comic Con Portugal deste ano. Mas se houver interesse e apoio para uma futura convenção, talvez consigamos voltar no próximo ano!

Agradeço a disponibilidade da Corte do Norte para responder às minhas perguntas e faço votos que os próximos projectos sejam bem-sucedidos.

Saibam mais sobre a Corte do Norte no seu Website e no seu Facebook.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Livros: O Bobo

De vez em quando sabe bem pegar num clássico.


Autor: Alexandre Herculano
Sinopse: As convicções liberais levarão, em 1831, Herculano ao exílio em Inglaterra e França, donde parte para a Terceira, juntando-se à expedição liberal de D. Pedro que participará no Cerco do Porto. A experiência do exílio atravessará a sua vida e obra a ponto de se dizer um "trovador do exílio" - exilado longe da pátria e exilado no seu próprio país, vivendo o conflito entre projetos ditados pelo amor fervoroso à liberdade e o desencanto da ação política num mundo como exílio de Deus.(...) No romance O Bobo, o palco da ação, concentrada em apenas três dias, é o castelo de Guimarães e envolve uma movimentada trama política capaz de exaltar o espírito nacionalista conjugada com um enredo passional onde não faltam paixões exacerbadas que cruzam vingança e entrega numa atmosfera gótica cheia de subterrâneos, fugas, passagens secretas (...) Ação complexa e tensa, manipulação do suspense, enfoques narrativos diversos, interpelação ao leitor, variedade de tons, realismo descritivo, vivacidade coloquial, riso galhofeiro, exaltação melodramática, tudo contribui para fazer de O Bobo, «0 nosso romance histórico mais perfeito», na opinião de João Gaspar Simões.


Não foi a primeira vez que li este livro. Recordo-me de o ter lido com treze ou catorze anos, se bem que já não me lembrava que quase nada. Sou obrigado a ser indulgente com um autor que não via a prosa prolixa como um problema. Se fosse um autor contemporâneo, teria de ser mais severo em relação ao problema mostrar/contar. Contudo, quando este livro foi escrito, essas noções ainda não eram conhecidas. Para além disso, a complexidade das personagens, em especial as dinâmicas associadas ao triângulo amoroso. O protagonista não se faz notar durante a maior parte do livro, mas creio que isso foi intencional. Assim que somos agarrados pela acção, a leitura torna-se mais agradável. Como cereja no topo do bolo, não notei qualquer incongruência nos factos históricos, não fosse o autor um historiador. Em suma, um boa leitura para todas as idades.
Recomendo a quem gostar de um bom romance histórico e/ou de um clássico da literatura portuguesa.

Classificação: 4 estrelas