segunda-feira, 29 de abril de 2013

A Editorial Divergência procura autores nacionais de ficção especulativa


A Editorial Divergência procura manuscritos de ficção especulativa não publicados, planeado a publicação do seu primeiro livro no próximo Outono. Os autores portugueses poderão enviar os seus manuscritos por email até 30 de Junho de 2013.

Constituída por uma equipa jovem e dinâmica, a Editorial Divergência aposta na ficção portuguesa para colmatar a falta de oferta no mercado nacional. O custo de publicação ficará inteiramente ao cargo da editora, sendo o autor compensado em 10% do preço de capa. Esta iniciativa é uma excelente rampa de lançamento para autores emergentes deste género literário.

A editora procura manuscritos acima das 50000 palavras do género ficção especulativa, no qual se inclui fantasia (tradicional, urbana, paranormal), ficção científica (space-opera, cyberpunk, história alternativa: steampunk, distopia, pós-apocaliptico) e terror*. Os interessados devem enviar as primeiras 50 páginas do livro, em formato .doc, a carta de apresentação e um resumo da obra, com cerca de 2 páginas, para o email: ed.divergencia@gmail.com, contendo no assunto a palavra “Submissão” seguido do título da obra. Os trabalhos serão lidos e seleccionados pela equipa da Divergência, sendo a decisão comunicada no prazo máximo de seis semanas.

* os subgéneros são apenas sugestões para os autores


Sobre a Editorial Divergência

Fundada a 15 de Abril de 2013, a Editorial Divergência é uma editora portuguesa centrada na ficção especulativa. Aposta em exclusivo no mercado e escritores nacionais, promovendo uma relação de honestidade e confiança com os autores. Pretende criar edições acessíveis e de qualidade, com regularidade e sem acordo ortográfico.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Camp Nanowrimo - dia 9 (+10)

E hoje a minha modesta história cresceu mais 695 palavras, chegando ao total de 4545. Mais uma vez, a maioria foi conseguida em transportes públicos, onde atingo o meu melhor rendimento. Em relação à história, está a ser mais difícil de escrever do que antecipei, pois há partes que ficam demasiado mortas e são penosas de se escrever. Lá diz a regra: se é chato a escrever, é chato a ler, o que me obrigou a repensar algumas coisas.
Cumpri até agora 15% do que achei que conseguia fazer no nano e tenho mais 11 dias para fazer os restantes 85%. 2100 palavras por dia! Isto vai ser uma tarefa daquelas! Acham que vou conseguir?

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Camp Nanowrimo - dias 3-8 (+10)

Depois de cinco dias em que fiz praticamente nada, hoje consegui voltar à carga e escrever bastante. Cheguei ao total de 3850 em que cerca de 2000 foram escritas hoje.

Bem, fico-me pelo curto update. Espero conseguir manter o ritmo.

sábado, 13 de abril de 2013

Camp Nanowrimo - dia 2 (+10)

O dia de hoje foi um fracasso completo em termos de Nanowrimo. Descobri que não consigo escrever em casa, há qualquer coisa que me impede de o fazer e eu não sei bem o que é. Talvez seja do stress ou do hábito das minhas sessões de escrita/revisão em transportes públicos. Ainda por cima tive um problema no portátil e perdi parte do que tinha feito. A frustração foi mais que muita e nem sequer consegui refazer.

Nem vou deixar o total, porque é uma vergonha. Escrevi mais palavras neste pedaço do que na história propriamente dita.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Camp Nanowrimo - dia 1 (+10)

Este ano decidi participar também no Camp Nanowrimo (http://www.campnanowrimo.org/). Na gaveta tinha um projecto intitulado "O canto do rouxinol" que adiava e adiava sempre sem conseguir tempo para o desenvolver. Quis assim usar a oportunidade para escrever a primeira parte do livro, ou seja 20 capítulos. Tinha pensado ser um capítulo por dia e começar do dia 11, pois no início do mês andei muito ocupado, tanto a nível profissional como literário, não havendo tempo para atacar um projecto desta dimensão.

Devo confessar que os primeiros quatro capítulos já estavam escritos, contudo a qualidade deixava tanto a desejar que quis reescrever tudo de novo. Deste modo, quero chegar às 30000 palavras e completar a primeira parte de três.

No primeiro dia, tive a lata de começar às seis da tarde, a caminho do desporto. As viagens de comboio sempre proporcionaram boas oportunidades de escrita no Nanowrimo de Novembro. Reescrever o primeiro capítulo demorou umas modestas três horas, chegando ao simpático total de 1523 palavras. Portanto o objectivo do dia foi cumprido, vamos esperar que amanhã consiga manter o ritmo.

Há mais alguém por aqui que esteja a participar também?

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 4/4


Quando acordou, demorou um par de segundos a entender o que se passava. As imagens da cidade em chamas voltaram a sua memória, despertando-o à mesma velocidade que um corrente de ar frio o faria. Ainda estava calçado e vestido como na noite anterior e só um cobertor velho o resguardava. Levantou-se do sofá que lhe fora cedido pela família e olhou através da janela.
Amanhecera sem nuvens. Ao consultar o relógio, viu que já passavam muito da hora de abertura da loja. Só deu dois passos antes de perceber que com a cidade assim, não valia a pena abrir o negócio de todo. Isto era, se é que o edifício ainda estava de pé.
Depois lembrou-se dos livros. Assim que removessem os destroços, era provável que os encontrassem. Um calafrio subiu-lhe pela espinha ao recordar a pena que o esperava se fosse apanhado.
Um cheiro a ovos fritos atraiu-o à cozinha, lembrando-o que nas última coisa que comera fora uma amostra de peixe. A família tomava o pequeno-almoço e havia um lugar vazio.
– Sente-se aqui connosco, deve estar com fome – ofereceu o chefe de família, levantando-se.
– Eu não queria incomodar... – desculpou-se, olhando para a ponta dos sapatos.
– Ora essa, não incomoda nada. Tenho a certeza que se estivesse no nosso lugar faria o mesmo.
Acenou com a cabeça e sentou-se. Era uma família numerosa e, se calhar, passava dificuldades financeiras e mesmo assim partilhavam o pouco que tinham com ele. Comoveu-o essa generosidade e ficou com um nó na garganta, mal conseguindo engolir a dentada que dera no pão do dia anterior.
Ao sair para a rua ainda tinha fome, mas não conseguira aceder aos pedidos da família para comer mais. A visão diurna da rua revelava-lhe detalhes mais dramáticos que a da noite anterior. Havia entulho um pouco por todo o lado e a destruição era quase total. Todavia, o que mais o impressionou foi as faces de desespero de quem perdera tudo. Não conseguiu deixar de se sentir triste ao perceber que não eram somente perdas materiais.
A sua casa passara a quatro meias paredes e um monte de entulho. As outras duas famílias procuravam recuperar alguns haveres no meio da pilha de detritos. Pelas expressões dos seus vizinhos, não deveria haver muito que se pudesse recuperar. Nem acho que valesse a pena tentar a sua sorte, por isso sentou-se num dos blocos que fora projectado para o passeio.
A questão da noite anterior voltou-lhe a atormentar o espírito. Perguntou-se porque é que se dedicava a salvar livros enquanto as pessoas morriam à sua volta. Não quis ficar parado a cismar, por isso levantou-se a caminhou ao acaso.
A guerra contra o Sul fora declarada no Inverno de há dois anos atrás. O Porto acusava Lisboa de ter começado e, pelo que sabia, os inimigos tinham a opinião contrária. Fora a única altura da vida em que ficara contente por estar em envelhecer. Como ultrapassara a idade da recruta, não foi chamado a defender as fronteiras. Durante meses a guerra desenrolara-se com alguns incidentes que incendiavam as tensões, mas que mantinham o conflito num cauteloso impasse. Se acreditasse nas notícias, ofensiva recente do Sul quebrara esse precário equilíbrio.
– … Não iremos tolerar o ataque traiçoeiro que sofremos esta noite – ouviu da rua, a partir de uma das casas.
Aproximou-se para tentar ouvir o discurso. Pela primeira vez queria absorver cada palavra, na esperança que os governantes lhe dessem a protecção de que tanto carecia.
– Cidadãos, as perdas materiais e humanas foram avultadas. O nosso estado está de luto por tal afronta, mas, não temais! Por cada bomba que eles largaram, iremos largar dez. Por cada bala disparada, iremos disparar cem. Por cada casa, destruiremos uma rua. Por cada familiar pedido destroçaremos uma família. O inimigo trouxe a guerra às nossas portas, cabe-nos a nós mandá-la de volta para as suas cidades. Cada soldado, cada operário, cada agricultor, cada cidadão é importante! Unidos iremos fazer a vingança cair-lhes em cima e esmagá-los com a nossa justiça...
O discurso ficou-lhe gravado na memória como uma queimadura na pele. Quase hipnotizado pela doutrina totalitarista, nem reparou que os passos o levavam ao seu local de trabalho.
A livraria já não existia. Os remorsos falaram mais alto, indicando-lhe que era a punição pela sua revolta. Nem se preocupou em procurar os livros entre o entulho. Aliás, já não queria ouvir mais falar em literatura, quer fosse proibida ou autorizada. Estava farto de viver num mundo de ficção, enquanto a realidade lhe escapava a cada momento.
Entusiasmado não sabia bem com o quê, voltou à sua rua. Num autêntico acto de contrição, dedicou-se a ajudar os vizinhos a remover os destroços. Aquela tarefa árdua trouxe-lhe uma espécie de alivio que há muito tempo não sentia, como se o peso do mundo lhe tivesse saído dos ombros.
Nessa noite partilharam um jantar de enlatados que havia sido providenciado pelas autoridades. Fora uma refeição frívola mas suficiente. A promessa de reconstrução dada pelo líder da freguesia trouxera novo alento àquelas almas desesperadas. Nessas escassas horas, Carlos foi feliz, ao redescobrir a simplicidade e generosidade humana.
A felicidade estendeu-se durante o resto da semana, enquanto ajudava na limpeza e reconstrução. Ao ver um cartaz de recrutamento para uma fábrica de armamento, achou que o acaso lhe tinha indicado o caminho a seguir. Acreditou que o seu futuro durante a guerra estava decidido.
Contudo, o aparecimento de dois homens com fatos fora de moda e óculos com pelo menos vinte anos de idade indicaram-lhe que estava errado. Aceitou a pena com resignação e foi recompensado por não a ter de a suportar por mais de um mês.

FIM



quarta-feira, 27 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 3/4


– O livreiro não está nada bem...
– Não se preocupem, acho que sofro de claustrofobia – mentiu, apoiando-se na parede.
Respirou fundo e concentrou toda a atenção em acalmar-se.
– Não podemos fazer mais do que esperar, por isso, propunha que dividíssemos uma das conservas. As crianças devem estar com fome – sugeriu, apontando para as três latas guardadas ao canto.
A ideia foi aceite e pouco depois Carlos mastigava o seu terço de sardinha. Durante a sua juventude sonhara ser escritor, mas vicissitudes da vida tinham ditado que seria apenas livreiro. Quando a guerra entre o Norte e o Sul da Europa estalara, fora chamado a servir na fronteira Sul. Madrid e Lisboa caíram nos primeiros dias mas o resto das regiões não se submeteu, forçando os Franceses avançaram para tentar capturar o Porto. A Invicta montara uma defesa avançada e uma luta de recuos estratégicos, procurando causar o máximo de baixas no inimigo. Ajudados pelos galegos, a estratégia fora bem-sucedida e o colapso energético obrigara ao fim da ocupação. Pudera então voltar a casa e reabrir a sua loja.
O seus pensamentos foram interrompidos pelo soar das sirenes.
Ao ler a notícia no jornal, apercebeu-se que corria um enorme perigo por manter aquele caixote nas traseiras. Nesse Outono várias pessoas haviam sido presas. A lista de livros não autorizados passou a ser a lista de livros proibidos.
Nessa noite havia removido várias tábuas do soalho, escondendo lá os volumes. Sabia que no século anterior houvera outra ditadura, que durara quarenta e oito anos. Era muito tempo. Ao olhar para os tomos a que se fora afeiçoando, soube que provavelmente não viveria até ao fim deste regime e que não poderia guardá-los tanto tempo.
Deitou-se, sem conseguir pregar olho. Sabia que era uma questão de tempo até alguém decidir revistar a sua casa. Faziam-no com tanta frequência que se tornara parte de rotina. Não tinha esperanças que o esconderijo não fosse descoberto por um olho mais atento. A pena para tal infracção fazia tremer o mais corajoso dos homens. Servir dois anos num batalhão penal, desempenhando tarefas suicidas equivalia na prática à pena de morte.
Ao amanhecer a solução chegou-lhe como uma revelação. Iria esconder os livros por toda a cidade, na esperança que alguns pudessem ser encontrados no futuro. Sentiu-se vivo como não se sentia há muito tempo. Tinha uma missão a cumprir.
A artilharia respondeu em força. Carlos deu por si a roer as unhas, um hábito que pensara ter perdido há anos. Era demasiada tensão para um dia só e, ao olhar os restantes, viu que não era o único a pensar assim. O sinal de costa livre não tardou a chegar.
Deu por si a desejar a morte dos inimigos, reacendendo sentimentos nacionalistas que julgava ter ultrapassado. Conseguia ver finalmente o sentido nas palavras dos líderes. Os responsáveis por este ataque a inocentes tinham de pagar pelos seus crimes. Deu por si a desejar que fossem bombardeados com o dobro da intensidade. Sentiu-se parvo por se preocupar com meia dúzia de livros enquanto as pessoas à sua volta morriam. Para que proteger a memória de um passado comum quando eram inimigos e largavam bombas sobre a sua cidade?
Era como se tivesse acordado de um sonho perturbador. Todos os ideais se tinham invertido em poucos minutos. Portugueses eram como os franceses, ambos hostis. Deixou-se cair no degrau, cheio de remorsos. Sentia que traíra a sua nação com actos e intenções.
Naquela madrugada não havia conseguido dormir. Embrulhou o livro e saiu ao despontar do dia. Ao vaguear pelas ruas quase desertas, encontrou um local onde andavam a trocar o alcatrão por pavimento. Sem pensar duas vezes, enterrara-o com rapidez no sítio onde iriam calcetar nesse dia.
– O senhor está bem? – perguntou a menina de oito anos.
Carlos olhou-a nos olhos e o remorso voltou. Quantas raparigas da idade dela sofreriam naquele momento? Valeria a pena defender um idealismo inconsequente?
– Realmente, você está mesmo pálido – confirmou a mãe da miúda.
– Deve ser dos nervos, nunca me vi numa situação destas...
A mulher acenou como se lhe fosse responder, mas acabou por não dizer nada.
Fechou os olhos. Queria esvaziar a mente como um dos colegas do exército lhe havia ensinado. Veio-lhe à memória a imagem do que restara dele quando fora atingido por um disparo de artilharia. Passos. Abriu os olhos estonteado pondo-se à escuta. Os passos continuavam lá ao longe.
– Está alguém aqui perto! – exclamou, levantando-se.
– Socorro, estamos soterrados! – gritou a mais gorda das mulheres.
Outras vozes se juntaram numa algazarra ensurdecedora.
– Calem-se um momento, para ver se temos resposta – pediu o mais baixo dos homens.
– Já vos ouvimos, os bombeiros não tardam a chegar aqui – tranquilizaram-nos do lado de fora.
Carlos foi o último a sair do abrigo. Apesar de o prever, nada o preparou para o que encontrou. O prédio fora atingido por uma bomba e pouco mais que algumas paredes se mantinham de pé. Parte dele tinha desabado sobre o abrigo. A rua tinha sido severamente atingida e poucos eram os edifícios que não apresentavam danos. Ao longe, contrastando com a escuridão da noite, alguns fogos ardiam ainda. Ouviu gritos de dor. Não queria pensar sequer nas pessoas que haviam ficado soterradas nos escombros. Conseguiu apenas imaginar as manchetes da manhã como: “Maior bombardeamento da década”.