segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Nem mais um passo atrás! - parte 1/3


O dia tinha começado para Ioseb quando Aleksandr iniciou a leitura do seu relatório sobre a queda de Rostov. Ioseb sabia que a situação era crítica, pois o país corria um sério risco de ser cortado em dois e, se isso acontecesse, não poderiam receber mais ajuda inglesa nem americana.
Tinha bebido demasiado vinho na noite anterior mas, ao contrário do que muitos pensavam, o vinho aclarava-lhe as ideias ao invés das turvar. Era certamente um vício, mas sabia que conseguia controlá-lo na perfeição. Ioseb deu por si a olhar para o cabelo de Aleksandr enquanto ele expunha a situação, tentando perceber o porquê de usá-lo penteado para a esquerda, de uma maneira que considerava verdadeiramente ridícula.
― Espera lá! Repete o que disseste. ― ordenou Ioseb, subitamente alerta.
Aleksandr repetiu enquanto Ioseb se esforçava por se concentrar, andando para a frente e para trás na sala. Ao ouvir novamente, confirmou as suspeitas fundamentadas nos fragmentos que captara da primeira leitura.
― Esqueceram-se da minha ordem para as forças armadas! ― exaltou-se subitamente, interrompendo a leitura Referia-se à ordem que dera em Agosto passado, que definia o modo de lidar com desertores.
Aleksandr ficou estático, esperando que Ioseb continuasse.
― Esqueceram-na! ― repetiu, como se quisesse convencer-se a si mesmo.
A cabeça de Aleksandr fervilhava, tentando encontrar uma boa desculpa. Não fazia parte dos seus planos ser executado por traição.
― Escreve outra nos mesmos moldes! ― ordenou, virando-se para Aleksandr.
― Para quando quer que esteja pronta? ― perguntou Aleksandr, aliviado pela súbita mudança de atitude.
― Hoje! Avisa-me directamente assim que esteja pronta! ― ordenou Ioseb, ainda pensativo.
Ioseb passou o resto da manhã a divagar mentalmente, imaginando como seria bom poder ver um filme de cowboys acompanhado pelos outros membros do partido. Não que muitos fossem realmente seus amigos, a maioria esperava somente um momento de fraqueza da sua parte para ficarem com o seu lugar. Olhou várias vezes pela janela, para vislumbrar as ruas da capital russa, as quais haviam escapado à águia Nazi no ano anterior, quase por milagre. Tinha esperança de conseguir deter a campanha dos alemães daquele ano, sem ceder muito território. A estratégia de esgotá-los ao ponto da ruptura não havia tido resultados positivos até ao momento. As divisões alemãs avançavam impiedosamente, sem terem grandes perdas materiais nem humanas. Para além disso, Estalinegrado, a cidade que fora renomeada em sua honra, estava perigosamente exposta. Não havia maneira de ficar indiferente aos acontecimentos.
Quando Aleksandr voltou, já à tarde, com um rascunho da ordem, Ioseb não perdeu tempo. Pegou na folha de papel dactilografada e começou a lê-la em voz alta, como se fosse ele mesmo a dar o discurso pessoalmente a todo o Exército Vermelho. Ajudava-o a perceber os defeitos do texto.
― O inimigo usa cada vez mais e mais recursos na frente de batalha e, não prestando atenção às perdas, movimenta-se, penetra mais fundo na União Soviética, captura novas áreas, devasta e saqueia as nossas cidades e aldeias, viola, mata e rouba o povo soviético. Algumas unidades na frente Sul, seguindo as sugestões dos vendilhões de pânico, abandonaram Rostov e Novocherkassk sem uma resistência séria, nem qualquer ordem de Moscovo, cobrindo, assim, de vergonha os seus estandartes.
Aquelas palavras iriam inflamar o patriotismo. Era um bom início, pois era necessário fundamentar a ordem. Os tempos eram demasiado difíceis e, se deixassem de obedecer às suas ordens, seria o completo desastre. Nem sempre as ordens careciam de uma explicação propriamente dita, a maioria das vezes bastava uma motivação. Invocar o patriotismo era premissa mais que suficiente para todo o tipo de exigências. Naquele momento, cada ordem fazia a diferença entre a derrota e a vitória, pois nunca a União Soviética estivera tão perto de ser derrotada, nem mesmo no Verão anterior, quando os alemães chegaram às portas de Moscovo.
― A população do nosso país, que ama e respeita o Exército Vermelho, está a ficar desapontada com ele, perdendo gradualmente a fé no mesmo. Muitos amaldiçoam o Exército por fugir para Este e deixar a população debaixo das garras dos alemães.
Isto deveria convencer, mesmo os mais pacíficos, de que a situação não se resolveria com medidas suaves, sem criticar em demasia o exército. Estava satisfeito com o resultado.
― Algumas pessoas na frente confortam-se com argumentos descuidados, afirmando que podemos continuar a fugir para Este, pois temos um território vasto com muito solo e pessoas, e que teremos sempre abundância de pão. Com tais argumentos, eles tentam justificar o seu vergonhoso comportamento na frente. Esses argumentos são totalmente falsos, errados, e só favorecem os nossos inimigos.
Fez uma pausa. Parecia-lhe adequado, deveriam mostrar a todos que os que defendiam que a situação se poderia manter daquela forma eram inimigos da nação. No entanto, esta parte do discurso não podia ser muito dura, pois tinham primeiro que ganhar a simpatia dos que ainda eram leais à nação, convencendo-os que algumas coisas teriam de ser alteradas. Só mais tarde é que iriam impor as novas regras, quando estivessem prontos a aceitá-las.
Ao ler o parágrafo seguinte, ficou desapontado. Aleksandr tinha-se limitado a citar os factos duma maneira ingénua e simplista. Não bastava revelar simplesmente a verdade, era também necessário exagerá-la um pouco, quase ao ponto duma dramatização. Fez algumas alterações ao parágrafo e voltou a lê-lo em voz alta, de modo a testar o seu efeito.

Podem encontrar a segunda parte em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/08/nem-mais-um-passo-atras-segunda-parte.html


Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O Duende


Naquele dia Carlos não conduzia o seu habitual carro de patrulha. Não estava de serviço, nem tão pouco poderia alguma vez explicar aos seus superiores o que tinha em mente para aquele fim-de-tarde. O sol ainda ai alto quando o quarentão saiu da esquadra para procurar o Duende.

É certo e sabido que os duendes são criaturas baixas, que andam por aí a assobiar, sempre prontos a pregar alguma partida, quais crianças travessas. Tudo isso era irrelevante, já que a única coisa que interessava aquele policia de meia idade era justamente o prémio que se obtêm quando se captura uma dessas criaturas. Se por acaso alguém lhe lesse os pensamentos naquele momento, iria certamente achar que estava na presença de um lunático.

Conduziu até à zona adjacente à zona de risco. Mais não se atrevia, pois conheciam a sua face e a última coisa que queria era ser apanhado por algum gangue. Enquanto fosse dia e se mantivesse neste bairro, não haveria problemas. Estacionou perto da escola e saiu do carro. Olhou em volta e com um ar confiante colocou os óculos escuros. Era a altura do espectáculo.

A qualquer momento os alunos iriam sair das aulas e com eles apareceria o Duende. Se o apanhasse, poderia finalmente pagar as duas prestações da casa que tinha em atraso. Fez o melhor que conseguiu para se fundir no ambiente e não chamar às atenções.

Num instante o pátio da secundária e a saída foram invadidos por uma multidão jovem. Carlos começou a entrar em pânico, o que lhe parecera fácil, estava a complicar-se a olhos vistos. O tentava perscrutar cada uma das faces, mas com tanto movimento, a tarefa era praticamente impossível.

Quando estava prestes a desistir, notou algo estranho pelo canto do olho. Um baixote, vestido com trapos coloridos e um chapéu esquisito. Passaria por uma criança em ponto grande ou um jovem com problemas mentais. Assobiava e caminhava alegremente em direcção à entrada.

O agente começou a caminhar na direcção do Duende, tentando parecer casual. Todos continuavam a desempenhar descontraidamente as suas rotinas e ninguém parecia ter ainda dado pela presença de ambos. Tudo pararia se soubessem a tensão daquele momento.

– Anda comigo, precisamos de falar. – ordenou Carlos, pegando o Duende pelo braço.

– Eu não fiz nada... – respondeu-lhe o jovem, entre o surpreendido e o assustado.

– Não te vai acontecer nada se fizeres o que te mando... – e aproximando-se do ouvido do rapaz, segredou-lhe – Estou armado, por isso não tentes nenhuma graçola.

O rapaz acenou afirmativamente com a cabeça. Tudo correra como previsto, pensou o polícia enquanto os dois se dirigiam ao carro, já que somente meia dúzia de pessoas se tinha apercebido.

– Ora bem, tu tens duas hipóteses. Primeira, tu dás-me o dinheiro do produto que andas a vender. Eu não te conheço, tu não me conheces e a história acaba bem. Segunda, a história acaba mal.

Felizmente para ambos, o Duende decidira pelo final feliz e assim Carlos pode pagar uma das prestações em atraso.


Este texto foi escrito como trabalho de um grupo de escrita.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O dia em que choveu fogo - parte 5/5



O início deste conto pode ser encontrado em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-primeira-parte.html

A quarta parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-quarta-parte.html

Num gesto quase mecânico, como se fosse um espectador das suas próprias acções, puxou o cordão do explosivo. Sem apreender totalmente a noção do que fizera, saltara para fora da trincheira. Correu meia dúzia de passos e estendeu-se ao comprido no chão. Esperou pela explosão.
Nada aconteceu. Percebeu que nem sequer sabia quanto tempo é que demorava depois de se puxar o cordel. Tendo em conta o estado do equipamento que lhe haviam dado, era provável que a granada nem sequer funcionasse. Outra possibilidade era de que nem sequer tivesse activado o mecanismo correctamente. No momento em que tomou consciência que os seus companheiros ainda estavam no buraco, o coração falhou-lhe uma batida. Tinha de voltar atrás e desarmar a bomba antes que ferisse alguém que não fosse suposto.
No instante em que se ia levantar, o engenho deflagrou. A luz e o som da explosão duraram apenas uma fracção de segundo. Sentiu o deslocamento violento do ar e um zumbido nos seus ouvidos. Era tarde demais. Quaisquer que fossem as consequências, não podiam mais ser evitadas.
Os outros soldados acordaram abruptamente. Durante longos momentos, houve um silêncio mortal, enquanto se escondiam nas trincheiras.
- Olhem, este aqui foi atingido – ouviu de dentro da trincheira.
Alexey pôs-se de pé e aproximou-se. Em poucos segundos, juntaram-se duas dezenas de pessoas em volta.
O braço estava desfeito, tendo os pedaços de músculo e osso sido espalhados em volta. O pescoço estava torcido num ângulo estranho e o crânio estava aberto. Parte da massa encefálica tinha sido derramada por cima da terra seca. O sangue e a poeira formavam uma pasta densa. Não havia dúvidas de que estava morto.
Ninguém levantou a hipótese de homicídio e todos culparam prontamente os alemães. Por entre os soldados, ele tremia, temendo ser apanhado a qualquer instante .
Antes de voltarem a adormecer, mudaram o corpo para dentro de uma cratera e deitaram terra sobre o sangue. Alexey apanhou vários sustos durante o processo, pois parecia-lhe que, a cada momento, o poderiam denunciar. Meia hora depois, à excepção dele e dos sentinelas, todos tinham adormecido.
Tinha acabado de matar. Ao fechar os olhos, conjurou involuntariamente a imagem do corpo desfeito. Achava que o tinha feito por necessidade, mas nem disso tinha certeza. Não era remorso que sentia, era medo de ser apanhado. A luz do dia iria revelar detalhes que tinham escapado durante a noite. O tenente não aceitaria a hipótese de acidente sem se questionar. Bastava que o interrogasse para que a verdade fosse descoberta. O terror que sentia só era comparável ao do bombardeamento. Por um momento, teve esperança de poder defender a sua posição e declarar que apenas se defendera. A ilusão durou pouco tempo, já que estava perfeitamente consciente da indiferença que existia na cadeia de comando. Culpado ou não, seria usado como exemplo para os restantes, sofrendo uma punição severa. Estremeceu violentamente ao imaginar o seu próprio fuzilamento.
Precisava de reagir, já que não queria ficar parado e esperar por aquilo que o destino lhe reservasse. Quase inconscientemente, começou a rastejar pela vala para Sul, esperando que ninguém desse conta. Suspeitando que os soldados de guarda estavam quase a dormir, atravessou por entre eles sem os alertar. Arrastou-se outras duas centenas de metros até se poder esconder por detrás de umas sebes.
Recuperou o fôlego durante um momento, apercebendo-se que tinha os cotovelos e as mãos em ferida. O véu da noite caia, dando lugar ao lusco-fusco cinzento que antecede o dia. O céu estava limpo, adivinhando outro dia quente.
Sabia que não podia esperar mais e, por isso, desatou a correr em direcção às linhas alemãs.

FIM

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O dia em que choveu fogo - parte 4/5


A primeira parte está aqui: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-primeira-parte.html
A terceira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-parte-35.html

Virou-se para o outro lado e tentou adormecer. Estava cansado, contudo, os nervos não o deixaram pregar olho durante longos minutos. Quando cedeu à fadiga, de lágrimas nos olhos, caiu num sono agitado.
Não sabendo ao certo se estava acordado ou a sonhar, viu o vulto do brigão a inclinar-se sobre ele e percebeu que ele iria agredi-lo. Tentou resistir, encolhendo-se ao sentir as mãos no seu pescoço. Agarrou os pulsos de quem o tentava sufocar, enquanto esperneava. Os braços do oponente pareciam feitos de aço e a pressão parecia a de uma máquina. Sentia-se asfixiar lentamente e todas a suas tentativas de se libertar tinham sido em vão. Então ouviu uma gargalhada maquiavélica e percebeu que era o fim. Quando acordou, estava coberto de suor.
A primeira coisa em que reparou foi que tudo estava muito mais silencioso. Aparentemente os combates haviam cessado e à excepção de algumas brasas incandescentes, a fogueira tinha-se extinguido. Todos dormiam tranquilamente.
Ao olhar para o brigão que dormia tranquilamente a seu lado, sentiu uma raiva enorme. Queria vingança, todavia não sabia como levá-la a cabo. Podia aproveitar-se do sono para o agredir, mas isso só lhe daria uma vantagem momentânea. Era inútil divagar sobre uma retaliação imaginária, pensou. O melhor a fazer seria dormir enquanto pudesse.
Ao virar-se, sentiu um alto sólido e desconfortável. Com os dedos, palpou o objecto, descobrindo que se trava de uma pedra. Desenterrou-a e pegou nela, notando que pesava à vontade meio quilo. De súbito, teve uma ideia. Podia servir-se de uma arma para ter vantagem. Um par de pedradas bem dadas certamente que o colocariam fora de combate. Precisava somente de uma pedra mais pesada, de modo a neutralizar o rufia no primeiro golpe. Foi isso que procurou nos momentos seguintes.
Assim que teve nas mãos uma pedra com uma aresta perigosa e um peso respeitável, olhou em volta. Todos estavam tranquilamente envolvidos nos seus sonos. Era muito arriscado aquilo que queria fazer. Provavelmente iria matá-lo e o seu maior receio era que alguém acordasse e testemunhasse o acto. Na manhã seguinte, iriam descobrir o corpo e ele seria inevitavelmente apanhado. Nesse momento, apercebeu-se que já não planeava simplesmente uma vingança, projectava um homicídio. Se pelo menos houvesse outra maneira de resolver as coisas, reflectiu. Pousou a pedra. Ocorreu-lhe que podia somente desertar. Era uma decisão de cobarde, mas também a mais fácil.
As opções eram simples, fugir ou enfrentar o problema. A escolha foi tomada rapidamente. Iria enfrentar o problema, todavia iria fazê-lo de outro modo. Só precisava de escolher um método eficaz.
Enquanto matutava no problema, os seus dedos percorriam a terra recentemente cavada. Por momentos, os seus pensamentos trilharam uns caminhos enquanto os seus dedos vagueavam por outros. Quando os dedos se depararam com a granada, os pensamentos convergiram com o tacto. Tinha encontrado a solução que procurava. Podia eliminar o rufia e fazer com que parecesse um acidente, era um plano perfeito.
Perscrutou mais uma vez as redondezas, procurando por elementos acordados. Tudo continuava calmo, talvez até estático demais.
Pegou na granada pelo cabo e encostou-a ao ombro do soldado, que não parecia ter-se apercebido de nada. Hesitou antes de puxar o cordão. Não haveria maneira de voltar atrás depois de o fazer. Sentiu um ligeiro tremor nas mãos, porventura derivado do nervoso miudinho que se apoderara do seu ser. Estava a um passo de matar. Não sabia se tinha direito de o fazer. A única certeza era de que, se não o fizesse, arriscava-se a ter o mesmo destino que projectara para o brigão.

A quinta e última parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-parte-55.html

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O dia em que choveu fogo - parte 3/5


O início está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-primeira-parte.html
A segunda parte pode ser encontrada aqui: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-segunda-parte.html

A maioria dos soldados mostrou-se um pouco mais confiante ao ouvir aquelas palavras desajeitadas, pois apelava ao seu ódio pelo inimigo. A moral não se manteve por muito tempo, sendo totalmente arrasada com o chegar dos abastecimentos. Em termos de comida, eram muito reduzidos, dando apenas um bocado de pão a cada um. Se haviam ficado desapontados com a alimentação, as armas deixaram-nos completamente desesperados. Havia apenas uma dúzia de pistolas e outra de espingardas. Munições vinham em duas caixas minúsculas. Para além disso, havia somente duas caixas de granadas. Nem o tenente conseguiu disfarçar a irritação que sentia.
- Não se preocupem, soldados. Deve ter havido algum engano. Eu irei pedir mais armas, munições e comida. Vamos ver se consigo arranjar uma ou duas peças de artilharia - prometeu apressadamente o jovem.
Quando o comandante foi à procura do comissário, as conversas que se seguiram provaram que ninguém havia acreditado na desculpa do engano. Alexey ouviu de tudo um pouco, desde insultos a propostas de fuga. Evitou participar, já que não queria arranjar mais sarilhos do que aqueles em que estava metido.
O pôr-do-sol revelou uma cidade em chamas. Os disparos de artilharia nunca cessaram por completo. Corriam rumores de que os alemães teriam já chegado ao rio, cercando a cidade e os seus defensores. Não chegaram mais abastecimentos e muito poucos dos soldados que tinham fugido durante o bombardeamento haviam regressado.
Parte das trincheiras foi reaberta e preparada para a noite. Enterraram os mortos num terreno adjacente e os feridos foram evacuados para a cidade. Finalmente, recolheram aos seus buracos no lusco-fusco.
Cansado e desmoralizado, escolheu um local para se deitar. Com um bocejo, pousou a seu lado a granada que lhe tinham dado e enrolou-se no seu cobertor, preparando-se para passar a noite. Ficara na extremidade da vala partilhada pelo resto do seu grupo de combate. No centro do buraco ardia uma fogueira que providenciava uma parca iluminação. Não havia comido o pedaço de pão que lhe calhara durante a tarde, pois receava não receber outro no dia seguinte.
Depois de cair a escuridão, tentou dormir, mas não conseguiu. As imagens dos aviões semeando a morte perturbavam-no fortemente. Não conhecia nenhum dos que havia falecido, aliás, procurara em vão pelos corpos dos três rufias. Não voltara a vê-los, por isso deduzira que haviam fugido.
Ouviu algo a seu lado. Um vulto acabara de entrar na trincheira. Quis dar o alarme, todavia o grito ficou-lhe preso na garganta. Era o líder dos rufias.
- Não precisas de ter medo, eu não vim para te fazer mal – prometeu com um tom e um sorriso que não inspiravam qualquer confiança.
Alexey não lhe respondeu, já que os seus piores receios se haviam tornado realidade.
- Estou a ver que ficaste mais esperto. Agora vais partilhar o teu pão comigo e ficamos todos amigos. Pode ser?
O tom de ameaça não lhe escapou. Sentiu a fúria a crescer dentro de si, estava farto de ser maltratado pelos brigões. Queria encontrar uma solução definitiva para aquele problema, mas não lhe ocorreu nada durante aquele momento que lhe foi dado para pensar. Queria lutar, mas sabia não estar à altura de o enfrentar.
- Então, miúdo? Ou me dás o teu pão ou vou ter que te partir os dentes.
- Já o comi... - mentiu Alexey, a tremer.
- Tu a mim não me enganas! Dá-me o pão, já! - exigiu, agarrando-o pelo colarinho.
- 'Tá bem! Eu já te dou.
Entre o humilhado e o agitado, retirou o pão do bolso e estendeu-lho. Como provocação, o outro rapaz decidiu comê-lo à sua frente. Alexey usou todo o seu auto-controlo para não o atacar. O rufia extorquiu-lhe também o cobertor e quis dormir ao seu lado, mesmo junto à extremidade da vala.

A continuação está aqui: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-quarta-parte.html

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O dia em que choveu fogo - parte 2/5


A primeira parte pode ser encontrada aqui: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-primeira-parte.html


Apercebendo-se de que estava a deixar-se dominar pelo pânico, abriu os olhos e forçou-se a respirar normalmente. Arriscou mais um olhar ao céu. Havia bombardeiros enormes, com um motor em cada asa. A acompanhá-los voavam unidades mais pequenas, com uma única hélice e de asas arqueadas.
Por instinto, outra explosão fê-lo encolher-se na sua toca. O ataque foi sucedido por múltiplos rebentamentos. Concluiu que estavam a arrasar as linhas defensivas da cidade, das quais fazia parte.
Passara um mês desde que fora chamado e tanto tinha mudado desde essa altura. Relembrava-se que fora um jovem cheio de convicções. Pensara que iria para a guerra para ser coberto de heroísmo e ajudar a repelir a ofensiva dos malditos Fritzes. Salvaria a cidade e o seu amor e, no fim, tudo ficaria bem. Infelizmente, a realidade era muito mais amarga do que os seus piores receios. Haviam-lhe dado somente uma pá e tivera de cavar valas durante dias a fio. De soldado não tinha nem treino, nem equipamento. Cobria-o ainda a roupa esfarrapada com que se apresentara na recruta.
O coração falhou-lhe uma batida ao pensar na sua querida Nastja. Desde que a conhecera, em Maio, que a sua vida dera uma volta enorme. Havia algo nela que o atraía e prendia, como se um véu de mistério a rodeasse. Tinham partilhado momentos fugazes e intensos. Não conseguia deixar de corar ao recordar a última noite que tinham passado juntos. Tinham feito amor naquele velho sótão de madeira abandonado, a melhor experiência da sua vida. Não queria morrer ali. Não havia olhar mais belo, nem nome mais bonito que o de Anastasia. Queria voltar para a sua amada, são e salvo. Desejava poder, mais uma vez, dormitar no seu regaço. Isso seria a sua maior felicidade.
Os pensamentos foram interrompidos pelo deflagrar de mais cargas explosivas. Encolheu-se ainda mais no buraco, como se isso pudesse aumentar as suas hipóteses de sobrevivência. Sentia-se impotente. Seria diferente se ao menos pudesse combater o inimigo cara-a-cara. Eram cobardes e dependiam das suas máquinas infernais para ganhar vantagem. De certo que não seriam tão corajosos em terra. Dava tudo para ter oportunidade de os enfrentar numa luta corpo-a-corpo.
O clamor de outra explosão fez-se ouvir tão perto que lhe deixou um zumbido nos ouvidos. Nesse instante, foi coberto com terra e detritos. Pensou que iria ficar soterrado, mas, felizmente, a quantidade não fora suficiente para tal. Ao inspirar, as suas vias respiratórias foram invadidas pela poeira que circulava no ar. Tossiu violentamente, tentando limpar a garganta. Os olhos lacrimejavam fortemente. Novas explosões fizeram-se sentir segundos depois.
Nos minutos que se seguiram, permaneceu encurvado na trincheira, coberto de terra. De súbito, tal como tinha começado, o ataque terminou. Os motores dos aviões e os rebentamentos só se ouviam à distância.
- Soldados, formar! - ouviu o seu tenente ordenar.
Alexey abriu os olhos a medo e não viu nenhuma aeronave no ar. Sacudiu a terra e ramos de tomate seco que se tinham acumulado sobre a sua cabeça, antes de se levantar e aproximar dos restantes.
Ao caminhar pelo terreno, deu-se conta das inúmeras crateras deixadas pelas bombas inimigas. Aqui e ali estavam corpos despedaçados. O cheiro a queimado infestava o ar. Evitou olhar demais, já que não queria vomitar o almoço. A bateria anti-aérea sumira e apenas um buraco com destroços espalhados em volta atestavam a sua existência. Os aviões alemães continuavam a sobrevoar o céu, fazendo-o essencialmente sobre a cidade. Sem se demorar mais, juntou-se ao grupo, permanecendo na última fila e em sentido.
- Mas que raio! Faltam aqui soldados. Tu aí, sabes contar? Conta-me os mortos e feridos. Rápido! - comandou o jovem, escolhendo um soldado da primeira fila.
Alexey olhou para a farda quase nova do seu tenente. Apesar de sujo, aquele uniforme assentava perfeitamente naquele corpo cheiinho. A barba rara denunciava a sua idade e inexperiência. Pertencer a um extracto superior da sociedade tinha a vantagem de se poder frequentar a academia militar. Todos tinham de servir a Terra-mãe, a diferença é que a maioria o fazia como soldados rasos, sem direitos nem regalias.
- Meu tenente, contei 18 feridos e 14 mortos – reportou o rapaz receoso.
- Faltam aqui mais de 50 recrutas! Se eles não estiverem de volta até ao pôr-do-sol, serão considerados desertores!
O comandante olhou para os seus soldados. Houve quem prendesse a respiração, antecipando uma punição severa.
- Nós somos uma das primeiras linhas de defesa da cidade. Os alemães estão perto e a qualquer momento poderão chegar à nossa posição. Em breve chegarão armas e rações, economizem-nas, pois não sei quando voltaremos a ter mais. Há dúvidas?
Como resposta, obteve um silêncio pesado.
- Vamos, soldados! Não vamos deixar que Estalinegrado caia! As nossas famílias moram ali - exclamou, apontando para a cidade. - Não podemos deixar que os alemães lhes ponham as mãos em cima. Eles irão violar as nossas mães e irmãs. Irão matar os nossos pais e saquear as nossas casas. Querem apoderar-se do nosso país e reduzir-nos à escravidão.

Este conto continua em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-parte-35.html

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O dia em que choveu fogo - parte 1/5


Era o quarto Domingo de Agosto quando Alexey ouviu os altifalantes anunciarem o bombardeamento. O jovem não esperou que os aviões surgissem no céu azul, onde o Sol brilhava intensamente, largando a pá e atirando-se para o fundo da trincheira. Não tinha capacete nem arma, por isso só lhe restava aninhar-se e proteger a cabeça com as mãos.
- Atenção camaradas, um ataque aéreo está eminente! - repetia, ao longe e sem cessar, a gravação.
Esperou pelos ruídos de motores e pelo rebentar de explosões, mas, do buraco cavado num campo de tomates, ouviu apenas risos.
Desde o primeiro momento que achara que estava rodeado de idiotas. Era ridículo pensar que aquele bando de maltrapilhos, que nem sequer uniforme tinha, conseguiria parar a máquina de guerra nazi. Deduziu que se riam da sua reacção. Questionava-se como seria possível gozar com tal aviso e, por isso, achou melhor ignorar, permanecendo no seu refúgio.
- Então Sacha, estás com medo?
Reconheceu a voz como pertencendo a um dos rufias do batalhão. Cerrou os punhos e, de súbito, quis esmurrar a cara de quem o insultava.
- Ser soldado não é para meninas - ouviu outra voz familiar acrescentar.
Não iria deixar que gozassem com ele daquela maneira, erguendo-se para os enfrentar. Como previra, encarou um pequeno grupo de três recrutas, que o olhavam com um olhar divertido. O mais alto era o manda-chuva do gangue. Andava sempre acompanhado por um rapaz bastante musculado e de nariz achatado, que parecia sofrer de um atraso mental. Nunca tinha visto o outro rapaz, contudo o seu porte impunha igualmente respeito. À semelhança do restante destacamento, tinham entre 16 e 18 anos de idade.
- Idiotas! Vão chatear outro! Era bem-feita que os Fritzes vos apanhassem - devolveu Alexey, desistindo de uma punição física.
- Olha o pirralho! Parece que finalmente saiu debaixo das saias da mãe... - riu-se o de maior estatura.
Tal era a confiança, que nem se apercebeu do projéctil que vinha na sua direcção. A pedra atingiu-o na testa, causando-lhe um corte pouco profundo.
Ele não esperou pela reacção dos brigões, saltando para fora da vala e desatando a correr. Ao início, conseguira uma grande vantagem, já que os apanhara desprevenidos. Ao olhar por cima do ombro, viu que o líder vinha no seu encalço e que eles eram muito mais rápidos que ele.
Com muito esforço, acelerou, numa tentativa de o fazer desistir da perseguição. Ouvia o passo de corrida atrás de si, cada vez mais perto. Não havia nenhum comandante à vista e os outros soldados iriam simplesmente ignorar a situação. Estremeceu ao perceber que iria apanhar uma sova monumental.
No momento seguinte foi atirado ao chão, caindo com a face na poeira. O rufia tinha aterrado por cima dele. Lutou para sair debaixo do rapaz, numa tentativa coroada de insucesso, já que o peso do outro era suficiente para o manter ali. Sentiu que lhe agarravam e torciam o braço, imobilizando-o por via da dor.
- Vais apanhar tantas... - prometeu o rufia com traços de fúria na voz.
Quanto tentou virar a cara para enfrentar o seu adversário, o primeiro murro atingiu-o na bochecha. Apanhou mais dois, enquanto teve uma vaga percepção de que os restantes elementos se aproximavam. Sentiu que ele saía de cima de si. Ao tentar levantar-se, um poderoso pontapé alcançou a sua barriga e Alexey colapsou na poeira. Durante um momento rebolou, respirando com dificuldade. Sentiu medo ao ver as faces dos seus oponentes, fixando por uma fracção de segundo o sangue que corria copiosamente pela face do que fora atingido. A maioria dos soldados tinha-se refugiado nas trincheiras e não haviam quem os impedisse de o espancar até à morte. Tinha de lutar, tinha de pelo menos ganhar tempo. Tentou pontapear o líder, mas este recuou um passo, colocando-se fora do alcance do golpe. Os rapazes riram-se do seu coice falhado.
O som estridente de um trompete de Jericó fez-se ouvir. Algures, ali perto, um bombardeiro alemão mergulhava em direcção à sua presa. Todos tiveram consciência de que alguém iria morrer nos próximos segundos. Num abrir e fechar de olhos, os brigões abrigaram-se também, deixando-o sozinho.
O som despertou nele o mais profundo e inexplicável dos terrores. Fechou os olhos, não queria ver o que julgava ser o seu fim. Não se conseguia sequer mexer. Tremeu como uma criança enquanto uma lágrima lhe percorria a bochecha. Não queria morrer.
O som continuou durante alguns segundos, sendo, de seguida, substituído pelo ruído do motor do avião. De imediato, uma explosão ensurdecedora fez-se ouvir. A terra estremeceu e a onda de choque atravessou-o.
Abriu os olhos. Uma nuvem de poeira envolvia a bateria anti-aérea. Olhou para o céu e viu numerosos aviões. A cruz preta com contorno branco nas asas não deixava margem para dúvidas de que se tratava de aviões alemães. Não se via nenhuma aeronave soviética e a artilharia capaz de os abater estava silenciosa. Face ao poderio germânico, sentiu-se pequenino como uma formiga. Rastejou até ao buraco mais próximo e aninhou-se no fundo. Fechou os olhos e susteve a respiração em antecipação ao perigo. O coração batia a um ritmo desenfreado.


A segunda parte pode ser encontrada em : http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/08/o-dia-em-que-choveu-fogo-segunda-parte.html