quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A escuridão - Parte 3 de 5


A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-1-de-5.html

A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-2-de-5.html

Os habitantes do abrigo reuniram-se à volta da vítima. Um único buraco na têmpora da sexagenária denunciava a causa da morte. Sussurravam entre eles como tal poderia ter acontecido. Sabiam que o eco se iria multiplicar num espaço fechado, não dando qualquer hipótese que um disparo ocorresse incógnito.

– Eu sugeria que se revistasse os quartos, para encontrar a arma do crime – sugeriu uma mulher.

– E se foram os soldados?

– Porque haveriam de fazer isso?

O tenente ergueu-se, enfrentando-os.

– Eu não tenho interesse nenhum em matar-vos e estou-me pouco lixando com quem toma as decisões. Se vocês são tão inteligentes como parecem, iriam perceber que as armas que temos têm um calibre superior à do homicídio. Quem matou esta senhora vai ser apanhado e castigado... – fez uma pausa, olhando-os nos olhos. – … com a pena capital.

***

Deixou-se cair na cama, estafado mas satisfeito. Passara o dia em frente a um ecrã, instalando o programa de simulação atmosférica. Confirmou os valores de Rita e aproveitou para passar tempo com ela. Introduziu dados nos servidores que integravam a base. Apesar do grupo de computadores servir para jogos de guerra, nada como uma limpeza ao disco e uma instalação fresca para os tornar numa ferramenta perfeita.

Mesmo depois das bombas terem parado de cair, o cenário era devastador. O fumo e as poeiras espalhavam-se nas imagens de satélite, sinal que as cidades continuavam a arder. Parecia impossível que alguém no exterior pudesse sobreviver.

Bateram de leve à porta.

– Entre – autorizou, esfregando os olhos.

A maçaneta rodou devagarinho, como se não quisesse chamar à atenção. Lembrou-se que estava no último quarto do corredor. Teve medo.

Rita esgueirou-se para o interior com um sorriso, fechando a porta com a mesma delicadeza com que a abrira.

– Então, já estás a dormir?

– Estou bastante cansado, foi um dia muito longo.

– Sim, sim, estás à espera que a Débora te venha aquecer a cama... – escarneceu, aproximando-se com passinhos pequenos.

– Não acho que ela esteja assim tão desesperada... – comentou, encolhendo os ombros e levantando-se.

– Como a vi sair do teu quarto hoje de manhã...

– Não fizemos nada disso.

– Não, desculpa estar a meter-me na tua vida...

– Não faz mal...

Ela lançou-se num abraço apertado, começando a soluçar no seu ombro. Agarrou-a com força, com na esperança que a ajudasse.

– Tenho medo... Estamos aqui presos com um assassino...

– Tem calma, aqui dentro não irá longe...

Ela interrompeu-o com um beijo nos lábios. Rui deixou que as mãos descessem e obedecendo ao impulso, há muito reprimido, derrubou-a sobre a cama. Viu nos olhos dela que queriam o mesmo.

***

Regou os cereais com sabor a papel com o leite em pó aguado. Agarrou na taça e procurou um lugar no refeitório. Encontrou Débora sozinha a um canto e quis juntar-se a ela.

– Bom dia – cumprimentou-a com um sorriso.

Ela levantou a cabeça e encarou-o com uma expressão triste. Percebeu que estivera a chorar.

– Posso sentar-me aqui contigo?

– Tanto me faz – respondeu-lhe, voltando os olhos para o prato.

Sentou-se em silêncio. Depois de engolir duas colheradas daquela mistura horrível, decidiu animar a amiga.

– O que se passa?

– Ainda tens a lata de me perguntar o que se passa?

– Não estou a perceber!

– Julgava que eras mais inteligente!

– Porque é que não me explicas?

– Como se tu não soubesses! Se calhar achas que eu sou parva, só pode! Gostava é que tivesses sido sincero comigo desde o início.

– Calma!

– Calma o tanas! Andas a pensar mais com a cabeça de baixo do que com a de cima, por isso é que não percebes nada!

– Estás a falar do quê?

– E continuas, pensas que eu não sei que passaste a noite com a Rita? Agora já sei porque é que te fizeste desentendido aos meus avanços, estavas de olhar fisgado na loira. É o decote dela, não é, por ser mais pequeno que o meu?

– Mas...

– Já percebi, é a sobrevivência do mais forte. Espero que os teus genes passem à geração seguinte!

Débora levantou-se e saiu da sala, sem lhe dar tempo de responder.

***

Rui fixou os resultados no monitor. Não acreditou nos valores das colunas de números brancos sobre o fundo preto. Verificou mais uma vez os parâmetros e submeteu de novo a tarefa, pedindo uma previsão para a próxima centena de anos.

Ao sair da sala de controlo, passou por ele um grupo bastante agitado.

– Anda, vai haver uma reunião no refeitório, é obrigatória a presença de todos – explicou um deles.

Seguiu-os, tentando captar os rumores e percebendo que não sabiam mais do que ele. A maioria dos residentes já estava sentada nas cadeiras. O tenente permanecia de pé e em silêncio. Assim que a última pessoa entrou, um soldado trancou a porta e ficou a guardá-la.

– O que vem a ser isto? – reclamou um dos mais velhos.

– É para vosso próprio bem – explicou fazendo sinal ao soldado que guardava a outra porta.

Pouco depois uma maca coberta com um lençol branco entrava na sala. Com um gesto vagamente teatral, puxou a cobertura, revelando o corpo do motorista.




Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A escuridão - Parte 2 de 5

A primeira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-1-de-5.html


As mentes mais pragmáticas desviaram os olhos dos ecrãs, fingindo-se ocupadas. Alguns quiseram vaguear. Rui descobriu com eles os vários níveis e corredores, onde se podia comer, dormir, fazer desporto e até ler ou ver um filme.

Escolheu um quarto simples quase na extremidade do dormitório. Depois de anos a dormir ao lado do engenheiro naval, o Guilherme, estar sozinho era o melhor que lhe poderia acontecer. Odiava aquele gordo ressonava que nem um motor.

Largou a carteira, o porta-chaves, um bloco de notas e telemóvel sobre a cama. Observou os documentos com desdém. Sabia que se haviam tornado inúteis, tal como a posição de certas linhas imaginárias. Por fim, atirou tudo para uma gaveta, conservando só o bloco, onde mantinha registos ligados ao seu trabalho. Tinha consciência que até isso se tornara obsoleto, contudo, sem ele sentia-se nu.

O cansaço levou a melhor e adormeceu sem dar conta.

Foi acordado por um bater insistente na porta. Abriu os olhos, atordoado por uma súbita dor de cabeça. Pela fresta de luz surgiu a cabeça de Nuno, o analista de dados.

– Ei, tens de vir até à sala de controlo!

– O que é que se passa? – devolveu, esfregando os olhos.

– Temos um problema grave e precisamos de tomar uma decisão em conjunto – explicou, desaparecendo de seguida.

Suspirou, puxando os lençóis com violência. Chegou à sala pouco depois, encontrando já meia dúzia de pessoas. O olhar prendeu-se em Rita, que se encontrava de frente para um ecrã com uma imagem de satélite.

– O que é que se passa?

– Rui, estás a ver isto? – disse-lhe, apontando com o dedo para várias manchas cinzentas espalhadas pelo mundo, sem desviar os olhos da imagem. – Isto é fumo libertado pelas cidades em chamas. Milhões de toneladas de dióxido de carbono estão a ser lançadas para a atmosfera.

– Tens uma ideia da quantidade?

Ela olhou-o nos olhos com uma expressão triste.

– Podes confirmar as contas se quiseres mas, na minha estimativa, quando isto terminar a temperatura média vai aquecer cerca de doze graus.

– Isso é... – ensaiou, numa tentativa fútil de quantificar a dimensão da tragédia.

Ficaram os dois em silêncio.

Meteorologia era a sua especialidade. Tinha consciência que não era só a temperatura que iria mudar. O degelo será brutal e o nível do mar iria subir uns bons metros. Ventos fortes, tornados, furacões, inundações. As correntes marítimas e os ventos dominantes iriam inverter-se. As áreas secas iriam tornar-se um deserto. Até as próprias estações iriam mudar.

– Bolas! Finalmente funciona!

Todos se viraram para Tiago, o engenheiro de telecomunicações, que estava à frente de um pequeno terminal, onde corriam várias colunas de números.

– Estive a tentar captar as ondas rádio – explicou, ao ver as atenções sobre si. – As principais emissoras não dão sinal. Quando digo que não há sinal, quero dizer nem sequer sinal fraco derivado da falta da rede de retransmissão. É que nem sequer encontro o contínuo da emissão interrompida. Varri toda a largura de banda e nada! Contudo, se falarmos de sinais rádio, as coisas são muito diferentes, há inúmeras mensagens a circular em tempo real. Há mais sobreviventes como nós!

– É muito difícil comunicar com eles?

– Amigo, isso é canja – revelou com um sorriso. – Mesmo que não estivéssemos equipados com transmissores, até um adolescente podia montar um.

Rui ignorou os restantes comentários, desejando um terminal onde pudesse correr algumas simulações com a nova concentração de dióxido de carbono.

Alguns minutos depois, encontravam-se todos reunidos, incluindo os soldados, armados com as metralhadores de assalto.

– Não precisam de vir para aqui com essas coisas – queixou-se um cientista franzino, notoriamente intimidado.

– Peço desculpa por ter trazido os homens armados, mas a situação exige-o. Temos de tomar uma decisão e é necessário que seja vinculativa – afirmou o tenente.

– Já agora, qual é o problema tão grave que exige a nossa presença?

O tenente fez sinal ao engenheiro informático, que ligou um dos ecrãs. Uma câmara exterior captara uma pequena multidão que esperava em frente ao portão do abrigo.

– O que é que fazemos? O protocolo diz que uma vez selados, os portões não devem ser abertos até que se prove que o perigo passou. Eu posso decidir isto sozinho, mas gostava de ter a vossa opinião.

– Eu acho que devemos abrir – opinou o especialista em electrónica. – Este abrigo é sustentado por um gerador nuclear, desculpem a ironia, e há mantimentos e espaço para 200 pessoas durante cinco anos. Somos de momento 51, não vejo por que não haveremos de acolher os trinta que estão lá fora.

– Eu concordo – aventurou-se Rui. – As condições climatéricas lá fora vão ser extremas nos próximos meses e são uma ameaça à população.

Levantaram-se diversas vozes de apoio.

– Alguém está contra? – interrompeu o comandante do destacamento.

Rita levantou-se e olhou-os. De imediato fez-se silêncio na sala.

– Para que isto fique claro, eu escrevi parte desse protocolo. Há uma razão para as portas não poderem ser abertas. A radiação exterior é de 4 sievert por dia e irá demorar pelo menos dois anos a descer para metade. O abrigo filtra o ar para essa poeira não entrar, mas se abrirmos as portas e deixarmos entrar aquela gente ficaremos contaminados. Eles estão condenados, temos de entender isso! Em seis horas já todos receberam doses que os vão impedir de ter filhos saudáveis. Para além disso, a maioria morrerá nos próximos meses.

– Podíamos só abrir o portão exterior e deixá-los entrar no compartimento exterior...

– Quem é que se voluntaria para o fazer? Quem o fizer terá de ficar lá com eles. E já agora, sem comida, de que lhes serve o compartimento exterior. Não os podemos ajudar e tentar é suicídio.

– O argumento parece-me bom – decidiu o militar. – As portas irão permanecer fechadas e guardas armados ficaram nesta sala e à entrada.

Rui deitou um último olhar às famílias de olhar suplicante. O sol ia alto. Eles
iriam esperar dias, até se aperceberem que as portas não se iriam abrir. Aquele era o preço da sobrevivência. A maioria decidiu dedicar-se ao que sabia fazer melhor para evitar pensar demais.








Abriram a porta de rompante, interrompendo o seu sono. Era Débora e vinha coberta em lágrimas. Rui tomou nota mental para começar a trancar a porta.

– Aconteceu uma coisa horrível – anunciou, abraçando-o sem lhe dar tempo de se levantar.

– O que foi? – perguntou, devolvendo o abraço e passando-lhe a mão pelo cabelo, mesmo sabendo que isso lhe poderia dar falsas esperanças.

Ela preferiu chorar e soluçar durante uns momentos. Finalmente levantou a cabeça, fixando-o com um olhar sério por entre os cabelos desgrenhados.

– Mataram a dona Margarida!



A terceira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/08/a-escuridao-parte-3-de-5.html

Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

As mais recentes entradas no Goodreads - Agosto 2013

Deixo-vos com alguns trabalhos que alguns de vocês já conhecem do blogue Fantasy & Co e que podem encontrar em formato ebook totalmente grátis. Em troca, só peço uma pequena review no Goodreads!

O Monstro e a Musa

Género: Pós-Apocalíptico
Walter é um cientista além mar que foi capturado enquanto participava numa expedição às terras bárbaras. Cedo o líder do povo das montanhas lhe prova que está enganado, revelando que Walter faz parte dos seus planos. Num futuro distante, vários séculos depois de holocausto nuclear, a humanidade enfrenta o mesmo desafio que a levou à Terceira Guerra Mundial. Haverá uma solução para o problema energético?

Formatos disponíveis: mobi | epub | pdf
Ler no Blogue: Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 | Parte 5 | Parte 6 | Parte 7 | Parte 8 | Parte 9 | Parte 10
Link do Goodreads


Eternas Palavras

Género: Distopia
Todos os livros que lembram a história de um Portugal unido são proibidos e Rui é um funcionário encarregado de os queimar em praça pública. Ao levar um desses livros para casa, está prestes a mudar a sua vida...

Formatos disponíveis: epub | pdf
Ler no Blogue: Parte 1 | Parte 2
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Antologia: Géneros Literários - A vingança é um prato que se serve frio

Género: Ficção Histórica
O duque Franz Ferdinand sobrevive a um atentado aquando de uma visita à Sérvia. A sua esposa Sophie não tem a mesma sorte. Contudo, ele tem um plano para obter a vingança, nem que para isso tenha de enfrentar o imperador.

Esta antologia inclui também textos de Ana Ferreira, Carina Portugal, Liliana Novais, Pedro Pereira e Sara Farinha.

Formatos disponíveis: pdf
Ler no Blogue: Texto
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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A escuridão - Parte 1 de 5


A notícia apanhou-os desprevenidos.

Um momento antes, Rui olhara pela janela, um pouco mal disposto com os solavancos do autocarro. O ar condicionado estava ligado no máximo. A maioria dos passageiros dormia, embalada em sonhos alcoólicos, ignorando os campos envoltos na escuridão que ladeavam a estrada. O rádio em meia voz mantinha o condutor acordado. No regaço de Rui, dormia Débora, uma geneticista de cabelo castanho ligeiramente ondulado, cortado pelos ombros. Os grandes óculos, a saia por baixo do joelho e a blusa de mangas longas e sem decote faziam com que passasse despercebida.

No banco do lado oposto, dormia Rita, a especialista em engenharia nuclear. Tinha olhos azuis, vestia calções de ganga e um top branco, ostentando o cabelo liso num rabo-de-cavalo loiro. Ali viajavam os maiores especialistas do país, forçados a viver num local remoto por causa da guerra. Estavam autorizados a visitar a cidade uma vez em cada dois meses, com intuito ver familiares que já lá não viviam, uma desculpa para se poderem divertir e apanhar uma bebedeira.

De súbito, a música foi interrompida.

– Notícia de última hora! Há poucos minutos as forças ocidentais tomaram a praça central de São Petersburgo – o jornalista gaguejou. – Há evidências que várias ogivas nucleares foram lançadas pela aliança sino-russa. Voltaremos a este assunto assim que possível... Espero que isto não seja verdade, senão estamos todos f...

Quando a emissão foi cortada, já o seu batimento cardíaco acelerara e meia dúzia de cientistas saltara do banco. O condutor travou bruscamente, fazendo dois engenheiros cair no corredor e acordando os restantes. A tremer, o motorista quarentão retirou o livro amarelo do invólucro plástico. Ao abri-lo, várias cabeças debruçaram-se sobre as páginas.

Débora olhava-o confusa. O silêncio reinava. O autocarro arrancou, não demorando a atingir uma velocidade vertiginosa.

– Desculpa, adormeci em cima de ti – constatou constrangida, endireitando-se num ápice e observando a agitação – O que se passa?

– Parece que lançaram umas bombas nucleares na Rússia – comentou Rui, procurando esconder o pânico.

– Isso é horrível! – fixou-o nos olhos e engoliu em seco. – Pode ser a última oportunidade de te dizer...

Com uma guinada súbita à esquerda, o autocarro saiu da estrada. Houve gritos. O veículo não se despistara, havia apenas enveredara por um estreito carreiro. Seguiram em grande velocidade e aos solavancos durante uns metros. Sentiu-se sacudido com violência para a direita, seguido de um impacto. Percebeu que haviam destruído uma cancela. Seguiu-se uma derrapagem, imobilizando-se num espaço aberto. O motorista saltou para fora do veículo, correndo em direcção ao portão blindado do abrigo. Os dois soldados à entrada apontaram-lhe as metralhadores de assalto, obrigando-o a parar.

– Pare ou disparamos!

– Protocolo Camões! Protocolo Camões! – anunciou, acenando-lhes com o livro amarelo.

– Não fomos informados de nada – declarou um terceiro, saindo do posto de controlo.

– Acabou de passar no rádio, para além disso, tenho comigo especialistas indispensáveis. Código J2. Não vão querer ser responsabilizados se algo correr mal, pois não?

– Acalme-se, mesmo que quiséssemos deixá-lo entrar, não podemos, não temos os códigos de acesso...

– Eu tenho-os aqui – insistiu, acenando com o livro amarelo. – Não há tempo a perder!

Os soldados afastaram-se e o motorista aproximou-se do painel. Os cientistas abandonaram o veículo, ajuntando-se em frente à porta blindada. O tenente inseriu a chave na ranhura e rodou. O motorista introduziu o código que um dos soldados lhe ditou em voz alta a partir do livro. Esperaram em silêncio mas a porta nem se mexeu.

– O protocolo Camões foi activado! – anunciou um dos soldados, abandonando a sala de comunicações.

Vinha esbaforido e era seguido por outros dois. O portão blindado da construção imponente de betão massivo começou a mexer-se. Rui notou que Rita se posicionara do seu lado direito, observando o procedimento com um ar sério. Apesar da gravidade da situação, não conseguiu deixar de admirar os seus belos olhos azuis. Sentiu-se empurrado com força. Vários cientistas lançaram-se à brecha, rastejando e agredindo-te como animais em desespero.

Um disparo fê-los imobilizar.

– Um de cada vez! – ordenou o tenente, um homem alto e atlético, apontando ainda a metralhadora para o ar. – E vocês vão buscar o conteúdo do paiol e da dispensa.

Quando as munições e comida estavam no interior, o tenente voltou a rodar a chave, retirando-a de seguida. O portão fechou-se com a mesma lentidão com que se tinha aberto.

Quando as luzes se acenderam, o interior era um armazém espaçoso.

– Vamos ter de ficar aqui? – duvidou Rita, observando o interior vazio e cinzento.

– Segundo o livro amarelo, há uma parte habitável, quatro metros abaixo da superfície – informou o condutor.

Avançaram até encontrarem outra porta blindada, numa das paredes laterais. Introduzidos chave e código, esta abriu-se quase de imediato, dando acesso a uma escadaria. Desceram os dois lanços de escadas, atravessando outra porta, a qual não precisou de nenhuma autenticação.

Deparam-se com um espaço circular vazio, continuaram em frente até chegarem a uma sala cheia de painéis. O especialista informático lançou-se sobre o teclado, começando a digitar comandos num ritmo frenético.

– Porreiro, parece que temos ligação de satélite com o exterior!

O resultado não tardou a aparecer nos ecrãs. Milhares de linhas que definiam as trajectórias dos mísseis intercontinentais. Sobre cerca de um quarto das cidades do planeta havia o ícone nuclear. A cada segundo o número crescia, marcando as cidades atingidas.

Uma gargalhada irrompeu o silêncio. Débora começou a chorar baixinho, abraçando-se a Rui. Houve outros que deixaram as lágrimas correr, mas a maioria ficou silenciosa, de olhar fixo nos monitores, sem saber que não voltariam a ver a luz do sol.


Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

sábado, 3 de agosto de 2013

Leitores beta encontrados: A menina dos doces

Queria agradecer a avalanche de emails que recebi!

Na postagem de ontem, que podem encontrar aqui, pedia-se leitores beta para o meu livro "A menina dos doces". O feedback obtido foi extraordinário e prometo responder a todos os emails recebidos (o que poderá demorar um ou dois dias a acontecer).

Queria agradecer também à Ivonne Zuzarte, Ana C. Nunes, Carla Pais, Silvana Martins e Olinda Gil pela ajuda na divulgação do meu pedido (espero não me ter esquecido de ninguém). Um agradecimento especial ao Blogue Morrighan.

Com a vossa ajuda, tenho a certeza que o projecto será levado a bom porto.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Procuram-se leitores beta: A menina dos doces



Procuro leitores beta para o livro A menina dos Doces.
Leitor Beta é aquele que tem por hábito ler, pelo menos, 1 a 2 livros por mês. Espera-se que tenha uma língua afiada para a crítica, ajudando assim o autor a melhorar a sua obra.

Quem procuro?
- Leitores (m/f) que apreciem romances de aprendizagem.
- Idade mínima 16 anos.
- Leitores que assumam o compromisso de ler a obra na íntegra e sobre ela emitir uma crítica/sugestões (construtiva (s) de preferência) no seu todo (personagens, enredo, cenários, etc…), haverá um pequeno formulário para ajudar nessa tarefa.
- Pretendo no mínimo 5 leitores Beta.

O que procuro?
- Opiniões sinceras e honestas! Nada de leitores passivos que apenas absorvem o que gostaram. Preciso de gente com fibra que opine genuinamente sobre o que leu, que saiba fundamentar a crítica, no sentido da qualidade da obra. O que está bem, está e o que está mal, tem que se mudar – importante frisar isto!
- Os personagens são credíveis? Consensuais? Profundos? Enfadonhos?
- A história tem ritmo? Prende-te a cada página? Provoca sensações?
- Os cenários estão adequados? Como é o enquadramento das cenas?
- No final das primeiras páginas o que prevês que aconteça ao enredo?
- O final do livro é previsível? Envolves-te ao ponto de sentir todas aquelas emoções?
Todas as gralhas, erros frásicos e de construção podem também ser apontados, embora esse não seja o objectivo desta leitura.

Se achas estar preparado para ler e opinar, manda-me um email para pedromrcipriano@gmail.com e fala-me um pouco de ti. Conto contigo!


A menina dos Doces

A vida académica reserva muitas surpresas a Mariana. Entre as novas amigas e um possível namorado, a maior reviravolta é a existência de uma falecida prima, cuja memória foi ostracizada pela família. À medida que os pais se escondem em mentiras e abusos de autoridade, Mariana vai conhecendo Liliana através do diário que ela deixou. Valerá a pena perseguir um segredo que coloca em causa a estabilidade familiar?

Esta postagem não é totalmente original, "roubei" muitas frases à Carla Pais: http://decarlapais.wordpress.com/2013/05/31/procuram-se-leitores-beta/