sábado, 16 de março de 2013

O lago


A superfície do lago mudou ligeiramente. Pequenas luzes, semelhantes a pirilampos, pareciam vir do fundo do lago. O efeito durou apenas um momento, de modo que Alice não teve sequer a certeza que realmente acontecera.
Sentada no banco à beira da lagoa, recordou-se do que Eunice lhe dissera numa tarde igualmente fria.
― Queres que te conte um segredo? ― sussurrou a amiga, embrulhando-se mais no casaco.
― Sim, conta.
― Sabias que o lago é mágico?
― Não acredito nisso! ― protestou Alice.
― Eu já suspeitava que dissesses isso. Eu sei que não é fácil acreditar numa coisa dessas, se eu não tivesse visto, também não acreditaria.
― Mas o que é que tu viste?
― Luzes, mas não eram luzes quaisquer. Eram lindas, apetecia-me ficar a vê-las durante horas a fio, mas só duraram um momento.
Olhara a amiga sem lhe responder. Ela estivera ainda mais estranha nos últimos dias e não achou por bem contrariá-la. As duas haviam encarado para aquela massa de água, mas esta permanecia igual ao que fora durante as longas tardes em que haviam conversado naquele banco de madeira.
Alice voltou a fixar o lago, esperando que o efeito se repetisse. Esperou em vão e acabou por se fartar. Para afastar os pensamentos negativos, tentou apreciar a maravilhosa vista.
― Querida, o jantar está pronto ― ouviu o seu marido chamar.
Olhou para a entrada da casa e assentiu com a cabeça. Ao caminhar de volta, uma rabanada de vento obrigou-a a enrolar-se ainda mais no seu casaco de lã escolhido ao acaso quando saíra de casa. Em passo lento, percorreu o caminho que separava o miradouro das traseiras.
Sentia-se diferente, uma estranha alegria havia-se apoderado dela. Sem hesitar, atirou-se aos braços de Igor e beijou-o como quando tinha dezasseis anos. Ele ficou surpreendido.
― Pareces estar melhor ― elogiou-a com um sorriso ― Vem, fiz o teu prato favorito.
A grande janela da sala de jantar estava virada para o banco onde Alice se costumava sentar. Os tons avermelhados do pôr-do-sol que se reflectiam na ampla divisão transmitiram-lhe uma sensação de aconchego.
Sentaram-se na pequena mesa ao centro, de frente um para o outro. Apesar de a refeição ter ocorrido em silêncio, achou que fora o melhor que comera nos últimos meses.
― Eu hoje estou muito feliz ― anunciou, olhando o marido. ― E a comida estava maravilhosa!
― Isso são muito boas notícias, espero que melhores rapidamente.
― Eu sinto-me melhor. Sabes, às vezes sinto-me sozinha, tenho saudades de Eunice.
― Oh querida, não penses nela agora...
― Desculpa, não consigo evitar. Nós costumávamos sentar-nos e falar durante horas a fio ― relembrou Alice, à beira de um ataque de choro.
― Oh docinho, acalma-te! ― implorou Igor, abraçando-a com força.
O abraço trouxe-lhe uma sensação de aconchego. Desejou que ele a abraçasse mais vezes, como fazia há dez anos atrás.
― Não achas que o lago é muito bonito? ― perguntou-lhe com um ar sonhador.
― Claro que é muito bonito, por isso é que estamos aqui ― devolveu-lhe ele com um tom de voz ligeiramente enfadado.
Alice não acrescentou mais nada, percebera que não podia partilhar o segredo de Eunice com ele. A barreira de comunicação estragou-lhe a felicidade daquele fim-de-tarde.
― Não te esqueças dos comprimidos! ― relembrou-lhe Igor, assim que ela se levantou da mesa.
Ela deu-lhe um olhar arreliado, detestava que ele estivesse sempre a relembrá-la dos malditos medicamentos. Contrariada, aproximou-se das caixas e escolheu a dose da noite. Observou as cinco cápsulas coloridas na palma da mão. Sem pensar, atirou o de dormir para o lixo. As noites sem sonhos eram a pior parte do tratamento. Engoliu os restantes e foi-se sentar no sofá, aguardando por Igor. Ele demorou um bocado, pois estava na cozinha a lavar a loiça.
Quando olhou para o lago, voltou a vê-lo. Apesar de o sol já se ter posto, as estranhas luzes estavam reflectidas na superfície. Eram tão grandes e brilhantes que pareciam vir do próprio lago. Pareciam dançar umas com as outras num padrão tão harmonioso como desconhecido. Alice achou que era a visão mais bela que alguma vez tivera. Não tinha dúvidas de que Eunice estivera certa o tempo todo.
― Alice ― ouviu alguém chamá-la.
― Igor, chamaste-me? ― perguntou, olhando em volta, confusa.
― Não, o que é que se passou? ― ouviu responder, a partir da cozinha.
― Nada. Não se passou nada, não te preocupes!
Voltou a olhar para o lago, mas as luzes haviam desaparecido. Quando ele voltou, foram directamente para o quarto. Mudou-se para a sua camisa de dormir branca e enfiou-se no meio dos lençóis quentes. Pouco depois, ele juntou-se a ela. Falaram um pouco sobre o dia, pois o doutor havia-lhes recomendado que o fizessem com frequência. Geralmente funcionava, já que se sentia melhor. Naquela noite, pareceu ter o efeito contrário. Ardia por contar a Igor sobre o lago, como não o podia fazer, toda a conversa se tornava mais um fardo do que um alívio.
Em breve, ele dormia e Alice ficou satisfeita com a opção de não tomar o sedativo. Pensou que poderia dormir mais tarde, afinal já não trabalhava naquela maldita companhia. Ela só queria poder voltar a sonhar.
Olhou para o tecto branco durante muito tempo. Talvez fossem segundos ou talvez horas. Levantou-se da cama e Igor acordou.
― O que se passa querida?
― Nada, estou só com sede. Vou beber um copo de água.
Ele pareceu ficar satisfeito com a resposta, pois virou-se para o outro lado e voltou aos seus prazeres nocturnos. Alice tinha inveja desses pequenos pedaços de felicidade. Nunca tinha pensado muito nos sonhos até os perder.
Parou à entrada da sala. Nada a podia ter preparado para o que viu. As luzes do lago estavam brilhantes como nunca tinham estado. A luz era tão forte que até se projectava nas paredes.
― Alice, vem ter comigo ― ouviu mais uma vez.
Um estremecer de excitação percorreu-lhe a coluna. Sem pensar, abandonou a casa no seu vestido de dormir. Uma vez no exterior, correu até ao banco.
Apesar da temperatura ter descido, sentiu-se invadida por uma sensação de calor. Não conseguia despregar os olhos dos brilhos do outro mundo. O líquido frio lembrou-lhe que estava descalça, mas não se importou.
Sem hesitar, dirigiu-se ao cais de madeira, só para poder estar mais perto daquelas luzes.
― Esperei por ti desde o momento em que nasceste ― sussurrou-lhe a mesma voz.
Os pirilampos aquáticos continuaram a mexer-se. Pareciam estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Naquele momento desejou agarrar um deles na mão. Uma força de atracção irresistível fez com que entrasse no barco. Remou em direcção ao centro. O movimento exigia-lhe um grande esforço. Percorridos uma dezena de metros, já lhe doíam os braços e os dedos mal podiam agarrar os remos. Mesmo assim, ela continuou.
Finalmente ficou rodeada pelas luzes. Num impulso, tocou na água e elas desapareceram.
― Alice, vem ter comigo ― insistiu a voz.
O lago ficou novamente brilhante. A intensidade era tanta que nem em sonhos vira algo assim. As reflexões deixaram-a com uma tontura ligeira. Era o momento certo, percebeu, largando o remo, que rebolou até cair borda fora.
― Sim, Alice, é o momento certo. Será o melhor momento da tua vida, eu prometo.
Alice levantou-se num equilíbrio precário. Nem a lua conseguia ter metade do brilho dos reflexos. Atirou-se para o lago. A água fria rodeou-a por completo. Ela não sabia nadar e nem o queria fazer.
As luzes estavam ainda mais brilhantes e a sua beleza avassaladora. Moviam-se em estranhos padrões nunca antes vistos. Valia a pena ter nascido só para ver aquilo, percebeu Alice.
E, como Eunice, afogou-se.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A alvorada


A artilharia dos defensores rugiu mais uma vez, despejando a sua letal carga ao acaso. David sabia que os defensores já tinham perdido toda a esperança, São Petersburgo cairia dentro de algumas horas. A guerra mundial que já durava há oito anos e fora combatida nos seis continentes estava perto do fim. O conflito pelo maldito petróleo já reclamara quase meio bilião de vidas e felizmente nenhuma nação usara o seu arsenal nuclear.

O interior do tanque tipo Roosevelt, por não estar equipado contra aquele nível de humidade, cheirava a mofo. Percorrer milhares de quilómetros naquela lata de sardinhas com um comandante com feitio difícil estava a dar cabo dos nervos a todos.

– Alvo às quatro horas, a duas milhas – anunciou o comandante.

A escuridão da noite nórdica obrigou David a procurar o alvo com os sensores térmicos. Era uma bateria anti-tanque, mas não havia nada a recear.

O frágil equilíbrio entre as facções foi desfeito na maior batalha aérea da história da humanidade. Milhares de caças lutaram durante horas sobre a Europa de leste. Quando se silenciaram os céus, o domínio aéreo pertencia às forças Ocidentais. Era hora de preparar a invasão terrestre.

Os radares foram destruídos pelos bombardeiros há um par de horas. Sem eles, os sistemas de defesa estavam cegos, mas nem por isso deixavam de disparar. A cidade resistira ao mais longo cerco da história durante na última guerra mundial, atestando a teimosia russa.

Pediu uma munição explosiva e o sistema de ataque do blindado trancou o alvo. Ajustou as protecções dos ouvidos, inspirou e premiu o botão. Quando recuperou do estrondo do disparo, viu que a bateria estava irreparável. Nesse momento, os bombardeiros passaram por cima dos tanques destruindo a barricada mais à frente.

– Avancem, estamos a pouco mais de três de milhas da Praça do Palácio.

David estremeceu de excitação, pressentido que o fim da guerra estava próximo. Com a captura da praça central a resistência dos habitantes sofreria um duro golpe na moral. Dois soldados saíram de outro tanque para confirmar se a ponte estava armadilhada. Assim que se confirmou que estava limpa, o veículo de David avançou lentamente. Agarrou-se aos comandos com receio, detestava atravessar pontes.

Pareceu passar uma eternidade até chegarem ao outro lado, numa avenida cujo nome começava por “Bo” e era seguindo por mais dez caracteres que não conseguia pronunciar. Os tanques seguiram pelas quatro faixas em direcção à Catedral.

As ruas estavam desertas. Não se ouviam nem disparos nem explosões. Parecia que os russos tinham desistido de lutar.

– Onde raio se meteram os russos? – ouviu pelo rádio com um sotaque fortemente alemão.

Sorriu, pensando o quanto os alemães e os franceses estariam a apreciar a ironia do momento.

– Daqui tenente Jarnot, acabámos de capturar a estátua do cavaleiro. Não há qualquer armadilha nem resistência neste sector.

O anúncio foi seguido por outros semelhantes, os lugares simbólicos estavam a ser tomados sem resistência. Talvez a guerra estivesse perto do fim, pensou.

Os blindados americanos pararam à entrada da praça.

– Toda a gente lá para fora, temos de ver se não há minas – ordenou o comandante.

À semelhança dos outros soldados, David cumpriu as ordens contrariado. Detestava sair da protecção dos doze centímetros de aço do blindado. Os atiradores furtivos eram o pesadelo de qualquer artilheiro.

Encostado às lagartas, olhou em frente. A iluminação escassa da lua permitia distinguir os contornos do lugar. À excepção do monólito gigante protegido por sacos de areia, a praça parecia deserta. Não se viam capacetes a espreitar por cima dos sacos nem artilheiros nos canhões anti-blindado.

– Olhem! – exclamou o condutor, apontando para ocidente.

Uma luz brilhante tornou a noite em dia. Não se ouviu nenhuma explosão. David deixou-se cair no chão, percebendo logo o que acontecera. As lágrimas escorreram-lhe pela face. Nunca pensou chorar assim no fim deste maldito conflito. A imagem do seu filho e esposa vieram-lhe à memória, dava qualquer coisa para estar com eles.

Na face dos seus compatriotas via-se a mesma consternação. Ao seu lado o comandante ria-se, quebrando o silêncio.

Um pelotão de russos saiu de um edifício adjacente. Apontaram-se algumas armas, mas ninguém disparou. Os adversários fitaram-se mutuamente. Via-se igual resignação e cansaço em ambos os lados.

– Não vale a pena – alguém gritou.

Alguns soldados atiraram as armas para o chão e o exemplo foi seguido pelos restantes. Pedidos de desculpa foram lançados em várias línguas. O céu voltou a ficar iluminado.

– E é assim que acaba!

Os clarões sucediam-se com maior frequência e pareciam vir um pouco de todos os lados. A expressões de desolação transpareciam o destino que os esperava. Restavam-lhe minutos, ou talvez segundos.

Caminhou para o russo mais próximo e num impulso abraçou-o.

– Desculpa o que fiz ao teu país – disse-lhe e olhos do que fora o seu oponente mostraram-lhe que percebera a intenção.

– Já não faz diferença – respondeu-lhe o russo, com um forte sotaque.

Todos sabiam que assim era.
David foi ofuscado por um clarão e sentiu-se arrastado por uma força imensa. Para ele, o mundo acabara.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Passarempo Madalena Santos: Vencedora


O passatempo Madalena Santos teve 44 participações e a vencedora foi:



38 - Ester Elisabete Neves Durães

 Muitos parabéns! (Irás receber O Décimo Terceiro Poder - Terras deCorza, #1)


Obrigado a todos pelas participações!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Operação Curta Metragem: Comunicado Final


Caros amigos,

Decidi retirar-me do concurso de escrita para cinema. A minha desistência prende-se com o facto de um dos participantes ter comprado cerca de 500 votos esta manhã (os votos apareceram do nada em pouco mais de 10 minutos). É algo que acho extremamente imoral e não estou disposto a descer ao mesmo nível. A organização optou por não desqualificar esse oponente, logo a única opção aceitável que me restava era esta. Prefiro manter a minha dignidade e não pactuar com isto.

Deixo-vos aqui com o gráfico das votações:



O quarto dia tem duas descontinuidades muito interessantes!

Deixo aqui também a derivada para os mais curiosos ou cépticos:

 Que pico muito interessante, não acham?


Tenho de pedir desculpa a todos os que votaram, partilharam e pediram que votassem em mim, mas nestas condições era impossível ganhar de maneira honesta. Cada voto honesto vosso vale mais do que um milhão de votos comprados! O vosso apoio e divulgação do meu trabalho foi fenomenal e só por isso já valeu a pena ter participado. Espero que compreendam as minhas motivações.

Um grande obrigado, Pedro

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Operação Curta Metragem: Balanço do dia 3

Chegámos ao fantástico total de 976 votos, que é muito mais do que alguma vez podia imaginar conseguir. O apoio que tenho recebido é no mínimo fenomenal e só por isso já valeu a pena participar.

A competição está muito renhida e preciso dos vossos votos. Podem fazê-lo aqui, deixando o vosso "gosto". Preciso também das vossas partilhas, para as quais podem usar estas imagens, promovendo também o link do concurso.

Estou também a oferecer aqui um livro sorteado entre todos os que votarem. O número de participantes ainda é reduzido, por isso metam o vosso nome e partilhem. Espalhem a palavra, quem sabe se um dos vossos amigos queir participar

Fecho o balanço com mil obrigados, sem vocês não teria sido possível!





segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Operação Curta Metragem: Balanço do dia 2

Durante o dia de hoje continuei a receber votos, se bem que menos que ontem. O total é agora 526, o que me segura frágil no primeiro lugar.

A competição está muito renhida e preciso dos vossos votos. Podem fazê-lo aqui, deixando o vosso "gosto". Se gostarem mesmo muito, convençam os vossos amigos a votar também.

Além disso estou a oferecer aqui um livro sorteado entre todos os que votarem. O número de participantes ainda é reduzido, por isso metam o vosso nome e partilhem. Espalhem a palavra, talvez um dos vossos amigos queira participar também.

Para terminar, quero agradecer-vos por todo o apoio que me têm dado neste último dia. Sem vocês não teria sido possível.