Vamos começar a semana com um conto duma escritora portuguesa?
Autora: Liliana Novais
Sinopse: Um longa guerra parte estar prestes a dar início a outra longa guerra, neste mundo onde nada é o que parece.
Este conto evidencia os traços mais característicos da autora. Infelizmente, a maneira como a história é contada, em especial o contar excessivo, prejudicam em muito a leitura. Faltam traços distintos às personagens. Embora a primeira frase até cative o leitor, as seguintes estragam esse efeito. Em suma, este conto precisava de ser mais desenvolvido.
Classificação: 2 estrelas
Blogue dedicado às minhas aventuras literárias. Novos artigos todas as segundas, quartas e sextas. Rubrica especial de domingo: Chá de Domingo.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
domingo, 17 de janeiro de 2016
Chá de Domingo #66: Diálogos
Hoje vou falar sobre os diálogos.
Um diálogo organizado, em que o que é dito para além das falas é praticamente inútil:
Os diálogos são uma vertente muito importante de qualquer história. Com eles mostramos o que as personagens dizem entre elas e para elas próprias. O que eu vou referir é do conhecimento da maior parte de vocês, no entanto, nunca é demais relembrar.
1 - Cada personagem tem o seu próprio parágrafo, onde é possível incluir o que quer a personagem faça enquanto fala.
Um diálogo confuso em que não se sabe onde começa uma fala e termina a outra:
- Onde vais? - João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão. - Às corridas - Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João. - Outra vez? - João levantou-se, dobrando os dedos. - Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.
Um diálogo organizado, em que o que é dito para além das falas é praticamente inútil:
- Onde vais? - perguntou João, com nervosismo.
- Às corridas - disse Maria, tentando perceber se João estaria demasiado chateado para não conseguir escapar desta vez.
- Outra vez? - disse João, sem saber como conseguiriam pagar a renda desse mês - Nós já atingimos o limite dos nossos cartões de crédito.
2 - A informações para além dos diálogos devem conter informação relevante, mostrando ao invés de contar. Por exemplo, João perguntou com nervosismo, é um exemplo de contar. Mesmo que se escreva, João perguntou, com muito nervosismo, ou, João perguntou com tanto nervosismo que a sua voz tremia, não fará grande diferença. Como poderemos mostrar o estado mental do João sem o dizer directamente? Por inferência, dando detalhes que apontem nesse sentido e deixando o leitor fazer o resto.
Bons exemplos de como poderíamos descrever o nervosismo da personagem:
O João sentou-se.
- O- Onde vais?
- Onde vais? - gaguejou João, olhando para os sapatos.
Respirou fundo. Agora ou nunca.
- Onde vais?
Um exemplo em que a descrição foi longe demais, introduzindo demasiada informação redundante:
O João sentou-se, respirando fundo. Sabia que teria de confrontar Maria naquele momento ou nunca mais seria capaz de fazê-lo.
- Onde vais? - gaguejou, olhando para os seus sapatos.
3 - A ordem pode ter um grande impacto na história.
João pergunta a Maria onde vai e ambos parecem nervosos com o facto de ela querer ir às corridas. Uma maneira de descrever a situação é a seguinte:
- Onde vais? - João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão.
- Às corridas - Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João.
- Outra vez? - João Levantou-se, dobrando os dedos. - Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.
Mudando os parágrafos, podemos tornar a situação mais interessante, tornado a Maria mais agressiva e o João usando os cartões de crédito como desculpa:
- Onde vais?
João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão.
- Às corridas.
Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João.
- Outra vez?
João levantou-se, dobrando os dedos.
- Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.
No segundo exemplo, eles parecem desesperados por dinheiro e há um conflito muito mais intenso. Qual das histórias vos parece mais interessante?
Excerto traduzido a partir desta ligação.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Ebooks: Rosto de Mulher
Uma alegoria interessante!
Autora: Inês Montenegro
Sinopse: “Filho, filho, são minhas filhas”, respondeu-lhe a avozinha. E chorou, chorou muito, de alegria pela criança que havia percebido o valor das suas filhas.
Muitas interpretações se podem fazer deste conto, mas vou optar por deixa-las aos leitores. Escrita no mesmo género das histórias "Era uma vez...", leva-nos para um tempo mítico. A autora procurou imitar esse género e conseguiu-o com sucesso. Não há muito a dizer sobre as personagens, trama ou descrições, visto que elas seguem o padrão deste tipo de histórias. A escolha das palavras e frases foi bem executada, dando um acabamento interessante ao conto.
Recomendo a quem queira descobrir novos autores portugueses.
Classificação: 3 estrelas
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Ebooks: Os Kravyads
Um mito antigo trazido às ruas de uma das nossas cidades...
Autor: Vítor Frazão
Classificação: 3 estrelas
Autor: Vítor Frazão
Sinopse: Uma cara bonita esconde muitos perigos, como Luís está prestes a descobrir ou entrar na casa dos Kravyads. Infelizmente sanguinários rakshasas viciados em carne humana, são o menor dos problemas do imprudente jovem. Nas sombras de Coimbra existem vultos muito mais tenebrosos…
O inicio do conto está muito bem conseguido. É impossível não criar empatia com a personagem e ficamos com vontade se seguir a história e saber mais. Não conhecia estas figuras mitológicas e vi-me obrigado a uma pesquisa para me situar. Teria sido interessante se o autor pudesse ter feito uma descrição do seu verdadeiro aspecto. Fiquei um tanto desapontado com o final, que prometia algo ainda mais aterrorizador que os rakshasas e que não se concretiza (pelo menos no meu ponto de vista). A trama flui bem e a escrita é competente, embora a mudança brusca de pontos de vista prejudique o resultado final. Gostei, mas considero que o conto poderia ser melhorado.
Recomendo a quem já conhece ou gostaria de conhecer o trabalho deste escritor.
Classificação: 3 estrelas
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Ebooks: A Besta
Começo a semana com um conto do Fantasy and Co.
Autor: Pedro Pereira
Sinopse: Aproveitando os dias quentes de Agosto, Rafael e os amigos decidem passar umas férias diferentes e acampar no norte de Portugal. Porém, numa vista à aldeia de Pitões das Júnias, deparam-se com um cenário macabro que promete terminar com as suas férias sossegadas.
Gostava de ter visto as personagens mais desenvolvidas e as reacções delas não são de todo realistas, em especial nas últimas páginas. O enredo é demasiado previsível e por isso ficamos à espera de uma reviravolta final, que acaba por não acontecer. A trama desenvolve-se fluída. As descrições são um tanto vagas. Creio que esta ideia poderia ser melhor explorada a vários níveis.
Recomendo a quem já leu outros trabalhos deste escritor.
Classificação: 2 estrelas
domingo, 10 de janeiro de 2016
Chá de Domingo #65: Estará a Ficção Especulativa a Morrer em Portugal?
Um tema pertinente de ser discutido, por afectar leitores, escritores e editores.
Recordo-me, assim de repente, de dois projectos que trabalhavam nesta área e deixaram de existir: a Lusitânia, Nanozine. Ambas aceitavam textos dos autores e depois de uma selecção, publicavam-nos. Uma tinha formato de revista e outra de ebook, uma era a preço de custo e outra grátis. Com várias diferenças entre elas, a verdade é que desempenhavam um grande serviço de promoção da literatura especulativa portuguesa. Posso também acrescentar a micro editora Editorial Arauto, que não se conseguiu manter por muito tempo, publicando apenas um livro de Steampunk.
Apesar de ser uma das questões que mais me têm dado voltas à cabeça, só quando li estes dois artigos é que tive uma nova visão do assunto:
- http://revistanonata.co/2016/01/06/imperios-do-mal-e-outras-editoras/
- http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-grande-sono-da-ficcao-cientifica-218732
O primeiro artigo é recente, enquanto o segundo já foi escrito há mais de sete anos, embora continue bastante actual. O que se tem feito pela ficção especulativa em Portugal, tem-no sido mais a nível amador do que profissional. Há alguns projectos que se esforçam por publicar e divulgar o que se vai fazendo em Portugal, com uma ajuda preciosa de alguns bloggers. Podem saber um pouco mais sobre estes dois projectos (Imaginauta e Fantasy and Co) nesta e nesta ligação. Há também a Corte do Norte, que se dedica ao Steampunk e à organização da sua convenção anual e merece que lhe dedique um artigo (que em breve espero poder escrever). E para além disso?
Só a Saída de Emergência continua a apostar maioritariamente no género. As outras editoras publicam um livro ou outro, que entra nas prateleiras para logo sair. Um escritor deste género não tem grandes hipóteses de chegar às lojas. Tanto porque poucas editoras apostam neles, como porque as que apostam, em geral, não tem capacidade de distribuir e publicitar convenientemente o livro. Há sempre outras editoras que até publicam e até colocam nas prateleiras de algumas lojas, mas exigem uma contrapartida financeira do autor ou auto-financiam-se através do Crowdfunding.
Recordo-me, assim de repente, de dois projectos que trabalhavam nesta área e deixaram de existir: a Lusitânia, Nanozine. Ambas aceitavam textos dos autores e depois de uma selecção, publicavam-nos. Uma tinha formato de revista e outra de ebook, uma era a preço de custo e outra grátis. Com várias diferenças entre elas, a verdade é que desempenhavam um grande serviço de promoção da literatura especulativa portuguesa. Posso também acrescentar a micro editora Editorial Arauto, que não se conseguiu manter por muito tempo, publicando apenas um livro de Steampunk.
Tenho de confessar que na minha experiência na Editorial Divergência nem tudo são rosas. Nem todas as antologias venderam como esperava. Umas deram prejuízo e outras apenas lucro marginal. Apesar de fazermos o nosso melhor, a crítica é implacável (e espero que o continue a ser). Se o objectivo fosse fazer dinheiro, teria escolhido o ramo errado, com toda a certeza. A fatia cobrada pelas transportadoras e pelas lojas fazem com que a possibilidade de estarmos nas prateleiras seja cada vez mais remota.
Estará a Ficção Especulativa a morrer em Portugal? A resposta é não. Sobrevive com dificuldade graças ao esforço de individuais que trabalham mais por amor à camisola. Se tem potencial de florescer? Tem sim, mas vai precisar que os leitores lhe passem a dar o devido valor.
Estará a Ficção Especulativa a morrer em Portugal? A resposta é não. Sobrevive com dificuldade graças ao esforço de individuais que trabalham mais por amor à camisola. Se tem potencial de florescer? Tem sim, mas vai precisar que os leitores lhe passem a dar o devido valor.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Ebooks: O Meu Humano
Um interessante exercício de inversão.
Autora: Leonor Ferrão
Sinopse: Um cavalo Puro-Sangue Lusitano, de boa linhagem, sonha ser um campeão e honrar os seus antepassados. Para tal, precisa de adquirir um cavaleiro, e escolhe a Feira da Golegã para o fazer. Mas uma compra precipitada irá mostrar-lhe que o caminho para a imortalidade nem sempre é o mais óbvio.
A ideia por detrás deste conto é interessante e original, com especial destaque para o uso de elementos e espaços portugueses. Infelizmente, o aproveitamento não foi o melhor, passando a história demasiado a correr nas partes que interessavam mais. Não senti uma empatia especial com a personagem principal. As descrições foram bem conseguidas e a trama está construída num crescendo competente, excepto nos solavancos das cenas que podiam ter sido melhor exploradas.
Vale a pena ler, mesmo para os mais críticos, sen que seja só pela premissa.
Classificação: 3 estrelas
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