domingo, 6 de março de 2016

Chá de Domingo #73: Mais Pastelaria

Só há duas coisas que me deixam realmente chateado: a ignorância das pessoas e os esquemas que fazem aos autores acreditarem que tem de pagar para editar.


Há uns dias, vi no meu mural do facebook a capa de um livro que estaria prestes a ser editado. O autor fazia parte dos meus contactos, por isso fui ver a capa. Bem, ia-me dando uma coisa má: a capa ostentava a marca da Pastelaria Estúdios. Já vos falei desta editora leviana, a qual não me inspira confiança alguma.

O meu impulso foi o de alertar esse meu conhecido para aquilo em que se estava a meter:

Não querendo ser inoportuno, creio que você foi enganado. A Pastelaria Estúdios tem muito má reputação no meio literário. é possível que você tenha pago umas boas centenas de euros para publicar esse livro e não vai conseguir vendo-lo a menos de 10 a unidade. Para além disso, não espere a Sra Teresa Queiroz ou a Editora o ajudem a vendê-lo. Os autores não tem que pagar para editar, isso é um esquema em que muitos caem. E caso se queira auto-publicar, peça ajuda, vais ver que poderá poupar muito dinheiro e até vender os livros mais baratos. Como é que eu sei isto? Eu trabalhei numa editora que nunca cobrou um único cêntimo aos autores.
A pessoa em causa tratou de agradecer a informação e de usá-la para confrontar a Sra. Teresa Queiroz, a dona da Pastelaria. A reacção dela não se fez esperar:
não sei como classificar isto
nojento -- é pouco
agradeço que se contenha
mas obrigada pela publicidade

Quase três horas depois, acrescentou (sem que eu tenha dado qualquer resposta):

cobardia é fantástico
é isso que ensinam aos miúdos agora?
felicidades
não precisa responder

Na manhã seguinte, ao ver as mensagens decidi responder:

Já tive a infelicidade de ser enganada pela senhora. Portanto, estou a falar com conhecimento de causa. Não é cobardia avisar outras pessoas para não caírem na conto do vigário. Para além disso, tudo o que disse é estritamente verdade, ou deseja contestar os factos?
A resposta foi simples:

é imensa cobardia
passe bem
E a minha também:

Porque é que é cobardia? Desde quando falar a verdade é cobardia?
E aqui terminou a conversa. Considero interessante o facto de ela não desejar sequer contestar os factos.

Infelizmente, não é sequer possível argumentar com este género de pessoas. A única parte positiva é que o autor não deverá voltar a cometer o mesmo erro. Enfim, que fique o aviso para todos os escritores que andam por ai à espera de ser publicados: Não tem de pagar para ser publicados! Se não encontrarem outra forma, façam um favor a vós mesmos: auto-publiquem-se, fica mais barato e tem o controlo todo nas vossas mãos.

Nota final: A Pastelaria Estúdios faz parte do Grupo Múltiplas Histórias, no qual se incluem as editoras Silkskin Editora, Orquídea Edições e Papel de Arroz Editora. Muitas faces para o mesmo esquema.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Ebooks: Nanozine 5

A grande questão é: qual a relação entre a capa e o ambiente de criação desta ezine?


Autores: Roberto Mendes, Diana Pinguicha, Vitor Frazão, Cristiano Estevão, João Valentim, Adoa Coelho, Victor Domingos e Ricardo Campus.
Sinopse: A Porta | Roberto Mendes
Fim do Mundo | Diana Pinguicha
O Preço – Parte I | Vitor Frazão
Floresta Maldita – Parte III | Cristiano Estevão
A pena do corvo | João Valentim
O Cálice da Vingança - Parte VI| Adoa Coelho

Poesia:
Victor Domingos

Artigos:
Menos acaba por ser mais e melhor
Os vampiros na dinastia dos Tudors
Entrevista a Ricardo Campus
Scriptfrenzy




A Porta - Roberto Mendes
Apesar da ideia ser boa, a execução tornou a história um tanto confusa. Não percebi a utilização das datas. O autor contou um pouco mais do que devia.
3 estrelas


O Fim do Mundo - Diana Pinguicha
Uma vinheta mediana. Podia ter sido melhor explorada.
3 estrelas


O Preço: Parte 1 - Vitor Frazão
Muito confuso por mudar de ponto de vista sem avisar. O conto beneficiaria de uma boa revisão para retirar os partes em que o autor conta demais.
2 estrelas


Floresta Maldita: Parte III - Cristiano Estevão
O final arruinou o conto, numa prosa que praticamente só conta e que não cria nem tensão nem causa emoção.
2 estrelas


A Pena do Corvo - João Valentim
Gostei da ideia base, embora considere que os acrescentos a negrito não acrescentem nada ao conto. A formatação deste conto é especialmente problemática. O ponto mais importante do conto não foi vincado como merecia.
3 estrelas


O Cálice da Vingança: Parte VI - Adoa Coelho
Por fim, o final. Creio que este conto podia ser menos uma parte ou duas sem sair prejudicado. Fiquei com a sensação que a autora se alongou demais. Gostei do final, que acabou por acontecer como se prometera.
3 estrelas


Poesia de Victor Domingos
Não se destacou.
2 estrelas


Poesia de Ricardo Campus
Teria sido mais interessante ver este poemas em contexto
3 estrelas

A entrevista a Ricardo Campus foi demasiado superficial. A ezine ainda tem alguns problemas de formatação: 3 colunas nunca é boa ideia. As opiniões inseridas são uma mais valia. Pareceu-me que houve uma selecção mais relaxada para os contos deste número.

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 2 de março de 2016

Ebooks: Nanozine 4.5

Senhores e senhoras, apresento-vos o número perdido e especial desta ezine.


Autores: Inês Montenegro, Adoa Coelho, Cristiano Estevão e Leonor Ferrão
Sinopse: Contos
Inês Montenegro - Dez Meninos Negros
Adoa Coelho - O Cálice da Vingança: Parte V
Cristiano Estevão - Floresta Maldita: Parte II
Leonora R. Campbell - Conto de Natal I

Artigos
E Depois do Nanowrimo?
Os Melhores Entre os Melhores
A Viagem de Frank Herbert em Portugal - Alexandra Rolo
So Long and Thanks for all the Fish - Adeselna Davies


Dez Meninos Negros - Inês Montenegro
Desde a personagem escolhida para contar esta história, até ao tom usado, todos os elementos casam muito bem. O final foi bom, contudo a penúltima frase era desnecessária.
4 estrelas


O Cálice da Vingança: Parte V - Adoa Coelho
Esta parte está um pouco melhor que a anterior. Mesmo assim, continuo a desejar o final desta história. Creio que já deu tudo o que tinha a dar.
3 estrelas


Floresta Maldita: Parte II - Cristiano Estevão
Este conto mostra pouco e conta muito. As reacções das personagens não são nada realistas, roçando o ridículo. O autor precisava de ter tido uma abordagem completamente diferente.
2 estrelas


Um Conto de Natal - Leonor Ferrão
Um conto com uma boa ideia subjacente, em que faltou mostrar mais, contar menos e criar mais tensão.
3 estrelas


Porque é as colunas de texto não tem todas o mesmo tamanho? O primeiro artigo, sobre a polémica de Cristo é interessante como cultura geral.O artigo sobre o Nanowrimo deixou um pouco a desejar. Por fim, as sugestões literárias são de qualidade. O design da ezine está a melhorar, embora ainda se encontre pedaços de texto repetidos em vários locais.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Ebooks: Nanozine 4

Com uma capa desta, quem é que consegue resistir a abri-la?


Autores: Joel Puga, Cristiano Estevão, Rui Sousa, Adoa Coelho, Pedro Vicente, Ricardo Cunha, Liliana Novais e Telmo Marçal.
Sinopse: A Nanozine é um projecto amador surgido em 2011 que publica autores portugueses.




O Mestre Arquitecto - Joel Puga
Este texto acaba mais por ser mais uma parábola que um conto. O autor conta quase tudo, mostrando muito pouco. Com um desenvolvimento mais cuidado, teria passado uma mensagem mais forte.
3 estrelas


Floresta Maldita - Parte 1 - Cristiano Estevão
Escrita parcialmente no mesmo estilo de Drácula de Stoker, este conto peca pelos extras que são completamente desnecessários. Há muita informação que é completamente desnecessária. Os diálogos são muito artificiais.
2 estrelas


100 Palavras - Rui Sousa
Este conto é uma boa prova de conceito, apesar de não ser mais que isso.
2 estrelas


O Cálice da Vingança - Parte IV - Adoa Coelho
O sentido de humor que caracterizava este conto começa a desgastar-se. Espero que termine em breve, caso contrário a autora arrisca-se a estragar o bom trabalho que fez.
2 estrelas


O Ditador - Pedro Vicente
O título remete para algo completamente diferente e acaba por nos causar algumas surpresas. Gostei da ideia. A execução podia ser um pouco mais trabalhada.
4 estrelas


They're Just Memories - Ricardo Cunha
Um conto curto e rico numa imagética interessante.
3 estrelas


Um Grito de Liberdade - Liliana Novais
Um conto interessante em forma de relato, apesar de ter uma ou duas incongruências históricas.
3 estrelas


Dia de Libertação - Telmo Marçal
Poesia em forma de conto. Gostei do formato e do desenvolvimento.
3 estrelas


Segunda Oportunidade - Telmo Marçal
O tom foi muito bem escolhido. A ideia fui bem trabalhada, tornado-o num conto que se lê com facilidade e prazer.
4 estrelas


Esta edição tem muitos problemas de frases repetidas. O aspecto gráfico está superior ao da edição anterior, embora os contos, na generalidade, estarem mais fracos. Há que felicitar a coragem destas três escritoras na criação deste projecto.
Recomendo a quem quiser conhecer o que se faz em Portugal.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Chá de Domingo #72: 12 Erros que Escritores Iniciantes Cometem - Parte 1

Hoje vamos falar dos erros mais comuns que os escritores iniciantes comentem e os prejudicam mais.


Para muitos escritores, a primeira publicação é a mais extenuante. Enviam o seu manuscrito para dezenas ou até centenas de editoras e agentes e nem sequer recebem uma resposta. Se é comum, e quase uma piada entre os autores, o facto de os editores não responderem às submissões, há certos erros que tornam essa resposta demorada em algo que nunca se concretizará. Um editor poderá receber dezenas de manuscritos numa semana. Podem-se perguntar como é que ele os lê a todos? Não lê. Passa os olhos pelas primeiras páginas e se lhe interessar é que lê o resto.

Como evitar que isso aconteça? Evitar os erros mais comuns para que possamos causar uma boa impressão no editor. Aqui ficam os 12 que definem se o vosso manuscrito algum dia vai deixar a pilha dos por ler:

Gramática e Ortografia
Nenhum editor irá querer ler uma história cheia de erros. Para além de lhe dificultar a vida, dá uma má impressão do autor. Um autor que submete uma história com este problema mostra que é um amador e que não se dedicou o suficiente ao livro. Não esperem, sequer, que passe da primeira página.

Evitar a Prosa Purpura
Uma prosa adornada em demasia por adjectivos e advérbios não é um sinal de um bom escritor. Muito pelo contrário, desencoraja os leitores a mergulharem na história, distraindo-os do que realmente interessa: a trama! O mesmo é válido para o escritor: quando gasta muito tempo a polir as frases, esquece-se das outras vertentes.

Exemplo: A sua face era como o Sol Nascente, os seus olhos como o infinito do oceano. Cada olhar era como se uma vida inteira se esvaísse num único segundo de contemplação desta deusa alada e bela.
Frase cheia de metáforas que não fiz nada e confunde o leitor.


Frases com Demasiados Verbos
Ninguém quer ler frases com demasiados verbos. Estas transmitem uma sensação de simultaneidade, que quase nunca é intencional, e são mais complicadas de ler.

Exemplo: Ela levantou-se, tomou banho, vestiu-se, lavou os dentes e tomou o pequeno-almoço antes de sair.
Para além de intragável, esta frase é provavelmente redundante.


Não usar a voz passiva
A voz passiva diminui o impacto daquilo que o autor quer transmitir. A mensagem perde força que a voz activa lhe dá. Para além disso, o seu uso pode ser interpretado como vindo de um escritor pretensioso.

Exemplo: A carta foi escrita por Rita.


Demasiada descrição
Este problema afasta os leitores da história. Por muito que queira descrever o exacto tom de azul da cortina, a frequência dessas descrições extenuantes acaba por cansar o leitor. Não é só a quantidade de descrição, mas também quão exaustiva esta é. Este erro aumenta o hiato entre o escritor e o leitor, quando desejamos que o oposto aconteça. É particularmente grave no caso de descrição de objectos/cenários pouco relevantes para a história.


Demasiadas Palavras sem Dizer o Essencial
Seja conciso e claro na sua escrita. Uma boa maneira de treinar isto é escrever vinhetas, visto que obriga a chegar rapidamente ao cerne da história. Uma revisão cuidada de caneta vermelha ajuda a eliminar toda a palha do manuscrito. Em caso de dúvida, peça uma segunda opinião de um escritor mais experiente.


Artigo parcialmente adaptado e traduzido daqui.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Ebooks: A Flecha Perdida

Mais uma peça no universo ficcional deste autor.


Autor: Pedro Pereira
Sinopse: Escondidas pela vegetação, as irmãs Geerlings seguem o rasto da sua presa. Empenhadas na caçada, ignoram por completo o perigo que se aproxima da colónia de Drunen.


A primeira parte do conto serve para nos dar a conhecer as personagens. Este é um dos exemplos em que usar prólogo não é mau de todo. Contudo, duvido que os animais deixem tufos de pêlo agarrados às árvores tão frequentemente. As personagens são-nos dadas a conhecer de uma forma dinâmica. O universo é-nos descrito com detalhe suficiente para que percebamos que estes acontecimentos se situam numa história maior. A trama, apesar de não ter reviravoltas, vai aumentando a tensão até ao final. Creio que o conto foi bem executado.
Recomendo a quem quiser conhecer este universo pós-apocalíptico fantástico e o trabalho deste autor.

Classificação: 4 estrelas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Ebooks: A Filha da Peste

Um dos melhores contos desta autora.


Autora: Carina Portugal
Sinopse: Oriunda de um passado infecto, a morte esconde-se por de trás de uma máscara dourada, pronta a tomar Veneza, quando todos menos esperam – sob o disfarce do Carnaval.


Este é um daqueles raros casos em que o prólogo não é dispensável. Para além de ajudar a definir o tom do conto, dá-nos uma visão sobre o antagonista. As personagens estão muito bem desenhadas atingindo a complexidade que só é limitada pelo formato. As descrições estão excelentes, não sendo difícil a imersão no Carnaval de Veneza. A trama flui com facilidade, prendendo o leitor às páginas até ao final, que não desaponta. A linguagem é cuidada sem florear em demasia. Em suma, este conto está muito bom em todas as vertentes.
Recomendo vivamente este conto, a quem já conhece e a quem quiser descobrir uma nova autora português.

Classificação: 5 estrelas