quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ebook: És o Que Pareces, Por Não o Seres

Bruxas, fantasmas e rituais sombrios... o que mais se pode desejar num conto de fantasia?


Autora: Carina Portugal
Sinopse: A fotografia girava sobre o seu dedo, cortando o ar em redor como uma lâmina. A velocidade de rotação aumentou, até a mão se abrir de súbito, paralisando-a. Da imagem sorriam-lhe duas pessoas, num reflexo da mais pura felicidade: ela própria, e um bonito rapaz de olhos de safira e cabelos cor de palha. As cabeças encostadas faziam com que os cabelos de ambos se misturassem, e os dedos das mãos entrelaçavam-se. Soltou um rosnar de fúria e voltou costas à fotografia. Com isto, o feitiço quebrou-se, e o retrato caiu sobre o tampo da mesa, ocultando ambos os sorrisos. 


O início, apesar de perturbador e intenso, alonga-se em demasia. Demoramos e conhecer a personagem principal, que me parece demasiado superficial. Contudo, a partir dai o conto desenvolve-se, sem nunca aliviar atenção, até ao final que por um lado é previsível mas por outro acaba por surpreender.  Gostei das descrições, que ajudam a criar o ambiente da história.
Recomendo a quem gostar deste fantasia.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ebooks: Fome

Um dos melhores contos que li da autora.


Autora: Liliana Novais
Sinopse: Os seus músculos encontravam-se entorpecidos pelos séculos de descanso. Despertara faminto. Ele sabia que se não se alimentasse, não recuperaria a sua força.



As personagens podem não ter muito profundidade e o tema ser um pouco cliché, mas o resultado acaba por ser bom. A autora dá demasiada informação, mas o facto de ser um conto curtinho não é tão grave, sendo a história dominada pelas acções. Em suma, a autora surpreendeu-me pela positiva.
Recomendo a quem nunca leu nada desta autora.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 15 de maio de 2016

Chá de Domingo #79: Corte do Norte

Conheçam a Corte do Norte, a qual tive o prazer de entrevistar, tal como tinha prometido aqui.

É um grupo de pessoas que tem experiência individual em participação e voluntariado de eventos, e que organizou colectivamente a EuroSteamCon 2015 de Portugal. Entre os membros contam-se escritores, músicos, designers, costureiros, roleplayers, e claro, aficionados pelo género steampunk.
(adaptado do site)

1 - Entre tantos géneros literários e artísticos, porquê o Steampunk?
A Corte do Norte não é exclusivamente um grupo de steampunk. Somos, antes de mais, um grupo de amigos com bastantes interesses em comum, quer seja livros, filmes, jogos, banda-desenhada, entre outros. O steampunk é apenas um desses géneros, visto que junta tanto daquilo que gostamos: história, época vitoriana, aventuras, gadgets, e a oportunidade de nos vestirmos a rigor e termos justificação para o fazer. Segundo experiência própria as pessoas normais tendem a olhar-nos de lado se nos vestíssemos sempre assim.

2 - Como é que se envolveram na organização do EuroSteamCon? A Corte do Norte foi criada para esse efeito ou já existia antes?
A Corte do Norte existia como um grupo informal de amigos escritores, que se conheceram através do Nanowrimo, um concurso de escrita. Estivemos nas duas edições anteriores da EuroSteamCon Portugal, e foi com pena que registamos a sua ausência em 2014. Depois de atirar algumas ideias ao ar e de muita ambição entre nós, perguntamo-nos “porque não fazermos nós?”. Com tantas pessoas de áreas diferentes no nosso grupo, com certeza que conseguiríamos fazer algo interessante. Depois de falar com a organização anterior e de obter a sua bênção, procedemos então a um ano inteiro de organização, entrevistas, e brincadeiras.

3 - Que outros projectos têm para além desse?
Ideias é algo que não nos falta, mas torná-las em projectos finais é mais difícil. Ora por ambição a mais, ora por falta de apoio por organizações e instituições do país, este tipo de convenções ou eventos ainda não têm muitas oportunidades em Portugal.
Mas temos outros projectos que podemos organizar entre nós, e estamos neste momento a debater alguns! Em breve talvez tenhamos notícias.

4 - Como está o género em Portugal, tanto em termos de artistas como de público?
Em parte aliado ao que referimos acima, Portugal ainda tem muito para desenvolver neste campo. Convenções grandes como a Comic Con ou a IberAnime têm resultados, mas projectos mais pequenos têm bastante dificuldade em vingar. Muitas vezes porque os espaços não são cedidos, ou pedem fundos que não existem em grupos sem fins lucrativos como nós. Outras vezes porque ainda não há público suficiente para garantir sucesso em eventos assim.
A comunidade steampunk em Portugal, embora não muito grande, é bastante activa. Nós não somos um grupo especificamente deste género, mas a Liga Steampunk em Lisboa é, e podemos vê-los em vários eventos ao longo do ano. Há várias pessoas a vestirem-se do género, a fazerem photoshoots, cosplays… É uma comunidade leal ao género e activa.
Mesmo assim, organizámos uma campanha de Indiegogo para trazer cá um convidado na próxima EuroSteamCon Portugal e não conseguimos o mínimo necessário. Talvez a comunidade não seja grande o suficiente, ou talvez cá ainda não haja o mindset necessário para apostar em projectos deste género. Talvez tenha sido a crise! Portugal tem potencial, mas ainda tem bastante que crescer.

5 - Steampunk não é só literatura, é também BD, Ilustração e Vestuário. Falem-nos um pouco dessas vertentes, e de outras, e do que existe em Portugal.
Infelizmente ainda não existe muito nesta área em Portugal. Se formos a ver, o steampunk é um nicho dentro dos géneros de fantasia e ficção-científica, e mesmo os autores e artistas desses géneros não são uma multidão neste país. Temos alguns artistas com banda-desenhada no género, como a dupla Marta Patalão e Tiago Bulha, ou Diogo Carvalho, e Carla Rodrigues. A SkyPirate Creations e a Elfic Wear fazem roupas steampunk. Mas o mercado steampunk português, fora dos Almanaques publicados em 2012, 2013, e 2015, tem ainda pouco (embora bom) a mostrar.

6 - Para quem nunca leu nada de Steampunk, nem tem nenhuma ideia do que se trata, qual seria o livro que aconselhariam a essa pessoa para que tivesse uma boa impressão do género? Porquê?
Escolher um só livro é limitativo, porque mesmo os fãs de steampunk têm gostos diversos! Existem várias escolhas:
- Qualquer uma das séries da Gail Carriger para quem gosta de heroínas independentes em mundos com criaturas sobrenaturais, e gadgets steampunk misturados com regras de etiqueta social;
- Os livros da Cherie Priest, história alternativa com zombies, zepelins, e bastante aventura pelos Estados Unidos em guerra civil.
- Por outro lado Scott Westerfeld em Leviathan pega na Primeira Guerra Mundial, numa mistura de máquinas steampunk e monstros criados através destas tecnologias.
Existem tantas possibilidades, não só em livros. O ano passado escrevemos um guia na revista Bang! precisamente sobre este tema. Aqui está o link para a edição online: http://revistabang.com/2015/08/04/bang-18-disponivel-online/

7 - Podem adiantar algo sobre o EuroSteam Con deste ano?
O que podemos adiantar para já é que em principio, devido à campanha Indiegogo não ter sido bem sucedida, não irá haver EuroSteamCon Portugal 2016. Talvez haja algo diferente, outro tipo de evento, mas nada como no formato do ano passado. Temos ideias e projectos que queremos anunciar, dependendo de como tudo correr, e em princípio estaremos na mesma presentes na Comic Con Portugal deste ano. Mas se houver interesse e apoio para uma futura convenção, talvez consigamos voltar no próximo ano!

Agradeço a disponibilidade da Corte do Norte para responder às minhas perguntas e faço votos que os próximos projectos sejam bem-sucedidos.

Saibam mais sobre a Corte do Norte no seu Website e no seu Facebook.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Livros: O Bobo

De vez em quando sabe bem pegar num clássico.


Autor: Alexandre Herculano
Sinopse: As convicções liberais levarão, em 1831, Herculano ao exílio em Inglaterra e França, donde parte para a Terceira, juntando-se à expedição liberal de D. Pedro que participará no Cerco do Porto. A experiência do exílio atravessará a sua vida e obra a ponto de se dizer um "trovador do exílio" - exilado longe da pátria e exilado no seu próprio país, vivendo o conflito entre projetos ditados pelo amor fervoroso à liberdade e o desencanto da ação política num mundo como exílio de Deus.(...) No romance O Bobo, o palco da ação, concentrada em apenas três dias, é o castelo de Guimarães e envolve uma movimentada trama política capaz de exaltar o espírito nacionalista conjugada com um enredo passional onde não faltam paixões exacerbadas que cruzam vingança e entrega numa atmosfera gótica cheia de subterrâneos, fugas, passagens secretas (...) Ação complexa e tensa, manipulação do suspense, enfoques narrativos diversos, interpelação ao leitor, variedade de tons, realismo descritivo, vivacidade coloquial, riso galhofeiro, exaltação melodramática, tudo contribui para fazer de O Bobo, «0 nosso romance histórico mais perfeito», na opinião de João Gaspar Simões.


Não foi a primeira vez que li este livro. Recordo-me de o ter lido com treze ou catorze anos, se bem que já não me lembrava que quase nada. Sou obrigado a ser indulgente com um autor que não via a prosa prolixa como um problema. Se fosse um autor contemporâneo, teria de ser mais severo em relação ao problema mostrar/contar. Contudo, quando este livro foi escrito, essas noções ainda não eram conhecidas. Para além disso, a complexidade das personagens, em especial as dinâmicas associadas ao triângulo amoroso. O protagonista não se faz notar durante a maior parte do livro, mas creio que isso foi intencional. Assim que somos agarrados pela acção, a leitura torna-se mais agradável. Como cereja no topo do bolo, não notei qualquer incongruência nos factos históricos, não fosse o autor um historiador. Em suma, um boa leitura para todas as idades.
Recomendo a quem gostar de um bom romance histórico e/ou de um clássico da literatura portuguesa.

Classificação: 4 estrelas

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Ebooks: Crónicas de Amarílis

Mais uma oportunidade para conhecer o que se vai escrevendo no domínio da fantasia em Portugal.


Autora: Sara Farinha
Sinopse: Os 7 anos de exílio de Ivan Fallon não o afastavam de Amaríllis, nem do seu irmão Caio, o único membro vivo da família. Forçado a salvá-lo das mãos da cruel usurpadora do trono, Ivan está disposto a tudo, até sacrificar a própria vida. Mas a magia de Amaríllis tem outros planos e a traição empurra-o para uma escolha difícil, enquanto o destino se tece fortuitamente. Será Ivan capaz de antecipar todas as forças que o influenciam? Que mais tem para perder?


O conto começa bem, contudo, pouco depois é-nos despejado um monte de informação. A história podia ter começado num ponto anterior, por exemplo quando Ivan descobre que Caio vai ser executado, o que daria tempo e espaço à autora para explorar o passado sem ter de o enfiar a martelo. A personagem é dominada sempre pelos mesmos sentimentos, o que a faz parecer um pouco unidimensional. No entanto, após a primeira parte, a trama desenvolve-se num crescendo competente. Gostei das descrições. Em geral, apesar destas falhas, acabei por gostar do conto.
Recomendo a quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho desta autora.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ebooks: Os Deuses do Fogo

Uma ideia com bastante potencial.


Autora: Liliana Novais
Sinopse: A aldeia cresceu à sombra da montanha. Os seus antepassados haviam-se fixado ali milénios antes, porque os deuses que a habitavam eram bons. Quer dizer, alguns deles, os outros só esperam uma desculpa para os destruir.


A história começa com uma longa exposição sobre o mundo criado. Preferia que a autora tivesse passado directamente para a acção. A ideia base é interessante e têm bastante potencial. Gostava de ter visto as personagens mais trabalhadas, assim como o final. Em suma, este conto necessitava de ser rescrito.

Classificação: 2 estrelas

domingo, 8 de maio de 2016

Chá de Domingo #78: Construção de Mundos - Parte 1/4

Hoje vamos falar da construção de mundos ficcionais.


Um aspecto que tem potencial de consumir muito tempo na criação de uma história é a construção do mundo. Como qualquer outra vertente, despender pouco esforço irá causar tantos problemas como despender em demasia.

O que é a Construção de Mundos?
Há quem lhe chame, em português, mundicriação. Há quem pense na construção de mundos como o cenário da história, que de certo modo o é, mas nem só.  O cenário é apenas uma das componentes. Quando falamos da construção do mundo, falamos da sociedade, costumes, economia, hábitos sexuais, religião, comida, construção e arquitectura, formas de viajar, política, valores morais, se gostam de tomar banho às quatro da tarde à segunda-feira, etc...

A Mundicriação serve a história
Toda a história começa com uma ideia, que geralmente se traduz num conflito. Depois de termos idealizado o conflito, o passo seguinte é encontrar as personagens que irão dar vida a esse conflito e, por fim, colocá-las num ambiente adequado. O mundo deve ser criado para acomodar essas personagens e esse conflito e não o contrário. Se derem mais importância ao mundo criado do que às personagens, acabarão por criar um mundo capaz de contar muitas histórias sem contar a vossa.

Algumas pessoas têm a tendência de gastar imenso tempo na criação de mundos. Apesar de até sentirem que estão a ser produtivas, não estão a avançar com a história. O objectivo não é criar uma enciclopédia, mas sim um livro de ficção. Tudo depende do tamanho da história. Se quiserem escrever apenas um conto com cerca de mil palavras, uma dúzia de frases sobre o mundo é suficiente. Por outro lado, se o objectivo for uma trilogia de 150 mil palavras em cada volume, será sensato elaborar todos os aspectos sobre o mundo. Apesar disso, se gastarem um ano a escrever um calhamaço sobre o vosso mundo sem avançarem uma única frase na vossa trilogia, é possível que estejam a ir na direcção errada.

Como fazer? (para escritores preguiçosos)
Nem sempre a preguiça é um defeito, em certas circunstâncias poderá até ser um virtude. No caso da mundicriação, há muitos autores que optam por uma abordagem de acrescentar aspectos à medida que vão escrevendo a história. Confesso que faço parte desse grupo. Parece-me mais orgânico desenvolver os detalhes à medida que são necessários à história do que fazê-lo de um modo independente. Essa preguiça acaba por ter um preço, que é obrigar na revisão a verificar cada um dos aspectos para ter a certeza que é compatível com a ideia final. Tem a vantagem de não se perder tempo a criar o mundo e avançarmos para a escrita, que é o mais importante.

Que detalhes dar ao leitor?
Alguns escritores preferem só dar os detalhes que são essenciais à trama. Deve-se evitar fazer isso, pois a história fica muito oca e parece não existir mais nada para além da trama. Pensem num jogo em que é muito fácil chegar às extremidades do mapa: o leitor irá aperceber-se disso. É preciso adicionar detalhes que tornem o vosso mundo, e por conseguinte a história, mais rico. Por outro lado, não precisam de descrever o brasão de cada família, os cortes de cabelo e cada pedacinho de relva do mundo. O equilíbrio é muito importante. Não há uma receita definitiva e depende do tipo de história que querem contar: em certas novelas fantásticas, o próprio mundo é uma personagem por si mesma, e noutras o tipo de mundo é quase ortogonal, não fazendo diferença se é assim ou o oposto.

Podem encontrar a segunda parte deste artigo aqui.

Este artigo foi adaptado a partir daqui.