sábado, 7 de setembro de 2013

O Sorriso aos Pés da Escada

Não conhecia o autor. O livro foi-me oferecido, por isso li sem preconceitos, o que acabou por se revelar muito positivo.

 

Autor: Henry Miller 
Texto da contra-capa:  Sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!,eis o truque mais difícil de todos. Difícil, precisamente, porque não envolve qualquer esforço. (...)
E eis que de repente lhe surgiu a ideia - tão simples! - que ser um Zé-ninguém ou ser Alguém ou ser mesmo toda a gente não o impedia de ser ele próprio. Se era realmente um palhaço, então sê-lo-ia sempre e sempre, desde a hora madrugadora do levantar até ao momento nocturno de fechar os olhos.


É uma história sobre palhaços. Mais concretamente, sobre um palhaço: Augusto. O que é que os palhaços têm de interessante, podem perguntar vocês. Os palhaços fingem, encarnam o ridículo. Foi isso que Augusto sempre fez e foi isso que o levou a pensar sobre o problema de ser ele mesmo.

É um livrinho pequeno, que se lê todo de uma vez, mas que providencia tema de reflexão para várias semanas. Não recebeu as cinco estrelas devido ao estilo da escrita, porque se fosse só devido à mensagem, não teria havido dúvidas.

Recomenda-se para quem se interesse por levar este tipo de questões mais a fundo e que se sinta pronto a ser embalado numa alegoria poderosa.
 
Classificação: 4 estrelas

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Alterações no blogue: Setembro de 2013

Como já devem ter reparado, o blogue sofreu algumas alterações. A mais notória foi o Chá de Domingo, uma rubrica semana que sai todos os domingos em que se discutem temas literários diversos.

Mas não ficou por aqui, passou a haver críticas a livros às segundas-feiras e artigos de divulgação de projectos a que estou ligado às sextas. Às quartas continuaram a aparecer os meus textos e não aparecem também nos outros dias porque não produzo assim tantos. Como os livros que tenho aqui na pilha dos lidos teima em aumentar sem que eu me dê ao trabalho de fazer a crítica, irei começar a fazê-lo também aos sábados.

Assim sendo, deste blogue podem esperar:

  1. Domingo: Chá de Domingo
  2. Segunda-feira: Crítica a um livro
  3. Quarta-feira: Texto original
  4. Sexta-feira: Artigo de divulgação
  5. Sábado: Crítica a um livro
Espero que gostem deste novo formato. Caso queiram deixar sugestões, críticas e queixas, por favor usem os comentários.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Boas Festas vindas do céu

Dezembro de 2032

O bimotor atravessava os céus nocturnos à velocidade de cruzeiro. Aos comandos do arcaico bombardeiro, Rui não pôde evitar estremecer ao reconhecer a faixa escura no solo, a terra de ninguém. Deixara os limites do seu estado.
Com as tensões a escalarem de dia para dia, não era preciso ser filósofo para perceber que a paz não podia durar. Depois do grande conflito do início de século, Portugal ficara dividido em três. O Norte aliara-se à Galiza e o Sul declarara independência, instaurando um governo neocomunista. O governo de Lisboa recusava-se a aceitar a divisão. Para o piloto, este voo era apenas mais um passo no caminho do inevitável.
Duas centenas de bombardeiros e quase uma centena de caças atravessavam a escura imensidão. O tamanho da frota inspirava confiança aos soldados, tanta quanto um número poderia dar. A tonelagem de explosivos nos compartimentos de carga chegava para atear fogo a uma grande cidade. Mesmo que o pudessem fazer, ninguém ousou questionar as ordens recebidas. Era claro que as negociações tinham falhado.
A missão que lhes fora confiada pelo general era simples: bombardear o Porto até à submissão. Era o último dia do ano e era previsível que a maioria dos soldados estivesse embriagada. A correr como planeado, não encontrariam sequer uma defesa organizada.
Consultou as horas no relógio de pulso.
― Feliz ano novo ― murmurou, esperando sobreviver para os festejos.
Haviam passado cinco minutos em território inimigo. Era certo que os radares já os tinham detectado. Em menos de meia hora estariam sobre a capital inimiga. Estremeceu ao ter consciência que haviam atravessado o ponto sem retorno.
Ainda se lembrava do período antes da guerra, quando a Europa era una e a paz reinava. As cidades cresciam, cheias de vida e actividade. A crise económica estalara enquanto dormia no berço e Lisboa fora ocupada durante a sua adolescência. Na prepotência da juventude, atirara pedras aos tanques franceses. O colapso do petróleo terminou a guerra e com ela a ocupação. Quando atingiu a idade adulta quis ser piloto, na ilusão de proteger o país. E, nesse momento, preparava-se para largar sobre outros a miséria que tão bem conhecia.
De súbito, uma avalanche de mensagens em código jorrou dos auscultadores. O inimigo reagia. Apertou os comandos com força. Não valia a pena filosofar sobre as decisões políticas quando o mais importante era voltar vivo.
Os dois caças à esquerda ganharam altitude, desaparecendo acima das nuvens. Iriam iniciar o seu jogo de gato e rato, enquanto Rui seria o queijo. Desejou poder fazer o mesmo. Aquele avião era uma presa fácil tanto para as defesas antiaéreas como para as aeronaves inimigas, mais leves e velozes. Nem a metralhadoras instaladas nas asas o deixavam mais descansado. Nos céus a agilidade era tudo, justamente aquilo que não dispunha.
Os bombardeiros mais pequenos desceram em voo picado, alvejando as artilharias. Era um duelo de vida ou morte. Rui olhou em frente, concentrando-se apenas no alvo. Os elementos mais rápidos haviam já largado bombas incendiárias visíveis a vários quilómetros, marcando o alvo principal. Sabia que tanto podiam ser fábricas como uma zona residencial. Empurrou esses pensamentos para segundo plano, concentrando-se em alinhar a trajectória com as chamas. Não interessava qual o alvo, ou se atingiriam de todo, só queria largar a carga mortífera e dar meia volta.
De súbito, a asa do avião à sua direita irrompeu em chamas. Só então viu as balas tracejantes. Os caças apareceram de seguida, atacando a nave inimiga. As chamas alastravam-se pelo bombardeiro de Francisco. Um motor parou e a aeronave começou a perder altitude, arrastada pela imensa carga, numa luta inútil para se manter no ar. Relembrou a noitada que tinham tido duas semanas antes. O compartimento de carga a abriu-se, lançando as bombas aleatoriamente. O avião começou a rodopiar, envolto em fumo, desaparecendo de vista. Não voltaria a vê-lo.
― Graças a Deus que não fui eu ― pensou, rangendo os dentes.
Os caças dos defensores foram repelidos. Dos bombardeiros encarregados de destruir as defesas não havia qualquer sinal, nem dos aviões encarregados de os proteger.
À beira de um ataque de pânico, reduziu a velocidade e a altitude. Era o momento em que estaria mais vulnerável, apenas umas centenas de metros o separavam do solo. Se fosse dia poderia ver os edifícios e até os carros nas ruas como se uma miniatura se tratasse. Imaginou o enorme perfil do avião visto do solo, engolindo em seco. Alinhou-se com o bombardeiro que seguia à frente e que mal via. Desviou-se um pouco para a direita, de modo a evitar a turbulência. Se se aproximasse demais a força de suspensão iria terminar e o avião cairia.
As chamas aproximavam-se mais lentas do que gostaria. O alvo, tão perto e ao mesmo tempo tão longe. O suor escorreu-lhe da testa. Sentiu os joelhos a fraquejar. Bastava uma bala num dos motores ou no piloto para não voltar a casa. Os braços começaram a tremer sem que os conseguisse controlar. Não havia qualquer aliado à vista. Não sabia onde estavam as defesas antiaéreas. Um caça podia aproximar-se dele pelo ângulo cego.
A respirar com dificuldade, accionou as portas do compartimento de carga, libertando os explosivos. Um. Manteve-se direito, na direcção das chamas. Dois. Combateu a tentação de mudar de altitude ou direcção. Três. As bombas haviam sido largadas. Acelerou os motores ao máximo, apontando o nariz da nave para os céus.
O avião ganhou velocidade e altitude. Cada segundo parecia uma eternidade. O perfil prateado do aeronave podia ser vista do solo. Estava vulnerável e não havia nada que pudesse fazer contra isso.
Ao atravessar as nuvens, viu-se na companhia dos outros aviões. Deu-se ao luxo de olhar mais uma vez para o relógio, passava meia hora da meia-noite. Descreveu um arco, dando meia volta e seguindo os companheiros de volta a casa. Tentou não pensar nas consequências dos seus actos, desejando que a festa esperada valesse a pena.


Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Dead Poets Society


Autor: N. H. Kleinbaum
"Conta a história de um professor de poesia nada ortodoxo, de nome John Keating, em uma escola preparatória para jovens, a Academia Welton, na qual predominavam valores tradicionais e conservadores. Esses valores traduziam-se em quatro grandes pilares: tradição, honra, disciplina e excelência. Com o seu talento e sabedoria, Keating inspira os seus alunos a perseguir as suas paixões individuais e tornar as suas vidas extraordinárias."
Fonte: Wikipédia

Link do Goodreads

Acho que este livro dispensa apresentações: a maioria já viu o filme e se não viram, aconselho vivamente que o façam.

Para ser sincero, não costumo pegar em follow-ups de filmes e esta foi uma das raras excepções. Quando comecei a ler o livro, não sabia o que achar.

Acabei por me surpreender: a leitura é leve a agradável, acrescentando um sabor que faltou ao filme. Algumas cenas entendem-se melhor descritas. O autor não é um génio literário, mas esteve à altura da tarefa. Os sentimentos passam para o leitor e toda a história flui como no grande ecrã.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 1 de setembro de 2013

Chá de Domingo #3: Sagas Inacabadas

Recebi pelos anos uma caixinha com os 5 primeiros livros do Jogos dos Tronos. Como há um hiato de vários anos entre cada livro, muitos dos fãs receiam que o autor, George RR Martin, possa falecer antes de terminar a saga, que se prevê ter sete livros. Assim, o tema deste Domingo são as sagas inacabadas.


A desculpa que tinha vindo a dar para não comprar a saga mais falada do momento foi precisamente estar inacabada. Vamos pegar num exemplo que me deixou de rastos: Duna. Comecei a ler e fiquei fascinado. O universo, a história, os temas captaram a minha atenção. Confesso que foram dos melhores livros que alguma vez li. Parei no Deus Imperador de Duna, o quarto livro, quando descobri que o final foi escrito pelo filho. Tenho os livros aqui em casa mas não tenho pica para os ler. Foi um dos maiores desapontamentos que recebi. Já tive oportunidade de ler um dos livros da pré-sequela e posso garantir que são bastante bons, quase tão bom como Frank Herbert. Esse quase faz toda a diferença. Tem tudo a ver com as expectativas e as minhas foram frustradas!

Eu tenho o hábito de comprar a colecção toda de uma vez: Os Jogos da Fome comprei só quando saiu o último e A trilogia do século de Ken Follet comprei só quando ele informou na página oficial que tinha terminado o último volume. Gosto de ler uma série toda de seguida! Gosto que tenha sido escrita pelo autor, do início ao fim! Se o escritor não quis ou não pode acabá-la, não me sinto na obrigação de ler!

O que é que acham das séries inacabadas? Qual a série inacabada que mais vos desapontou? O que acham dessas sagas serem completadas por outras pessoas? Acham que vale a pena completarem ou que é melhor deixarem como o autor a terminou?

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Almanaque Steampunk... e agora vem o Winepunk

Quem é que aqui já ouviu falar do Almanaque de Steampunk?

Se não ouviram, dêem uma olhada neste link.




A minha notícia fictícia "45º Demonstração pública anual da Academia Real de Ciências" teve a honra de ser uma das escolhidas para integrar o almanaque da Clockwork Portugal. Uma publicação excelente, em que o único ponto negativo foram mesmo os contos, que não estiveram ao nível do resto da revista. Podem ver mais opiniões aqui.

Um pouco no mesmo espírito do Almanaque, a Invicta Imaginária decidiu organizar a antologia Winepunk:

"Em 1919 foi fundada a Monarquia do Norte (facto real e verídico) no meio das convulsões republicanas portuguesas. Neste universo, ela não durou semana mas sim três anos. Três anos extraordinários em que a junção de um passado british e a casta Touriga de uvas do Douro fundiu-se numa realidade Winepunk. Um mundo com energia e tecnologia a partir das caves do vinho do Porto. Um mundo rebelde e com morte anunciada, com fleuma nortenha, linguagem desbragada e ferozmente anti-republicano."

O prazo de submissões já terminou e infelizmente não pude participar. Nos próximos dias deverão ser anunciados os autores que irão integrar esta antologia, em que os participantes foram os suspeitos do costume. Considero uma excelente iniciativa, que mostra que a comunidade portuguesa de autores do género não está parada. Mostram que há vontade de divulgar o conceito e quem sabe levá-lo a um público mais alargado. As minhas expectativas para esta antologia estão em alta, já que assinala o nascimento de uma corrente de Steampunk totalmente portuguesa.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O mar e o ser Português


É inegável a presença do vocabulário relacionado com o mar na língua portuguesa. Infelizmente, a relevância desse pensar marítimo escapa-nos em muitas ocasiões. Desde sempre que o português olhou tal vastidão, não como uma fronteira, mas como uma fonte inesgotável de possibilidades.

A extensa costa e posição periférica no continente fizeram com que o mar estivesse omnipresente na nossa história. De lá vieram os cruzados que ajudaram na conquista de Lisboa. A ele os portugueses se fizeram para conquistar Ceuta. Por ele navegaram, procurando novos mundos, pois o conhecido já não lhes bastava. Mote da epopeia heróica escrita por Camões, foi também tábua de salvação da família real aquando das invasões francesas. É tema central numa das obras mais emblemáticas de um dos nossos maiores escritores: a Mensagem, e, finalmente, para lá nos voltamos quando o mundo embarcou na mais destrutiva das guerras.

Volvidos 26 anos desde que nos juntamos à União Europeia, o pensar português mutou-se para algo que não corresponde a si mesmo. À custa de tanto importar o pensamento europeu, nós esquecemos as nossas origens. Na actualidade, quando se fala em mar, não é mais para relembrar as regiões autónomas e a zona económica exclusiva. Lentamente viramos as costas aos países de língua portuguesa e deixamos que o mar que antes unia, separe.

Contudo, apesar deste esquecimento, esperemos que momentâneo, as influências linguísticas permanecem, assim como o reconhecer, ainda que débil, do potencial inerente dessa imensa massa de água salgada. Desde “ficar a ver navios” até “ir de vento em popa” passando por “trazer água no bico”, a língua está cheia de expressões que remetem para o nosso passado marítimo. Esses ecos despertam na alma uma saudade de um tempo em que estávamos mais perto do mar.

É neste momento turvo da nossa história, em que o português se vê refém de interesses financeiros, que voltamos ao mar. Enquanto sentem o país a afundar-se, muitos abandonam -no em busca de uma tábua de salvação. Já não precisamos de caravelas nem bravos marinheiros, pois basta apenas um avião para chegar ao Brasil, Angola ou até Timor. Muitos emigrantes enveredam por essa opção, ao invés de embarcarem numa Europa na qual não conhecem nem língua nem cultura, e com a qual não se identificam. Sem medo e insatisfeito por natureza, o português procura além fronteiras aquilo que não encontrou dentro delas, numa repetição do que aconteceu no passado.

Assim como as caravelas vaguearam rumo à descoberta, o português navega no imenso oceano da sua imaginação. Hoje refugia-se no sonho, como o fez quando D. Sebastião desapareceu ou durante o Estado Novo o sufocou. Com tanto onírico marear se perde e esquece da realidade.

O mar é para o português uma promessa de um mundo melhor. Nele depositamos a nossa esperança e fé, numa perigosa viagem ao desconhecido. E continuemos a fazê-lo enquanto nos deixarem, porque sem mar não somos portugueses.
 

Este ensaio foi originalmente publicado na revista Nova Águia número 11 - "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.