sábado, 30 de novembro de 2013

Caderno Vermelho: Balanço das Leituras Beta

Dou por terminada a fase de leituras beta do meu livro Caderno Vermelho.*

*Eu sei que ainda há algumas pessoas que ainda não entregaram a ficha de leitura. Estão sempre a tempo de o fazer, mal posso esperar para saber as vossas opiniões!





Quero agradecer às minhas sete leitoras e ao meu leitor beta por se aventurarem nos meandros da minha poesia com retoques de manifesto.

Fiquei positivamente surpreendido com as críticas. Uma das coisas que irei alterar é a capa, mas as restantes alterações sugeridas não irão dar muito trabalho. Assim, espero dar o livro por terminado dentro de uma ou duas semanas, para dar início à próxima fase: a publicação.

Fiquem atentos, haverá novidades em breve!

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Treinos de artes marciais: Haidong Gumdo

Ao navegar nos recantos da Internet, numa pesquisa sobre artes marciais, descobri umas imagens interessantes. O conteúdo é de tal maneira épico, que não podia deixar de partilhar. É assim que treinam os melhores da Europa:


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A Passagem Uivante - Parte 1/2


Este texto foi publicado no primeiro número da Revista Lusitânia.

Fernando apreciava o pôr-do-sol contra o horizonte escarpado. O vento assobiava pelas encostas e a Este o fumo subia. O jovem Cabo tentou ignorar os motores dos aviões que rugiam sobre a sua cabeça. A guerra rodeava-o a cada momento e a cada instante ele tentava esquecê-la.
Alguns soldados acendiam fogueiras no meio do acampamento. Sabiam que a paz naquele regimento blindado era algo temporário, mesmo assim estavam determinados a preparar o seu jantar como se de mais um dia vulgar se tratasse. Depois de seis anos de guerra contínua, era difícil ver as coisas de outra maneira.
A divisão blindada do Sul esperava ordens para entrar na batalha. Haviam defendido a linha do Mondego durante seis meses e estavam com a capacidade de combate reduzida. Tanto os reforços como as peças necessárias à reparação haviam chegado nessa tarde. Nem umas nem outras haviam sido suficientes para suprir as faltas.
Não penses tanto, não é saudável – pediu-lhe Roberto, sentado nas rochas a seu lado.
Levantou a cabeça e olhou-o nos olhos. Aquele rapaz de cara longa e nariz proeminente era um dos poucos que conseguia desligar-se da realidade. Os seus olhos castanhos irradiavam uma força de vontade contagiante. Enfrentava a vida com um sentimento de epicurismo notável, incluindo até os oito anos de serviço militar obrigatório.
É difícil. Eu penso muito nas coisas que o meu pai me contava. Sabes, ele falava-me de como as coisas eram antes da grande guerra.
Sim, antes. Antes de eu ter nascido. Eu sei o que sentes... – concordou, espelhando o olhar de saudade por algo que nunca havia conhecido.
Muitos sentem o mesmo – olhou para o céu que escurecia com um olhar sonhador. – A Europa já foi só uma. Depois foi o Norte contra o Sul. E, depois, a ocupação. Eu era apenas uma criança de berço. A primeira coisa que me lembro foi do fim da ocupação. As ruas em festa. Insensatos, se soubessem o que os esperava...
Deixa-te disso e vamos comer. Tu precisas é de beber algo para esquecer. O que foi já não volta, não vale a pena chorar.
Tens razão – olhou subitamente Roberto nos olhos. – Sabes uma coisa? Tu és para mim com um irmão mais novo.
Não digas parvoíces. Hoje vais beber a minha porção de vinho a ver se te eleva o espírito – gracejou, levantando-se e estendendo a mão a Fernando.
Ao fundo ouviu-se o chorar de uma guitarra portuguesa. Quando um homem tinha de reter as lágrimas, a guitarra assumia a tarefa de as libertar.

***

Somente o rugir dos motores perturbava a calma escuridão. Não os esperava o descanso nocturno em sacos cama estendidos por baixo dos tanques. Uma fila indiana de blindados percorria os caminhos da encosta. O exército era alimentado por combustível de origem vegetal, cujos motores tinham um rendimento menor, fazendo as tácticas militares serem muito semelhantes às de um século atrás.
As ordens de combate haviam sido distribuídas a seguir ao jantar. Era suposto avançarem durante a noite numa ofensiva através do vale. Iriam contribuir para um movimento de pinça com o objectivo de cercar o exército que guardava as fronteiras do estado das Astúrias.
O Major prometeu-lhes que seria um ataque decisivo e que lhes traria uma vitória rápida. Poucos foram os que tentaram acreditar e ainda menos os que conseguiram. Pelo menos havia a esperança de que a escuridão os protegeria dos aviões, o maior flagelo de uma divisão blindada.
Quase imerso pela escuridão, Fernando conduzia o veículo couraçado pelo estreito carreiro. Apenas um luar pálido permitia distinguir as formas grosseiras do terreno. A cadeira reclinada era o lugar mais confortável daquela arma antiquada. O resto da equipa mantinha-se atenta a eventuais perigos. Cada blindado era usado por uma equipa de seis membros: o comandante, o condutor, o operador de comunicações, dois armadores e o atirador.
Enquanto o blindado rastejava, Fernando ia perdido nas suas considerações. Roberto, o irmão que sua mãe não lhe pudera dar, era o carregador de um do tanques daquela fila. Muitas vezes dava por si a pensar se irmão era o que lhe queria chamar. Numa sociedade tão fechada como a do pós-colapso da União Europeia, aquele tipo de pensamentos não eram vistos com bons olhos. Quase tudo passara a ser proibido e o resto era tabu. E havia medo.
O segundo batalhão encontrou resistência blindada - transmitiu o rádio.
Daqui fala o Major Pereira. As ordens são para prosseguir com o plano – ouviu-se pouco depois.

A segunda parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/12/a-passagem-uivante-parte-22.html 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Livros: O Romance da Raposa

Eu já tinha lido este livro quando era um rapazote, mas quando me deram uma cópia há umas semanas atrás, não resisti em ler de novo.



Autor: Aquilino Ribeiro
Sinopse: O Romance da Raposa (1924) é uma narrativa infantil de requintado virtuosismo estilístico, substituindo as ilustrações a preto e branco que forma utilizadas a partir dos anos 60 pela originais a cores da autoria de Benjamim Rabier numa solução plástica que se adequa na perfeição à fábula.Esta edição de Romance da Raposa é, assim, um regresso à versão original de um livro que gerações e gerações de crianças leram.



Apesar de ser um livro para crianças é uma leitura muito agradável também para adultos. Escrita num género fantástico em que os animais adquirem características humanas, quase em género de fábula. Contudo, não é um género fantástico vulgar do tipo das histórias "Era uma vez...", sendo um romance mais terra-a-terra com traços realistas.

As peripécias da Salta-Pocinhas, onde ela prima pela astúcia e engenho, levam-nos às serras portuguesas, polvilhadas de animais típicos de Portugal. Invoca um passado saudoso em que ainda havia raposas e lobos nas nossas florestas. As ilustrações não se ficam atrás: a dos três lobitos me tinha ficado na memória até hoje. Balanço feito, coloco este livro quase ao nível do principezinho.

No final do livro há a transcrição de duas pequenas entrevistas com o autor, que ajudam os mais crescidos a perceberem a génese da obra.

Recomendo tanto aos mais novos como aos mais velhos! É uma leitura indispensável!

Classificação: 5 estrelas

domingo, 24 de novembro de 2013

Chá de Domingo #15: O Valor de um Escritor

Dei comigo a pensar para o meus botões como é que se mediria o valor de um escritor.


O normal é valorizar-se o escritor pelo número de exemplares vendidos. Os editores ostentam esses números nas capas dos livros com todo o orgulho, como se indicasse o valor do conteúdo. Há os que vendem milhares logo na primeira semana e são catapultados para os tops, mas será isso real? Muitas vezes não é! Descobri recentemente que, com algum dinheiro, o meu livro pode tornar-se top mundial de vendas ainda antes de ser lançado, bastando pagar a uma companhia que compre os livros.

Se não é pelo número de exemplares vendidos, também não é pelo número de leitores que realmente lêem. Consigo pensar numa mão cheia de casos em que publicaram, venderam milhões, foram lidos aos milhares e nem por isso tinham qualquer mérito. E de certeza que há muito mais!

Poder-se-ia pensar no valor de um escritor pelo domínio da língua em que escreve: pela quantidade de palavras que consegue empregar, pelo uso correcto das figuras de estilo e pela inovação linguística. Valorizar um escritor só por isso, para além de ser redutor, corre-se o risco de se valorizar textos demasiado rebuscados, numa prosa púrpura totalmente intragável.

Se se valorizar só o conteúdo, corre-se o risco de se chegar a brilhantes ensaios que ninguém tem pachorra para ler. Escolher um escritor que já tenha uma grande carreira é apenas sinónimo que ele escreveu em quantidade e já se sabe que não há uma relação linear com a qualidade. Se optarmos, em exclusivo, por quem inova na forma, podemos cair em exageros ilegíveis. Claro que podemos dizer que só os clássicos têm valor, mas ai caímos no extremo da negação da inovação, sabendo que muitos clássicos só o são num determinado contexto e porque eram fora de série quando foram escritos e seriam clichés se o fossem nos dias de hoje. Por fim, apostar em autores premiados, estamos apenas a basearmos-nos no critério de júris que nem sempre são imparciais, para além de que muitos prémios atribuídos, incluindo o Nobel, tem uma certa componente política.

Assim sendo, como é que se define o valor de um escritor? Creio que é um pouco de tudo em quantidades moderadas. Qual a vossa opinião?

sábado, 23 de novembro de 2013

Novidades - Novembro 2013



Neste fim-de-semana decidi actualizar o meu blogue. Dei uma limpeza na página dos projectos, acrescentei as mais recentes contribuições na página das publicações e mudei algumas coisas na página sobre mim. Para além disso, modifiquei o layout. Espero que gostem!

Contudo, a maior novidade são os serviços de edição. Decidi aplicar os conhecimentos que adquiri como escritor e editor na Editorial Divergência para ajudar escritores a melhorar os seus manuscritos.


Os primeiros dois manuscritos que receber terão o serviço completamente grátis.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Primavera - Parte 2/2


Este conto faz parte da antologia Legado de Eros:

Podem encontrar a primeira parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/11/a-primavera-parte-12.html

As sirenes ouviram-se a meio do jantar. Num momento de hesitação, mãe e filha fitaram-se. Ana levou a taça à boca e sorveu o resto da sopa sem respirar. Levantou-se num pulo e foi ao quarto buscar um cobertor, encontrando a mãe à porta com uma vela e fósforos. A progenitora trancou a porta, havia sempre quem se aproveitasse da confusão para se apoderar do alheio. Desceram as escadas, saindo pelas traseiras do prédio.
Apressaram-se a galgar os degraus que conduziam ao abrigo. A construção subterrânea em betão maciço fora feita para proteger os residentes do edifício. Contudo, mal havia espaço para todos se sentarem. Assim que fecharam a porta, Ana sentiu falta de ar. Ficara com um medo irracional de espaços fechados depois de quase ter sido soterrada num bombardeamento. Nesse Inverno era pouco mais do que uma criança e trauma mantivera-se até à idade adulta.
Aconchegou-se o melhor que pôde, partilhando o cobertor com a mãe e o espaço com duas dezenas de pessoas. A área era semelhante à do seu quarto. Não havia janelas. A porta era reforçada e do exterior pouco mais se ouvia que o alarme. A luz mantinha-se acesa, espalhando uma parca luminosidade pelas paredes nuas e faces receosas. Só podiam esperar.
― Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo ― iniciou alguém.
― Ámen ― responderam em coro.
Debitando a oração sem ter de pensar, Ana fixou o olhar nos chinelos. O pensamento voou para a estação de São Bento, meio ano antes. Lá fora as folhas castanhas caíam das árvores. Miguel envergava o seu uniforme novo e a metralhadora pendia nas costas. Cumpria o destino de todos os rapazes que haviam nascido em 2019. A mãe chorava. Ana também não conseguiu conter as lágrimas. Só o pai e os irmãos pareciam conseguir aguentar a tensão do momento. O revisor apitou.
Sem se preocupar com o que os pais iriam pensar, lançaram-se num beijo apaixonado, perdendo-se nos lábios um do outro. Durou um momento apenas, mas foi como se uma vida inteira se tivesse passado. O amor de ambos estava definitivamente selado.
Separaram-se. Miguel correu para a carruagem, galgando os degraus no último momento. As portas fecharam-se. O comboio desapareceu. Foram precisos vários minutos para que ela se atrevesse a mexer um único músculo.
No abrigo a oração terminava, recomeçando logo de seguida. Ana olhou para a lâmpada solitária, esperando que o seu amado estivesse livre de perigo.


Ao ouvirem a artilharia rugir, os soldados aninharam-se na vala. Miguel segurou a arma com força e deitou-se de barriga para baixo. A água ensopou-o de imediato e a lama infiltrou-se em cada poro. Ajeitou o capacete, mantendo a boca aberta, como lhe haviam ensinado. O salvo aterrou ali perto. Não tardou que os canhões daquele lado do rio respondessem com a mesma ferocidade.
Um foguete iluminou o céu. Miguel ergueu-se, sem se preocupar com a gosma que o cobria. Mais foguetes subiam, tornando a noite em dia. Ouviu o soltar da patilha de segurança de uma metralhadora.
Aventurou um olhar, o inimigo atravessava o rio. As primeiras balas foram disparadas. De quando a quando uma tracejante definia a trajectória. Os morteiros iniciaram a sua maldita tarefa. As primeiras explosões acertaram ao lado, mas não tardou que cada munição despedaçasse uma pequena embarcação. Os inimigos não pouparam nas munições, atingindo a trincheira. Manteve-se imóvel, numa crença parva de que isso o poderia salvar
Assim que os primeiros barcos chegaram à costa, Miguel soltou o trinco da arma. O combate era inevitável.


No abrigo, as pessoas ainda rezavam. Enquanto as bombas caíam, a oração continuou. A filha de três anos dos vizinhos de cima começou a chorar e a mãe pouco mais pôde fazer do que pegá-la ao colo. A prece persistiu num tom monocórdico.
Ali perto, uma rápida sucessão de explosões fez as paredes estremecerem e pequenos detritos caírem do tecto. A luz enfraqueceu por momentos.
Ana deu por si agarrada à mãe. Tinha saudades de quando era criança e não tinha de se preocupar com aviões, nem abrigos, nem morte.
O velhote que dirigia a oração apertava as contas do terço com tanta força que o sangue lhe havia fugido das falanges.
― Pai nosso que estais no céu... ― continuou o idoso
Ana começou a tremer. Desejava que o Pai estivesse mesmo no céu e não permitisse que esta selvajaria acontecesse.
― O pão nosso de cada dia nos dai hoje...
A luz falhou no meio da resposta.


O dedo de Miguel exerceu uma ligeira pressão no gatilho, disparando uma curta rajada contra as tropas que desembarcavam. Apontou para as silhuetas a poucas dezenas de metros, um dos vultos caiu e os outros lançaram-se ao chão. Não os conseguia ver claramente, o que não o impediu de atirar até ficar sem balas.
Agachou-se, soltando o carregador, substituindo-o pelo que tinha no cinto. Levantou-se de novo, tentando deter o avanço das sombras rastejantes. As explosões sucediam-se. As munições esgotaram-se. Mais uma vez, trocou o carregador.
Ao elevar-se, foi projectado para trás. Uma bala atingira-o por cima do olho direito. Morreu antes de chegar ao chão.


No abrigo, a mãe da Ana foi a mais rápida a reagir, acendendo uma vela. A oração tinha terminado. O silêncio e o medo imperavam sobre aquelas almas. Os ouvidos ainda zumbiam e não deixavam ouvir mais nada do que se passava no exterior. Ninguém se atreveria a abandonar a casamata antes que as sirenes voltassem a tocar.
De súbito, o barulho de motores fez-se ouvir sobre as suas cabeças. A explosão foi ensurdecedora e o abrigo sacudido com violência. Ana percebeu que a bomba deveria ter atingido o seu prédio.
O prédio desabou um segundo depois sobre o abrigo, fazendo-o colapsar. Uma das pedras atingiu Ana na cabeça. Ela perdeu os sentidos, entrando num sono do qual não iria acordar.


Quando amanheceu, as flores lilás jaziam espezinhadas. As folhas e pétalas haviam sido separadas do talo e estavam espalhadas pela terra negra, misturadas com fragmentos de músculo, ossos, metal, sangue e madeira. Uma pétala perdida parecia adornar um dos cadáveres desfigurados, dando-lhe o único funeral que provavelmente receberia. Iriam passar muitas primaveras antes que voltassem a crescer flores naquela margem.

FIM