sábado, 13 de abril de 2013

Camp Nanowrimo - dia 2 (+10)

O dia de hoje foi um fracasso completo em termos de Nanowrimo. Descobri que não consigo escrever em casa, há qualquer coisa que me impede de o fazer e eu não sei bem o que é. Talvez seja do stress ou do hábito das minhas sessões de escrita/revisão em transportes públicos. Ainda por cima tive um problema no portátil e perdi parte do que tinha feito. A frustração foi mais que muita e nem sequer consegui refazer.

Nem vou deixar o total, porque é uma vergonha. Escrevi mais palavras neste pedaço do que na história propriamente dita.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Camp Nanowrimo - dia 1 (+10)

Este ano decidi participar também no Camp Nanowrimo (http://www.campnanowrimo.org/). Na gaveta tinha um projecto intitulado "O canto do rouxinol" que adiava e adiava sempre sem conseguir tempo para o desenvolver. Quis assim usar a oportunidade para escrever a primeira parte do livro, ou seja 20 capítulos. Tinha pensado ser um capítulo por dia e começar do dia 11, pois no início do mês andei muito ocupado, tanto a nível profissional como literário, não havendo tempo para atacar um projecto desta dimensão.

Devo confessar que os primeiros quatro capítulos já estavam escritos, contudo a qualidade deixava tanto a desejar que quis reescrever tudo de novo. Deste modo, quero chegar às 30000 palavras e completar a primeira parte de três.

No primeiro dia, tive a lata de começar às seis da tarde, a caminho do desporto. As viagens de comboio sempre proporcionaram boas oportunidades de escrita no Nanowrimo de Novembro. Reescrever o primeiro capítulo demorou umas modestas três horas, chegando ao simpático total de 1523 palavras. Portanto o objectivo do dia foi cumprido, vamos esperar que amanhã consiga manter o ritmo.

Há mais alguém por aqui que esteja a participar também?

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 4/4


Quando acordou, demorou um par de segundos a entender o que se passava. As imagens da cidade em chamas voltaram a sua memória, despertando-o à mesma velocidade que um corrente de ar frio o faria. Ainda estava calçado e vestido como na noite anterior e só um cobertor velho o resguardava. Levantou-se do sofá que lhe fora cedido pela família e olhou através da janela.
Amanhecera sem nuvens. Ao consultar o relógio, viu que já passavam muito da hora de abertura da loja. Só deu dois passos antes de perceber que com a cidade assim, não valia a pena abrir o negócio de todo. Isto era, se é que o edifício ainda estava de pé.
Depois lembrou-se dos livros. Assim que removessem os destroços, era provável que os encontrassem. Um calafrio subiu-lhe pela espinha ao recordar a pena que o esperava se fosse apanhado.
Um cheiro a ovos fritos atraiu-o à cozinha, lembrando-o que nas última coisa que comera fora uma amostra de peixe. A família tomava o pequeno-almoço e havia um lugar vazio.
– Sente-se aqui connosco, deve estar com fome – ofereceu o chefe de família, levantando-se.
– Eu não queria incomodar... – desculpou-se, olhando para a ponta dos sapatos.
– Ora essa, não incomoda nada. Tenho a certeza que se estivesse no nosso lugar faria o mesmo.
Acenou com a cabeça e sentou-se. Era uma família numerosa e, se calhar, passava dificuldades financeiras e mesmo assim partilhavam o pouco que tinham com ele. Comoveu-o essa generosidade e ficou com um nó na garganta, mal conseguindo engolir a dentada que dera no pão do dia anterior.
Ao sair para a rua ainda tinha fome, mas não conseguira aceder aos pedidos da família para comer mais. A visão diurna da rua revelava-lhe detalhes mais dramáticos que a da noite anterior. Havia entulho um pouco por todo o lado e a destruição era quase total. Todavia, o que mais o impressionou foi as faces de desespero de quem perdera tudo. Não conseguiu deixar de se sentir triste ao perceber que não eram somente perdas materiais.
A sua casa passara a quatro meias paredes e um monte de entulho. As outras duas famílias procuravam recuperar alguns haveres no meio da pilha de detritos. Pelas expressões dos seus vizinhos, não deveria haver muito que se pudesse recuperar. Nem acho que valesse a pena tentar a sua sorte, por isso sentou-se num dos blocos que fora projectado para o passeio.
A questão da noite anterior voltou-lhe a atormentar o espírito. Perguntou-se porque é que se dedicava a salvar livros enquanto as pessoas morriam à sua volta. Não quis ficar parado a cismar, por isso levantou-se a caminhou ao acaso.
A guerra contra o Sul fora declarada no Inverno de há dois anos atrás. O Porto acusava Lisboa de ter começado e, pelo que sabia, os inimigos tinham a opinião contrária. Fora a única altura da vida em que ficara contente por estar em envelhecer. Como ultrapassara a idade da recruta, não foi chamado a defender as fronteiras. Durante meses a guerra desenrolara-se com alguns incidentes que incendiavam as tensões, mas que mantinham o conflito num cauteloso impasse. Se acreditasse nas notícias, ofensiva recente do Sul quebrara esse precário equilíbrio.
– … Não iremos tolerar o ataque traiçoeiro que sofremos esta noite – ouviu da rua, a partir de uma das casas.
Aproximou-se para tentar ouvir o discurso. Pela primeira vez queria absorver cada palavra, na esperança que os governantes lhe dessem a protecção de que tanto carecia.
– Cidadãos, as perdas materiais e humanas foram avultadas. O nosso estado está de luto por tal afronta, mas, não temais! Por cada bomba que eles largaram, iremos largar dez. Por cada bala disparada, iremos disparar cem. Por cada casa, destruiremos uma rua. Por cada familiar pedido destroçaremos uma família. O inimigo trouxe a guerra às nossas portas, cabe-nos a nós mandá-la de volta para as suas cidades. Cada soldado, cada operário, cada agricultor, cada cidadão é importante! Unidos iremos fazer a vingança cair-lhes em cima e esmagá-los com a nossa justiça...
O discurso ficou-lhe gravado na memória como uma queimadura na pele. Quase hipnotizado pela doutrina totalitarista, nem reparou que os passos o levavam ao seu local de trabalho.
A livraria já não existia. Os remorsos falaram mais alto, indicando-lhe que era a punição pela sua revolta. Nem se preocupou em procurar os livros entre o entulho. Aliás, já não queria ouvir mais falar em literatura, quer fosse proibida ou autorizada. Estava farto de viver num mundo de ficção, enquanto a realidade lhe escapava a cada momento.
Entusiasmado não sabia bem com o quê, voltou à sua rua. Num autêntico acto de contrição, dedicou-se a ajudar os vizinhos a remover os destroços. Aquela tarefa árdua trouxe-lhe uma espécie de alivio que há muito tempo não sentia, como se o peso do mundo lhe tivesse saído dos ombros.
Nessa noite partilharam um jantar de enlatados que havia sido providenciado pelas autoridades. Fora uma refeição frívola mas suficiente. A promessa de reconstrução dada pelo líder da freguesia trouxera novo alento àquelas almas desesperadas. Nessas escassas horas, Carlos foi feliz, ao redescobrir a simplicidade e generosidade humana.
A felicidade estendeu-se durante o resto da semana, enquanto ajudava na limpeza e reconstrução. Ao ver um cartaz de recrutamento para uma fábrica de armamento, achou que o acaso lhe tinha indicado o caminho a seguir. Acreditou que o seu futuro durante a guerra estava decidido.
Contudo, o aparecimento de dois homens com fatos fora de moda e óculos com pelo menos vinte anos de idade indicaram-lhe que estava errado. Aceitou a pena com resignação e foi recompensado por não a ter de a suportar por mais de um mês.

FIM



quarta-feira, 27 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 3/4


– O livreiro não está nada bem...
– Não se preocupem, acho que sofro de claustrofobia – mentiu, apoiando-se na parede.
Respirou fundo e concentrou toda a atenção em acalmar-se.
– Não podemos fazer mais do que esperar, por isso, propunha que dividíssemos uma das conservas. As crianças devem estar com fome – sugeriu, apontando para as três latas guardadas ao canto.
A ideia foi aceite e pouco depois Carlos mastigava o seu terço de sardinha. Durante a sua juventude sonhara ser escritor, mas vicissitudes da vida tinham ditado que seria apenas livreiro. Quando a guerra entre o Norte e o Sul da Europa estalara, fora chamado a servir na fronteira Sul. Madrid e Lisboa caíram nos primeiros dias mas o resto das regiões não se submeteu, forçando os Franceses avançaram para tentar capturar o Porto. A Invicta montara uma defesa avançada e uma luta de recuos estratégicos, procurando causar o máximo de baixas no inimigo. Ajudados pelos galegos, a estratégia fora bem-sucedida e o colapso energético obrigara ao fim da ocupação. Pudera então voltar a casa e reabrir a sua loja.
O seus pensamentos foram interrompidos pelo soar das sirenes.
Ao ler a notícia no jornal, apercebeu-se que corria um enorme perigo por manter aquele caixote nas traseiras. Nesse Outono várias pessoas haviam sido presas. A lista de livros não autorizados passou a ser a lista de livros proibidos.
Nessa noite havia removido várias tábuas do soalho, escondendo lá os volumes. Sabia que no século anterior houvera outra ditadura, que durara quarenta e oito anos. Era muito tempo. Ao olhar para os tomos a que se fora afeiçoando, soube que provavelmente não viveria até ao fim deste regime e que não poderia guardá-los tanto tempo.
Deitou-se, sem conseguir pregar olho. Sabia que era uma questão de tempo até alguém decidir revistar a sua casa. Faziam-no com tanta frequência que se tornara parte de rotina. Não tinha esperanças que o esconderijo não fosse descoberto por um olho mais atento. A pena para tal infracção fazia tremer o mais corajoso dos homens. Servir dois anos num batalhão penal, desempenhando tarefas suicidas equivalia na prática à pena de morte.
Ao amanhecer a solução chegou-lhe como uma revelação. Iria esconder os livros por toda a cidade, na esperança que alguns pudessem ser encontrados no futuro. Sentiu-se vivo como não se sentia há muito tempo. Tinha uma missão a cumprir.
A artilharia respondeu em força. Carlos deu por si a roer as unhas, um hábito que pensara ter perdido há anos. Era demasiada tensão para um dia só e, ao olhar os restantes, viu que não era o único a pensar assim. O sinal de costa livre não tardou a chegar.
Deu por si a desejar a morte dos inimigos, reacendendo sentimentos nacionalistas que julgava ter ultrapassado. Conseguia ver finalmente o sentido nas palavras dos líderes. Os responsáveis por este ataque a inocentes tinham de pagar pelos seus crimes. Deu por si a desejar que fossem bombardeados com o dobro da intensidade. Sentiu-se parvo por se preocupar com meia dúzia de livros enquanto as pessoas à sua volta morriam. Para que proteger a memória de um passado comum quando eram inimigos e largavam bombas sobre a sua cidade?
Era como se tivesse acordado de um sonho perturbador. Todos os ideais se tinham invertido em poucos minutos. Portugueses eram como os franceses, ambos hostis. Deixou-se cair no degrau, cheio de remorsos. Sentia que traíra a sua nação com actos e intenções.
Naquela madrugada não havia conseguido dormir. Embrulhou o livro e saiu ao despontar do dia. Ao vaguear pelas ruas quase desertas, encontrou um local onde andavam a trocar o alcatrão por pavimento. Sem pensar duas vezes, enterrara-o com rapidez no sítio onde iriam calcetar nesse dia.
– O senhor está bem? – perguntou a menina de oito anos.
Carlos olhou-a nos olhos e o remorso voltou. Quantas raparigas da idade dela sofreriam naquele momento? Valeria a pena defender um idealismo inconsequente?
– Realmente, você está mesmo pálido – confirmou a mãe da miúda.
– Deve ser dos nervos, nunca me vi numa situação destas...
A mulher acenou como se lhe fosse responder, mas acabou por não dizer nada.
Fechou os olhos. Queria esvaziar a mente como um dos colegas do exército lhe havia ensinado. Veio-lhe à memória a imagem do que restara dele quando fora atingido por um disparo de artilharia. Passos. Abriu os olhos estonteado pondo-se à escuta. Os passos continuavam lá ao longe.
– Está alguém aqui perto! – exclamou, levantando-se.
– Socorro, estamos soterrados! – gritou a mais gorda das mulheres.
Outras vozes se juntaram numa algazarra ensurdecedora.
– Calem-se um momento, para ver se temos resposta – pediu o mais baixo dos homens.
– Já vos ouvimos, os bombeiros não tardam a chegar aqui – tranquilizaram-nos do lado de fora.
Carlos foi o último a sair do abrigo. Apesar de o prever, nada o preparou para o que encontrou. O prédio fora atingido por uma bomba e pouco mais que algumas paredes se mantinham de pé. Parte dele tinha desabado sobre o abrigo. A rua tinha sido severamente atingida e poucos eram os edifícios que não apresentavam danos. Ao longe, contrastando com a escuridão da noite, alguns fogos ardiam ainda. Ouviu gritos de dor. Não queria pensar sequer nas pessoas que haviam ficado soterradas nos escombros. Conseguiu apenas imaginar as manchetes da manhã como: “Maior bombardeamento da década”.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 2/4


Podem encontrar a primeira parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/03/o-guarda-livros-parte-14.html


Ao abrir as três caixas que haviam sido entregues naquela manhã, percebeu que a compensação do estado não lhe agradava. Os novos livros eram apenas versões distorcidas dos que lhe haviam sido retirados. O valor deles não chegava sequer para cobrir metade do prejuízo e escrever um agradecimento ao Ministério da Cultura fora o maior frete da sua vida.
Foi depois de almoço que encontrara um monte de livros que não havia sido inspeccionado. Olhou para a pilha sem saber se deveria seguir a sensatez ou a consciência. Só a irritação com a situação facilitou a escolha.
O som estridente impelia-o a andar. Saiu porta fora em direcção ao abrigo ao lado do edifício. Olhou para a esfera celestial de fim de tarde. Só algumas nuvens polvilhavam o céu de Setembro e dos aviões nem sinal.
Supondo que o alarme fora dado no momento certo, calculou que ainda tinha um par de minutos. Apressado voltou atrás e trancou a porta do apartamento. Não queria que andassem a bisbilhotar nas suas coisas enquanto estivesse na cave. Entretanto as outras duas famílias tinham abandonado o prédio, sendo ele o último a descer as escadas.
Até ao momento em que alguém conseguiu acender uma solitária vela a escuridão fora quase total. Assim como tinham começado, as sirenes calaram-se. Ele sabia que a razão para isso acontecer era simples, grande parte dos sistemas de defesa anti-aérea usava o som como referência.
O silêncio foi quebrado pelo metralhar de uma automática. Os motores dos aviões ouviam-se ao longe e, a cada momento, mais alto. Apesar de já contarem com isso, a queda da primeira bomba sobressaltou-os. O prédio estremeceu ligeiramente e as crianças olharam para os pais assustadas. O barulho aumentou de intensidade. A artilharia disparava de modo cadenciado e as bombas iam caindo, ora mais perto, ora mais longe.
A terra abanou e o barulho foi de tal modo ensurdecedor que ficou com um zumbido nos ouvidos. Algo caiu sobre o abrigo, fazendo com que parte do estuque se desprendesse do tecto. A poeira começou a invadir o pequeno espaço. As crianças desataram a chorar e os adultos olharam uns para os outros com um ar grave.
Lá fora a batalha pelos céus da capital continuava.
Havia sido num doce dia de Verão. Mais que o desejo de ler, só o ar quente da rua convidava a entrar na livraria. A campainha presa à porta anunciou a entrada do homem magro de meia-idade. Carlos levantou os olhos do jornal e olhou para o desconhecido.
– Boa tarde, em que posso servi-lo?
– Eu procuro alguns livros – declarou, passando-lhe um papel dobrado.
O livreiro desdobrou a folha encontrando uma única referência manuscrita.
– Minha Nossa Senhora, os Lusíadas...
O homem levou o dedo aos lábios. Ele observou-o em minúcia, desconfiado que se tratava de um agente do governo. No entanto, ao olhar nos olhos dele, viu o mesmo receio espelhado. Acabou por concluir que após mais de um ano de más vendas, não se podia dar ao luxo de desperdiçar um cliente.
– Siga-me – indicou, levando-o até à salinha adjacente onde guardava o resto da mercadoria.
O outro homem guardava alguma distância dele, ficando à porta. O medo permanecia nos seus olhos.
– O que tenho está nesta caixa, foi o que escapou quando a polícia cá esteve.
Como o cliente não se mexia, acabou por se abaixar e abrir a caixa de cartão. Um momento depois estendia-lhe um livro de capa vermelha que deveria ter um pouco mais de vinte anos de idade.
Assim que o desconhecido agarrou a mercadoria, as explosões voltaram, muitas assustadoramente próximas. As mães agarravam-se aos filhos e os pais observavam impotentes. O único conforto era ainda ouvirem a resposta ininterrupta das anti-aéreas.
O barulho cessou. O silêncio era tão pesado que lhe feria os ouvidos. Ninguém se mexeu. Sentia-se cansado, o desgaste emocional tornara-se físico. A luz extinguiu-se. Ouvia o respirar cadenciado dos outros e teve a certeza que todos podiam escutar o bater do seu coração.
As sirenes voltaram a tocar, indicando que já era seguro saírem. Carlos venceu a inércia e empurrou a porta do abrigo. Esta resistiu-lhe e após um empurrão mais forte, descobriu que estava algo a bloqueá-la. O chefe de família do andar de cima veio ajudá-lo, mas nem com o conjunto dos quatro homens disponíveis foi possível mexê-la.
– Oh meu Deus, vamos morrer soterrados... – constatou uma mulher antes de desmaiar.
Relembrou que demorara dois dias depois para se habituar à ideia. Mantivera sempre o grosso envelope junto ao peito, sem saber como usá-lo sem despertar suspeitas. Um livreiro nunca seria rico enquanto o estado atravessasse a maior recessão que havia memória.
O mesmo homem entrou na loja pouco antes do fecho. Desta feita, a lista era maior e incluía todo o tipo de livros não autorizados.
– Quero tudo o que tiver – acrescentou o homem.
Depressa perceberam que não iam conseguir sair sem ajuda, já que todo o esforço se traduzira numa pequena fresta. Lá fora ouviam-se ao longe os bombeiros. Uma das mulheres tinha conseguido reacender a vela.
– Não te preocupes querida, que já nos vêm salvar. Alguém há-de ver que a entrada do abrigo está tapada – confortou um dos maridos.
Isto só seria verdade se o ataque não tivesse sido muito severo, constatou Carlos em silêncio. Depois lembrou-se dos livros. Se se desse o caso de o procurarem em casa, poderiam encontrá-los. O coração começou a bater descontroladamente e a respiração ficou entrecortada.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Guarda-livros - parte 1/4


As tardes favoritas de Carlos eram as de Domingo. O movimento era pouco e podia dedicar-se à sua actividade preferida sem ser incomodado.
Caminhou pelas ruas desertas do Porto. A população ouvia a emissão de rádio em suas casas. A hora era perfeita, mais cedo havia namorados no parque e mais tarde seria suspeito. Entrou pelo portão principal semi-oculto pelo chapéu de feltro e sobretudo de gola alta, todo vestido de preto. Queria poder passar por um agente do governo. Ensinaram-lhe que quando se tratava de actividades proibidas, nada podia ser deixado ao acaso.
Passeou pelo parque, procurando uma zona sossegada. Antes de se abaixar, olhou em volta, verificando que a costa estava livre. A adrenalina entrou-lhe no sangue e o batimento cardíaco aumentou. Retirou o pé de cabra de dentro do casaco e levantou uma laje. Com uma pequena pá, fez um buraco rectangular, colocando a terra num saquinho de ráfia. Retirou o livro já embalado em várias camadas de isolamento impermeável e meteu-o no buraco. Fez uma carícia de despedida ao livro, era a sua última cópia de “Os Maias” de Eça de Queiroz. Atirou algum solo para cima e recolocou a laje, fixando-a com um pequeno martelo. Devido ao par de anos de prática, todo o processo demorara menos de um minuto.
Ao levantar-se, distinguiu pelo canto do olho uma silhueta. Sem hesitar, afastou-se dali em passo apressado. A respiração e pulsação aceleraram ainda mais. Olhou por cima do ombro. Não viu ninguém. Despejou o saco de terra num canteiro e saiu pela outra entrada. Ao virar a esquina, viu que a figura ainda o seguia à distância.
Quando os soldados entraram na livraria ele fez a única coisa que a sobrevivência lhe aconselhou: sorrira e dissera-lhe para levarem tudo o que quisessem.
A esperança que a vida iria melhorar com fim da guerra Europeia morrera nesse momento. Todavia, tudo piorara quando um governo extremista de aspirações megalómanas se apoderara do pequeno estado. Com o antigo país dividido em três, já não havia lugar para os livros que relembrassem que um dia houvera Portugal.
Haviam chegado munidos de uma lista e disseram-lhe para se manter calmo, que tudo correria bem. Prometeram-lhe até que o estado lhe daria uma compensação pelos danos. Haviam levado quatro em cada cinco livros.
Continuara a caminhar ao acaso pelas ruas até perder o vulto de vista, só depois retomou a sua rota.
Assim que chegou a casa, retirou as ferramentas que lhe pesavam horrivelmente e guardou-as na despensa. Pendurou o chapéu e casaco na entrada do piso térreo do edifício de três andares. Sentou-se no sofá e ligou o rádio para ouvir o resto da emissão.
– Cidadãos de Porto e Galiza, os nossos inimigos Portugueses tentaram mais uma vez atravessar a linha do Mondego com uma ofensiva traiçoeira. Ameaçando as nossas famílias e os nossos campos. Contudo, a heróica divisão blindada do Sul conseguiu repelir o ataque...
Só havia uma voz que odiava mais do que a do ministro da defesa: a do ministro dos assuntos internos. Sabia ser tudo propaganda para incitar ao ódio.
Com o pé de cabra levantou algumas tábuas do velho soalho. Retirou a folha amarelecida do topo. Era uma lista encriptada de todos os locais onde havia enterrado livros. Sorriu de satisfação, sem este pedaço de papel, só virando a cidade do avesso é que conseguiriam encontrá-los a todos. Nem mesmo Carlos se conseguia recordar dos cento e dois lugares que já usara.
– ...Iremos atacá-los sem piedade e mostrar-lhes que cometeram um erro grave. Quem diz que deveríamos esquecer as divergências e procurar a paz não é mais do que um agente do inimigo, infiltrado entre nós para plantar a dúvida no povo. Cidadãos, todos o que se opuserem ao nosso nobre propósito devem enfrentar as consequências dessa traição...
Nunca prestava atenção às palavras do governante, apenas ligava o rádio para ter a certeza que o vizinho de cima o ouvia e de modo a abafar os ruídos da sua actividade ilícita.
Anotou com cuidado o local com uma mistura ininteligível de números e letras. Por um momento, observou os nove livros que ainda lhe restavam. Agarrou no “Felizmente há Luar!” e envolveu-o com cuidado na película impermeável. Fixou as tábuas de volta e sentou-se de volta no sofá.
– ...Merecem a morte. Não podemos tolerar tal falta de nacionalismo! A pena será capital! Cidadãos de Porto e Galiza...
Ouviu-se uma sirene. Carlos levantou-se num pulo e desligou o rádio. Uma segunda e uma terceira tocaram também, num tom impossível de ignorar. Um ataque aéreo à cidade estava eminente.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Fantasy & Co: Antologias grátis em formato de ebook

7 pecados


Cada um dos pecados foi explorado por um dos autores residentes em contos curtos de ficção especulativa.


Lista de contos:
“Gula” por Carina Portugal
“A Cidade Perdida – Um Conto Acerca do Orgulho” por Liliana Novais
“Ira” por Pedro Pereira
“Luxúria” por Sara Farinha
“Preguiça” por Carlos Silva
“Desejos” por Vitor Frazão
“Tudo e Nada” por Pedro Cipriano

Download: mobi - epub - pdf
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7 virtudes


À semelhança dos sete pecados, cada uma das virtudes foi explorada por um dos autores.


Lista de contos:
“Corpo, Alma e Coração (caridade)” por Carina Portugal
“O que não cura – satisfaz (temperança)” por Ana Ferreira
“O paciente é o mais forte” por Pedro Pereira
“Diligência” por Carlos Silva
“O documento (humildade)” por Ana Ferreira
“O Protótipo (generosidade)” por Pedro Cipriano

Download: mobi | epub | pdf
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Halloween


Cada um dos autores residentes foi convidado a criar uma história relacionada com o Halloween.


Lista de contos:
“A menina que não gostava de doces” por Carina Portugal
“Morte Branca” por Liliana Novais
“Bruxaria” por Pedro Pereira
“A noite de todas as sombras” por Sara Farinha
“Chekhov’s gun” por Carlos Silva
“Se uma árvore cai na floresta” por Vitor Frazão

Download: mobi | epub | pdf
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Universos literários


Nesta antologia cada um dos autores foi convidado a mostrar um pouco dos seus universos literários no formato de conto.


Lista de contos:
“Imtharien – O Canto da Ninfa” por Carina Portugal
“Inbicta – Vamos Pintar os Franceses de Carmim” por Ana Ferreira
“Apocalipse – A Queda de Berlim” por Pedro Pereira
“Percepção – Túmulo 62” por Sara Farinha
“Urbania – A Destilação do Absurdo” por Carlos Silva
“Ahelanae – O Primeiro Voo” por Liliana Novais
“Era Dourada – A Alvorada” por Pedro Cipriano

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