segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A primeira vez

Fábio fora meticulosamente escrutinado pelo segurança antes de o deixarem entrar. Desde o momento em que colocara os pés naquela discoteca que se sentia nervoso. O fumo quase o deixava a chorar. Cada objecto daquele local gritava a palavra promiscuidade.
O sentimento de nervosismo era mais antigo que isso, vinha desde o momento em que decidira ir lá da última vez. Quisera ir sozinho. Quem mais o poderia acompanhar? Em algumas coisas, era melhor estar-se sozinho, e a noite numa discoteca chamada Orgulho era uma delas.
A vida era feita de escolhas e ele fizera a sua. Talvez não tivesse sido o melhor sitio onde começar, nem a sua escolha a mais acertada. Quem poderia saber?
Sem saber como agir, furou pelo meio da multidão que dançava freneticamente. Dirigiu-se ao balcão e pediu uma bebida. Qualquer bebida servia. Engoliu-a num trago e esperou que o líquido operasse a sua magia. Não tardou que bebesse uma segunda.
Num momento alguém se aproximou dele. Ele deixou. Precisava de sentir o toque. Precisava de algo que nunca tinha recebido. Precisava naquele momento.
Foram um tanto confusas as palavras trocadas. Saíram da discoteca juntos. O carro arrancou logo de seguida, conduzido a um apartamento. Foi levado a uma cama, as roupas voaram e, pela primeira vez, ele conseguiu aceitar-se tal como era.
Partilharam o prazer carnal como se o fim do mundo estivesse para chegar. Experimentaram até à exaustão.
No fim, ficaram deitados a olhar um para o outro. Fábio viu que dificilmente algum dia amaria aquela face barbeada e uns bons dez anos mais velha. Mesmo assim, dera-lhe algo que nunca tivera. De manhã seria outro dia e eles iriam separa-se como se nunca se tivessem conhecido.

Este conto foi escrito como desafio semana de um grupo de escrita.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Histórias de terror

À noite, as plantas maiores contam histórias de terror aos rebentos, quase sempre sobre vegetarianos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

As certezas de Heisenberg

Werner pousou a caneta e atirou com a folha de papel para o cesto. Havia algo de errado com aquele calculo de probabilidade. O resultado era demasiado baixo e tinha a sensação que lhe faltava algo.
Olhou pela janela. Tudo estava calmo. Decorria uma guerra e ninguém parecia dar de conta. A vida prosseguia o seu rumo.
A Wehrmacht desfilara pelas ruas de Paris há apenas uma semana. Outra vitória rápida e decisiva devida à Blitzkrieg. O mundo nunca mais seria o mesmo.
Naquele momento, o futuro decidia-se numa folha de papel. Recomeçou novamente, fez assumpções e aproximações diferentes, contudo tudo parecia dar no mesmo. Cada vez mais furioso, atirou a folha para o lixo e, de seguida pontapeou o balde. O conteúdo espalhou-se pela sala. Inúmeras horas de trabalho haviam sido desperdiçadas, num problema que aparentemente não tinha solução.
Abandonou a sala e dirigiu-se à casa de banho. Ao entrar e ver a sua imagem reflectida no espelho, teve uma ideia. Correu de volta à sala e repetiu os cálculos, assumindo um material reflector envolvendo o material. Concentrado, repetiu todos os cálculos. O resultado era muito mais animador, tão bom que decidiu repetir as contas para ter a certeza.
Os dois resultados coincidiam. O número era muito baixo. Dez quilogramas. Só eram necessários dez quilogramas.
- Come esta Oppenheimer! Desta vez levei a melhor! - exclamou triunfante.
Tinha na mão o resultado cientifico mais cobiçado do planeta. Não sabia o que fazer com ele. Não tinha dúvidas do uso que seria feito dele e também sabia que outros poderiam chegar às mesmas conclusões.
Eram nós ou eles. Uma pergunta com uma resposta muito fácil. Pegou uma folha em branco e começou a redigir uma carta.
O que Heisenberg escreveu ao Führer ficou para a história. Todos os recursos foram alocados àquele projecto. O ataque às ilhas britânicas foi contido por um ano e bastou apenas um bombardeamento como a nova bomba para Churchill assinar a rendição. Uma semana depois foi a vez de Estaline fazer o mesmo. O resto da Europa nem ousou oferecer resistência, sendo as principais capitais ocupadas numa questão de dias.
O Estados Unidos da América não aceitaram a derrota e tentaram impor uma guerra de desgaste em duas frentes e com a rendição da China ficaram totalmente sozinhos. Entretanto, o Reich havia desenvolvido um projéctil de longo alcance que podia ser lançado a partir de um submarino. Bastaram apenas dois para causar o mesmo pânico que na Europa e quebrar a resistência do inimigo.
O futuro da humanidade decidira-se numa simples folha de papel.


Este conto foi escrito como trabalho de um grupo de escrita.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Para pensar III

Não há nada mais desesperante do que um escritor que quer escrever e não pode.

15-09-2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A resposta

42!
A resposta é 42.
Só é necessário abrir o vosso motor de busca e pesquisar por “What is the meaning of life, universe and everything?”
Vou dar-vos um momento enquanto o fazem.
Quanta importância deveremos dar aos livros humorísticos de Douglas Adams na definição da vida? A resposta é óbvia: nenhuma.

Com meia dúzia de linhas e isto já está bastante confuso. Para confundir ainda mais, ninguém sabe qual é a pergunta. Qual pergunta, exigirá saber o mais céptico e exigente dos leitores? Isso é algo a que não posso responder. Ninguém sabe qual é a pergunta e duvido que tenham muito sucesso ao perguntar a ao autor.
Passando a diante.

Vida.
Obviamente o contrário de morte. Já repararam que existem muitos mais verbos e expressões para morrer do que para viver? Morrer, bater as botas, falecer, ir desta para melhor, sucumbir, esticar o pernil, perecer, ir para os anjinhos, soçobrar...
Grandes progressos. Já temos um número. E também várias palavras que definem o que não é a vida. Em que é que isso nos ajuda? Bem, praticamente nada.

E por falar em ajuda. Nunca comprem aqueles livros de auto-ajuda. É um desperdício de dinheiro. Esses tais livros até ajudam, mas não é ao leitor, é ao tipo que os escreveu. Depois de vender uns quantos exemplares, já houve muito pacóvio que o ajudou, pelo menos à conta bancária dele.

E sobre a vida? Bem isso fica para outro dia...

Este texto foi feito como desafio semanal de um grupo de escrita. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O duelo


Correu como um rio pelo monte ao encontro da sua amada. Filipe sentia tantas saudades que desejava voar como um falcão.

Ela era uma perfeita musa, de olhos escuros adornados por longos cabelos negros. Cara morena de expressão suave quase lhe derretia o coração com o seu sorriso. Podia até dizer-se que era de uma beleza de natureza mágica, ainda que todos se rissem dessa comparação.

Algo o esperava na vale. A figura encapuçada não parecia ser nada amigável.

Parou, a um passo de ser paralisado pelo medo que sentia. Sabia muito bem de quem se tratava. A hora tinha chegado e chegara muito mais cedo do que previra.

A espadas foram desembainhadas e as últimas preces proferidas. As armas chocaram e as faiscas saltaram. O duelo era equilibrado e equilibrados os duelistas estavam. Entre ataques, contra-ataques e defesas, recuos e avanços, o combate continuava.

Filipe sentiu o tempo abrandar à medida que passava mais tempo entre cada batida do coração. A espada vinha na direcção da sua face. Sem pensar levantou a bainha e desviou o golpe. Sem pensar, contra-atacou o oponente com um corte vertical.

O golpe encontrou carne e, tão rápido como tinha começado, o combate terminou. Era hora de voltar a casa.

Quando chegou à sua humilde cabana só esperava que ela não o fulminasse com o olhar assim que entrasse.


Este conto foi feito como desafio semanal de um grupo de escrita.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Nada e tudo


O meu nome é Félix e sou o homem com mais dinheiro que alguma vez existiu. Para ser mais exacto, eu não existo, eu acumulo. Quase todo o dinheiro da humanidade me pertence. Perdão! Se contarmos com os juros do último semestre, todo o dinheiro é meu e um pouco mais até.
Eu nasci numa família pobre e humilde. Tive de esperar até ser maior de idade para receber o primeiro milhão dos meus pais.
A maior parte de vós não se recorda da Terceira Guerra Mundial. Foi um conflito sangrento e sem sentido, se excluirmos o potencial de crescimento económico. Havia passado apenas quatro anos desde que a guerra terminara e todas as companhias de produção de equipamento bélico estavam num poço bolsista. Escusado será dizer que comprei grandes cotas por tuta-e-meia. Não o podia ter feito em melhor altura. Poucas semanas depois as tensões nacionalistas na Crimeia dispararam e, com elas, as vendas de material de guerra.
Previ que não seria um conflito longo, pois já todos andavam fartos de guerra e a comunidade internacional não tardaria a intervir. Tomei uma decisão crítica e vendi as acções nas primeiras horas do conflito, obtendo um valor muito próximo do seu máximo histórico. Com o lucro comprei várias de empresas de construção e reconstrui os locais devastados pelo conflito.
Investi as parcas dezenas de milhão que daí resultaram na banca e em companhias de seguros. A partir de agora, para facilitar, vamos omitir a palavra milhões e chamemos-lhe apenas dezenas. O crescimento de 15% por ano era bom, mas achei que podia fazer melhor, por isso investi na indústria alimentar.
A grande fome fez-me perder uns vinte (milhões) em compensações resultantes de seguros. Pior, apenas ganhei uns quarenta (milhões) nos outros dois ramos. Aproveitei, contudo, para comprar mais algumas seguradoras.
Quando atingi os duzentos (milhões), já a minha fama me precedia. Bastava comprar um (milhão) de acções para o mercado enlouquecer. Aproveitei-me disso e criei mais confusão. Nunca consegui ganhar dinheiro tão rápido como nessa altura. Aos vinte e cinco anos de idade já tinha atingido um bilião.
Cada vez que a bolsa perdia num sector eu aproveitava para comprar e assim as minhas cotas de mercado cresciam cada vez. O filão de ouro era mesmo a banca, já que emprestava dinheiro a todos os outros.
Não tardei a conseguir comprar corporações e até pequenos estados. Financiar guerras e reconstruções era a tarefa mais lucrativa. Quando isso não era possível, bastava emprestar dinheiro. Em menos que uma década havia poucas empresas que não me devessem dinheiro. Bastava mexer um pouco com a bolsa para tornar essas dívidas impagáveis e assim poder adquirir a empresa.
E foi assim que consegui adquirir todo o dinheiro do mundo. Então o inesperado aconteceu, as pessoas perderam o interesse no dinheiro. Ainda tinha todo o capital, mas a maioria não se preocupava com isso. Não consigo compreender como é que o fazem, mas é certo que o fazem.
Hoje em dia o dinheiro não tem praticamente valor, por isso não consigo decidir se sou o homem mais rico ou o mais pobre do mundo. Se tenho tudo ou não tenho nada.