sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Almanaque Steampunk... e agora vem o Winepunk

Quem é que aqui já ouviu falar do Almanaque de Steampunk?

Se não ouviram, dêem uma olhada neste link.




A minha notícia fictícia "45º Demonstração pública anual da Academia Real de Ciências" teve a honra de ser uma das escolhidas para integrar o almanaque da Clockwork Portugal. Uma publicação excelente, em que o único ponto negativo foram mesmo os contos, que não estiveram ao nível do resto da revista. Podem ver mais opiniões aqui.

Um pouco no mesmo espírito do Almanaque, a Invicta Imaginária decidiu organizar a antologia Winepunk:

"Em 1919 foi fundada a Monarquia do Norte (facto real e verídico) no meio das convulsões republicanas portuguesas. Neste universo, ela não durou semana mas sim três anos. Três anos extraordinários em que a junção de um passado british e a casta Touriga de uvas do Douro fundiu-se numa realidade Winepunk. Um mundo com energia e tecnologia a partir das caves do vinho do Porto. Um mundo rebelde e com morte anunciada, com fleuma nortenha, linguagem desbragada e ferozmente anti-republicano."

O prazo de submissões já terminou e infelizmente não pude participar. Nos próximos dias deverão ser anunciados os autores que irão integrar esta antologia, em que os participantes foram os suspeitos do costume. Considero uma excelente iniciativa, que mostra que a comunidade portuguesa de autores do género não está parada. Mostram que há vontade de divulgar o conceito e quem sabe levá-lo a um público mais alargado. As minhas expectativas para esta antologia estão em alta, já que assinala o nascimento de uma corrente de Steampunk totalmente portuguesa.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O mar e o ser Português


É inegável a presença do vocabulário relacionado com o mar na língua portuguesa. Infelizmente, a relevância desse pensar marítimo escapa-nos em muitas ocasiões. Desde sempre que o português olhou tal vastidão, não como uma fronteira, mas como uma fonte inesgotável de possibilidades.

A extensa costa e posição periférica no continente fizeram com que o mar estivesse omnipresente na nossa história. De lá vieram os cruzados que ajudaram na conquista de Lisboa. A ele os portugueses se fizeram para conquistar Ceuta. Por ele navegaram, procurando novos mundos, pois o conhecido já não lhes bastava. Mote da epopeia heróica escrita por Camões, foi também tábua de salvação da família real aquando das invasões francesas. É tema central numa das obras mais emblemáticas de um dos nossos maiores escritores: a Mensagem, e, finalmente, para lá nos voltamos quando o mundo embarcou na mais destrutiva das guerras.

Volvidos 26 anos desde que nos juntamos à União Europeia, o pensar português mutou-se para algo que não corresponde a si mesmo. À custa de tanto importar o pensamento europeu, nós esquecemos as nossas origens. Na actualidade, quando se fala em mar, não é mais para relembrar as regiões autónomas e a zona económica exclusiva. Lentamente viramos as costas aos países de língua portuguesa e deixamos que o mar que antes unia, separe.

Contudo, apesar deste esquecimento, esperemos que momentâneo, as influências linguísticas permanecem, assim como o reconhecer, ainda que débil, do potencial inerente dessa imensa massa de água salgada. Desde “ficar a ver navios” até “ir de vento em popa” passando por “trazer água no bico”, a língua está cheia de expressões que remetem para o nosso passado marítimo. Esses ecos despertam na alma uma saudade de um tempo em que estávamos mais perto do mar.

É neste momento turvo da nossa história, em que o português se vê refém de interesses financeiros, que voltamos ao mar. Enquanto sentem o país a afundar-se, muitos abandonam -no em busca de uma tábua de salvação. Já não precisamos de caravelas nem bravos marinheiros, pois basta apenas um avião para chegar ao Brasil, Angola ou até Timor. Muitos emigrantes enveredam por essa opção, ao invés de embarcarem numa Europa na qual não conhecem nem língua nem cultura, e com a qual não se identificam. Sem medo e insatisfeito por natureza, o português procura além fronteiras aquilo que não encontrou dentro delas, numa repetição do que aconteceu no passado.

Assim como as caravelas vaguearam rumo à descoberta, o português navega no imenso oceano da sua imaginação. Hoje refugia-se no sonho, como o fez quando D. Sebastião desapareceu ou durante o Estado Novo o sufocou. Com tanto onírico marear se perde e esquece da realidade.

O mar é para o português uma promessa de um mundo melhor. Nele depositamos a nossa esperança e fé, numa perigosa viagem ao desconhecido. E continuemos a fazê-lo enquanto nos deixarem, porque sem mar não somos portugueses.
 

Este ensaio foi originalmente publicado na revista Nova Águia número 11 - "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Livros: Madame Bovary

Como é que surgiu a ideia para esta rubrica? Tenho uma pilha de livros para fazer uma critica e o dom de procrastinar. Isto é um esforço para tentar resolver o problema.


Autor: Gustave Flaubert
Texto da contra-capa: O escritor francês Gustave Flaubert publicou em 1857, depois de cinco anos de trabalho, a obra-prima intitulada Madame Bovary. Através da descrição das frustrações e aventuras de uma jovem mulher casada com um decadente médico de província, o autor aborda de forma distanciada e, por vezes, desdenhosa, temas como o amor, desavença conjugal, a negligência médica, a sexualidade e o suicídio. A escrita rigorosa, o realismo e a objectividade, mas também o sentido do ridículo, caracterizam esta narrativa que marcou a história da literatura até aos nossos dias.


Começo pela colecção que, se não me engano, foi distribuída com a revista Visão em 2000. Não sei o que aconteceu, mas os livros acabaram disponíveis nas feiras do livro a preços excelentes, por volta de um euro e meio. Como leitor ávido que sou, não deixei de aproveitar a oportunidade, adquirindo todos os que pude. Não completei a colecção e hoje em dia já são bastante difíceis de encontrar. Apesar de tudo, foi um bom investimento. Quase todos os 30 títulos pertencem a obras icónicas que se recomendam vivamente.

Ao contrário do que diz na contra-capa, o livro começa com a vida do médico e a Madame Bovary (que ainda não o é) só aparece umas 10 páginas depois. Grande parte dos primeiros capítulos focam-se mais no Charles do que na Emma, o que é uma pena e acho que irrelevante. A história avança penosamente devagar e é preciso muitas páginas para a narrativa ficar interessante.

Os temas referidos na contra-capa são abordados de um modo sério, que leva o leitor à reflexão. O modo como nos são apresentados torna-os intemporais. Poucos escritores são capazes de tal proeza.

Acho a descrição das acções e das situações bastante realista e de uma objectividade exaustiva, que às vezes até cansa de ser assim. Grande parte das coisas são previsíveis e somente a reviravolta final é que é digna de nota. Apesar de tudo, é uma leitura agradável, mas que requer um estado de espírito próprio para poder ser convenientemente apreciada.

Quanto a esta edição há o problema de Emma aparecer escrito algumas vezes como Ema, provavelmente um erro que escapou ao editor.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 25 de agosto de 2013

Chá de Domingo #2: Antagonistas

O tema desta semana prende-se com os antagonistas, as personagens que se opõem ao herói de um livro, filme ou série.


O antagonista é por norma conhecido por mau da fita e é a personagem com objectivos concorrentes aos do herói. O coração da história é um conflito entre os dois.

Alguns exemplos mais memoráveis são: Sauron no Senhor dos Anéis, Lorde Voldemort no Harry Potter, os Porcos na Revolta dos Porcos, o Agente Smith no Matrix e o inspector Jevert nos Miseráveis. Por vezes, o antagonista é tão bem trabalhado e caracterizado que fica na memória mais tempo do que o próprio protagonista.

Há antagonistas que nos são tão bem apresentados que não conseguimos distingui-los do protagonista. São personagens com princípios e motivações que captam o interesse. Essas são as minhas história favoritas. Ken Follet é um mestre nessa arte e felizmente não é o único. Em grande parte dos seus livros, o antagonista é apresentado sem preconceitos e só através do desenvolvimento da história é que nos apercebemos quem ele realmente é.

Há outras histórias em que o antagonista não é uma personagem, mas antes um grupo de personagens. Pode até ser um objecto, mas é essencial para prender um leitor a um livro, porque sem ele a história não tem conflito. Quem é que se vai interessar por uma história sem conflito?


Quais são os vossos antagonistas favoritos? Quais a características que um um bom antagonista deve ter?

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Outro ebook grátis: Agosto 2013

Para celebrar os 200 gostos da minha página do facebook, atingidos hoje mesmo, e as 25000 visitas ao meu blogue, irei criar um ebook para ser oferecido aos meus leitores (à semelhança do que fiz no fim do ano). Irei disponibilizá-lo via Smashwords para que possam obtê-lo no formato mais conveniente. O conteúdo são vocês que decidem e podem escolher entre esta lista:

Ensaios:
Contos (Universo Era Dourada):
Outros contos:

O número de textos escolhidos irá depender do tamanho dos mesmos, de modo que o livro fique com cerca de quarenta páginas. Para votar basta deixar um comentário nesta postagem. Lembro que podem também sugerir outros títulos da minha autoria que não estejam nesta lista.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A escuridão - Parte 5 de 5


A primeira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-1-de-5.html

A quarta parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-4-de-5.html

Rui deu por si estatelado em cima dela. Num ápice, rebolou para o lado e pôs-se de pé. Os ouvidos ainda lhe doíam, percepcionando um zumbido irritante e permanente. Várias sirenes começaram a tocar num tom estridente. Nos monitores apareceu um mapa esquemático do abrigo, com a fonte do problema assinalada a vermelho. Ficou paralisado ao perceber que acontecera no refeitório.

Após uma breve troca de olhares, precipitaram-se os dois para fora da sala de controlo, correndo pelos corredores. Cedo o meteorologista conseguiu vantagem, deixando a engenheira para trás.

Ao virar a esquina antes da cantina, deparou-se com uma metralhadora apontada à cara.

– Pára! Mãos ao ar! – interpelou o tenente.

– O que é que se passa?

– Não te faças desentendido! De joelhos, já! Ou acabo com isso de uma vez.

Com as pernas a tremer, deixou-se cair de joelhos, mantendo os braços levantados. A arma estava apontada à sua face. Um disparo àquela distância não podia falhar.

– Como é que tu fizeste isto? Fala ou eu disparo!

– Não sei do que está a falar, que não tenho nada a ver com o que acabou de acontecer...

– Não te armes em esp...

Onde antes estivera o olho esquerdo do soldado, saiu um jacto de sangue. Um momento depois, o corpo do militar caia sem vida. Olhou na direcção da origem do tiro, descobrindo Rita empunhando uma pequena arma. De súbito, compreendeu tudo o que se passara nos últimos dias.

– Os meus resultados estavam certos! Foste tu! – exclamou, levantando-se.

– Sim, estavas certo desde o início – confirmou, abrindo-se num sorriso como ele nunca antes tinha visto. – Como dizia a tua amiga, é a sobrevivência do mais forte.

– Era preciso matá-los a todos?

– O que é que achas? – ironizou, passando por ele.

Ela prendeu a arma nas calças, pegou na metralhadora do militar e retirou o carregador, guardando-o na bolsa. Chegou-lhes o fumo do incêndio que se gerara. Rita atou a camisola à volta da cara e seguiu em frente, desaparecendo no interior do refeitório.

Rui deixou-se ficar parado, tentando assimilar o que acabara de descobrir. Avançou decidido a pensar mais tarde, atando também a t-shirt à volta do nariz e boca.

Nada o preparara para o que encontrou. As mesas e cadeiras estavam feitas em pedaços de encontro às paredes numa miscelânea de metal e contraplacado, moído e retorcido. As portas haviam deixado de existir e os fragmentos quase pulverizados estavam espalhados pelos corredores. Os corpos eram o pior de tudo, desmembrados e com parte das vísceras espalhadas pelo chão e misturadas com tudo o resto. O sangue ensopava o chão e pintalgava as paredes. Ouviu alguns gemidos.

Não conseguiu ficar parado, por isso olhou em volta. Viu Rita ao fundo. Dirigiu-se a ela, a tempo de a ver atingir a cabeça de alguém. Desviou o olhar, sem conseguir assistir ao massacre.

Olhou em volta, procurou pelo corpo de Débora, sem o encontrar. Mudou de ideias e aproximou-se da assassina.

– Já chega! Não precisas de matar toda a gente!

– Meu querido – interpelou-o, com uma tranquilidade tão grande na expressão, que lhe provocou arrepios. – São eles ou eu. Depois do que nós fizemos, não há volta a dar, ou os matamos ou eles matam-nos a nós. Lembra-te, desde que as bombas caíram que a lei da selecção natural se aplica também aos humanos. Podes estar descansado, eu não te quero matar, afinal preciso de passar os meus genes à geração seguinte. Se não tiveres estômago para isto, podes sempre ir embora.

Rui percebeu que era impossível conversar, ela tinha enlouquecido. Apesar de tudo, não quis arredar pé. Ela matou outras duas pessoas, querendo inspeccionar também as casas-de-banho. De Débora nem sinal, mas com a quantidade de corpos irreconhecíveis, era impossível ter a certeza do seu paradeiro.

Ouviu-se um grito a partir da casa de banho. Rita encaminhou-se para lá.

De repente, um soldado dobrou a esquina, com um joelho no chão, disparando sobre ela. A engenheira foi projectada para trás, caindo de costas. A arma fugiu-lhe das mãos, indo parar perto de Rui. O meteorologista lançou-se para apanhar a arma.

– Depressa, mata-o! – ordenou Rita, contorcendo-se com dores.

Olhou na direcção da casa-de-banho, o militar havia desaparecido. O sangue ensopava a camisa dela, escorrendo copiosamente do ombro esquerdo.

– Afinal devo-te um favor – murmurou ele.

Rui empunhou a arma e apontou-a à cabeça dela. O movimento deu-se fluído e sem hesitações. Ela olhou-o com um ar suplicante. Não sentiu pena, nem remorso quando puxou o gatilho. Rita imobilizou-se instantaneamente quando o buraco surgiu na sua têmpera, explodindo com a parte de trás do crânio.

– Larga a arma, já! Mãos levantadas e dá quatro passos em frente! – ouviu atrás de si.

Deixou a pistola cair, com uma tranquilidade completa. Levantou as mãos e avançou, parando em frente ao cadáver da amante. Ouviu passos atrás de si. A arma foi pontapeada. Uma bota atirou-o ao chão, fazendo-o cair com a cara sobre os restos de massa encefálica da engenheira. Sentiu-se pressionado contra o chão. Quase que conseguia imaginar a arma apontada ao seu crânio. Fechou os olhos e esperou. Surpreendeu-o não sentir medo.

– Já chega! – ouviu Débora gritar. – Ele não é o culpado!

A pressão sobre as costas desapareceu. Um momento depois a geneticista ajudou-o a levantar-se. Havia outros seis sobreviventes. Eles encararam-no desconfiados. O soldado mantinha ainda a mão no gatilho.

– Sabes porque é que ela fez isto? – inquiriu Débora.

– Sim, ela tinha medo que não houvesse comida para todos durante o tempo em que vamos estar aqui fechados.

– Porque vamos ficar aqui fechados? – encorajou-o a bióloga, agarrando-lhe o braço.

– Há muita radioactividade no exterior. Para além disso, corri uma simulação e percebi que as poeiras e fumo resultantes das explosões estão a bloquear a luz do sol, criando uma noite permanente. A temperatura ao invés de subir, irá descer cerca de vinte graus. Os humanos não serão capazes de sobreviver no exterior.

– Estamos a falar de quanto tempo?

Rui olhou-os com pena, antecipando o choque que iria causar.

– Cerca de trinta anos de noite total e quase um século de noite parcial.

A escuridão chegara, nenhum deles veria de novo a luz do sol. 

FIM


Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A escuridão - Parte 4 de 5


A primeira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-1-de-5.html

A terceira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-3-de-5.html

O grupo ficou mudo e pálido. A garganta do condutor fora aberta num golpe oblíquo. Pegado ao corpo, ao lençol e à maca, o tom vermelho escuro do sangue coagulado agredia-lhe os olhos.

– Alguém tem algo a dizer? – inquiriu o tenente.

Ao contrário da dona Margarida, a catedrática decrépita da qual ninguém realmente gostava, o condutor era o fiel companheiro das visitas à cidade. Nunca falhara a tarefa de encontrar um bar aberto onde pudessem beber uns copos. A pedido arranjava mulheres e homens para fazer companhia àquelas almas solitárias.

– Revistem os quartos todos até encontrarem as armas do crime! – sugeriu uma mulher de meia idade.

– Isso está a ser feito neste preciso momento – assegurou o militar.

– O que é que nos garante que não foram vocês a orquestrar isto? – acusou um dos mais velhos.

– Nós sempre tivemos as armas, se quiséssemos dar cabo de vocês, já o teríamos feito. Nós estamos aqui para vos proteger!

O olhar de dúvida percorreu as faces de todos, mas sem que ninguém se atrevesse a contestar.

– E se não encontrarem a arma do crime? Como é que pensam apanhar o assassino? – perguntou Débora.

– Se não o encontramos, teremos de tomar medidas extremas.

– E que medidas são essas?

– Ainda não lhe posso dizer – afirmou, voltando-se de seguida para os restantes – Se estivesse no vosso lugar, iria comer alguma coisa, a busca ainda vai demorar um pouco.

Passaram três horas até os dois cabos entrarem no refeitório. Uma troca de olhares foi suficiente para o tenente perceber a mensagem.

– Portanto, nenhuma das armas do crime foi encontrada. O que é que estão dispostos a fazer para apanhar o culpado?

– Como assim? – exaltou-se Nuno. – Não é óbvio que estamos dispostos a tudo? Isto é uma questão de sobrevivência!

– Alguém se opõe a que fiquemos aqui fechados?

– Em que é que isso nos vai ajudar?

– Muito simples, nesta sala ninguém tem possibilidade de cometer um crime e escapar impune.

– E se o assassino não for um de nós?

– Lembrem-se que acabamos de revistar o abrigo e não encontrámos ninguém. De qualquer modo, estaremos mais seguros todos juntos.

– E onde é que vamos dormir?

– Cada um será autorizado a ir buscar o que considerar necessário, mas apenas sairá uma pessoa de cada vez. Alguém se opõe?

Os olhares deram-lhe a resposta.

***

Nos dois dias que se seguiram, a cantina foi transformada num acampamento. A pedido das senhoras, uma cortina de lençóis foi erguida para separar as duas metades. Parte das mesas foram encostadas a um canto e vários colchões cobriam o chão.

O tenente acabou por autorizar que saíssem duas pessoas de cada vez, de forma a poderem carregar objectos mais pesados. Houve quem reclamasse que a solução encontrada tinha sido demasiado severa. As discussões entre os membros do grupo tornaram-se mais frequentes, levando algumas pessoas a serem expulsas para mudarem de ares.

Na manhã do terceiro dia, quando Débora o abordou durante o pequeno-almoço, Rui sabia ter umas olheiras enormes. Ela vinha vestida com umas calças justas, um top e trocara os óculos pelas lentes. Deduziu que ela o queria reconquistar, mas decidiu fazer-se desentendido.

– Pareces cansado!

– Não consigo dormir com esta gente toda à minha volta. É pior do que quando partilhava o quarto com o Guilherme.

– Tens de ter calma, isto vai-se resolver...

– Queres saber o que eu acho? Quem quer que seja o assassino, vai ficar quietinho e vamos passar uns bons meses aqui trancados.

– Saíste-me cá um pessimista!

– Estou a ser realista, já agora, porque é que vieste falar comigo?

– Preciso de saber os resultados da tua simulação – pediu, com um tom que despertou a Rui instintos primários.

– Qual simulação? – perguntou, distraído com os movimentos dela.

– Ouvi dizer que meteste um programa a correr para prever os efeitos deste holocausto nuclear.

– Quem te disse isso? – inquiriu, franzido o sobrolho.

– Ouvi dizer! Quais foram os resultados?

– Para que queres saber?

– Pela mesma razão que tu – explicou, de súbito com um ar profissional. – Quero saber que espécies vão sobreviver a isto. Vais partilhar os resultados comigo ou estás com medo que os publique primeiro?

Rui sorriu com a piada, ao aperceber-se que algumas das suas preocupações quotidianas haviam deixado de fazer sentido.

– Eu corri o programa, mas os resultados foram um autêntico lixo numérico. Meti o programa a correr de novo, mas ainda não fui ver.

– Ok, quando fores, avisas?

Rui acenou com a cabeça, com um sorriso de orelha a orelha. Fora preciso um apocalipse para se cobiçado por duas mulheres.

A oportunidade para ver os resultados, chegou durante a tarde, quando a Rita quis sair. Rui deu um salto e juntou-se a ela.

– Olha, aproveito vou contigo e vejo os resultados da simulação.

– Anda, eu também meti uma simulação a correr com os níveis de radioactividade – aceitou com um piscar de olho.

O soldado não apresentou qualquer entrave e quando o par anterior voltou foram autorizados a sair.

Quase correram até à sala de controlo. Ao chegar, Rui atirou-se para a cadeira e desbloqueou o terminal. A simulação havia terminado, percorreu as colunas de números com os olhos, sem acreditar no resultado.

– Rita, anda ver isto! – pediu, sem despregar os olhos do monitor.

Ouviu passos atrás de si.

– O que foi?

– Estás a ver?

– Sim, o que é que tem de estranho?

– Não estás a ver? – exaltou-se ligeiramente, apontando para a última coluna.

– Se calhar enganaste-te...

– Não! Já verifiquei o input umas vinte vezes...

Ela pegou-lhe na mão e fê-lo levantar.

– Eu acho que precisas de uma pausa, esta situação está a dar-te cabo dos nervos... – sugeriu, aproximando-se dele.

Rui deixou-se levar, beijando-a. As mãos de ambos acariciaram as costas. Ele quis fazê-lo mesmo ali. Afinal estavam sozinhos. Sentiu as mãos dela na barriga, descendo lentamente.

Nesse momento, ouviram um barulho ensurdecedor. Foram atingidos por uma onda de pressão tão intensa que perderam os dois o equilíbrio, estatelando-se no chão.

A quinta e última parte do conto pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-5-de-5.html

Este conto foi publicado originalmente no blogue Fantasy & Co.