domingo, 24 de janeiro de 2016

Chá de Domingo #67: Escrever um Conto - Parte 1

Hoje vou abordar um tema especialmente relevante para escritores iniciantes, mas que não deixa de ser útil a todos.


É um facto: muitos escritores se iniciam em contos. Talvez por ser mais fácil conseguir um bom resultado ou por as críticas chegarem mais rápido. Tendo uma extensão mais reduzida e não tendo uma grande profundidade, permitem aos autores iniciantes, e aos que não o são, uma enorme liberdade para experimentar, o que é mais complicado em livro.

Apesar da escrita de contos ser mais simples, há técnicas para os tornar mais aperitivos e interessantes. É isso que vou abordar hoje.

Primeiro Passo

Todas as histórias começam com uma ideia que serve de premissa. Antes de escrever sequer a primeira palavra, é importante ter essa ideia em mente. Mas, para escrever um bom conto, não basta só uma ideia base, é preciso desenvolver uma história onde a vamos aplicar. Para isso, é necessário responder às seguintes perguntas:

O que é que o protagonista quer?
Quer encontrar o tesouro escondido de Henrique VI? Quer obter dinheiro para pagar as dívidas? Ou quer só conseguir convidar a vizinha do lado para um café?

Porque é que quer?
Esta questão não precisa de ser respondida à priori, mas ajuda se for. Porquê é que o protagonista quer encontrar o tesouro? Porque a mãe está a morrer de cancro e ele quer pagar o tratamento porque se sente culpado de não a ter visto durante anos. Porque é que quer obter dinheiro para pagar as dívidas? Porque tem uma família e sabe que os pais se divorciaram por causa de dinheiro, o que fez com que mal conhecesse o pai e, portanto, não deseja isso aos seus filhos. Porque é que quer convidar a vizinha para um café? O protagonista sempre teve dificuldade em falar com mulheres, mas descobriu recentemente que se conhecem no mundo virtual e gostaria de falar com ela frente a frente, para conseguir vencer esse medo.

O que faz a história começar?
Qual é o incidente que origina toda a trama? Encontra um mapa do tesouro? Há uma discussão e a mulher sai de casa? Descobre que a jogadora da sua equipa mora no mesmo prédio? É importante que o conto comece já no meio da acção. O escritor deve abster-se de contar a vida da personagem até esse dia.

Como é que o protagonista reage ao incidente inicial?
As personagens tomam boas e más decisões. Quando o incidente se dá, o protagonista já deverá ter tomado ou tomar nesse instante uma decisão que irá condicionar o resto da história. O protagonista decide não contar a ninguém, mesmo sabendo que o mapa e o tesouro são propriedade do estado, implicando que poderá vir a ser preso por isso? O protagonista decidiu que vai assaltar uma carrinha de transporte de valores para resolver de uma vez por todas os problemas monetários? O protagonista decide começar a seguir cada passo da mulher, sem que ela saiba de nada?

Que consequências inesperadas esperam o nosso protagonista?
O leitor não as deve esperar, mas o escritor deverá tê-las bem pensadas mesmo antes de começar a história, sob pena que estas caiam de para-quedas na trama. Uma trabalhadora viu-o roubar o mapa e vai denúncia-lo ao director do Museu que é um amigo de longa data da mãe? O filho decide faltas às aulas e está na rua onde o assalto vai acontecer? Vai a passar na rua e descobre que ela é procurada pela polícia?

Que escolha faz o protagonista no clímax da história?
Muito importante! Face a tudo o que aconteceu e que poderá vir a acontecer, o protagonista tinha um objectivo. Ainda o têm ou este mudou? Obteve o que queria ou não? O vital desta questão é: como é que o protagonista reage a isso tudo? Decide não ficar com o tesouro, despedir-se e passar as últimas semanas com a mãe? Decide entregar-se à polícia para não dar um mau exemplo ao filho? Vai bater-lhe à porta e convida-a para um café?

Agora que respondemos a estas perguntas, que são o esqueleto, está na altura de preencher a história com aquilo que lhe dá vida e a torna interessante. É o que farei no próximo artigo, que podem encontrar nesta ligação.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Books: The Somass Affair

Um conto com um ritmo excelente que prende o leitor até à última linha.


Autor: Anton Stark
Sinopse: Messrs Bodan and Voith: urban explorers, technological savants, corpse-sellers. After stumbling on a shady deal between smugglers and religious zealots, Bodan and Voith must do the unthinkable: to save the drowned city of Günn from a sinister plot involving ancient technology, a colossal automaton, and the crumbling Somass Tower. A fast-paced, gritty Steampunk adventure.


Este conto é uma verdadeira obra de arte. Começando pelo universo criado pelo autor, encontramos um mundo muito bem desenvolvido e com ligações sólidas aos acontecimentos dos outros contos publicados pela mesma altura. Todos os detalhes relevantes de Eos são mostrados, deixando o leitor preencher as lacunas e obtendo uma imagem do universo. O ritmo da narrativa é excelente, não há tempos mortos e a tensão tem um crescendo constante que culmina num climax que recompensa a leitura. É fácil ligarmos-nos com a personagens, que encaixam perfeitamente no ambiente criado. Em suma, um leitura excelente.
Recomendo vivamente a todos os leitores!

Classificação: 5 estrelas

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Livros: Pequenas Memórias

Um livro muito diferente, não só no estilo como no tema.


Autor: José Saramago
Sinopse: As Pequenas Memórias é um livro de recordações que abrange o período entre os quatro e os quinze anos da vida de José Saramago. O autor tinha As Pequenas Memórias na cabeça há mais de 20 anos, por isso a altura para o escrever era esta: "Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou".
"Deixa-te levar pela criança que foste", 'Livro dos Conselhos'


Este livro é um conjunto de recordações dos primeiros anos de vida do único prémio Nobel da Literatura Português. Nesta auto-biografia, o autor opta por frases um pouco mais curtas que o normal e o discurso é mais fácil de seguir. O escritor dialoga o com o leitor, como só Saramago consegue. Dá-nos mesmo a impressão que é o próprio que nos conta estas histórias. Há muitas situações interessantes, que apelam à criança/jovem que vive em nós.
Recomendo quem o queira conhecer melhor.

Classificação: 3 estrelas

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Ebooks: Ahelanae - O Crime

Vamos começar a semana com um conto duma escritora portuguesa?


Autora: Liliana Novais
Sinopse: Um longa guerra parte estar prestes a dar início a outra longa guerra, neste mundo onde nada é o que parece.


Este conto evidencia os traços mais característicos da autora. Infelizmente, a maneira como a história é contada, em especial o contar excessivo, prejudicam em muito a leitura. Faltam traços distintos às personagens. Embora a primeira frase até cative o leitor, as seguintes estragam esse efeito. Em suma, este conto precisava de ser mais desenvolvido.

Classificação: 2 estrelas

domingo, 17 de janeiro de 2016

Chá de Domingo #66: Diálogos

Hoje vou falar sobre os diálogos.


Os diálogos são uma vertente muito importante de qualquer história. Com eles mostramos o que as personagens dizem entre elas e para elas próprias. O que eu vou referir é do conhecimento da maior parte de vocês, no entanto, nunca é demais relembrar.


1 - Cada personagem tem o seu próprio parágrafo, onde é possível incluir o que quer a personagem faça enquanto fala.


Um diálogo confuso em que não se sabe onde começa uma fala e termina a outra:

- Onde vais? - João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão. - Às corridas - Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João. - Outra vez? - João levantou-se, dobrando os dedos. - Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.

Um diálogo organizado, em que o que é dito para além das falas é praticamente inútil:
- Onde vais? - perguntou João, com nervosismo.
- Às corridas - disse Maria, tentando perceber se João estaria demasiado chateado para não conseguir escapar desta vez.
- Outra vez? - disse João, sem saber como conseguiriam pagar a renda desse mês - Nós já atingimos o limite dos nossos cartões de crédito.

2 - A informações para além dos diálogos devem conter informação relevante, mostrando ao invés de contar. Por exemplo, João perguntou com nervosismo, é um exemplo de contar. Mesmo que se escreva, João perguntou, com muito nervosismo, ou, João perguntou com tanto nervosismo que a sua voz tremia, não fará grande diferença. Como poderemos mostrar o estado mental do João sem o dizer directamente? Por inferência, dando detalhes que apontem nesse sentido e deixando o leitor fazer o resto.

Bons exemplos de como poderíamos descrever o nervosismo da personagem:
O João sentou-se.
- O- Onde vais?

- Onde vais? - gaguejou João, olhando para os sapatos.

Respirou fundo. Agora ou nunca.
- Onde vais?

Um exemplo em que a descrição foi longe demais, introduzindo demasiada informação redundante:
O João sentou-se, respirando fundo. Sabia que teria de confrontar Maria naquele momento ou nunca mais seria capaz de fazê-lo.
- Onde vais? - gaguejou, olhando para os seus sapatos.

3 - A ordem pode ter um grande impacto na história.

João pergunta a Maria onde vai e ambos parecem nervosos com o facto de ela querer ir às corridas. Uma maneira de descrever a situação é a seguinte:
- Onde vais? - João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão.
- Às corridas - Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João.
- Outra vez? - João Levantou-se, dobrando os dedos. - Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.

Mudando os parágrafos, podemos tornar a situação mais interessante, tornado a Maria mais agressiva e o João usando os cartões de crédito como desculpa:
- Onde vais?
João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão.
- Às corridas.
Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João.
- Outra vez?
João levantou-se, dobrando os dedos.
- Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.

No segundo exemplo, eles parecem desesperados por dinheiro e há um conflito muito mais intenso. Qual das histórias vos parece mais interessante?


Excerto traduzido a partir desta ligação.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Ebooks: Rosto de Mulher

Uma alegoria interessante!


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: “Filho, filho, são minhas filhas”, respondeu-lhe a avozinha. E chorou, chorou muito, de alegria pela criança que havia percebido o valor das suas filhas.


Muitas interpretações se podem fazer deste conto, mas vou optar por deixa-las aos leitores. Escrita no mesmo género das histórias "Era uma vez...", leva-nos para um tempo mítico. A autora procurou imitar esse género e conseguiu-o com sucesso. Não há muito a dizer sobre as personagens, trama ou descrições, visto que elas seguem o padrão deste tipo de histórias. A escolha das palavras e frases foi bem executada, dando um acabamento interessante ao conto.
Recomendo a quem queira descobrir novos autores portugueses.

Classificação: 3 estrelas

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Ebooks: Os Kravyads

Um mito antigo trazido às ruas de uma das nossas cidades...


Autor: Vítor Frazão
Sinopse: Uma cara bonita esconde muitos perigos, como Luís está prestes a descobrir ou entrar na casa dos Kravyads. Infelizmente sanguinários rakshasas viciados em carne humana, são o menor dos problemas do imprudente jovem. Nas sombras de Coimbra existem vultos muito mais tenebrosos…



O inicio do conto está muito bem conseguido. É impossível não criar empatia com a personagem e ficamos com vontade se seguir a história e saber mais. Não conhecia estas figuras mitológicas e vi-me obrigado a uma pesquisa para me situar. Teria sido interessante se o autor pudesse ter feito uma descrição do seu verdadeiro aspecto. Fiquei um tanto desapontado com o final, que prometia algo ainda mais aterrorizador que os rakshasas e que não se concretiza (pelo menos no meu ponto de vista). A trama flui bem e a escrita é competente, embora a mudança brusca de pontos de vista prejudique o resultado final. Gostei, mas considero que o conto poderia ser melhorado.
Recomendo a quem já conhece ou gostaria de conhecer o trabalho deste escritor.

Classificação: 3 estrelas