segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Ebooks: Receitas Fantásticas

Uma antologia que prima pelo humor.


Autores: Mogu-Mogu Chan, Carina Portugal, Ana Filipa Ferreira, Sara Farinha, Carlos Silva
Sinopse: Cinco receitas fantásticas, uma das quais pela mão da autora convidada Mogu-Mogu chan, do blog “Mogu-Mogu”. Uma das receitas é algo que podem e devem experimentar, as outras… bem… não aconselho. Mas, ei, se conseguirem arranjar túbaros de troll ou escamas de dragão, força!
Pão do Caminho - Mogu-Mogu Chan
Biscoitos da vida eterna - Carina Portugal
Estufado de miolos - Ana Ferreira
Túbaros de troll - Sara Farinha
Receita: bolo de chocolate - Carlos Silva


Pão do Caminho - Mogu-Mogu Chan
É a única receita que na verdade é mesmo uma receita. Como tal não entendo que é classificável.

Biscoitos da Vida Eterna - Carina Portugal
Adorei este conto. Segue os mesmo passos de uma receita normal, com grande sentido de humor. Uma boa ideia e uma excelente execução.
4 estrelas

Estufado de Miolos - Ana Ferreira
Uma receita mais curta. Gostei da ideia e da execução.
3 estrelas

Túbaros de Troll - Sara Farinha
A abordagem é semelhante aos anteriores, contendo um certo humor sublimar.
3 estrelas

Receita: Bolo de Chocolate - Carlos Silva
Esta receita combina o melhor do humor e da sátira a certos comportamentos actuais, como o autor nos tem vindo a habituar.
4 estrelas

Classificação: 3 estrelas

domingo, 4 de outubro de 2015

Chá de Domingo #54: Mais Pseudo-Editoras

Aqui ficam mais uma ronda sobre as pseudo-editoras!


Há alguns dias recebi o seguinte email:

Vimos através deste meio dar-lhe o nosso parecer editorial em relação à sua obra.  Após análise da mesma, optámos pela publicação do seu livro.

(...)

Editar um livro connosco será cumprir um sonho, e tornar-se imortal no sentido em que basta que daqui a um século uma só pessoa leia o seu livro para o fazer vivo. No caso de a proposta não lhe interessar, por favor, exponha-nos o que gostou e o que não gostou na mesma e proponha-nos quais as condições em que editaria connosco ( dentro, como é óbvio, do razoável). Se concorreu é porque quer ver o seu livro editado e tudo na vida pode ser negociável. Tudo faremos para que cumpra o seu sonho. Este é um resumo da proposta. Mais informações acerca de distribuição, direitos de autor, marketing, lançamento do livro e outras questões frequentes deverão ser consultadas no Guia editorial que enviamos em anexo a este email.

(...)

O preço de venda ao público do seu livro em formato papel será de 16€.
O preço de venda ao público do seu livro em formato ebook será de 5,99€.


O QUE OFERECEMOS:
  • Fazemos a edição do seu livro em formato papel e electrónico.
  • [editora] terá a seu cargo a edição do livro (que inclui o design, a produção gráfica, o registo do ISBN, o depósito legal, promoção e a distribuição).
  • A editora paga todos os gastos de impressão e design.
  • Venda do seu livro para todo o mundo através do facebook e da nossa loja online.
  • Venda (Somente por encomenda) nas Livrarias Bertrand, Porto editora e Almedina.
  • Possibilidade (ainda não confirmada) de venda do seu livro nas Feiras do livro do Porto e de Lisboa.
  • Como direitos de autor a editora pagará ao autor em livros. Por cada 200 exemplares vendidos oferecemos 40.

O QUE PEDIMOS AOS AUTORES:

A nossa editora pretende através desta iniciativa dar oportunidade a novos autores, de uma forma original e com um livro feito de raiz e personalizado. A nossa proposta é bastante exequível. Nas poucas editoras que dão oportunidade a novos autores é bastante dispendioso. Geralmente cobram mais de 1000€. Gostávamos de publicar todos os autores totalmente gratuitamente, mas tal não é possível, pois não temos fundos nem somos subsidiados, trabalhamos e temos despesas como todos. Infelizmente, hoje em dia, o mundo rege-se pela lei da oferta e da procura. E são muito poucos os que compram livros. Raros são os livros que são fenómenos de vendas. O autor apenas terá de ficar responsável pela compra de um pack da sua própria obra. Os mesmos poderão ser revendidos e assim não terá nenhuma despesa. O pagamento deverá ser efetuado até ao dia 28 de Agosto de 2015.

Estes são os packs disponíveis através do Facebook (deverá optar por um dos mesmos):
  • PACK 10 LIVROS: 210€ ( 16€ x 10 exemplares + 30€ de ajudas de custo gerais + 20€ portes dos ctt)
  • PACK 20 LIVROS: 320€ ( 15€ x 20 exemplares + 20€ portes dos ctt) POUPE 50€
  • PACK 30 LIVROS: 430€ ( 14€ x 30 exemplares + 10€ portes dos ctt) POUPE 100€
  • PACK 50 LIVROS: 650€ ( 13€ x 50 exemplares)  POUPE 200€
  • PACK 100 LIVROS: 1200€ ( 12€ x 100 exemplares) POUPE 450€
A editora enviará os seus exemplares no prazo máximo de um mês e meio após efetuado o pagamento. A partir desse momento o livro estará à venda. O autor e qualquer leitor podem encomendar desde 1 exemplar (não existe um número mínimo para cada compra/encomenda). Pedimos-lhe que nos responda a esta proposta de edição até ao dia 27 de Agosto de 2015.

Antes de nos submeter qualquer questão pedimos que analise bem todas as perguntas e respostas neste email e no Guia editorial que enviamos em anexo ao mesmo. Sabemos por experiência de anos que grande parte das dúvidas que tiver encontra-se já respondida nos mesmos. Após consulta aos mesmos, se não encontrar resposta às suas questões então disponha. Estamos aqui para o elucidar.

Qualquer dúvida não hesite em contactar-nos.

Decidi responder:

Agradeço imenso terem considerado e escolhido a minha obra. Para mais, felicito terem tomado esta iniciativa. Contudo, creio que o preço de venda é muito alto (tendo em conta que o livro é bastante pequeno) o qual iria afastar os meus leitores.

Para uma edição de 100 exemplares, o preço alvo deveria rondar os 8 euros. Tendo em conta que o ISBN custa 12,3 euros, o depósito legal é feito pela gráfica e a impressão (com boa qualidade) custa cerca de 210 euros já com o transporte até à vossa sede. O envio de um livro destes custaria cerca de 50 cêntimos ou menos (envelope e envio). A vossa margem de manobra seria os 73%. Retirando o IVA, e o custo das livrarias, a vossa margem andaria pelos 37% com este preço, ou seja, perto de 300 euros.

Neste caso, como a revisão e a capa ficam quase da minha inteira responsabilidade, considero ser muito desvantajoso comprar um pack de 10 livros quando posso imprimir 100 pelo mesmo preço.

Ao que recebi a seguinte resposta:

Em primeiro lugar agradecemos a sua resposta.
Em relação aos items que aborda:
  • O preço é idêntico à maioria dos livros no mercado com tamanho equivalente.
  • O ISBN custa 50€
  • O depósito legal é pago por nós, pois é esse o acordo que temos com a gráfica.
  • A edição são 200 exemplares, não 100.
  • A capa e design não são responsabilidade do autor, mas sim da editora.
  • A editora faz também uma pequena reviasão, mas o autor também tem de a fazer.
  • Onde foi buscar esse preços de gráfica? Não correspondem à realidade. Pelo menos a que conhecemos.
  • Em relação ao envio pelos correios depende se é a cobrança ou não: se o for, e temos que prever isso são quase 4€ por livro  E ao que fala acrescem 40%, em média, de comissão para as livrarias, IRS, Agua, Luz, aluguer de escritório, telefone, Internet, Salários de funcionários, e muitas outras despesas:)
Em relação a imprimir 100 exemplares pelo preço de 10: dúvido. Só um designer irá cobrar-lhe no minimo 150€ (estamos a falar de profissionais, não de amigos ou trabalho amador)+ 50€ (Isbns) + 500€ (grafica minimo, edição de 200 exemplares como o fazemos) + impostos que terá de pagar se trabalhar legalmente + percentagem das livrarias sempre que o colocar à venda nas mesmas + 4€ por cada livro enviado à cobrança, etc, etc...

Um abraço e desejos de boa sorte para si e para o seu livro.
Houve vários itens nesta resposta que não me deixaram satisfeito, de modo que decidi responder.
Agradeço imenso à sua resposta.

O ISBN custa 12,3 euros se a vossa editora estiver registada como editora (na compra de 10 ISBNs - que será a melhor compra pelo vosso volume de publicações), só custa 49,8 se não estiverem registados no sistema e não puderem apresentar o comprovativo em como são uma editora com o CAE (rev.3) 58110. Caso queiram comprar apenas um de cada vez, custaria 18,45.

Podem optar pela gráfica XXX, a qual faz trabalhos com muita qualidade e tem preços excelentes: por exemplo, a impressão de 200 exemplares com esta características ficaria por 375 euros, transporte até à vossa sede incluído. E o depósito legal é também assegurado por eles.

Os preços de envio é por correio editorial. O envio à cobrança deve ser cobrado ao leitor caso opte por essa alternativa (que é o que vocês fazem na prática), portanto não e correcto fazer entrar esse valor nas nossa contas. Este preço é mutuamente exclusivo ao das livrarias, que é sempre 30-40%, independentemente do preço do livro. Neste caso praticante podemos negligenciar o valor, pois o o autor venderá a maior parte dos exemplares e não acredito que haja muitas encomendas.

Se a capa for feita de raiz, esse valor está correcto, no entanto se for dada a imagem que será usada e todo o material o preço desce para 80-90 euros.

Os impostos são pagos em relação aos lucros, neste caso é o IVA (por cada venda) e o IRC (25% do vosso lucro).

Assim sendo, e usando os vossos valores para o restante: essa edição custaria 478 euros, mais os vossos 40% dá 700 euros mais IVA de 6% no caso de venderem na vossa loja online. Continuando a ser viável a criação do livro ao preço de 8 euros por unidade, visto que há uma margem de 800 euros (ou seja metade, é certo que tem de pagar daqui o IRC, mas mesmo assim é um bom valor para começar!).

A minha insistência prende-se com o facto de eu saber que consigo vender cerca de 200 livros a oito euros cada, mas a 16 não irei conseguir passar dos 30-40.

Peço desculpa pelo longo email. Mesmo que não aceitem editar o meu livro nestas circunstancias, talvez pudessem repensar na maneira como gerem os vossos gastos, de modo a diminuir o preço dos livros e tornarem-nos acessíveis a mais pessoas.
Ao que, por fim, recebi a resposta:
Agradeço imenso o seu email, aprendemos com sugestões e criticas.

No entanto o Pedro está a pensar na perspectiva de edição de autor e de quem não tem de ganhar a vida com esta actividade.

Só para ter a editora aberta: entre aluguer de escritório, Salários, Segurança Social, IVA, Gasolina, Correios etc são muitos milhares de euros por mês.

Talvez estejamos no pais errado, mas garanto-lhe que pelos preços que fala ser-nos-ia impossível ter a editora aberta.

Em relação ao ISBN por exemplo: ao autor são 50€ a nos são 0€ por livro porque pagamos uma avença anual de alguns milhares de euros à APEL dos quais somos associados.
Tenho a dizer que o discurso desta editora ficou marcado por várias incongruências. Começando pelo final, para uma editora pagar alguns milhares de euros por ano, significa que tem um volume de negócios de alguns milhões de euros. Podem confirmar no site da APEL: http://apel.pt/pageview.aspx?pageid=22&langid=1 Ou seja, cerca de 1% do valor de facturação.

Mesmo adicionando os 40% que eles dizem necessitar para custos correntes, era possível realizar a edição pelo preço que quotei. A editora tentou-se sempre esconder atrás de custos que não conseguia quantificar nem descriminar para não descer o preço do livro. Os valores praticados só fariam lógica para uma editora que distribuísse em grande escala, contudo, para uma editora que obtém a maior parte das receitas pela venda directa ao autor, os preços são apenas um aproveitamento descarado. Apesar do disfarce, é uma editora leviana, que não publica por mérito ou qualidade, apenas para sacar dinheiro aos autores.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O Jardim do Éden - Parte 2

Podem ler a primeira parte do conto aqui.

E o Senhor Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida,
bem como a árvore da vida no meio do jardim,
e a árvore do conhecimento do bem e do mal.
Génesis 2, 9



Olhou para o irmão.
― O que fizeste?
Ele olhou-a com um ar amedrontado.
― Nada, juro, nada! Estava aqui e a contagem começou.
― O que é que isto significa? ― insistiu, levantando a voz.
― Não faço ideia. Sei tanto como tu!
O olhar percorreu os monitores: todos tinham a mesma contagem decrescente excepto um. Tinha lá qualquer coisa escrita. Os dois irmãos aproximaram-se. A missiva estava assinada pelo pai e dizia-lhes que em breve a sua vida iria mudar. Tinha chegado o momento de lhes mostrar o passado e dava-lhes a palavra passe para desbloquear o computador central. Amir foi mais rápido que ela, apropriando-se da cadeira e introduzindo a palavra passe no terminal. As credenciais foram aceites, passando a ter privilégios de administrador. O barulho calou-se de imediato.
Bea deu uma volta à sala, tentando conciliar os factos na sua cabeça. Sobretudo não gostava do tom misterioso do pai. O nervosismo miúdo habitual ameaçava tomar conta dela.
― Olha o que eu encontrei! Há aqui milhares de ficheiros que estavam escondidos... ― anunciou Amir, bastante excitado.
Bea olhou para o monitor, onde uma parte da lista interminável preenchia todo o espaço. Os títulos eram um tanto crípticos. Havia um ficheiro para cada um dos que havia habitado ali. Eram perto de uma centena. Excepto eles os dois, todos tinham morrido e sido deitados no incinerador. Muitos também haviam nascido ali, mas os mais antigos não. Descobriram que Amir tinha dezasseis anos e Bea doze. Tudo aquilo era muito estranho.
A revelação apareceu-lhes como um choque. Há sessenta e cinco anos atrás, o mundo tinha sucumbido a uma guerra apocalíptica, que o tinha deixado devastado e incapaz de sustentar vida humana. Tinha havido uma noite total durante anos. Eles eram os bisnetos dos que se haviam refugiado no abrigo quando o cataclismo acontecera. As últimas linhas informavam que as portas estavam programadas para se abrirem quando os níveis de gases tóxicos e radioactividade fossem aceitáveis, ou seja, passado sessenta e cinco anos.
Os irmãos olharam-se, tentando captar as implicações. Quando aquela contagem decrescente chegasse ao fim, poderiam sair dali. Só tinham visto algumas imagens e filmes do mundo exterior. Sabiam que era imenso e pouco mais. Bea não conseguia decidir se estava excitada ou amedrontada com as possibilidades.
Ainda tinham algum tempo antes de as portas se abrirem. O resto dos ficheiros ensinava a caçar, fazer abrigos e outras coisas que não compreendiam para que serviam. Leram-nos a correr, saltando a maioria.
Os últimos cinco minutos passaram-nos em frente à porta blindada, como se pudessem fazer com que se abrisse mais depressa. Bea olhou para o irmão. Parecia determinado. Teve a certeza que ele não sentia os mesmos receios. Num impulso deu-lhe a mão, mexendo freneticamente os dedos dos pés.
As sirenes recomeçaram a apitar, estridentes, e as luzes vermelhas a piscar furiosas. Os segundos esgotavam-se. A contagem chegou a zero. As luzes e as sirenes desligaram-se. Não aconteceu mais nada. Olharam um para o outro. Amir tomou a iniciativa e puxou a alavanca da porta. À abertura da primeira frincha entrou uma porção de ar. As duas imensas lajes metálicas deslizaram com lentidão. Bea sentiu frio. Do fundo vinha uma luz azul e tudo o resto estava mergulhado na escuridão. Assim que a abertura era larga o suficiente, saíram os dois.
À direita e à esquerda algo se mexeu. Havia algumas plantas que trepavam pelas paredes. Bea demorou algum tempo a encontrar a palavra que definia o espaço: Hangar Subterrâneo. A luz exterior cegava-a. Não se comparava a nenhum dos filmes que tinha visto. As cores eram muito mais vivas. De mãos dadas, correram para o exterior.
Sob o céu azul, viram-se rodeados de vegetação. Mal podiam andar. Ouviu-se o canto de uma ave. Algo rastejou um pouco mais à frente. Havia tantas árvores e arbustos diferentes que não sabia os nomes de quase nenhuns. Havia também ervas e flores. Tudo entrelaçado e misturado. Um festim para o olhar. Os cheiros deixaram-na inebriada e os sons em êxtase. Tocou nas folhas, sentido-as vivas e frescas. Passou os dedos pelas suaves pétalas. Um insecto voador passou num voo rasante à sua cabeça. Cada planta tinha um cheiro único. Ao fundo via-se uma montanha. As nuvens do céu tinham padrões que lhe lembravam objectos. Avançaram, sem se importar com os arranhões. Ocorreu-lhe uma palavra capaz de descrever aquilo: paraíso.
Ao passar sobre uma planta espinhosa, reconheceram as bagas escuras.
― Sim Bea, são comestíveis, o pai ensinou-me ― confirmou Amir, retirando uma e levando-a à boca.
Ela fez o mesmo. O sabor era tão intenso e a textura era única. Era melhor que qualquer coisa que já comera. Mais à frente reconheceram outra árvore com frutos comestíveis. E assim foram andando, experimentado cada uma. Até os frutos amargos lhe eram agradáveis.
Quando chegaram à margem de um lago, Bea sentou-se numa pedra.
― Anda! ― pediu o irmão.
― Não posso, as pernas doem-me.
Nunca andara tanto em tão pouco tempo. Bea achegou-se à beira da água e bebeu. Ao erguer-se a mão de Amir tocou-lhe no ombro. Estremeceu. Os braços dele envolveram-na. O coração disparou. Sabia que era errado, mas não conseguia resistir-lhe. Havia algo dentro de si mais forte. Os pêlos do braço eriçaram-se. Os lábios de ambos tocaram-se, como muitas vezes tinham visto os pais fazerem. Por estranho que fosse, a boca dele sabia melhor que os frutos. Se calhar não é errado, pensou, enquanto as mãos do irmão desciam até à sua cintura. Um fervilhão de sensações assaltava-a a cada toque deles.
Despiram as roupas e exploraram-se mutuamente de um modo desajeitado. Inebriada com o odor, acariciou a barba que lhe crescia na face. Sentiu-se húmida. Hesitou e acabou por retrair a mão. Os dedos dele envolveram-lhe o seio direito. A sensação surpreendeu-a tanto que se deixou levar. A cada momento tensão crescia. Era viciante. Por fim, os corpos uniram-se num frenesim, num misto de dor e prazer que não conseguiam interromper. Sentiu contracções incontroláveis e uma sensação desconhecida atingiu-lhe a cabeça. Sentiu que algo era depositado dentro de si. Amir parou e deitou-se a seu lado.
As lágrimas começaram a correr-lhe pela face. Bea começou a chorar também. Abraçaram-se. Ambos haviam compreendido o que os pais não queriam que acontecesse. Ela lembrou-se da palavra que definia a situação: pecado.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Ebooks: O Negócio da Dona Augusta

Um conto com uma permissa muito interessante!



Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Enquanto a viúva amargava no seu desgosto, a menina aproximou-se. Em trajes cinzentos e face pesarosa, ninguém a considerou como exterior aos amigos e familiares que tinham vindo distribuir condolências ao morto, prestes a ser encarcerado na terra sagrada do cemitério. Um dos presentes chegou a pousar-lhe uma mão reconfortante sobre o ombro. “Não fiques triste” dissera. “Está num mundo melhor.” Maria olhara-o, o rostinho sério e impecável, até o desconforto tomar o bom samaritano e o levar a largá-la.


Construído numa premissa interessante, acaba por lhe faltar algo. Creio que as personagens foram muito pouco exploradas, ao ponto de não ficar nada para além de uma leve impressão de Maria. A trama revela o seu ponto fundamental cedo de mais, fazendo com que o resto seja apenas um arrastar.No entanto, apesar de tudo, acaba por ser uma história agradável para gastar uns minutos.
Recomendo a quem gostar de uma história sobre almas!

Classificação: 3 estrelas

domingo, 27 de setembro de 2015

Chá de Domingo #53: Não-Ficção

Geralmente falo de ficção, no entanto, hoje decidi falar da sua irmã literária.


O que é preciso para uma obra de não ficção merecer a atenção de um editor? Para mim o cerne da questão prende-se em cinco pontos: clareza, foco, continuidade, ortografia/sintaxe e fontes:

Clareza
A linguagem usada deve ser inequívoca e não dar lugar a múltiplas interpretações (de certa que há raras excepções para esta regra). O título não deve induzir os leitores em erro. Evitar floreados excessivos e o despejar de dicionários no texto. A obra deve saciar o leitor em termos da informação que procura e não deixá-lo ainda mais confuso (claro que há algumas excepções para esta regra).

Foco
Este tipo de livros tem uma maior tendência em dispersar, por isso, deve-se focar apenas no tópico de interesse. Se o livro é sobre economia, então não se deve perder tempo a falar de biologia. Se houver mais que um foco, é importante que haja uma equilíbrio entre os dois.

Continuidade
Deve-se evitar "esconder" informação relevante ao leitor. A estrutura deve ser tal que as informações se encadeiem duma forma lógica. Os capítulos devem poder ser lidos sem auxílio dos que lhe precedem. Não é necessário explicar tudo, mas deve-se evitar saltos lógicos que a maioria dos leitores não possa acompanhar.

Ortografia/Sintaxe
As regras de ortografia e sintaxe são para respeitar. Por muito artístico que queiram que o texto pareça, há que respeitar as regras. Evitar as frases demasiado longas para não confundir os leitores.

Fontes
Ao contrário da ficção, em que o autor pode intentar o que quiser, na não-ficção as referências e citações podem ser necessárias. É de evitar deixa de citar todas as informações mais importantes. Por outro lado, deve-se evitar citar tudo aquilo que é cultura geral e conhecido pela maioria das pessoas.


Esta é a minha opinião como editor. E vossa, qual é?

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Jardim do Éden - Parte 1

"Então plantou o Senhor Deus um jardim, da banda do oriente, no Éden;
e pôs ali o homem que tinha formado."
Génesis 2, 8


Cada visita à despensa relembrava Bea do problema. A divisão podia ser imensa, mas a maioria das gavetas em forma de prateleira que puxava da parede só continham pó. A garota sabia que o dia em que acabaria a comida estava a chegar. Com receio no olhar, pegou na última lata de conserva e voltou para a cozinha.
As luzes acendiam-se e apagavam-se à sua passagem. De tempos a tempos, Amir, o irmão, percorria o abrigo subterrâneo trocando as lâmpadas estragadas e afinando os velhos sensores como o pai lhe havia ensinado. Aquele sítio era mais velho que qualquer um deles. Segundo o computador central, quase sessenta e cinco anos haviam passado desde que estavam ali. O conceito de anos era estranho para ela. Cada ano eram 365 dias, outro conceito estranho. Cada vez que as luzes se apagavam e voltavam a acender passava um dia. Nunca compreendera o porquê. Os pais prometeram responder a todas questões quando fossem mais velhos, contudo, morreram sem o fazer.
― Só isso? ― perguntou Amir, que tinha uma tez um pouco mais morena que a irmã.
― É a última ― declarou ela, contendo as lágrimas.
Amir abriu-a, era atum. Bea torceu o nariz. O irmão partilhou o conteúdo acompanhando com pão que haviam feito. Ela forçou-se a engolir tudo até à última migalha.
Existiam galerias sem fim. Algumas partes estavam destruídas e outras permanentemente seladas. O computador decidia onde eles podiam ou não ir. O que acontecera nos últimos sessenta e quatro anos antes não era claro. Nem o computador central lhes dava respostas. A única coisa certa é que não havia maneira de sair.
― Bea, tenho fome ― queixou-se ele.
Ela suspirou. Apesar de ser quatro anos mais nova, parecia que tinha passado a ser a mãe dele.
― Não podemos comer mais, há que racionar ― impôs, cruzando os braços como vira a mãe fazer.
Amir calou-se e desviou o olhar. Bea sabia que tinha razão. Desde que tinham notado, há alguns meses atrás, que a comida estava a escassear, tinham decidido reduzir a quantidade diária. Os pais tinham-nos avisado que isso ia acontecer na derradeira carta. Também tinham dito que os seus corpos começariam a mudar em breve pelo que deveriam dormir separados e, sobretudo, evitar o contacto físico. Bea sabia que isso já tinha começado, não fossem pêlos terem começado a crescer em sítios estranhos e o peito aumentar de volume. Era tudo inexplicável, até o cheiro. O pior de tudo fora o sangue que aparecera há um par de meses. Não fosse a mãe uma vez ter-lhe explicado que isso iria acontecer, Bea pensaria que estava para morrer. O instinto, na forma da mãe, dizia-lhe que não devia partilhar essas coisas.
Lembrou-se do dia em que encontrara os corpos. Pareciam ter morrido em pleno sono. Eles já lhes tinham explicado o que era a morte, apesar de nunca terem presenciado nenhuma. Estavam tão calmos que pareciam quase felizes. Tentou abaná-los e até espetou as unhas no braço do pai. Já estavam frios. Deixou-se cair, com a cabeça apoiada na cama. As lágrimas e a confusão dominaram-na, até o irmão surgir atrás de si.
― Anda, eles estão mortos ― disse-lhe num fio de voz.
Nesse dia colocaram os corpos na fornalha onde deitavam todo o lixo, tal como lhes haviam pedido na folha de papel que ficara sobre a mesa. As outras coisas que estavam escritas nesse papel não faziam sentido de todo. Disseram que eles seriam herdeiros de algo que não tem valor e que veriam coisas que nunca haviam visto nas suas vidas. Lera a carta inúmeras vezes, mas acabara por a queimar num momento de fúria.
Não era só a comida que estava a escassear. Eram também os livros e as distracções em geral. Não havia muito mais que pudessem fazer que já não tivessem feito. A biblioteca principal estava selada e o computador não autorizava a sua abertura. Ficar o dia todo deitada era demasiado aborrecido.
Os passos erráticos acabaram por levá-la à sala principal, coberta de monitores que mostrava o estado de cada um dos sistemas. Uma olhada pelos ecrãs confirmou que estava tudo bem. O facto de os valores estarem próximos dos mínimos em quase todas as vertentes não a preocupava. Sempre fora assim durante a sua vida.
De súbito, apeteceu-lhe atirar o monitor mais próximo ao chão. Despedaçar cada uma daquelas maquinetas. Odiava que lhe controlassem a vida. Odiava ainda mais que os pais não lhe tivessem deixado a palavra passe. Com ela poderiam abrir qualquer porta e até mesmo alterar as definições do computador. Não compreendia porque os pais haviam feito aquilo. Quanto mais pensava no assunto, mais lhe parecia que eles se tinham matado de propósito. Haviam-nos deixado sozinhos.
Sentiu uma mão no seu ombro. Um arrepio subiu-lhe pela espinha.
― Amir! – protestou, virando-se.
― O que se passa? ― inquiriu, parecendo confuso.
― Os pais foram bem claros que não devíamos tocar-nos ― censurou.
Desde há um ano para cá, o toque dele dava-lhe sensações estranhas. Conseguia compreender que estava a ficar mais parecida com a mãe e ele com o pai. E se os pais se podiam tocar e estar sempre juntos, por que não poderiam eles?
― Dá-me um abraço, Bea ― insistiu.
Ao olhar para o irmão, viu apenas uma criança assustada. Não podia. Era errado. Saiu da sala a correr com lágrimas nos olhos. Percorreu os corredores sem olhar para trás e quando chegou ao quarto, meteu o dedo no leitor. A porta abriu-se e ela esgueirou-se para o interior. Ao meter o dedo no leitor interior, deu ordem para que a porta fosse trancada.
Atirou-se para cima da cama e deixou que as lágrimas fluíssem. Irritava-a mais que tudo nunca lhe terem dado qualquer explicação para as regras. Porque não haveriam de as poder quebrar? Não haveria castigo. Como poderia haver castigo se só estavam ali eles os dois? Pelas histórias que lera, sabia que havia mais pessoas, mas nenhuma delas alguma vez viera ali. A sensação estranha persistia nela. Como um calor indescritível.
O sinal de alarme soou nesse momento. Levantou-se da cama e limpou as lágrimas. Na sua vida só se lembrava de isso acontecer duas vezes: quando deflagrara um fogo e quando o gerador principal deixara de funcionar. Tinha de ser algo sério. Apressou-se na direcção da sala principal e, quando lá chegou, viu que em todos os monitores estava uma contagem decrescente. Dentro de uma hora algo aconteceria.



Podem ler a segunda parte do conto aqui.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Ebooks: Fragmento

Este é o terceiro conto desta talentosa promessa nacional a que faço uma crítica.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Raquel observava a mulher no espelho. Movia-se quando ela se movia, imitava-a, mimicava-a… Mas não era Raquel. Raquel era Raquel e aquela mulher não era ela, era outra.


Este conto é mais do que à primeira vista parece. Uma mistura entre realidade e fantasia, temos o de tornar uma metáfora real como tema do conto. Há uma repetição de palavras que são usadas como efeito sonoro e estético, embora não tenha a certeza se esta foi a melhor forma de o fazer. Não gostei dos diálogos à inglesa. A linguagem usada é extremamente acessível sem se tornar simplista. É um daqueles contos que nos dá vontade de ler várias vezes.
Recomendo vivamente a todos os adolescentes e até mesmo aos mais crescidos!

Classificação: 4 estrelas