domingo, 31 de janeiro de 2016

Chá de Domingo #68: Escrever um Conto - Parte 2

Hoje vamos continuar com as orientações para construir um conto. Podem ler a primeira parte do artigo aqui.


Depois de tratarmos do esqueleto do conto, está na altura de lhe darmos, substância, isto é, de preenchermos o esqueleto com descrições e acções que conduzam a história.

Um exercício interessante
Antes de começar a escrever, depois de termos respondido às questões, um bom exercício para os que se estão a iniciar é ir ler contos dos seus autores favoritos. O objectivo é ver como é que pegaram na ideia central e a desenvolveram. De notar que um bom escritor não se limita a mostrar sentimentos, causa-os no leitor (não digam a ninguém, mas este é o grande segredo de se ser escritor).

Recomendo: Mia Couto, Earnest Hemingway, Ray Bradbury, Alice Munro e Anton Chekov e George RR Martin.


Estrutura
É necessário planear a estrutura do nosso conto. Já escrevi vários artigos sobre o assunto:
Com a resposta às perguntas que coloquei no artigo anterior, não é complicado desenvolver a estrutura do contos.

Agora que fizemos o trabalho de casa, está na hora de finalmente começarmos o escrever.

Primeiro Parágrafo
Quer queiramos ou não, todos julgamos os livros pela capa. No caso dos editores do vosso contos, ou os vosso leitores, eles irão julgar-vos pelas primeira linhas. Logo, o primeiro parágrafo é fundamental.

As primeiras linhas tem de providenciar uma espécie de isco. é necessário dar informações que indiquem ao leitor que tipo de história se trata e quem é protagonista, ao mesmo tempo que introduzem uma situação suficientemente interessante para que o leitor queria pegar na história. Para além disso, não queremos que o parágrafo seja demasiado longo. Parece complicado? é complicado, é normal os escritores (tanto iniciantes como os de renome) passarem horas e horas à volta das primeiras frases das histórias.

Vamos pegar nalguns exemplos:

"Ouvi o meu vizinho através do parede."
Corriqueiro e desinteressante. Podemos fazer melhor.

"O vizinho das traseiras praticava a terapia dos gritos todas a manhãs no chuveiro."
Esta frases chama mais à atenção do leitor. Quem é o este sujeito que vqai gritar todos os dias para o chuveiro? Porque é que ele faz isso? O que é, realmente, a terapia dos gritos? Vamos continuar a ler!

"A primeira vez que ouvi, fiquei na casa de banho com o ouvido encostado à parede durante uns bons dez minutos, ponderando a possibilidade de chamar a Polícia. Era muito diferente de viver na casa germinada com o casal de meia idade Sr e Sra Brown e os seus dois filhos em Duluth."

Este parágrafo introduz o conflito do protagonista, enquanto ele não sabe como agir, existe um contraste entre o passado e o presente. Podem ler mais sobre criar/manter conflito aqui.

No próximo artigo, que podem encontrar aqui, iremos continuar a preencher a história, até completarmos o nosso conto.


Parte do artigo foi traduzido e adaptado a partir desta ligação.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Ebooks: O Cálice de Prata

Este conto é uma viagem fantástica à idade Média.



Autora: Sara Farinha
Sinopse: Quando o cavaleiro André Beaumont montou o seu cavalo e encetou aquela viagem ia crente no que sabia sobre si e o mundo. Um estranho encontro muda tudo forçando André a enfrentar o seu lado ímpio e as consequências dos seus actos. Será capaz de emendar os seus erros? Ou o perdão nunca lhe estará destinado?


Esta história beneficiaria de um início mais vocacionado para o conflito que lhe serve de mote. Gostaria de ver a personagem principal a ser mais bem explorada. A ambiente medieval foi bem descrito e a ideia base é muito boa. A trama desenvolve-se a um bom ritmo, tendo alguns momentos menos previsíveis, em especial no final. As descrições foram feitas de um modo competente. Em resumo, um conto que entretem bastante, apesar das falhas apontadas.
Recomendo a quem queria conhecer o trabalho desta escritora.

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Ebooks: Na Noite em que o Inferno Subiu à Terra

Um dos melhores contos do autor até ao momento!



Autor: Ricardo Dias
Sinopse: Um sobrevivente de uma invasão demoníaca conta ao seu grupo a história de como sobreviveu à primeira noite, a noite que mudou para sempre o destino do mundo...


Contado na primeira pessoa e com uma linguagem informal, este conto consegue agarrar o leitor desde a primeira página. A personagem principal é interessante e vai revelando os seus segredos ao longo da história. Não há referências nem descrições significativas dos locais, que também não são necessárias à história. A trama está bem conseguida e a reviravolta final também.
Recomendo a quem gostasse de conhecer o trabalho deste autor.

Classificação: 4 estrelas

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Livros: Heroes of World War II

Um livro interessante para quem queria conhecer alguns dos heróis da Segunda Guerra Mundial.


Autor: Tom Bower
Sinopse: Heroes do not win wars but without heroes wars are lost. That spontaneous or calculated act of unique courage in battle or behind enemy lines inspires lesser men to volunteer the ultimate sacrifice - although they may not witness the final victory.
In the Second World War, the demands for heroism were no less than in previous wars, but unlike other conflicts few among the hundreds of thousands of Allied fighting men and women doubted that their cause was just - to remove evil and restore peace in Europe, North Africa and the Far East.
During six years of conflict, thousands of individual acts of heroism by British, Commonwealth and Allied servicemen and women were recorded. The images remain forever haunting, exiting and inspiring: soldiers charging enemy pillboxes; pilots flying burning Lancasters; frogmen attaching mines in enemy harbors; SOE agents in occupied Europe suffering torture rather than betray their networks; escapees from POW camps; defenseless merchantmen in the Atlantic rescuing sailors from drowning; bomb disposal officers saving innocent lives; solitary guerrillas in jungles harassing the Japanese; the boffins in Britain sabotaging the Nazi dream; and that handful of commanders and politicians whose judgment inspired and planned the victory for which their and future generations owe everlasting gratitude.
Eyewitness of heroism among the Allied forces were emboldened by the sheer audacity of fellow officers and men, while their enemies became disheartened. For those at home, the accounts of daring in battlefields from France to Japan encouraged their patriotism, pride and comradeship.
A handful of those heroes were specially recognized. Through the evocative accounts of the courage of over 100 men and women, Tom Bower tells the authentic story of World War Two.


Este livro está muito bem documentado em termos fotográficos, em que cada página é uma janela para a realidade vivida por aqueles homens e mulheres. A biografia e as circunstâncias de cada acto heróico são apresentadas de forma muito reduzida, o que, a meu ver, constitui uma grande falha. A outra grande falha é ser muito parcial, focando-se somente nos actos das nações aliadas, esquecendo-se, por exemplo, dos Russos, que lutaram e derramaram bastante sangue contra o mesmo inimigo. Fora isso, é uma leitura agradável e ligeira, que dá luz do essencial da Segunda Guerra mundial sob o ponto de vista dos britânicos.
Recomendo a quem se interessar por este tema.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 24 de janeiro de 2016

Chá de Domingo #67: Escrever um Conto - Parte 1

Hoje vou abordar um tema especialmente relevante para escritores iniciantes, mas que não deixa de ser útil a todos.


É um facto: muitos escritores se iniciam em contos. Talvez por ser mais fácil conseguir um bom resultado ou por as críticas chegarem mais rápido. Tendo uma extensão mais reduzida e não tendo uma grande profundidade, permitem aos autores iniciantes, e aos que não o são, uma enorme liberdade para experimentar, o que é mais complicado em livro.

Apesar da escrita de contos ser mais simples, há técnicas para os tornar mais aperitivos e interessantes. É isso que vou abordar hoje.

Primeiro Passo

Todas as histórias começam com uma ideia que serve de premissa. Antes de escrever sequer a primeira palavra, é importante ter essa ideia em mente. Mas, para escrever um bom conto, não basta só uma ideia base, é preciso desenvolver uma história onde a vamos aplicar. Para isso, é necessário responder às seguintes perguntas:

O que é que o protagonista quer?
Quer encontrar o tesouro escondido de Henrique VI? Quer obter dinheiro para pagar as dívidas? Ou quer só conseguir convidar a vizinha do lado para um café?

Porque é que quer?
Esta questão não precisa de ser respondida à priori, mas ajuda se for. Porquê é que o protagonista quer encontrar o tesouro? Porque a mãe está a morrer de cancro e ele quer pagar o tratamento porque se sente culpado de não a ter visto durante anos. Porque é que quer obter dinheiro para pagar as dívidas? Porque tem uma família e sabe que os pais se divorciaram por causa de dinheiro, o que fez com que mal conhecesse o pai e, portanto, não deseja isso aos seus filhos. Porque é que quer convidar a vizinha para um café? O protagonista sempre teve dificuldade em falar com mulheres, mas descobriu recentemente que se conhecem no mundo virtual e gostaria de falar com ela frente a frente, para conseguir vencer esse medo.

O que faz a história começar?
Qual é o incidente que origina toda a trama? Encontra um mapa do tesouro? Há uma discussão e a mulher sai de casa? Descobre que a jogadora da sua equipa mora no mesmo prédio? É importante que o conto comece já no meio da acção. O escritor deve abster-se de contar a vida da personagem até esse dia.

Como é que o protagonista reage ao incidente inicial?
As personagens tomam boas e más decisões. Quando o incidente se dá, o protagonista já deverá ter tomado ou tomar nesse instante uma decisão que irá condicionar o resto da história. O protagonista decide não contar a ninguém, mesmo sabendo que o mapa e o tesouro são propriedade do estado, implicando que poderá vir a ser preso por isso? O protagonista decidiu que vai assaltar uma carrinha de transporte de valores para resolver de uma vez por todas os problemas monetários? O protagonista decide começar a seguir cada passo da mulher, sem que ela saiba de nada?

Que consequências inesperadas esperam o nosso protagonista?
O leitor não as deve esperar, mas o escritor deverá tê-las bem pensadas mesmo antes de começar a história, sob pena que estas caiam de para-quedas na trama. Uma trabalhadora viu-o roubar o mapa e vai denúncia-lo ao director do Museu que é um amigo de longa data da mãe? O filho decide faltas às aulas e está na rua onde o assalto vai acontecer? Vai a passar na rua e descobre que ela é procurada pela polícia?

Que escolha faz o protagonista no clímax da história?
Muito importante! Face a tudo o que aconteceu e que poderá vir a acontecer, o protagonista tinha um objectivo. Ainda o têm ou este mudou? Obteve o que queria ou não? O vital desta questão é: como é que o protagonista reage a isso tudo? Decide não ficar com o tesouro, despedir-se e passar as últimas semanas com a mãe? Decide entregar-se à polícia para não dar um mau exemplo ao filho? Vai bater-lhe à porta e convida-a para um café?

Agora que respondemos a estas perguntas, que são o esqueleto, está na altura de preencher a história com aquilo que lhe dá vida e a torna interessante. É o que farei no próximo artigo, que podem encontrar nesta ligação.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Books: The Somass Affair

Um conto com um ritmo excelente que prende o leitor até à última linha.


Autor: Anton Stark
Sinopse: Messrs Bodan and Voith: urban explorers, technological savants, corpse-sellers. After stumbling on a shady deal between smugglers and religious zealots, Bodan and Voith must do the unthinkable: to save the drowned city of Günn from a sinister plot involving ancient technology, a colossal automaton, and the crumbling Somass Tower. A fast-paced, gritty Steampunk adventure.


Este conto é uma verdadeira obra de arte. Começando pelo universo criado pelo autor, encontramos um mundo muito bem desenvolvido e com ligações sólidas aos acontecimentos dos outros contos publicados pela mesma altura. Todos os detalhes relevantes de Eos são mostrados, deixando o leitor preencher as lacunas e obtendo uma imagem do universo. O ritmo da narrativa é excelente, não há tempos mortos e a tensão tem um crescendo constante que culmina num climax que recompensa a leitura. É fácil ligarmos-nos com a personagens, que encaixam perfeitamente no ambiente criado. Em suma, um leitura excelente.
Recomendo vivamente a todos os leitores!

Classificação: 5 estrelas

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Livros: Pequenas Memórias

Um livro muito diferente, não só no estilo como no tema.


Autor: José Saramago
Sinopse: As Pequenas Memórias é um livro de recordações que abrange o período entre os quatro e os quinze anos da vida de José Saramago. O autor tinha As Pequenas Memórias na cabeça há mais de 20 anos, por isso a altura para o escrever era esta: "Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou".
"Deixa-te levar pela criança que foste", 'Livro dos Conselhos'


Este livro é um conjunto de recordações dos primeiros anos de vida do único prémio Nobel da Literatura Português. Nesta auto-biografia, o autor opta por frases um pouco mais curtas que o normal e o discurso é mais fácil de seguir. O escritor dialoga o com o leitor, como só Saramago consegue. Dá-nos mesmo a impressão que é o próprio que nos conta estas histórias. Há muitas situações interessantes, que apelam à criança/jovem que vive em nós.
Recomendo quem o queira conhecer melhor.

Classificação: 3 estrelas