Blogue dedicado às minhas aventuras literárias. Novos artigos todas as segundas, quartas e sextas. Rubrica especial de domingo: Chá de Domingo.
segunda-feira, 25 de março de 2013
O Guarda-livros - parte 2/4
Podem encontrar a primeira parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/03/o-guarda-livros-parte-14.html
Ao abrir as três caixas que haviam sido entregues naquela manhã, percebeu que a compensação do estado não lhe agradava. Os novos livros eram apenas versões distorcidas dos que lhe haviam sido retirados. O valor deles não chegava sequer para cobrir metade do prejuízo e escrever um agradecimento ao Ministério da Cultura fora o maior frete da sua vida.
Foi depois de almoço que encontrara um monte de livros que não havia sido inspeccionado. Olhou para a pilha sem saber se deveria seguir a sensatez ou a consciência. Só a irritação com a situação facilitou a escolha.
O som estridente impelia-o a andar. Saiu porta fora em direcção ao abrigo ao lado do edifício. Olhou para a esfera celestial de fim de tarde. Só algumas nuvens polvilhavam o céu de Setembro e dos aviões nem sinal.
Supondo que o alarme fora dado no momento certo, calculou que ainda tinha um par de minutos. Apressado voltou atrás e trancou a porta do apartamento. Não queria que andassem a bisbilhotar nas suas coisas enquanto estivesse na cave. Entretanto as outras duas famílias tinham abandonado o prédio, sendo ele o último a descer as escadas.
Até ao momento em que alguém conseguiu acender uma solitária vela a escuridão fora quase total. Assim como tinham começado, as sirenes calaram-se. Ele sabia que a razão para isso acontecer era simples, grande parte dos sistemas de defesa anti-aérea usava o som como referência.
O silêncio foi quebrado pelo metralhar de uma automática. Os motores dos aviões ouviam-se ao longe e, a cada momento, mais alto. Apesar de já contarem com isso, a queda da primeira bomba sobressaltou-os. O prédio estremeceu ligeiramente e as crianças olharam para os pais assustadas. O barulho aumentou de intensidade. A artilharia disparava de modo cadenciado e as bombas iam caindo, ora mais perto, ora mais longe.
A terra abanou e o barulho foi de tal modo ensurdecedor que ficou com um zumbido nos ouvidos. Algo caiu sobre o abrigo, fazendo com que parte do estuque se desprendesse do tecto. A poeira começou a invadir o pequeno espaço. As crianças desataram a chorar e os adultos olharam uns para os outros com um ar grave.
Lá fora a batalha pelos céus da capital continuava.
Havia sido num doce dia de Verão. Mais que o desejo de ler, só o ar quente da rua convidava a entrar na livraria. A campainha presa à porta anunciou a entrada do homem magro de meia-idade. Carlos levantou os olhos do jornal e olhou para o desconhecido.
– Boa tarde, em que posso servi-lo?
– Eu procuro alguns livros – declarou, passando-lhe um papel dobrado.
O livreiro desdobrou a folha encontrando uma única referência manuscrita.
– Minha Nossa Senhora, os Lusíadas...
O homem levou o dedo aos lábios. Ele observou-o em minúcia, desconfiado que se tratava de um agente do governo. No entanto, ao olhar nos olhos dele, viu o mesmo receio espelhado. Acabou por concluir que após mais de um ano de más vendas, não se podia dar ao luxo de desperdiçar um cliente.
– Siga-me – indicou, levando-o até à salinha adjacente onde guardava o resto da mercadoria.
O outro homem guardava alguma distância dele, ficando à porta. O medo permanecia nos seus olhos.
– O que tenho está nesta caixa, foi o que escapou quando a polícia cá esteve.
Como o cliente não se mexia, acabou por se abaixar e abrir a caixa de cartão. Um momento depois estendia-lhe um livro de capa vermelha que deveria ter um pouco mais de vinte anos de idade.
Assim que o desconhecido agarrou a mercadoria, as explosões voltaram, muitas assustadoramente próximas. As mães agarravam-se aos filhos e os pais observavam impotentes. O único conforto era ainda ouvirem a resposta ininterrupta das anti-aéreas.
O barulho cessou. O silêncio era tão pesado que lhe feria os ouvidos. Ninguém se mexeu. Sentia-se cansado, o desgaste emocional tornara-se físico. A luz extinguiu-se. Ouvia o respirar cadenciado dos outros e teve a certeza que todos podiam escutar o bater do seu coração.
As sirenes voltaram a tocar, indicando que já era seguro saírem. Carlos venceu a inércia e empurrou a porta do abrigo. Esta resistiu-lhe e após um empurrão mais forte, descobriu que estava algo a bloqueá-la. O chefe de família do andar de cima veio ajudá-lo, mas nem com o conjunto dos quatro homens disponíveis foi possível mexê-la.
– Oh meu Deus, vamos morrer soterrados... – constatou uma mulher antes de desmaiar.
Relembrou que demorara dois dias depois para se habituar à ideia. Mantivera sempre o grosso envelope junto ao peito, sem saber como usá-lo sem despertar suspeitas. Um livreiro nunca seria rico enquanto o estado atravessasse a maior recessão que havia memória.
O mesmo homem entrou na loja pouco antes do fecho. Desta feita, a lista era maior e incluía todo o tipo de livros não autorizados.
– Quero tudo o que tiver – acrescentou o homem.
Depressa perceberam que não iam conseguir sair sem ajuda, já que todo o esforço se traduzira numa pequena fresta. Lá fora ouviam-se ao longe os bombeiros. Uma das mulheres tinha conseguido reacender a vela.
– Não te preocupes querida, que já nos vêm salvar. Alguém há-de ver que a entrada do abrigo está tapada – confortou um dos maridos.
Isto só seria verdade se o ataque não tivesse sido muito severo, constatou Carlos em silêncio. Depois lembrou-se dos livros. Se se desse o caso de o procurarem em casa, poderiam encontrá-los. O coração começou a bater descontroladamente e a respiração ficou entrecortada.
quarta-feira, 20 de março de 2013
O Guarda-livros - parte 1/4
As tardes favoritas de Carlos eram as de Domingo. O movimento era pouco e podia dedicar-se à sua actividade preferida sem ser incomodado.
Caminhou pelas ruas desertas do Porto. A população ouvia a emissão de rádio em suas casas. A hora era perfeita, mais cedo havia namorados no parque e mais tarde seria suspeito. Entrou pelo portão principal semi-oculto pelo chapéu de feltro e sobretudo de gola alta, todo vestido de preto. Queria poder passar por um agente do governo. Ensinaram-lhe que quando se tratava de actividades proibidas, nada podia ser deixado ao acaso.
Passeou pelo parque, procurando uma zona sossegada. Antes de se abaixar, olhou em volta, verificando que a costa estava livre. A adrenalina entrou-lhe no sangue e o batimento cardíaco aumentou. Retirou o pé de cabra de dentro do casaco e levantou uma laje. Com uma pequena pá, fez um buraco rectangular, colocando a terra num saquinho de ráfia. Retirou o livro já embalado em várias camadas de isolamento impermeável e meteu-o no buraco. Fez uma carícia de despedida ao livro, era a sua última cópia de “Os Maias” de Eça de Queiroz. Atirou algum solo para cima e recolocou a laje, fixando-a com um pequeno martelo. Devido ao par de anos de prática, todo o processo demorara menos de um minuto.
Ao levantar-se, distinguiu pelo canto do olho uma silhueta. Sem hesitar, afastou-se dali em passo apressado. A respiração e pulsação aceleraram ainda mais. Olhou por cima do ombro. Não viu ninguém. Despejou o saco de terra num canteiro e saiu pela outra entrada. Ao virar a esquina, viu que a figura ainda o seguia à distância.
Quando os soldados entraram na livraria ele fez a única coisa que a sobrevivência lhe aconselhou: sorrira e dissera-lhe para levarem tudo o que quisessem.
A esperança que a vida iria melhorar com fim da guerra Europeia morrera nesse momento. Todavia, tudo piorara quando um governo extremista de aspirações megalómanas se apoderara do pequeno estado. Com o antigo país dividido em três, já não havia lugar para os livros que relembrassem que um dia houvera Portugal.
Haviam chegado munidos de uma lista e disseram-lhe para se manter calmo, que tudo correria bem. Prometeram-lhe até que o estado lhe daria uma compensação pelos danos. Haviam levado quatro em cada cinco livros.
Continuara a caminhar ao acaso pelas ruas até perder o vulto de vista, só depois retomou a sua rota.
Assim que chegou a casa, retirou as ferramentas que lhe pesavam horrivelmente e guardou-as na despensa. Pendurou o chapéu e casaco na entrada do piso térreo do edifício de três andares. Sentou-se no sofá e ligou o rádio para ouvir o resto da emissão.
– Cidadãos de Porto e Galiza, os nossos inimigos Portugueses tentaram mais uma vez atravessar a linha do Mondego com uma ofensiva traiçoeira. Ameaçando as nossas famílias e os nossos campos. Contudo, a heróica divisão blindada do Sul conseguiu repelir o ataque...
Só havia uma voz que odiava mais do que a do ministro da defesa: a do ministro dos assuntos internos. Sabia ser tudo propaganda para incitar ao ódio.
Com o pé de cabra levantou algumas tábuas do velho soalho. Retirou a folha amarelecida do topo. Era uma lista encriptada de todos os locais onde havia enterrado livros. Sorriu de satisfação, sem este pedaço de papel, só virando a cidade do avesso é que conseguiriam encontrá-los a todos. Nem mesmo Carlos se conseguia recordar dos cento e dois lugares que já usara.
– ...Iremos atacá-los sem piedade e mostrar-lhes que cometeram um erro grave. Quem diz que deveríamos esquecer as divergências e procurar a paz não é mais do que um agente do inimigo, infiltrado entre nós para plantar a dúvida no povo. Cidadãos, todos o que se opuserem ao nosso nobre propósito devem enfrentar as consequências dessa traição...
Nunca prestava atenção às palavras do governante, apenas ligava o rádio para ter a certeza que o vizinho de cima o ouvia e de modo a abafar os ruídos da sua actividade ilícita.
Anotou com cuidado o local com uma mistura ininteligível de números e letras. Por um momento, observou os nove livros que ainda lhe restavam. Agarrou no “Felizmente há Luar!” e envolveu-o com cuidado na película impermeável. Fixou as tábuas de volta e sentou-se de volta no sofá.
– ...Merecem a morte. Não podemos tolerar tal falta de nacionalismo! A pena será capital! Cidadãos de Porto e Galiza...
Ouviu-se uma sirene. Carlos levantou-se num pulo e desligou o rádio. Uma segunda e uma terceira tocaram também, num tom impossível de ignorar. Um ataque aéreo à cidade estava eminente.
Podem encontrar a segunda parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2013/03/o-guarda-livros-parte-24.html
segunda-feira, 18 de março de 2013
Fantasy & Co: Antologias grátis em formato de ebook
7 pecados
Cada um dos pecados foi explorado por um dos autores residentes em contos curtos de ficção especulativa.
Lista de contos:
“Gula” por Carina Portugal
“A Cidade Perdida – Um Conto Acerca do Orgulho” por Liliana Novais
“Ira” por Pedro Pereira
“Luxúria” por Sara Farinha
“Preguiça” por Carlos Silva
“Desejos” por Vitor Frazão
“Tudo e Nada” por Pedro Cipriano
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7 virtudes
À semelhança dos sete pecados, cada uma das virtudes foi explorada por um dos autores.
Lista de contos:
“Corpo, Alma e Coração (caridade)” por Carina Portugal
“O que não cura – satisfaz (temperança)” por Ana Ferreira
“O paciente é o mais forte” por Pedro Pereira
“Diligência” por Carlos Silva
“O documento (humildade)” por Ana Ferreira
“O Protótipo (generosidade)” por Pedro Cipriano
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Halloween
Cada um dos autores residentes foi convidado a criar uma história relacionada com o Halloween.
“A menina que não gostava de doces” por Carina Portugal
“Morte Branca” por Liliana Novais
“Bruxaria” por Pedro Pereira
“A noite de todas as sombras” por Sara Farinha
“Chekhov’s gun” por Carlos Silva
“Se uma árvore cai na floresta” por Vitor Frazão
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Universos literários
Nesta antologia cada um dos autores foi convidado a mostrar um pouco dos seus universos literários no formato de conto.
Lista de contos:
“Imtharien – O Canto da Ninfa” por Carina Portugal
“Inbicta – Vamos Pintar os Franceses de Carmim” por Ana Ferreira
“Apocalipse – A Queda de Berlim” por Pedro Pereira
“Percepção – Túmulo 62” por Sara Farinha
“Urbania – A Destilação do Absurdo” por Carlos Silva
“Ahelanae – O Primeiro Voo” por Liliana Novais
“Era Dourada – A Alvorada” por Pedro Cipriano
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sábado, 16 de março de 2013
O lago
A superfície do lago mudou ligeiramente. Pequenas luzes, semelhantes a pirilampos, pareciam vir do fundo do lago. O efeito durou apenas um momento, de modo que Alice não teve sequer a certeza que realmente acontecera.
Sentada no banco à beira da lagoa, recordou-se do que Eunice lhe dissera numa tarde igualmente fria.
― Queres que te conte um segredo? ― sussurrou a amiga, embrulhando-se mais no casaco.
― Sim, conta.
― Sabias que o lago é mágico?
― Não acredito nisso! ― protestou Alice.
― Eu já suspeitava que dissesses isso. Eu sei que não é fácil acreditar numa coisa dessas, se eu não tivesse visto, também não acreditaria.
― Mas o que é que tu viste?
― Luzes, mas não eram luzes quaisquer. Eram lindas, apetecia-me ficar a vê-las durante horas a fio, mas só duraram um momento.
Olhara a amiga sem lhe responder. Ela estivera ainda mais estranha nos últimos dias e não achou por bem contrariá-la. As duas haviam encarado para aquela massa de água, mas esta permanecia igual ao que fora durante as longas tardes em que haviam conversado naquele banco de madeira.
Alice voltou a fixar o lago, esperando que o efeito se repetisse. Esperou em vão e acabou por se fartar. Para afastar os pensamentos negativos, tentou apreciar a maravilhosa vista.
― Querida, o jantar está pronto ― ouviu o seu marido chamar.
Olhou para a entrada da casa e assentiu com a cabeça. Ao caminhar de volta, uma rabanada de vento obrigou-a a enrolar-se ainda mais no seu casaco de lã escolhido ao acaso quando saíra de casa. Em passo lento, percorreu o caminho que separava o miradouro das traseiras.
Sentia-se diferente, uma estranha alegria havia-se apoderado dela. Sem hesitar, atirou-se aos braços de Igor e beijou-o como quando tinha dezasseis anos. Ele ficou surpreendido.
― Pareces estar melhor ― elogiou-a com um sorriso ― Vem, fiz o teu prato favorito.
A grande janela da sala de jantar estava virada para o banco onde Alice se costumava sentar. Os tons avermelhados do pôr-do-sol que se reflectiam na ampla divisão transmitiram-lhe uma sensação de aconchego.
Sentaram-se na pequena mesa ao centro, de frente um para o outro. Apesar de a refeição ter ocorrido em silêncio, achou que fora o melhor que comera nos últimos meses.
― Eu hoje estou muito feliz ― anunciou, olhando o marido. ― E a comida estava maravilhosa!
― Isso são muito boas notícias, espero que melhores rapidamente.
― Eu sinto-me melhor. Sabes, às vezes sinto-me sozinha, tenho saudades de Eunice.
― Oh querida, não penses nela agora...
― Desculpa, não consigo evitar. Nós costumávamos sentar-nos e falar durante horas a fio ― relembrou Alice, à beira de um ataque de choro.
― Oh docinho, acalma-te! ― implorou Igor, abraçando-a com força.
O abraço trouxe-lhe uma sensação de aconchego. Desejou que ele a abraçasse mais vezes, como fazia há dez anos atrás.
― Não achas que o lago é muito bonito? ― perguntou-lhe com um ar sonhador.
― Claro que é muito bonito, por isso é que estamos aqui ― devolveu-lhe ele com um tom de voz ligeiramente enfadado.
Alice não acrescentou mais nada, percebera que não podia partilhar o segredo de Eunice com ele. A barreira de comunicação estragou-lhe a felicidade daquele fim-de-tarde.
― Não te esqueças dos comprimidos! ― relembrou-lhe Igor, assim que ela se levantou da mesa.
Ela deu-lhe um olhar arreliado, detestava que ele estivesse sempre a relembrá-la dos malditos medicamentos. Contrariada, aproximou-se das caixas e escolheu a dose da noite. Observou as cinco cápsulas coloridas na palma da mão. Sem pensar, atirou o de dormir para o lixo. As noites sem sonhos eram a pior parte do tratamento. Engoliu os restantes e foi-se sentar no sofá, aguardando por Igor. Ele demorou um bocado, pois estava na cozinha a lavar a loiça.
Quando olhou para o lago, voltou a vê-lo. Apesar de o sol já se ter posto, as estranhas luzes estavam reflectidas na superfície. Eram tão grandes e brilhantes que pareciam vir do próprio lago. Pareciam dançar umas com as outras num padrão tão harmonioso como desconhecido. Alice achou que era a visão mais bela que alguma vez tivera. Não tinha dúvidas de que Eunice estivera certa o tempo todo.
― Alice ― ouviu alguém chamá-la.
― Igor, chamaste-me? ― perguntou, olhando em volta, confusa.
― Não, o que é que se passou? ― ouviu responder, a partir da cozinha.
― Nada. Não se passou nada, não te preocupes!
Voltou a olhar para o lago, mas as luzes haviam desaparecido. Quando ele voltou, foram directamente para o quarto. Mudou-se para a sua camisa de dormir branca e enfiou-se no meio dos lençóis quentes. Pouco depois, ele juntou-se a ela. Falaram um pouco sobre o dia, pois o doutor havia-lhes recomendado que o fizessem com frequência. Geralmente funcionava, já que se sentia melhor. Naquela noite, pareceu ter o efeito contrário. Ardia por contar a Igor sobre o lago, como não o podia fazer, toda a conversa se tornava mais um fardo do que um alívio.
Em breve, ele dormia e Alice ficou satisfeita com a opção de não tomar o sedativo. Pensou que poderia dormir mais tarde, afinal já não trabalhava naquela maldita companhia. Ela só queria poder voltar a sonhar.
Olhou para o tecto branco durante muito tempo. Talvez fossem segundos ou talvez horas. Levantou-se da cama e Igor acordou.
― O que se passa querida?
― Nada, estou só com sede. Vou beber um copo de água.
Ele pareceu ficar satisfeito com a resposta, pois virou-se para o outro lado e voltou aos seus prazeres nocturnos. Alice tinha inveja desses pequenos pedaços de felicidade. Nunca tinha pensado muito nos sonhos até os perder.
Parou à entrada da sala. Nada a podia ter preparado para o que viu. As luzes do lago estavam brilhantes como nunca tinham estado. A luz era tão forte que até se projectava nas paredes.
― Alice, vem ter comigo ― ouviu mais uma vez.
Um estremecer de excitação percorreu-lhe a coluna. Sem pensar, abandonou a casa no seu vestido de dormir. Uma vez no exterior, correu até ao banco.
Apesar da temperatura ter descido, sentiu-se invadida por uma sensação de calor. Não conseguia despregar os olhos dos brilhos do outro mundo. O líquido frio lembrou-lhe que estava descalça, mas não se importou.
Sem hesitar, dirigiu-se ao cais de madeira, só para poder estar mais perto daquelas luzes.
― Esperei por ti desde o momento em que nasceste ― sussurrou-lhe a mesma voz.
Os pirilampos aquáticos continuaram a mexer-se. Pareciam estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Naquele momento desejou agarrar um deles na mão. Uma força de atracção irresistível fez com que entrasse no barco. Remou em direcção ao centro. O movimento exigia-lhe um grande esforço. Percorridos uma dezena de metros, já lhe doíam os braços e os dedos mal podiam agarrar os remos. Mesmo assim, ela continuou.
Finalmente ficou rodeada pelas luzes. Num impulso, tocou na água e elas desapareceram.
― Alice, vem ter comigo ― insistiu a voz.
O lago ficou novamente brilhante. A intensidade era tanta que nem em sonhos vira algo assim. As reflexões deixaram-a com uma tontura ligeira. Era o momento certo, percebeu, largando o remo, que rebolou até cair borda fora.
― Sim, Alice, é o momento certo. Será o melhor momento da tua vida, eu prometo.
Alice levantou-se num equilíbrio precário. Nem a lua conseguia ter metade do brilho dos reflexos. Atirou-se para o lago. A água fria rodeou-a por completo. Ela não sabia nadar e nem o queria fazer.
As luzes estavam ainda mais brilhantes e a sua beleza avassaladora. Moviam-se em estranhos padrões nunca antes vistos. Valia a pena ter nascido só para ver aquilo, percebeu Alice.
E, como Eunice, afogou-se.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
A alvorada
A artilharia dos defensores rugiu mais uma vez, despejando a sua letal carga ao acaso. David sabia que os defensores já tinham perdido toda a esperança, São Petersburgo cairia dentro de algumas horas. A guerra mundial que já durava há oito anos e fora combatida nos seis continentes estava perto do fim. O conflito pelo maldito petróleo já reclamara quase meio bilião de vidas e felizmente nenhuma nação usara o seu arsenal nuclear.
O interior do tanque tipo Roosevelt, por não estar equipado contra aquele nível de humidade, cheirava a mofo. Percorrer milhares de quilómetros naquela lata de sardinhas com um comandante com feitio difícil estava a dar cabo dos nervos a todos.
– Alvo às quatro horas, a duas milhas – anunciou o comandante.
A escuridão da noite nórdica obrigou David a procurar o alvo com os sensores térmicos. Era uma bateria anti-tanque, mas não havia nada a recear.
O frágil equilíbrio entre as facções foi desfeito na maior batalha aérea da história da humanidade. Milhares de caças lutaram durante horas sobre a Europa de leste. Quando se silenciaram os céus, o domínio aéreo pertencia às forças Ocidentais. Era hora de preparar a invasão terrestre.
Os radares foram destruídos pelos bombardeiros há um par de horas. Sem eles, os sistemas de defesa estavam cegos, mas nem por isso deixavam de disparar. A cidade resistira ao mais longo cerco da história durante na última guerra mundial, atestando a teimosia russa.
Pediu uma munição explosiva e o sistema de ataque do blindado trancou o alvo. Ajustou as protecções dos ouvidos, inspirou e premiu o botão. Quando recuperou do estrondo do disparo, viu que a bateria estava irreparável. Nesse momento, os bombardeiros passaram por cima dos tanques destruindo a barricada mais à frente.
– Avancem, estamos a pouco mais de três de milhas da Praça do Palácio.
David estremeceu de excitação, pressentido que o fim da guerra estava próximo. Com a captura da praça central a resistência dos habitantes sofreria um duro golpe na moral. Dois soldados saíram de outro tanque para confirmar se a ponte estava armadilhada. Assim que se confirmou que estava limpa, o veículo de David avançou lentamente. Agarrou-se aos comandos com receio, detestava atravessar pontes.
Pareceu passar uma eternidade até chegarem ao outro lado, numa avenida cujo nome começava por “Bo” e era seguindo por mais dez caracteres que não conseguia pronunciar. Os tanques seguiram pelas quatro faixas em direcção à Catedral.
As ruas estavam desertas. Não se ouviam nem disparos nem explosões. Parecia que os russos tinham desistido de lutar.
– Onde raio se meteram os russos? – ouviu pelo rádio com um sotaque fortemente alemão.
Sorriu, pensando o quanto os alemães e os franceses estariam a apreciar a ironia do momento.
– Daqui tenente Jarnot, acabámos de capturar a estátua do cavaleiro. Não há qualquer armadilha nem resistência neste sector.
O anúncio foi seguido por outros semelhantes, os lugares simbólicos estavam a ser tomados sem resistência. Talvez a guerra estivesse perto do fim, pensou.
Os blindados americanos pararam à entrada da praça.
– Toda a gente lá para fora, temos de ver se não há minas – ordenou o comandante.
À semelhança dos outros soldados, David cumpriu as ordens contrariado. Detestava sair da protecção dos doze centímetros de aço do blindado. Os atiradores furtivos eram o pesadelo de qualquer artilheiro.
Encostado às lagartas, olhou em frente. A iluminação escassa da lua permitia distinguir os contornos do lugar. À excepção do monólito gigante protegido por sacos de areia, a praça parecia deserta. Não se viam capacetes a espreitar por cima dos sacos nem artilheiros nos canhões anti-blindado.
– Olhem! – exclamou o condutor, apontando para ocidente.
Uma luz brilhante tornou a noite em dia. Não se ouviu nenhuma explosão. David deixou-se cair no chão, percebendo logo o que acontecera. As lágrimas escorreram-lhe pela face. Nunca pensou chorar assim no fim deste maldito conflito. A imagem do seu filho e esposa vieram-lhe à memória, dava qualquer coisa para estar com eles.
Na face dos seus compatriotas via-se a mesma consternação. Ao seu lado o comandante ria-se, quebrando o silêncio.
Um pelotão de russos saiu de um edifício adjacente. Apontaram-se algumas armas, mas ninguém disparou. Os adversários fitaram-se mutuamente. Via-se igual resignação e cansaço em ambos os lados.
– Não vale a pena – alguém gritou.
Alguns soldados atiraram as armas para o chão e o exemplo foi seguido pelos restantes. Pedidos de desculpa foram lançados em várias línguas. O céu voltou a ficar iluminado.
– E é assim que acaba!
Os clarões sucediam-se com maior frequência e pareciam vir um pouco de todos os lados. A expressões de desolação transpareciam o destino que os esperava. Restavam-lhe minutos, ou talvez segundos.
Caminhou para o russo mais próximo e num impulso abraçou-o.
– Desculpa o que fiz ao teu país – disse-lhe e olhos do que fora o seu oponente mostraram-lhe que percebera a intenção.
– Já não faz diferença – respondeu-lhe o russo, com um forte sotaque.
Todos sabiam que assim era.
David foi ofuscado por um clarão e sentiu-se arrastado por uma força imensa. Para ele, o mundo acabara.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Passarempo Madalena Santos: Vencedora
O passatempo Madalena Santos teve 44 participações e a vencedora foi:
38 - Ester Elisabete Neves Durães
Muitos parabéns! (Irás receber O Décimo Terceiro Poder - Terras deCorza, #1)
Obrigado a todos pelas participações!
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
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