Blogue dedicado às minhas aventuras literárias. Novos artigos todas as segundas, quartas e sextas. Rubrica especial de domingo: Chá de Domingo.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
O dilema de Winrich - parte 1/2
A ultima vez que Winrich tinha olhado para o relógio faltavam poucos minutos para as cinco da manhã. Na verdade eram quase sete da manhã, contudo Hitler insistira para que as tropas na Rússia operassem no horário alemão. Estava nevoeiro e tinha recentemente começado a nevar. Devido às condições meteorológicas adversas dessa quinta-feira, era impossível ver mais que alguns metros de distância a partir da janela.
Este deserto gelado não era muito diferente do deserto africano onde passara os últimos meses, concluiu, eram ambos compostos maioritariamente por vastas regiões vazias, onde não havia nem água, nem árvores, nem povoações e muito menos pessoas. Eram as condições ideias para conduzir uma ofensiva blindada, dissertou com um ar sonhador.
Ele estava sentado numa das salas reservada ao serviço de informação. O posto de comando do Sexto Exército ficava ali mesmo ao lado, no mesmo edifício. Estavam instalados numa aldeia cossaca, chamada Golubinsky, localizada na margem Oeste do rio Don, à cerca de cinquenta quilómetros da cidade.
Winrich Behr era alto e magro. Tinha vinte e quatro anos e detinha o posto de Major. Nascera em Berlim, também filho de um militar. Tinha sido transferido para a equipa operacional de Paulus no inicio de Outubro, como oficial do serviço de informação.
Antes disso tinha servido no Norte de África, onde ganhara a Cruz de Ferro de primeira categoria, que agora usava orgulhosamente ao pescoço. Era conhecido pelo seu sempre presente sentido de humor. Tinha uma face longa, com uma grande testa, com um tufo de cabelo preto no topo. Os olhos castanhos escuros transmitiam vivacidade.
As coisas era geridas aqui de maneira muito diferente da Afrika Korps. Para começar Rommel e Paulus eram muito diferentes um do outro. Paulus era um general competente, ninguém lhe podia retirar isso, contudo tinha um respeito quase sacramental das regras, o que o tornava as suas acções um tanto previsíveis. Rommel, pelo contrário, gostava de torcer e, por vezes, até quebrar as regras, não se importando muito com a hierarquia. Paulus era conhecido por jogar pelo seguro, pensando calmamente nas vantagens e riscos, enquanto Rommel estava preparado para arriscar tudo em operações ousadas, em que a brutalidade e violência eram as palavras de ordem. Por vezes parecia-lhe que Rommel tinha mais a personalidade de general do que Paulus, que ainda mostrava esporadicamente comportamentos de oficial. Se lhe pedissem para descrever numa palavra cada um dos homens, Rommel seria um artista enquanto Paulus seria um cientista. Ambas as personalidades tinham as suas vantagens e desvantagens, concluiu, e sem dúvida ambos dariam o seu melhor pela Alemanha.
A morte súbita e inesperada do general von Riechenau fora uma tragédia, que acabara por levar à promoção de Paulus, tornado-o comandante do Sexto Exército.
Ouviu o relógio assinalar as cinco da manhã.
A campanha bem sucedida em África nunca teria sido possível caso Paulus fosse o comandante, contudo, nem mesmo Rommel a conseguira levar a bom termo, apesar de ter ficado bem perto. As batalhas vitoriosas que travara, muitas vezes em inferioridade numérica e, quase sempre, com falta de abastecimento, ficariam sem dúvida na história. O único espinho na sua carreira era El Almein, onde o seu avanço fora travado. Novidades de uma nova batalha nesse local andavam na boca de todos. A verdade era dolorosa e ninguém queria acreditar que Rommel tivesse sido novamente derrotado.
Winrich ouviu o telefone tocar. Os seus pensamentos desfizeram-se imediatamente no éter, enquanto se apressava a atende-lo.
― Daqui Tenente Stöck. ― comunicaram do outro lado.
― Daqui Major Behr, estou a receber, qual é a situação?
Winrich abriu o livro onde deveria registar todas as comunicações, pegou num lápis, registou a hora e preparou-se para escrever.
O telefonema vinha da parte do vencedor da medalha de ouro nos jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Gerhard Stöck contara que, depois quatro lançamentos fracos, estava em quinto lugar. Contudo, nesse momento Hitler chegara ao estádio e a multidão aplaudira-o efusivamente. Isso motivou-o de tal modo que conseguiu fazer um lançamento de quase setenta e dois metros, ultrapassando o segundo lugar por mais de um metro, garantindo assim a medalha de ouro.
A prática do envio de oficiais de ligação fora proibida por Hitler contudo, os outros oficiais conseguiram convencer o General Schmidt das vantagens deste pequeno desrespeito das regras. Deste modo, Gerhard fora enviado com um rádio sem fios ao Quarto Corpo de Exército Romeno, estacionado na região a Noroeste da cidade, melhorando significativamente a comunicação entre as duas unidades.
― De acordo com a confissão de um oficial russo, capturado na área da Primeira Divisão de Cavalaria Romena, é esperado um ataque hoje as cinco da manhã.
― Já passa das cinco, há algum sinal duma ofensiva? ― respondeu Winrich, confirmando mais uma vez as horas.
― Ainda nada, tudo calmo. ― respondeu-lhe.
― Parece-me que é outro falso alarme dos romenos. Mas, ficou aqui registado.― concluiu Winrich, pensando tratar-se de outro falso alarme.
― Entendido. ― confirmou e de seguida desligou.
Winrich não sabia o que deveria fazer ou se realmente teria de fazer algo, por isso permaneceu no seu lugar, reflectindo sobre a informação recebida.
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
A Presença
A presença
Diário de Jessica Amaral
12 de Maio – O meu marido acordou novamente cansado, segundo ele, “ainda mais cansado do que se havia deitado”. Aparenta estar um pouco abatido. Se calhar devia obrigá-lo a consultar um médico.
13 de Maio – Ontem não consegui convencê-lo a ser consultado. Hoje farei um cozido à portuguesa para o nosso jantar. Pode ser que com o seu prato favorito ele me dê ouvidos.
14 de Maio – A visita ao médico não foi conclusiva. Não parece haver nada de errado com ele, talvez seja apenas cansaço. Vou tentar convencê-lo a trabalhar menos horas. Quase de certeza que a culpa é do patrão, aquele palhaço.
15 de Maio – Ele desmaiou no trabalho. O médico deu-lhe uma semana de baixa. Ele parece andar muito mais pálido.
16 de Maio – Ele acordou muito melhor, quase parecia outro. Está confirmado que era o trabalho que andava a dar cabo dele.
17 de Maio – Hoje ele estava abatido e apático. Vamos consultar o médico outra novamente.
18 de Maio – O médico, aliás, os médicos que o observaram ficaram admirados com o estado de saúde dele. Eles acham que deve ser algum problema metabólico. A partir de agora, ele deverá consumir o dobro das calorias para ver se isso o ajuda.
19 de Maio – Um dia com a nova dieta e já se notam alguns resultados positivos. Ele hoje até quis dar um passeio pelo parque. Está muito mais animado.
20 de Maio – O estado voltou a deteriorar-se. Não consigo compreender, vou ficar acordada durante a noite caso ele precise de alguma coisa.
21 de Maio – A noite foi muito estranha. Quando dei por mim tinha adormecido. Ao acordar, vi uma névoa azul a pairar sobre ele. O susto foi tão grande que não pude evitar gritar. Depois foi muito confuso, porque não se viu mais a névoa e ele acordou. Deve ter sido só um pesadelo.
22 de Maio – Voltei a acordar a meio da noite e voltei a ver aquela névoa azul. Algo me diz que não é um sonho e que aquilo é o responsável pela doença do meu marido.
23 de Maio – Eu não sou supersticiosa, mas esta situação deixa-me assustada. Voltei a ver o espírito. Aproximei-me para ver se era real ou não, mas quando estava perto algo me empurrou violentamente contra o sofá. Logo à noite tentarei expulsá-lo. Disseram-me para lhe atirar com água benta. Fui a igreja buscar um frasquinho dela. Esta noite estarei preparada. Deus me proteja desta influência maligna.
Jornal de Notícias, 25 de Maio
Duplo Homicídio em Tavira
Na tarde passada um casal na casa dos quarenta foi encontrado morto por uma vizinha. Não tivemos acesso ao local do crime, mas o comandante da GNR, o tenente Abílio Matos, descreveu-nos como sendo um horror e que a mulher fora desmembrada. Não houve qualquer porta arrombada ou sinais de intrusão. As autoridades descartaram a hipótese de roubo e garantiram que iriam investigar cuidadosamente o caso.
Este texto foi escrito como trabalho de um grupo de escrita.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
A selva
Nada deixava Guchu mais deprimido do que relembrar os três anos que passara naquele planeta azul. Poderia até ser interessante a posição de diplomata numa civilização de macacos, contudo, as suas atitudes deixavam-no quase sempre à beira de um ataque de fúria. Felizmente, a manhã estava solarenga e a comissão terminava nesse dia. O seu transporte não tardaria.
À primeira vista até se podia pensar que estávamos perante uma civilização evoluída e inteligente. Havia uma sociedade e a tecnologia desenvolvia-se a bom ritmo. Ainda bem que o tinham enviado, caso contrário iriam achar que estavam perante seres sofisticados.
A coisa mais irritante acerca daqueles macacos era sem dúvida o cuidado que tinham em manter certos rituais obsoletos. Todas aquelas formas demoradas de cumprimento esgotavam rapidamente a sua paciência.
A segunda coisa era no mínimo idiota, pois aqueles macacos adoravam manter aparências. Uma facção podia estar no limiar da pobreza ou derrota, contudo os seus líderes comportavam-se como se nada se passasse. Mais valia manter as aparências na queda do que descuidar o sorriso na vitória.
A última, e não menos ridícula, era o facto destes primatas passarem grande parte do tempo a tentarem enganar-se uns aos outros. Todas as regras e costumes eram tais que era sempre possível tirar partido do outro de maneiras muito pouco claras e nada justas. Este tipo de falcatruas era bastante frequente.
Apesar da bazófia e de se acharem com um grande poderio militar e armas devastadoras, estes mamíferos não faziam ideia do que se passava no resto do universo. Se imaginassem, nunca quereriam deixar aquela rocha periférica. No somatório de tudo, se lhe pedissem um relatório detalhado, ele poderia resumir a sua experiência, em jeito de anedota, numa palavra “inofensivo”.
Naquele momento recebeu uma mensagem, avisando-o que rebentara uma nova guerra no sector Gamma contra os lagartos e que os transportes poderiam estar condicionados durante a duração do conflito. Pouco depois recebeu outra e quase adivinhou o seu conteúdo. A missiva informava-o que acabara de ser promovido e que a sua comissão se prolongaria por outros três anos.
Frustrado, passou o resto do dia a escrever um relatório detalhado sobre o que se passara durante os últimos 36 meses. Já caíra a noite quando ele o leu e alterou pela última vez. Então, num instante de fúria, apagou todo o texto e enviou apenas “Inofensivo e primitivo. Tirem-me daqui!”.
Este texto foi escrito como trabalho de um grupo de escrita.
À primeira vista até se podia pensar que estávamos perante uma civilização evoluída e inteligente. Havia uma sociedade e a tecnologia desenvolvia-se a bom ritmo. Ainda bem que o tinham enviado, caso contrário iriam achar que estavam perante seres sofisticados.
A coisa mais irritante acerca daqueles macacos era sem dúvida o cuidado que tinham em manter certos rituais obsoletos. Todas aquelas formas demoradas de cumprimento esgotavam rapidamente a sua paciência.
A segunda coisa era no mínimo idiota, pois aqueles macacos adoravam manter aparências. Uma facção podia estar no limiar da pobreza ou derrota, contudo os seus líderes comportavam-se como se nada se passasse. Mais valia manter as aparências na queda do que descuidar o sorriso na vitória.
A última, e não menos ridícula, era o facto destes primatas passarem grande parte do tempo a tentarem enganar-se uns aos outros. Todas as regras e costumes eram tais que era sempre possível tirar partido do outro de maneiras muito pouco claras e nada justas. Este tipo de falcatruas era bastante frequente.
Apesar da bazófia e de se acharem com um grande poderio militar e armas devastadoras, estes mamíferos não faziam ideia do que se passava no resto do universo. Se imaginassem, nunca quereriam deixar aquela rocha periférica. No somatório de tudo, se lhe pedissem um relatório detalhado, ele poderia resumir a sua experiência, em jeito de anedota, numa palavra “inofensivo”.
Naquele momento recebeu uma mensagem, avisando-o que rebentara uma nova guerra no sector Gamma contra os lagartos e que os transportes poderiam estar condicionados durante a duração do conflito. Pouco depois recebeu outra e quase adivinhou o seu conteúdo. A missiva informava-o que acabara de ser promovido e que a sua comissão se prolongaria por outros três anos.
Frustrado, passou o resto do dia a escrever um relatório detalhado sobre o que se passara durante os últimos 36 meses. Já caíra a noite quando ele o leu e alterou pela última vez. Então, num instante de fúria, apagou todo o texto e enviou apenas “Inofensivo e primitivo. Tirem-me daqui!”.
Este texto foi escrito como trabalho de um grupo de escrita.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Nem mais um passo atrás! - parte 3/3
O início está presente em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/08/nem-mais-um-passo-atras-primeira-parte.html
A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/08/nem-mais-um-passo-atras-segunda-parte.html
Os relatórios das preparações alemãs continuaram a chegar mas, como ditador autoritário, não pudera crer que a situação pudesse ficar fora do seu controlo. Quando finalmente se convenceu que a invasão era iminente, dera as ordens para ficarem em alerta máximo contra uma ofensiva. Muitos dos oficiais da marinha e do exército simplesmente ignoraram-nas, por não acreditarem nessa possibilidade. Para a maioria das unidades, a ordem não chegou sequer a tempo.
Quando as notícias catastróficas da invasão chegaram aos seus ouvidos, ele simplesmente se deixara afundar na cadeira, ficando calado. Se o avanço alemão se tivesse mantido com a mesma velocidade, teria chegado a Moscovo em poucas semanas, como fizera em França. As suas assumpções erradas e maus cálculos tinham-no levado àquele ponto, e o pior era que, em grande parte, a culpa fora sua. Durante as primeiras horas, face aos relatórios desastrosos da frente, até considerara a hipótese duma tentativa de acordo de paz com a Alemanha, concedendo os territórios dos países de Leste.
A Rússia perdera quantidades gigantescas de homens e material nos primeiros dias da guerra. Naquele momento, mais de um ano depois, estava em risco não só o plano, como também a sobrevivência da própria nação.
Ioseb soubera exactamente quais as forças dos alemães e quais as suas, previra uma vitória fácil, mas não havia sido esse o resultado. O factor surpresa, aliado a tácticas militares mais avançadas, fora decisivo. Definitivamente, tinha sobrestimado a sua força militar e subestimado a do inimigo. Tinha ignorado os sinais antes da invasão, pensando não passarem de um jogo político de Hitler para ganhar mais alguns territórios.
Ioseb ainda não se convencera totalmente que a sua interferência política no exército, durante os anos 30, pudesse ter sido o ponto de partida para esta situação, apesar de saber que algumas pessoas fossem secretamente dessa opinião.
A culpa era, sem dúvida, do exército, que não cumprira o seu propósito. Tinha enviado divisão atrás de divisão contra os alemães no ano anterior, tudo sem qualquer resultado aparente, nada tinha sido capaz de pará-los. Corriam informações controversas de que alguns russos não só se haviam rendido, como haviam escolhido lutar ao lado dos alemães. Era verdadeiramente ultrajante alguém trair assim a Terra-Mãe.
O problema da disciplina era o único que poderia resolver naquele momento, esperando que isso fosse suficiente para virar o rumo dos acontecimentos.
― Faltam-nos ordem e disciplina nas companhias, nos regimentos e nas divisões, nas unidades blindadas e nos esquadrões da Força Aérea. Esta é a nossa maior falha. Temos que introduzir a mais precisa e forte disciplina no nosso exército, se queremos salvar a situação e defender a Terra-Mãe. Não podemos mais tolerar comandantes, comissários e oficiais políticos cujas unidades deixam a defesa relaxar. Não podemos mais tolerar o facto de que comandantes, comissários e oficiais políticos deixem os cobardes mandarem no campo de batalha, que os vendilhões de pânico levem outros soldados na sua fuga e deixem o caminho aberto para os inimigos. A partir de agora, vendilhões de pânico e cobardes deverão ser mortos no local.
Ioseb iria basear-se no que os alemães haviam feito para aumentar a disciplina na Wehrmacht. Bastava copiar a solução deles e aplicá-la no exército russo. Deveriam remover as insígnias a cada um desses militares e enviá-los para batalhões penais. A ideia da redenção através do sangue agradava-lhe bastante. Se resultara com a Alemanha, porque não haveria de resultar na União Soviética?
― A partir de agora, a disciplina será aplicada rigorosamente a cada oficial, soldado e oficial político. A partir de agora, nem um passo atrás sem ordem superior. Os comandantes de companhias, batalhões, regimentos e divisões, assim como os comissários e os oficiais políticos das patentes correspondentes, que recuarem sem ordens superiores, serão denominados traidores à Terra-Mãe. Serão tratados como traidores da Terra Mãe. Isto é um chamado da nossa Terra-Mãe. Cumprir esta ordem significa defender a nossa nação, salvar a nossa Terra-Mãe, ultrapassar e destruir o nosso odiado inimigo.
Esses batalhões penais seriam colocados nas secções mais perigosas da frente. Lavariam as suas faltas com o seu sangue. Iria guardar esses batalhões com outros batalhões mais leais e mais bem armados, que disparariam contra quem tentasse fugir. Não iria deixar que os alemães atravessassem o rio Volga, era altura de mudar o rumo aos acontecimentos.
Terminou as alterações ao discurso, especialmente nos detalhes em relação às medidas a aplicar. Devolveu os papéis a Aleksandr que voltou a deixar a sala.
Duas horas mais tarde, Aleksandr voltou com o documento corrigido e dactilografado. Ioseb Stalin assinou então o documento que ficou oficialmente conhecido como ordem número 227; porém, para o comum dos soldados, a ordem ficara conhecida como “Nem mais um passo atrás!”, uma ordem que seria apreciada por poucos e temida por muitos.
A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/08/nem-mais-um-passo-atras-segunda-parte.html
Os relatórios das preparações alemãs continuaram a chegar mas, como ditador autoritário, não pudera crer que a situação pudesse ficar fora do seu controlo. Quando finalmente se convenceu que a invasão era iminente, dera as ordens para ficarem em alerta máximo contra uma ofensiva. Muitos dos oficiais da marinha e do exército simplesmente ignoraram-nas, por não acreditarem nessa possibilidade. Para a maioria das unidades, a ordem não chegou sequer a tempo.
Quando as notícias catastróficas da invasão chegaram aos seus ouvidos, ele simplesmente se deixara afundar na cadeira, ficando calado. Se o avanço alemão se tivesse mantido com a mesma velocidade, teria chegado a Moscovo em poucas semanas, como fizera em França. As suas assumpções erradas e maus cálculos tinham-no levado àquele ponto, e o pior era que, em grande parte, a culpa fora sua. Durante as primeiras horas, face aos relatórios desastrosos da frente, até considerara a hipótese duma tentativa de acordo de paz com a Alemanha, concedendo os territórios dos países de Leste.
A Rússia perdera quantidades gigantescas de homens e material nos primeiros dias da guerra. Naquele momento, mais de um ano depois, estava em risco não só o plano, como também a sobrevivência da própria nação.
Ioseb soubera exactamente quais as forças dos alemães e quais as suas, previra uma vitória fácil, mas não havia sido esse o resultado. O factor surpresa, aliado a tácticas militares mais avançadas, fora decisivo. Definitivamente, tinha sobrestimado a sua força militar e subestimado a do inimigo. Tinha ignorado os sinais antes da invasão, pensando não passarem de um jogo político de Hitler para ganhar mais alguns territórios.
Ioseb ainda não se convencera totalmente que a sua interferência política no exército, durante os anos 30, pudesse ter sido o ponto de partida para esta situação, apesar de saber que algumas pessoas fossem secretamente dessa opinião.
A culpa era, sem dúvida, do exército, que não cumprira o seu propósito. Tinha enviado divisão atrás de divisão contra os alemães no ano anterior, tudo sem qualquer resultado aparente, nada tinha sido capaz de pará-los. Corriam informações controversas de que alguns russos não só se haviam rendido, como haviam escolhido lutar ao lado dos alemães. Era verdadeiramente ultrajante alguém trair assim a Terra-Mãe.
O problema da disciplina era o único que poderia resolver naquele momento, esperando que isso fosse suficiente para virar o rumo dos acontecimentos.
― Faltam-nos ordem e disciplina nas companhias, nos regimentos e nas divisões, nas unidades blindadas e nos esquadrões da Força Aérea. Esta é a nossa maior falha. Temos que introduzir a mais precisa e forte disciplina no nosso exército, se queremos salvar a situação e defender a Terra-Mãe. Não podemos mais tolerar comandantes, comissários e oficiais políticos cujas unidades deixam a defesa relaxar. Não podemos mais tolerar o facto de que comandantes, comissários e oficiais políticos deixem os cobardes mandarem no campo de batalha, que os vendilhões de pânico levem outros soldados na sua fuga e deixem o caminho aberto para os inimigos. A partir de agora, vendilhões de pânico e cobardes deverão ser mortos no local.
Ioseb iria basear-se no que os alemães haviam feito para aumentar a disciplina na Wehrmacht. Bastava copiar a solução deles e aplicá-la no exército russo. Deveriam remover as insígnias a cada um desses militares e enviá-los para batalhões penais. A ideia da redenção através do sangue agradava-lhe bastante. Se resultara com a Alemanha, porque não haveria de resultar na União Soviética?
― A partir de agora, a disciplina será aplicada rigorosamente a cada oficial, soldado e oficial político. A partir de agora, nem um passo atrás sem ordem superior. Os comandantes de companhias, batalhões, regimentos e divisões, assim como os comissários e os oficiais políticos das patentes correspondentes, que recuarem sem ordens superiores, serão denominados traidores à Terra-Mãe. Serão tratados como traidores da Terra Mãe. Isto é um chamado da nossa Terra-Mãe. Cumprir esta ordem significa defender a nossa nação, salvar a nossa Terra-Mãe, ultrapassar e destruir o nosso odiado inimigo.
Esses batalhões penais seriam colocados nas secções mais perigosas da frente. Lavariam as suas faltas com o seu sangue. Iria guardar esses batalhões com outros batalhões mais leais e mais bem armados, que disparariam contra quem tentasse fugir. Não iria deixar que os alemães atravessassem o rio Volga, era altura de mudar o rumo aos acontecimentos.
Terminou as alterações ao discurso, especialmente nos detalhes em relação às medidas a aplicar. Devolveu os papéis a Aleksandr que voltou a deixar a sala.
Duas horas mais tarde, Aleksandr voltou com o documento corrigido e dactilografado. Ioseb Stalin assinou então o documento que ficou oficialmente conhecido como ordem número 227; porém, para o comum dos soldados, a ordem ficara conhecida como “Nem mais um passo atrás!”, uma ordem que seria apreciada por poucos e temida por muitos.
FIM
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Nem mais um passo atrás! - parte 2/3
A primeira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/08/nem-mais-um-passo-atras-primeira-parte.html
― Cada comandante, soldado e comissário tem que entender que os nossos recursos não são infinitos. O território da União Soviética não é uma vastidão selvagem, pois está povoado por pessoas: trabalhadores, aldeões, intelectuais, os nossos pais e nossas mães, esposas, irmãos e crianças. O território da Rússia capturado pelo inimigo é pão e outros recursos para o exército e cidadãos, ferro e combustível para as indústrias, fábricas que fornecem os militares com equipamento e munições; e também caminhos-de-ferro. Já não temos superioridade sobre o inimigo em recursos e abastecimento de pão. Prosseguir com a retirada significa destruirmos-nos a nós mesmos e à nossa Terra-Mãe. Cada novo pedaço de território que deixamos ao inimigo deixa-os mais fortes e, a nós, às nossas defesas e à nossa Terra-Mãe, mais fracos.
Emocionou-se ligeiramente. O seu próprio filho havia sido capturado pelos Nazis no ano anterior. Não que se sentisse realmente ligado ao seu filho Yakov, somente porque ele era o último traço da única mulher que Ioseb alguma vez amara.
Pensou como sentia a falta de Ekaterina. Perguntava-se sobre o porquê duma morte tão prematura. Após o casamento, haviam tido somente quatro anos juntos, antes de ela morrer de tifo. Os momentos que partilharam foram tão felizes como efémeros. Ioseb não conseguia ficar indiferente àquelas memórias.
Infelizmente, o filho que ela deixara no mundo não era um exemplo para ninguém. Era absolutamente humilhante relembrar o dia em que se tentara suicidar devido a um desentendimento com um rabo de saias. Nem tão pouco conseguira apontar correctamente a pistola, de modo que falhara. Pior que esse episódio era o facto de se ter deixado capturar vivo pelos alemães.
Não podia deixar-se amolecer com aqueles sentimentos nostálgicos. Também ele estivera preso em campos de concentração por três vezes, sendo libertado somente numa delas; nas outras duas, conseguira escapar pelos seus próprios meios. Yakov era um inútil, concluiu, e um traidor por se deixar capturar tão facilmente pelos Nazis. Deveria ter lutado até a morte como qualquer soldado russo que amasse a Terra-Mãe. Envergonhava-o o facto de ter um filho assim. Como pai, não fora fácil, no entanto, já há meses que tinha tomado a decisão de rejeitar todas as propostas de troca por outros prisioneiros. Não iria ter um tratamento preferencial só por ser seu filho.
Ioseb voltou ao discurso, já tinha um lema na cabeça para dar vida a esta ordem. Sabia que não seria a primeira pessoa a usar essas palavras, no entanto, cabia-lhe usá-las novamente para inspirar o povo russo, como outros líderes já haviam feito com os seus povos. Acrescentou as duas linhas no texto, lançando um slogan:
― A conclusão é que é a altura para parar de fugir. Nem mais um passo atrás! Este será o nosso lema daqui em diante.
Ele sabia que teria de aproveitar o lema que acabara de introduzir e, por isso, modificou o texto que vinha no parágrafo seguinte.
― Temos de proteger cada fortaleza, teimosamente cada metro de solo Soviético, até à última gota de sangue; agarrar cada peça do nosso solo e defendê-lo enquanto for possível. A nossa Terra-Mãe irá passar tempos difíceis. Temos que os parar e, depois, mandá-los de volta e destruir o inimigo a qualquer custo. Os alemães não são tão fortes como os vendilhões de pânico dizem. Eles estão a esticar a sua força ao limite. Aguentar o seu golpe agora significa assegurar a vitória no futuro.
Ioseb ainda se lembrava do plano original para submeter completamente a Europa: apoiar diplomaticamente os alemães, encorajando-os para uma guerra. Os banqueiros ingleses e americanos estavam a agir do mesmo modo, apoiando a Alemanha economicamente. A Rússia fizera o melhor que podia ter fazer naquele ponto: manter-se neutra. Eventualmente, quando reunissem as condições necessárias, os Nazis iriam querer vingar-se da derrota que haviam sofrido na guerra anterior, atacando a França, Polónia e talvez o Reino Unido.
O plano era deixar os europeus lutarem entre si até estarem completamente esgotados e, no fim, atacaria a Alemanha e ocuparia esses países. A Rússia seria vista como arauto da paz e a salvadora da tirania Nazi e, provavelmente, poderia ocupar efectivamente esses países ou, pelo menos, torná-los estados semi-dependentes. Era a maneira mais fácil de expandir a esfera de influência da União Soviética e espalhar os ideias do comunismo, que eram, sem dúvida, melhores que o paradigma do capitalismo.
Claramente tinha subestimado a intuição de Hitler pois, de algum modo, ele tinha previsto o seu plano e antecipado uma resposta, atacando a União Soviética duma forma inesperada.
Os alemães não haviam feito muito esforço para esconder as preparações para o ataque, o que lhe fez crer que era apenas mais uma jogada política para conseguir a cedência de alguns territórios nos países de leste. O voo de Rudolf Hess para o Reino Unido só fazia com que a suspeita duma conspiração Germano-Britânica contra a Rússia ganhasse força na sua cabeça. O facto do embaixador alemão em Moscovo ter revelado os planos de Hitler uns dias antes só fez com que a situação parecesse cada vez mais uma conspiração. Chegou ao ponto de ele ter explodido de raiva, declarando que a desinformação chegara ao nível dos embaixadores. Até ao último momento, não considerara a hipótese duma invasão alemã, e ficara com receio de provocar a Alemanha, porque sabia que ainda era muito cedo para a Rússia a desafiar.
Emocionou-se ligeiramente. O seu próprio filho havia sido capturado pelos Nazis no ano anterior. Não que se sentisse realmente ligado ao seu filho Yakov, somente porque ele era o último traço da única mulher que Ioseb alguma vez amara.
Pensou como sentia a falta de Ekaterina. Perguntava-se sobre o porquê duma morte tão prematura. Após o casamento, haviam tido somente quatro anos juntos, antes de ela morrer de tifo. Os momentos que partilharam foram tão felizes como efémeros. Ioseb não conseguia ficar indiferente àquelas memórias.
Infelizmente, o filho que ela deixara no mundo não era um exemplo para ninguém. Era absolutamente humilhante relembrar o dia em que se tentara suicidar devido a um desentendimento com um rabo de saias. Nem tão pouco conseguira apontar correctamente a pistola, de modo que falhara. Pior que esse episódio era o facto de se ter deixado capturar vivo pelos alemães.
Não podia deixar-se amolecer com aqueles sentimentos nostálgicos. Também ele estivera preso em campos de concentração por três vezes, sendo libertado somente numa delas; nas outras duas, conseguira escapar pelos seus próprios meios. Yakov era um inútil, concluiu, e um traidor por se deixar capturar tão facilmente pelos Nazis. Deveria ter lutado até a morte como qualquer soldado russo que amasse a Terra-Mãe. Envergonhava-o o facto de ter um filho assim. Como pai, não fora fácil, no entanto, já há meses que tinha tomado a decisão de rejeitar todas as propostas de troca por outros prisioneiros. Não iria ter um tratamento preferencial só por ser seu filho.
Ioseb voltou ao discurso, já tinha um lema na cabeça para dar vida a esta ordem. Sabia que não seria a primeira pessoa a usar essas palavras, no entanto, cabia-lhe usá-las novamente para inspirar o povo russo, como outros líderes já haviam feito com os seus povos. Acrescentou as duas linhas no texto, lançando um slogan:
― A conclusão é que é a altura para parar de fugir. Nem mais um passo atrás! Este será o nosso lema daqui em diante.
Ele sabia que teria de aproveitar o lema que acabara de introduzir e, por isso, modificou o texto que vinha no parágrafo seguinte.
― Temos de proteger cada fortaleza, teimosamente cada metro de solo Soviético, até à última gota de sangue; agarrar cada peça do nosso solo e defendê-lo enquanto for possível. A nossa Terra-Mãe irá passar tempos difíceis. Temos que os parar e, depois, mandá-los de volta e destruir o inimigo a qualquer custo. Os alemães não são tão fortes como os vendilhões de pânico dizem. Eles estão a esticar a sua força ao limite. Aguentar o seu golpe agora significa assegurar a vitória no futuro.
Ioseb ainda se lembrava do plano original para submeter completamente a Europa: apoiar diplomaticamente os alemães, encorajando-os para uma guerra. Os banqueiros ingleses e americanos estavam a agir do mesmo modo, apoiando a Alemanha economicamente. A Rússia fizera o melhor que podia ter fazer naquele ponto: manter-se neutra. Eventualmente, quando reunissem as condições necessárias, os Nazis iriam querer vingar-se da derrota que haviam sofrido na guerra anterior, atacando a França, Polónia e talvez o Reino Unido.
O plano era deixar os europeus lutarem entre si até estarem completamente esgotados e, no fim, atacaria a Alemanha e ocuparia esses países. A Rússia seria vista como arauto da paz e a salvadora da tirania Nazi e, provavelmente, poderia ocupar efectivamente esses países ou, pelo menos, torná-los estados semi-dependentes. Era a maneira mais fácil de expandir a esfera de influência da União Soviética e espalhar os ideias do comunismo, que eram, sem dúvida, melhores que o paradigma do capitalismo.
Claramente tinha subestimado a intuição de Hitler pois, de algum modo, ele tinha previsto o seu plano e antecipado uma resposta, atacando a União Soviética duma forma inesperada.
Os alemães não haviam feito muito esforço para esconder as preparações para o ataque, o que lhe fez crer que era apenas mais uma jogada política para conseguir a cedência de alguns territórios nos países de leste. O voo de Rudolf Hess para o Reino Unido só fazia com que a suspeita duma conspiração Germano-Britânica contra a Rússia ganhasse força na sua cabeça. O facto do embaixador alemão em Moscovo ter revelado os planos de Hitler uns dias antes só fez com que a situação parecesse cada vez mais uma conspiração. Chegou ao ponto de ele ter explodido de raiva, declarando que a desinformação chegara ao nível dos embaixadores. Até ao último momento, não considerara a hipótese duma invasão alemã, e ficara com receio de provocar a Alemanha, porque sabia que ainda era muito cedo para a Rússia a desafiar.
A terceira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/08/nem-mais-um-passo-atras-terceira-e.html
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Nem mais um passo atrás! - parte 1/3
O dia tinha começado para Ioseb quando Aleksandr iniciou a leitura do seu relatório sobre a queda de Rostov. Ioseb sabia que a situação era crítica, pois o país corria um sério risco de ser cortado em dois e, se isso acontecesse, não poderiam receber mais ajuda inglesa nem americana.
Tinha bebido demasiado vinho na noite anterior mas, ao contrário do que muitos pensavam, o vinho aclarava-lhe as ideias ao invés das turvar. Era certamente um vício, mas sabia que conseguia controlá-lo na perfeição. Ioseb deu por si a olhar para o cabelo de Aleksandr enquanto ele expunha a situação, tentando perceber o porquê de usá-lo penteado para a esquerda, de uma maneira que considerava verdadeiramente ridícula.
― Espera lá! Repete o que disseste. ― ordenou Ioseb, subitamente alerta.
Aleksandr repetiu enquanto Ioseb se esforçava por se concentrar, andando para a frente e para trás na sala. Ao ouvir novamente, confirmou as suspeitas fundamentadas nos fragmentos que captara da primeira leitura.
― Esqueceram-se da minha ordem para as forças armadas! ― exaltou-se subitamente, interrompendo a leitura Referia-se à ordem que dera em Agosto passado, que definia o modo de lidar com desertores.
Aleksandr ficou estático, esperando que Ioseb continuasse.
― Esqueceram-na! ― repetiu, como se quisesse convencer-se a si mesmo.
A cabeça de Aleksandr fervilhava, tentando encontrar uma boa desculpa. Não fazia parte dos seus planos ser executado por traição.
― Escreve outra nos mesmos moldes! ― ordenou, virando-se para Aleksandr.
― Para quando quer que esteja pronta? ― perguntou Aleksandr, aliviado pela súbita mudança de atitude.
― Hoje! Avisa-me directamente assim que esteja pronta! ― ordenou Ioseb, ainda pensativo.
Ioseb passou o resto da manhã a divagar mentalmente, imaginando como seria bom poder ver um filme de cowboys acompanhado pelos outros membros do partido. Não que muitos fossem realmente seus amigos, a maioria esperava somente um momento de fraqueza da sua parte para ficarem com o seu lugar. Olhou várias vezes pela janela, para vislumbrar as ruas da capital russa, as quais haviam escapado à águia Nazi no ano anterior, quase por milagre. Tinha esperança de conseguir deter a campanha dos alemães daquele ano, sem ceder muito território. A estratégia de esgotá-los ao ponto da ruptura não havia tido resultados positivos até ao momento. As divisões alemãs avançavam impiedosamente, sem terem grandes perdas materiais nem humanas. Para além disso, Estalinegrado, a cidade que fora renomeada em sua honra, estava perigosamente exposta. Não havia maneira de ficar indiferente aos acontecimentos.
Quando Aleksandr voltou, já à tarde, com um rascunho da ordem, Ioseb não perdeu tempo. Pegou na folha de papel dactilografada e começou a lê-la em voz alta, como se fosse ele mesmo a dar o discurso pessoalmente a todo o Exército Vermelho. Ajudava-o a perceber os defeitos do texto.
― O inimigo usa cada vez mais e mais recursos na frente de batalha e, não prestando atenção às perdas, movimenta-se, penetra mais fundo na União Soviética, captura novas áreas, devasta e saqueia as nossas cidades e aldeias, viola, mata e rouba o povo soviético. Algumas unidades na frente Sul, seguindo as sugestões dos vendilhões de pânico, abandonaram Rostov e Novocherkassk sem uma resistência séria, nem qualquer ordem de Moscovo, cobrindo, assim, de vergonha os seus estandartes.
Aquelas palavras iriam inflamar o patriotismo. Era um bom início, pois era necessário fundamentar a ordem. Os tempos eram demasiado difíceis e, se deixassem de obedecer às suas ordens, seria o completo desastre. Nem sempre as ordens careciam de uma explicação propriamente dita, a maioria das vezes bastava uma motivação. Invocar o patriotismo era premissa mais que suficiente para todo o tipo de exigências. Naquele momento, cada ordem fazia a diferença entre a derrota e a vitória, pois nunca a União Soviética estivera tão perto de ser derrotada, nem mesmo no Verão anterior, quando os alemães chegaram às portas de Moscovo.
― A população do nosso país, que ama e respeita o Exército Vermelho, está a ficar desapontada com ele, perdendo gradualmente a fé no mesmo. Muitos amaldiçoam o Exército por fugir para Este e deixar a população debaixo das garras dos alemães.
Isto deveria convencer, mesmo os mais pacíficos, de que a situação não se resolveria com medidas suaves, sem criticar em demasia o exército. Estava satisfeito com o resultado.
― Algumas pessoas na frente confortam-se com argumentos descuidados, afirmando que podemos continuar a fugir para Este, pois temos um território vasto com muito solo e pessoas, e que teremos sempre abundância de pão. Com tais argumentos, eles tentam justificar o seu vergonhoso comportamento na frente. Esses argumentos são totalmente falsos, errados, e só favorecem os nossos inimigos.
Fez uma pausa. Parecia-lhe adequado, deveriam mostrar a todos que os que defendiam que a situação se poderia manter daquela forma eram inimigos da nação. No entanto, esta parte do discurso não podia ser muito dura, pois tinham primeiro que ganhar a simpatia dos que ainda eram leais à nação, convencendo-os que algumas coisas teriam de ser alteradas. Só mais tarde é que iriam impor as novas regras, quando estivessem prontos a aceitá-las.
Ao ler o parágrafo seguinte, ficou desapontado. Aleksandr tinha-se limitado a citar os factos duma maneira ingénua e simplista. Não bastava revelar simplesmente a verdade, era também necessário exagerá-la um pouco, quase ao ponto duma dramatização. Fez algumas alterações ao parágrafo e voltou a lê-lo em voz alta, de modo a testar o seu efeito.
Podem encontrar a segunda parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/08/nem-mais-um-passo-atras-segunda-parte.html
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
Tinha bebido demasiado vinho na noite anterior mas, ao contrário do que muitos pensavam, o vinho aclarava-lhe as ideias ao invés das turvar. Era certamente um vício, mas sabia que conseguia controlá-lo na perfeição. Ioseb deu por si a olhar para o cabelo de Aleksandr enquanto ele expunha a situação, tentando perceber o porquê de usá-lo penteado para a esquerda, de uma maneira que considerava verdadeiramente ridícula.
― Espera lá! Repete o que disseste. ― ordenou Ioseb, subitamente alerta.
Aleksandr repetiu enquanto Ioseb se esforçava por se concentrar, andando para a frente e para trás na sala. Ao ouvir novamente, confirmou as suspeitas fundamentadas nos fragmentos que captara da primeira leitura.
― Esqueceram-se da minha ordem para as forças armadas! ― exaltou-se subitamente, interrompendo a leitura Referia-se à ordem que dera em Agosto passado, que definia o modo de lidar com desertores.
Aleksandr ficou estático, esperando que Ioseb continuasse.
― Esqueceram-na! ― repetiu, como se quisesse convencer-se a si mesmo.
A cabeça de Aleksandr fervilhava, tentando encontrar uma boa desculpa. Não fazia parte dos seus planos ser executado por traição.
― Escreve outra nos mesmos moldes! ― ordenou, virando-se para Aleksandr.
― Para quando quer que esteja pronta? ― perguntou Aleksandr, aliviado pela súbita mudança de atitude.
― Hoje! Avisa-me directamente assim que esteja pronta! ― ordenou Ioseb, ainda pensativo.
Ioseb passou o resto da manhã a divagar mentalmente, imaginando como seria bom poder ver um filme de cowboys acompanhado pelos outros membros do partido. Não que muitos fossem realmente seus amigos, a maioria esperava somente um momento de fraqueza da sua parte para ficarem com o seu lugar. Olhou várias vezes pela janela, para vislumbrar as ruas da capital russa, as quais haviam escapado à águia Nazi no ano anterior, quase por milagre. Tinha esperança de conseguir deter a campanha dos alemães daquele ano, sem ceder muito território. A estratégia de esgotá-los ao ponto da ruptura não havia tido resultados positivos até ao momento. As divisões alemãs avançavam impiedosamente, sem terem grandes perdas materiais nem humanas. Para além disso, Estalinegrado, a cidade que fora renomeada em sua honra, estava perigosamente exposta. Não havia maneira de ficar indiferente aos acontecimentos.
Quando Aleksandr voltou, já à tarde, com um rascunho da ordem, Ioseb não perdeu tempo. Pegou na folha de papel dactilografada e começou a lê-la em voz alta, como se fosse ele mesmo a dar o discurso pessoalmente a todo o Exército Vermelho. Ajudava-o a perceber os defeitos do texto.
― O inimigo usa cada vez mais e mais recursos na frente de batalha e, não prestando atenção às perdas, movimenta-se, penetra mais fundo na União Soviética, captura novas áreas, devasta e saqueia as nossas cidades e aldeias, viola, mata e rouba o povo soviético. Algumas unidades na frente Sul, seguindo as sugestões dos vendilhões de pânico, abandonaram Rostov e Novocherkassk sem uma resistência séria, nem qualquer ordem de Moscovo, cobrindo, assim, de vergonha os seus estandartes.
Aquelas palavras iriam inflamar o patriotismo. Era um bom início, pois era necessário fundamentar a ordem. Os tempos eram demasiado difíceis e, se deixassem de obedecer às suas ordens, seria o completo desastre. Nem sempre as ordens careciam de uma explicação propriamente dita, a maioria das vezes bastava uma motivação. Invocar o patriotismo era premissa mais que suficiente para todo o tipo de exigências. Naquele momento, cada ordem fazia a diferença entre a derrota e a vitória, pois nunca a União Soviética estivera tão perto de ser derrotada, nem mesmo no Verão anterior, quando os alemães chegaram às portas de Moscovo.
― A população do nosso país, que ama e respeita o Exército Vermelho, está a ficar desapontada com ele, perdendo gradualmente a fé no mesmo. Muitos amaldiçoam o Exército por fugir para Este e deixar a população debaixo das garras dos alemães.
Isto deveria convencer, mesmo os mais pacíficos, de que a situação não se resolveria com medidas suaves, sem criticar em demasia o exército. Estava satisfeito com o resultado.
― Algumas pessoas na frente confortam-se com argumentos descuidados, afirmando que podemos continuar a fugir para Este, pois temos um território vasto com muito solo e pessoas, e que teremos sempre abundância de pão. Com tais argumentos, eles tentam justificar o seu vergonhoso comportamento na frente. Esses argumentos são totalmente falsos, errados, e só favorecem os nossos inimigos.
Fez uma pausa. Parecia-lhe adequado, deveriam mostrar a todos que os que defendiam que a situação se poderia manter daquela forma eram inimigos da nação. No entanto, esta parte do discurso não podia ser muito dura, pois tinham primeiro que ganhar a simpatia dos que ainda eram leais à nação, convencendo-os que algumas coisas teriam de ser alteradas. Só mais tarde é que iriam impor as novas regras, quando estivessem prontos a aceitá-las.
Ao ler o parágrafo seguinte, ficou desapontado. Aleksandr tinha-se limitado a citar os factos duma maneira ingénua e simplista. Não bastava revelar simplesmente a verdade, era também necessário exagerá-la um pouco, quase ao ponto duma dramatização. Fez algumas alterações ao parágrafo e voltou a lê-lo em voz alta, de modo a testar o seu efeito.
Podem encontrar a segunda parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/08/nem-mais-um-passo-atras-segunda-parte.html
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
O Duende
Naquele dia Carlos não conduzia o seu habitual carro de patrulha. Não estava de serviço, nem tão pouco poderia alguma vez explicar aos seus superiores o que tinha em mente para aquele fim-de-tarde. O sol ainda ai alto quando o quarentão saiu da esquadra para procurar o Duende.
É certo e sabido que os duendes são criaturas baixas, que andam por aí a assobiar, sempre prontos a pregar alguma partida, quais crianças travessas. Tudo isso era irrelevante, já que a única coisa que interessava aquele policia de meia idade era justamente o prémio que se obtêm quando se captura uma dessas criaturas. Se por acaso alguém lhe lesse os pensamentos naquele momento, iria certamente achar que estava na presença de um lunático.
Conduziu até à zona adjacente à zona de risco. Mais não se atrevia, pois conheciam a sua face e a última coisa que queria era ser apanhado por algum gangue. Enquanto fosse dia e se mantivesse neste bairro, não haveria problemas. Estacionou perto da escola e saiu do carro. Olhou em volta e com um ar confiante colocou os óculos escuros. Era a altura do espectáculo.
A qualquer momento os alunos iriam sair das aulas e com eles apareceria o Duende. Se o apanhasse, poderia finalmente pagar as duas prestações da casa que tinha em atraso. Fez o melhor que conseguiu para se fundir no ambiente e não chamar às atenções.
Num instante o pátio da secundária e a saída foram invadidos por uma multidão jovem. Carlos começou a entrar em pânico, o que lhe parecera fácil, estava a complicar-se a olhos vistos. O tentava perscrutar cada uma das faces, mas com tanto movimento, a tarefa era praticamente impossível.
Quando estava prestes a desistir, notou algo estranho pelo canto do olho. Um baixote, vestido com trapos coloridos e um chapéu esquisito. Passaria por uma criança em ponto grande ou um jovem com problemas mentais. Assobiava e caminhava alegremente em direcção à entrada.
O agente começou a caminhar na direcção do Duende, tentando parecer casual. Todos continuavam a desempenhar descontraidamente as suas rotinas e ninguém parecia ter ainda dado pela presença de ambos. Tudo pararia se soubessem a tensão daquele momento.
– Anda comigo, precisamos de falar. – ordenou Carlos, pegando o Duende pelo braço.
– Eu não fiz nada... – respondeu-lhe o jovem, entre o surpreendido e o assustado.
– Não te vai acontecer nada se fizeres o que te mando... – e aproximando-se do ouvido do rapaz, segredou-lhe – Estou armado, por isso não tentes nenhuma graçola.
O rapaz acenou afirmativamente com a cabeça. Tudo correra como previsto, pensou o polícia enquanto os dois se dirigiam ao carro, já que somente meia dúzia de pessoas se tinha apercebido.
– Ora bem, tu tens duas hipóteses. Primeira, tu dás-me o dinheiro do produto que andas a vender. Eu não te conheço, tu não me conheces e a história acaba bem. Segunda, a história acaba mal.
Felizmente para ambos, o Duende decidira pelo final feliz e assim Carlos pode pagar uma das prestações em atraso.
Este texto foi escrito como trabalho de um grupo de escrita.
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