quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Ebooks: 7 Pecados

As antologias do Fantasy & Co são um excelente meio para descobrir novos escritores.



Autores: Carina Portugal, Carlos Silva, Liliana Novais, Pedro Cipriano, Pedro Pereira, Sara Farinha e Vitor Frazão. 
Sinopse: A antologia 7 pecados reúne contos de autores portugueses emergentes, um por cada pecado mortal. 


Como é normal, irei dar classificar cada um dos contos individualmente.

Gula - Carina Portugal
O conto é um perfeito exemplo do que o terror deve ser. Cria tensão e dá-nos um final que nos deixa a desejar mais. Gostei muito!
4 estrelas

A Cidade Perdida - Um Conto Acerca do Orgulho - Liliana Novais
Uma história engraçada mas cliché. Não há obstáculos nem tensão o que prejudica em muito a narrativa.

2 estrelas

Ira - Pedro Pereira
Um conto interessante, que teria beneficiado de um final melhor. Gostei do setting.

3 estrelas

Luxúria - Sara Farinha
Apesar da história ser um pouco cliché e o final não ser totalmente inesperado, gostei da ambientação e tensão criadas.

3 estrelas


Preguiça - Carlos Silva
Gostei do conto, apesar de ser só narrado sem criar  grande ligação com a personagens. Fazer melhor? É possível, mas nada fácil.
4 estrelas

Desejo - Vitor Frazão
Curto e engraçado. Serve o seu propósito, mas podia ser mais expandido.
3 estrelas

Nada e Tudo - Pedro Cipriano
Não vou comentar nem classificar este por razões óbvias.

A classificação final é baseada na média dos contos. Apesar de haver uma certa disparidade em termos de qualidade dos contos, creio que é um antologia que irá entreter muitos leitores.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Ebooks: A Bela e o Monstro

Um recontar do clássico que todos nós conhecemos.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Quando o pai sugere o casamento com um estranho como solução para a eminente falência da empresa, Beatriz mal pode acreditar na resposta da irmã, Isabel – muito menos depois de verem o repugnante aspecto do noivo. Isabel, no entanto, insiste na sua decisão, não deixando a Beatriz outra hipótese que não a de tomar o assunto nas próprias mãos…


Acho que o início não foi dos mais fortes. As personagens tiveram o desenvolvimento possível num conto. Depois do início demasiado lento, a história avança rápido demais e falhando alguns momentos e descrições que seriam importantes para o leitor. A parte final é a que me pareceu estar mais bem conseguida. Em suma, já vi esta autora conseguir melhor e foram essas expectativas frustradas que me fizeram ficar desapontado com o resultado.
Recomendo a quem gostar do estilo desta escritora.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Chá de Domingo #70: Escrever um Conto - Parte 4

Vamos lá então à última parte do guia prático de como escrever um conto. Podem encontrar as partes anteriores aqui: parte 1, parte 2 e parte 3.


Conflito
Vamos começar pelo conflito. Já escrevi um artigo sobre isso, que podem encontrar aqui.

Gostaria de acrescentar mais alguns pontos. O conflito produz a tensão que dá início à história. O conflito é criado entre a personagem ou personagens e as condicionantes internas e externas. Balancear as forças em oposição é a melhor maneira de manter os leitores agarrados às páginas.

 Dicas para construir e manter a tensão:
  • Mistério: explique somente o suficiente para provocar os leitores. Não dê os detalhes todos de uma vez.
  • Balanço: dê a ambos os lados escolhas e poder para vencer o desafio.
  • Progressão: vá aumentando o número de obstáculos do protagonista e a sua dificuldade.
  • Casualidade: faça com o que as personagens que cometem erros sofram as consequências e dê recompensas às que não o fazem.
  • Surpresa: crie complexidade suficiente para que os leitores não possam prever o que vai acontecer muito antes que aconteça.
  • Empatia: faça com o leitor se ligue às personagens e se identifique tanto com as situações agradáveis como desagradáveis a que o protagonista é exposto.
  • Compreensão: revele algo sobre a natureza humana.
  • Universalidade: apresente um conflito que se ligue com a maioria dos leitores, mesmo que este seja específico de um determinado local ou era.
  • Alto risco: convença o leitor que o desenlace importa, visto que o protagonista com o qual se identificam, está prestes a perder algo muito valioso.
O ponto sem retorno
Este é um dos pontos mais importantes de toda a história. O protagonista tem de tomar uma decisão que o levará ao conflito final. A altura em que acontece é fundamental. Se acontecer antes dos dois terços da história, os leitores irão esperar uma reviravolta. Se acontecer depois disso, os leitores irão ficar impacientes.

Essa decisão não precisa de ser consciente. Pode ser apenas o protagonista aperceber-se de algo que não tinha notado antes.

Este ponto irá levar-nos à resolução do conflito. A tensão terá de aumentar, o leitor terá de ficar mais e mais preso à história.

Resolução
Este é o momento pelo qual os leitores esperaram o conto todo. O final deve recompensar os leitores. Não precisa de ser uma resolução definitiva, pode ser apenas um indício que as personagens ou a situação começou a mudar.

Tipos de final:
  • Aberto: Bradam desviou o olhar do padre e fixou-o na montanha.
  • Resolvido: Enquanto João observava, em desespero, Helena meteu as suas coisas no carro e foi-se embora.
  • Paralelo ao início: Eles conduziam o seu Chevrolet Impala de 1964 pela autoestrada com o vento a acariciar o seu cabelo. (...) O pai dela conduzia um Chevrolet Impala de 1964 novo, que substituiu o que ardeu.
  • Monologo: Gostaria que Tom tivesse tido os conselhos da irmã Dalbec antes que aqueles malvados tivessem levado a sua alma.
  • Diálogo: As personagens conversam.
  • Imagem literal: Os aquedutos estavam limpos e o sol brilhava uma vez mais.
  • Imagem simbólica: Ao olhar para o céu, viu uma nuvem em forma de cruz sobre o céu azul, nessa manhã quente.
Espero que esta série de artigos vos tenha ajudado. Caso tenham dúvidas sobre alguma parte ou gostassem de ver algum dos aspectos mais aprofundado, é só deixarem um comentário.

Esta série foi baseada e parcialmente traduzida a partir desta ligação.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Ebooks: Nanozine 3

A Nanozine continua em destaque.


Autores: Ana C. Nunes, Miriam Fonseca, Adeselma Davies, Leonora Rose Campbell, Adoa Coelho, Emanuel R. Marques e Mariana Araújo
Sinopse: A Nanozine é um projecto amador, surgido em 2011, que publica autores portugueses.


Creio que o que salta mais à vista são as cores um tanto berrantes até meio, só voltando ao normal no resto. Tenho dúvidas se isso é um progresso em relação ao número anterior. Continua a ter os mesmos problemas de hifenização.

Um erro, várias culpas - Ana C. Nunes
Este conto tem um ideia base muito interessante, pena que a autora não tenha conseguido explorá-la da melhor forma. Necessitava de mais mostrar e menos contar para criar uma ligação mais forte com o leitor.
2 estrelas

Memórias de mim, pintadas por ti - Miriam Fonseca
Este conto é semelhante ao anterior: boa ideia com uma execução não tão boa. Contudo, acho que esta autora conseguiu criar uma ligação melhor com o leitor.
3 estrelas

I Kissed her Goodbey - Adeselma Davies
Este conto marca o estilo característico da autora. Gostei do tratamento que deu às personagens e só tenho pena que tenha sido escrito de um modo fragmentado. No final ficaram bastantes perguntas sem resposta, mas não creio que isso seja um problema.
4 estrelas

Rapto - Leonora Rose Campbell
Tenho de dizer que este conto foi uma agradável surpresa. Já tinha lido outros contos mais recentes desta autora e não esperava que tivesse escrito algo tão bem executado há tanto tempo. Simples mas executado de um modo competente.
3 estrelas

O Cálice da Vingança - Parte III - Adoa Coelho
Este conto retoma as aventuras dos piratas que já conhecemos das partes anteriores. O estilo e execução são semelhantes.

3 estrelas

Noite - Emanuel R. Marques
Curto e nada de especial.
1 estrela

O Poeta nada Ama - Mariana Araújo
Poema simples que entretêm.
2 estrela

Para terminar, há uma lista de recomendações para leituras de Verão e um ensaio bastante interessante, escrito pelo mesmo autor dos outros dois, cuja qualidade está a aumentar. Em suma, é de felicitar este tipo de iniciativas, que, apesar das limitações, são um ponto de referência para todos os autores iniciantes.


Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ebooks: Nanozine 2

Vou continuar a saudosa tarefa de relembrar os números desta ezine.


Autores: Alexandra Rolo, Miguel Andrade, Emanuel Marques, Ana Luísa Teixeira, Nuno Almeida, Vitor Frazão e Adoa Coelho
Sinopse: A Nanozine é um projecto amador surgido em 2011 que publica autores portugueses.


Começando pela capa, nota-se um salto de gigante em relação ao primeiro número. A paginação também foi mais cuidada e design é mais atractivo, havendo, no entanto, há vários problemas de hifenização.  Em suma, a revista evoluiu bastante.

Pureza Perdida - Alexandra Rolo
É um pouco suspeito haver um poema de uma das organizadoras aqui.

O Barqueiro - Miguel Andrade
Gostei da premissa do conto e de algumas vertentes da execução. Teria sido interessante usar a descrição toda para criar tensão no leitor. Embora o final seja um tanto imprevisto, perde o impacto por não ter sido preparado o caminho.
3 estrelas

Vida de Cão - Emanuel Marques
Se este conto não se perdesse com certas divagações, teria ficado excelente.
4 estrelas

Mudar a mobília não chega! - Ana Luísa Teixeira
Uma mistura entre conto e texto de auto-ajuda.

Noite - Nuno Almeida
Gostei da ideia e da execução deste conto. Pena que o autor tenha tropeçado a meio e começado a contar ao invés de mostrar. Fora esse lapso, não há falhas de monta a apontar.
4 estrelas

Vigília - Vitor Frazão
O conto foi bem executado, embora falte um pouco de contextualização às personagens. O autor conta um pouco mais do que deveria.
4 estrelas

O Cálice da Vingança (Parte 2) - Adoa Coelho
A continuação de uma história com bastante humor. Contudo, a autora poderia ter explorado melhor algumas situações.
3 estrelas

A entrevista a Madalena Santos ajuda-nos a perceber como é possível ser-te publicado em Portugal. O ensaio "A Dualidade da existência humana" está muito mais interessante e melhor fundamentado que o do número anterior. No geral esta revista teve uma melhoria enorme em relação ao número anterior.

Classificação: 4 estrelas

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Ebooks: Nanozine 1


Este foi um projecto na nacional que admirei bastante.


Autores: Marcelina Leandro, Diana Tavares, Joel Puga e Adoa Coelho
Sinopse: A Nanozine é um projecto amador surgido em 2011 que publica autores portugueses.


Começar um projecto é sempre difícil, ainda mais se é feito com poucos recursos. Estas duas jovens estão de parabéns pela iniciativa que só tenho pena que tenha terminado tão rapidamente.

O ensaio "O que é um deus?" está interessante, embora devesse ter sido mais trabalhado, visto que os argumentos não são muito sólidos. A entrevista a Fábio Ventura, um escritor português pouco conhecido, foi uma ideia muito boa que devia ser seguida por mais iniciativas. As fotografias por Nuno Campos estão um fracas e são absolutamente banais.

Passo agora às minha apreciação dos contos:

Loucura - Marcelina Leandro
Este conto, apesar de curto, consegue transmitir muito bem as emoções e pensamentos da personagem principal. é um tanto previsível, mas não deixa de ter sido executado de forma competente.
3 estrelas

Psicotécnico - Diana Tavares
Confesso que gostei mais deste conto a primeira vez que o li. A repetição de informação é algo que me irrita. Podia ser mais polido, porque a ideia base não é má de todo.
2 estrelas

O Cornudo - Joel Puga
Deste escritor, já estava à espera de algo do género. Gostei do conto, embora ainda não me tenha habituado ao estilo de escrita.
3 estrelas

O Cálice da Vingança - Adoa Coelho
O título do conto começa logo por nos enganar um pouco. Gostei da abordagem da autora, no entanto creio que podia ser mais polido.
3 estrelas

No global, esta ezine merece umas sólidas 3 estrelas, tanto pela iniciativa como pelo resultado final com tão poucos recursos.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Chá de Domingo #69: Escrever um Conto - Parte 3

Estão prontos para mais algumas orientações de como construir um conto? Podem ler a primeira parte do artigo aqui e a segunda aqui.


Depois dum início fantástico em que prendemos o leitor, não queremos desapontá-lo. A melhor maneira de o fazer é não encher chouriços:

O que não escrever num conto:
- Viagens: Evitar frases, como por exemplo, "Mais tarde, no escritório..."
- Redundâncias: A personagem principal a contar a uma secundária o que acabamos de ver acontecer.
- As expressões faciais do protagonista quando esta é o narrador: Para isso temos os pensamentos da personagem.


Personagens
É preciso ter cuidado com as outras personagens para alem do protagonista (e possível antagonista). Embora não precisem de ser tão trabalhadas como numa novela, é necessário que não sejam meros acessórios. Deixo-vos duas ligações com dicas para criar personagens (feitas a pensar num livro):

Ponto de Vista
Há três pontos de vista que podem ser usados no conto:
  • Primeira Pessoa
    • A história é contada pelo Eu. O narrador é o protagonista, é afectado pelos acontecimentos ou narra a história do protagonista. É um boa escolha para iniciantes, pois é mais fácil de executar.
    • "Eu vi uma lágrima na bochecha do meu pai. Nunca o tinha visto chorar. Desviei o olhar enquanto ele limpava a face."
  • Segunda Pessoa
    • A história é contada ao Tu, tornando o leitor num participante da acção. Uma aplicação são as história interactivas, não sendo muito usado no tradicional conto impresso.
    • "Ris-te da figura do palhaço. Bates palmas de contentamento."
  • Terceira Pessoa
    • A história conta o que Ele ou Ela fazem. A perspectiva deste narrador pode ser limitada (centra-se apensa numa personagem) ou omnisciente (em que sabe tudo sobre todas as personagens).
    • "Ele atravessou a rua, sem sequer verificar se vinha algum carro."
Uma história contada na primeira pessoa consegue ter um maior impacto, pois o leitor sente uma maior ligação ao narrador. Infelizmente encoraja mais o contar que o mostrar. A terceira pessoa é bastante usada, no entanto, aconselho cautela no seu uso. No caso do narrador omnisciente é importante conseguir uma boa transição entre cenas. O narrador limitado oferece uma exposição mais intima de uma personagem, que poderá não estar presente em todas as cenas.

Diálogos
Os diálogos são uma pedra basilar dos contos. Podem ler algumas dicas sobre os mesmos neste artigo.

Cenário

O cenário inclui tempo, localização, atmosfera e contexto:

  • Combinar o cenário com a caracterização e com a trama.
  • Incluir apenas os detalhes necessários para o leitor poder visualizar a história e deixá-lo preencher as lacunas não-essenciais por ele mesmo. Não vamos descrever toda e cada acção da Maria desde que sai de casa até ao trabalho se isso não for realmente relevante para a história.
  • Usar os sentido, não se limiter apenas à visão.
  • Ao invés de inundar o leitor com informações sobre meteorologia, população ou quão longe é o supermercado, caracterizar os detalhes, de modo a mostrar ao leitor o ambiente como a personagem o experiência.

Temos quase tudo o que precisamos. No próximo artigo iremos focarmos-nos na tensão e climáx.

Algumas partes foram traduzidas a partir deste artigo.