A primeira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/07/o-monstro-e-musa-primeira-parte.html
A segunda parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/07/o-monstro-e-musa-segunda-parte.html
– Eu exijo saber se este tal inventor pode resolver o nosso problema. Relembro que a sua captura foi custosa em material e homens e que ainda pode acalentar outras consequências mais graves – protestou um homem magricela à direita.
– Silêncio Xavier, observa primeiro, fala depois – comandou Artur, dispensando o ministro com um gesto. – Caro doutor Ramos, presumo que deve estar familiarizado com o que desencadeou o fim da era nuclear. Gostava que nos falasse um pouco sobre isso.
– Se é de história que quer ouvir falar, pois bem, enganou-se na especialidade. Deveria ter raptado um historiador, não um inventor – ironizou Walter, lançado um sorriso trocista a Artur.
– Como é que ele se atreve a falar assim contigo? Eu exijo que o castigues imediatamente! – exaltou-se um homem oponente de cabelo grisalho, também ele sentado à esquerda de Artur.
– Tem calma Aristides, precisamos dele vivo e inteiro – pediu Artur, repetindo o gesto que fizera para o outro ministro. – O senhor Ramos tem uma língua muito pouco domesticada, especialmente tendo em conta a sua situação precária. Agradecia que evitasse comentários jocosos enquanto estiver reunido com o concílio que rege este castro. Não se esqueça que temos os restantes membros da sua expedição como reféns.
– Não sei porque é que me está a perguntar isso. Só sei que a era nuclear terminou com o grande cataclismo.
– Já irá saber os meus motivos mas, primeiro, gostaria que nos falasse das razões desse cataclismo.
– O petróleo era um recurso finito e, quando começou a escassear, várias nações entraram em guerra pela posse das últimas reservas. O conflito escalou, transformando-se numa guerra mundial. Os conflitos mundiais duraram oito anos, em que vários milhões de pessoas pereceram. Não foram usadas armas nucleares, pois todos sabiam que isso poderia causar a extinção da espécie humana. Todavia, a aliança euro-asiática foi colocada numa posição delicada nos últimos estádios do conflito e decidiu usar o seu arsenal nuclear – relatou Walter.
De seguida, levantando-se abriu os braços com as palmas da mão viradas para o chão
– A morte desceu dos céus e o mundo antigo desapareceu, para sempre – citando a frase que era ensinada a todas as crianças
– Óptimo, eu não teria feito melhor. Deixe-me dizer-lhe que tem excelentes dotes de orador. Agora, se não se importar, podia falar-nos um pouco do que aconteceu depois do grande cataclismo?
– A maioria da população mundial morreu nesse dia. Nações inteiras foram apagadas do mapa. Os diversos líderes sobreviventes reuniram-se e decidiram destruir toda a tecnologia da era nuclear, de modo a evitar que algo semelhante pudesse voltar a acontecer.
– O Homem não deve possuir nem criar meios para se auto-destruir – citou Artur, afastando algo imaginário com a mão esquerda.
– Vejo que está bastante informado sobre o assunto...
– Poupe-nos o comentário. Já que insiste, vou directo ao assunto. Eu pretendo que recrie uma tecnologia da era nuclear.
Walter levantou-se impetuosamente e aproximou-se de Artur. Por um momento, perdera todo o medo, pois sentia que estava a servir um propósito maior.
– Bem, acho que me pode matar já. Não há nada que me convença a desenvolver tecnologia proibida e tenho a certeza que todos os outros sobreviventes são da mesma opinião. Mais facilmente abdicaremos das nossas vidas do que participaremos em tal loucura – gritou, apontando o dedo a Artur.
– Peço que se acalme – ordenou o líder, pedido, com um gesto, aos outros membros do concílio que fizessem o mesmo. – Diga-me, quais são as sete tecnologias proibidas. Sabe-as de cor?
– Claro que sei, é a primeira coisa que nos ensinam quando entramos na Academia Imperial das Ciências – constatou Walter, admirado com a aparente calma de Artur.
– Diga-as, em voz alta.
– É proibido manipular núcleos atómicos, assim como realizar fissuração e fusão nuclear. É proibido desenvolver propulsão a jacto ou qualquer outro projéctil ou veículo, tripulado ou não, que exceda a velocidade do som. É proibido construir máquinas que efectuem cálculos complexos mais rápido que a mente humana. É proibido acelerar e colidir qualquer partícula atómica e sub-atómica. É proibida a criação de compostos químicos que sejam altamente inflamáveis, corrosivos, explosivos ou tóxicos, sendo a única excepção a pólvora preta. É proibido manipular cadeias de DNA e a criação e manutenção de organismos altamente infecciosos ou letais para a espécie humana e ecossistemas em geral. São proibidas experiências psicológicas com o objectivo de ler ou manipular a mente humana. Qualquer pessoa, independentemente do estatuto, que viole ou tente alguma destas regras receberá a pena capital e todos os registos do seu trabalho devem ser imediatamente destruídos. Estas são as regras para evitar que a espécie humana se auto-destrua.
– Excelente dicção e não lhe encontrei nenhuma falha – congratulou Artur, batendo palmas.
– Contudo, julgaste-me mal, eu sei perfeitamente os limites. Somente sou bárbaro na vossa designação e não tenho ilusões megalómanas de poder. O que eu pretendo não irá violar nenhuma dessas regras.
– O que é que você pretende, então? – inquiriu Walter, confuso com mais uma reviravolta.
A face de Artur abriu-se num sorriso, enquanto se levantava e fazia sinal ao concílio para o imitar.
– Eu vou deixar que você próprio descubra. Isto é, vou-lhe mostrar o problema e você irá sugerir uma solução – anunciou o líder, apontando para a saída.
A quarta parte desta história está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/07/o-monstro-e-musa-quarta-parte.html
Blogue dedicado às minhas aventuras literárias. Novos artigos todas as segundas, quartas e sextas. Rubrica especial de domingo: Chá de Domingo.
terça-feira, 24 de julho de 2012
segunda-feira, 23 de julho de 2012
O monstro e a musa - parte 2/12
A primeira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/07/o-monstro-e-musa-primeira-parte.html
Walter foi separado dos restantes prisioneiros e forçado a caminhar até ao pôr-do-sol. Dormiu ao relento e, na manhã seguinte, prosseguiram viagem depois de lhe terem dado uma magra refeição. A marcha forçada por caminhos agrestes e inclinados estava a consumir-lhe as forças. Os bois e cavalos tinham ainda mais dificuldades, pois viam-se obrigados a carregar as pesadas peças de artilharia que haviam sido capturadas.
Pelos seus cálculos, estavam a penetrar cada vez mais nos territórios selvagens. Aquela faixa montanhosa ibérica separava a Pan-Germânia da Confederação, outrora chamada de Trás-os-Montes. Nunca conseguira compreender o porquê da Confederação insistir em manter aquele enclave na península ibérica quando tinha uma boa porção da América do Sul e ricos territórios em África. Os historiadores falavam de um passado comum que acontecera há quase um milénio atrás. Para além disso, até aqueles rebeldes falavam uma língua derivada do antigo português.
O dia teria ocorrido sem incidentes, se não fosse dois dos prisioneiros terem tentado a fuga. Foram prontamente apanhados e executados sumariamente, como exemplo para os restantes. Ainda o sangue dos dois homens não tinha coagulado, já a marcha continuava.
Andaram o resto do dia e metade do seguinte, terminando a sua jornada numa cidadela, a qual se situava no topo de um planalto. Os portões abriram-se à sua chegada e os guerreiros foram recebidos com aclamações da pequena multidão.
Walter ficou maravilhado enquanto o conduziam através da cidade, a qual não era em nada primitiva. As ruas eram paralelas, estavam impecavelmente pavimentadas e encontravam-se a abarrotar com máquinas a vapor. Os edifícios eram construídos em rocha trabalhada e estavam em bom estado de conservação. Inúmeros teleféricos transportavam tanto pessoas como carga. Era admirável como uma cidade tão sofisticada poderia existir àquela altitude e aparentemente isolada de tudo o resto.
Foi levado para uma construção imponente, que deduziu ser o palácio do governador. Obrigaram-no a subir por uma estreita escada de serviço. Sem qualquer explicação, fecharam-no à chave num quarto dos andares superiores. A divisão era espaçosa e bastante melhor do que esperava. Continha uma cama, uma escrivaninha, uma cadeira, uma estante vazia e um guarda-fatos.
Sentou-se na cama e, sem dar conta, deixou-se estender nela. Adormeceu por via do cansaço, pouco depois.
Acordaram-no inesperadamente, várias horas depois, quando lhe trouxeram comida. O prato continha um pedaço de pão, um bife e alguns vegetais cozidos a vapor. Estava esfomeado, de modo que não levantou objecções quanto à qualidade do prato. Para sua surpresa, fora muito bem confeccionado. Enquanto comia, pôde admirar o pôr-do-sol, já que a varanda estava virada para Oeste. Quando terminou a refeição, levantou-se a custo, pois os músculos estavam extremamente doridos.
Estava no terceiro andar do suposto palácio e o balcão proporcionava-lhe uma vista privilegiada da cidadela. A cidade possuía uma torre de relógio no centro, em frente do que Walter supôs ser a praça principal. As colunas de fumo vindas das extremidades dos teleféricos a vapor mostravam-lhe qual era a fonte de energia de toda a cidade. Avaliou o movimento e deduziu que viveriam ali entre duas a três dezenas de milhares de almas. As muralhas eram espessas e as torres de vigia estavam guarnecidas com diversas peças de artilharia, tanto contra balões como contra outra artilharia.
Voltou para dentro, sentando-se na cama, desanimado. Era pouco provável que a Confederação luso-brasileira arriscasse atacar aquela cidade para o resgatar. O que acontecera nos últimos dias abalara profundamente as suas convicções. Não era só o cativeiro, chocava-o mais saber que os povos bárbaros eram tão civilizados como o resto da Confederação. Foi quase em completo desespero que adormeceu.
Na manhã seguinte foi acordado, pois iria ter uma audição com o governador. Fizeram-no trocar as suas roupas esfarrapadas por um uniforme novo. Deram-lhe um pedaço de pão e um copo de água. Foi então conduzido pelos corredores até ao piso térreo. Pela primeira vez, reparou que o interior do edifício também fora construído em pedra e trabalhado com inúmeros ornamentos. Os tectos continham numerosos frescos. O que mais o desconcertava era que aquelas construções pertenciam à era pós-nuclear.
O salão principal era extremamente espaçoso e a sua abóbada tinha várias centenas de metros quadrados, fazendo lembrar uma antiga catedral. Esperava ver um trono e um líder sentado nele, coroado como os antigos reis, contudo não foi isso que encontrou. O comandante estava no centro da sala, acompanhado por um punhado de homens que supôs serem ministros. Em ambos os lados, mais afastados, estavam alguns soldados.
– Meu caro, espero que tenha gostado da estadia que lhe proporcionei – cumprimentou o comandante, sem quaisquer traços de ironia.
– Quem é o senhor? – devolveu-lhe Walter, pensando que estavam a brincar com ele.
– Peço imensa desculpa, não me tinha apresentado. Deve pensar que não passo de um selvagem, não é isso que chamam às gentes deste território? Eu sou Artur Olivais e sou o líder deste castro – e virando-se para os restantes – e este é o famoso doutor Walter Ramos, o inventor que veio do além-mar.
Walter continuava confuso, questionava-se como é que um líder poderia comandar pessoalmente ataques à Confederação. Era preciso uma grande dose de imprudência para o tentar e sangue-frio para o conseguir.
Artur levantou a mão e fez um gesto. Imediatamente várias cadeiras foram dispostas, formando uma meia-lua em frente de Walter. Sentiu um movimento por trás de si e, ao olhar, descobriu que um dos criados acabara de colocar uma cadeira perto de si.
– Sentemos-nos. Acredito que temos muito que conversar – pediu Artur.
A terceira parte deste conto pode se acedida em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/07/o-monstro-e-musa-terceira-parte.html
Walter foi separado dos restantes prisioneiros e forçado a caminhar até ao pôr-do-sol. Dormiu ao relento e, na manhã seguinte, prosseguiram viagem depois de lhe terem dado uma magra refeição. A marcha forçada por caminhos agrestes e inclinados estava a consumir-lhe as forças. Os bois e cavalos tinham ainda mais dificuldades, pois viam-se obrigados a carregar as pesadas peças de artilharia que haviam sido capturadas.
Pelos seus cálculos, estavam a penetrar cada vez mais nos territórios selvagens. Aquela faixa montanhosa ibérica separava a Pan-Germânia da Confederação, outrora chamada de Trás-os-Montes. Nunca conseguira compreender o porquê da Confederação insistir em manter aquele enclave na península ibérica quando tinha uma boa porção da América do Sul e ricos territórios em África. Os historiadores falavam de um passado comum que acontecera há quase um milénio atrás. Para além disso, até aqueles rebeldes falavam uma língua derivada do antigo português.
O dia teria ocorrido sem incidentes, se não fosse dois dos prisioneiros terem tentado a fuga. Foram prontamente apanhados e executados sumariamente, como exemplo para os restantes. Ainda o sangue dos dois homens não tinha coagulado, já a marcha continuava.
Andaram o resto do dia e metade do seguinte, terminando a sua jornada numa cidadela, a qual se situava no topo de um planalto. Os portões abriram-se à sua chegada e os guerreiros foram recebidos com aclamações da pequena multidão.
Walter ficou maravilhado enquanto o conduziam através da cidade, a qual não era em nada primitiva. As ruas eram paralelas, estavam impecavelmente pavimentadas e encontravam-se a abarrotar com máquinas a vapor. Os edifícios eram construídos em rocha trabalhada e estavam em bom estado de conservação. Inúmeros teleféricos transportavam tanto pessoas como carga. Era admirável como uma cidade tão sofisticada poderia existir àquela altitude e aparentemente isolada de tudo o resto.
Foi levado para uma construção imponente, que deduziu ser o palácio do governador. Obrigaram-no a subir por uma estreita escada de serviço. Sem qualquer explicação, fecharam-no à chave num quarto dos andares superiores. A divisão era espaçosa e bastante melhor do que esperava. Continha uma cama, uma escrivaninha, uma cadeira, uma estante vazia e um guarda-fatos.
Sentou-se na cama e, sem dar conta, deixou-se estender nela. Adormeceu por via do cansaço, pouco depois.
Acordaram-no inesperadamente, várias horas depois, quando lhe trouxeram comida. O prato continha um pedaço de pão, um bife e alguns vegetais cozidos a vapor. Estava esfomeado, de modo que não levantou objecções quanto à qualidade do prato. Para sua surpresa, fora muito bem confeccionado. Enquanto comia, pôde admirar o pôr-do-sol, já que a varanda estava virada para Oeste. Quando terminou a refeição, levantou-se a custo, pois os músculos estavam extremamente doridos.
Estava no terceiro andar do suposto palácio e o balcão proporcionava-lhe uma vista privilegiada da cidadela. A cidade possuía uma torre de relógio no centro, em frente do que Walter supôs ser a praça principal. As colunas de fumo vindas das extremidades dos teleféricos a vapor mostravam-lhe qual era a fonte de energia de toda a cidade. Avaliou o movimento e deduziu que viveriam ali entre duas a três dezenas de milhares de almas. As muralhas eram espessas e as torres de vigia estavam guarnecidas com diversas peças de artilharia, tanto contra balões como contra outra artilharia.
Voltou para dentro, sentando-se na cama, desanimado. Era pouco provável que a Confederação luso-brasileira arriscasse atacar aquela cidade para o resgatar. O que acontecera nos últimos dias abalara profundamente as suas convicções. Não era só o cativeiro, chocava-o mais saber que os povos bárbaros eram tão civilizados como o resto da Confederação. Foi quase em completo desespero que adormeceu.
Na manhã seguinte foi acordado, pois iria ter uma audição com o governador. Fizeram-no trocar as suas roupas esfarrapadas por um uniforme novo. Deram-lhe um pedaço de pão e um copo de água. Foi então conduzido pelos corredores até ao piso térreo. Pela primeira vez, reparou que o interior do edifício também fora construído em pedra e trabalhado com inúmeros ornamentos. Os tectos continham numerosos frescos. O que mais o desconcertava era que aquelas construções pertenciam à era pós-nuclear.
O salão principal era extremamente espaçoso e a sua abóbada tinha várias centenas de metros quadrados, fazendo lembrar uma antiga catedral. Esperava ver um trono e um líder sentado nele, coroado como os antigos reis, contudo não foi isso que encontrou. O comandante estava no centro da sala, acompanhado por um punhado de homens que supôs serem ministros. Em ambos os lados, mais afastados, estavam alguns soldados.
– Meu caro, espero que tenha gostado da estadia que lhe proporcionei – cumprimentou o comandante, sem quaisquer traços de ironia.
– Quem é o senhor? – devolveu-lhe Walter, pensando que estavam a brincar com ele.
– Peço imensa desculpa, não me tinha apresentado. Deve pensar que não passo de um selvagem, não é isso que chamam às gentes deste território? Eu sou Artur Olivais e sou o líder deste castro – e virando-se para os restantes – e este é o famoso doutor Walter Ramos, o inventor que veio do além-mar.
Walter continuava confuso, questionava-se como é que um líder poderia comandar pessoalmente ataques à Confederação. Era preciso uma grande dose de imprudência para o tentar e sangue-frio para o conseguir.
Artur levantou a mão e fez um gesto. Imediatamente várias cadeiras foram dispostas, formando uma meia-lua em frente de Walter. Sentiu um movimento por trás de si e, ao olhar, descobriu que um dos criados acabara de colocar uma cadeira perto de si.
– Sentemos-nos. Acredito que temos muito que conversar – pediu Artur.
A terceira parte deste conto pode se acedida em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/07/o-monstro-e-musa-terceira-parte.html
domingo, 22 de julho de 2012
O monstro e a musa - parte 1/12
O monstro
Nós sabíamos que o
mundo nunca mais seria o mesmo. Algumas pessoas riram-se, outras
choraram e a maioria ficou silenciosa. Eu lembrei-me de uma linha das
escrituras hindus, o Bhagavad-Gita. Vishnu tenta convencer o príncipe
a cumprir o seu dever e, para o impressionar, toma a sua forma de
múltiplos braços e diz “Eu agora tornei-me a morte, o destruidor
de mundos”. De um modo ou de outro, todos pensamos o mesmo.
Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica
Naquele
fim de tarde, Walter viu o caos instalar-se nos primeiros segundos de
batalha. De ambos os lados, os canhões rugiram assincronamente,
enquanto o jovem corria para encontrar cobertura. Agachou-se em
posição fetal, dentro duma depressão do terreno. Não podia fazer
muito mais, era um inventor, não um soldado.
Enquanto
a escaramuça decorria, amaldiçoou o momento em que se voluntariara
para a expedição. Apesar destas montanhas pertencerem à
confederação, desde cedo ficou claro que na realidade eram
controladas por insurgentes.
Uma
das explosões deu-se à sua direita, enchendo o buraco com pó e
detritos. Tanto os olhos como as vias respiratórias foram fortemente
afectadas, de modo que tossiu e lacrimejou durante minutos.
A
artilharia calara-se. Finalmente tudo tinha terminado, pensou,
espreitando para fora do buraco. O que viu deixou-o transtornado: a
maioria dos soldados que acompanhava a expedição estava morta ou
ferida; corpos mutilados e equipamento despedaçado encontravam-se
espalhados um pouco por todo o lado. A consternação transformou-se
em desespero quando viu que os restantes se tinham rendido. Ao olhar
em volta, percebeu que estavam cercados pelos rebeldes.
Não
tardou que alguns guerreiros com couraças de couro e latão o
encontrassem. Com as suas espadas e lanças, obrigaram-no a sair do
buraco. Enquanto o conduziam em direcção aos outros sobreviventes,
ergueu a cabeça e tentou caminhar com toda a dignidade que lhe
restava. Ao contrário do que esperava, não o agrediram.
Sobrara
pouco mais do que uma dúzia de homens. Os inimigos observavam-nos,
prontos a agir ao primeiro movimento suspeito. O momento era tenso,
pois ninguém sabia o que os esperava. O que Walter tinha ouvido
sobre os povos não governados fazia-o prever o pior.
Abruptamente,
fez-se silêncio. Os guardas afastaram-se, permitindo-lhes ver o que
lhes pareceu ser o comandante. Era um homem, de traços ibéricos e
estatura mediana. Não parecia ser muito forte contudo, a sua
expressão impunha respeito. Estava armado de um modo muito
semelhante aos restantes soldados, à excepção dos dois arcabuzes
extra que trazia à cintura.
– Quem
é o doutor Walter Ramos? – perguntou, num tom de voz moderado.
O
doutor não pôde evitar estremecer. Sabia que o medo que sentia saía
por cada poro e que nem a suposta dignidade conseguiria manter. Já
que ele permanecia estático no mesmo sítio, um dos sobreviventes
empurrou-o.
– Sou
eu...
– É
um prazer conhecê-lo pessoalmente – explicou o homem. – Os seus
serviços são-me necessários. Gostaria que você partilhasse os
seus conhecimentos e o seu génio inventivo com o meu castro.
– O
que o leva a pensar que eu vou fazer isso? – retorquiu Walter,
soltando a sua arrogância sem pensar.
–
Meu
caro, creio que estará mais familiarizado com uma tal ciência, à
qual antigamente davam o nome de física – fez uma pausa, olhando o
prisioneiro. – Sabe melhor que ninguém que até a pedra mais
pesada pode ser movida com o uso da alavanca correcta. É curioso que
o mesmo se passe com os homens.
Walther
não sabia como responder, acabando por permanecer em silêncio. Algo
lhe dizia que aquele homem ainda tinha trunfos na manga. O tempo
arrastou-se de um modo tenso.
–
Então,
qual vai ser a sua decisão? – insistiu o rebelde, mostrando-lhe
que estava a ficar impaciente.
– Gostava
de ver que alavanca é essa!
–
Para
ser sincero, não sei qual é a alavanca no seu caso. Se me permite,
vou-lhe contar um segredo. Eu sou um grande fã do método científico
e, por vezes, faço algumas experiências na minha cozinha.
Provavelmente estou a aborrecê-lo com as minhas palavras, já que
não deve estar muito interessado em ouvir falar da minha ciência
caseira. Só queria que soubesse que irei procurar de um modo
perseverante a sua alavanca. Creio que irei optar pelo método da
tentativa e erro – relatou, fazendo um gesto com mão.
Dois
insurgentes agarraram-no e levaram-no para mais perto do comandante.
–
Não
pense que me vai convencer com ameaças! – exclamou Walter,
tentando controlar o medo.
–
Meu
caro, já deve ter ouvido falar de um jogo antigo, creio que se
chamava xadrez. Era um jogo muito interessante. Para vencer era
preciso antecipar as jogadas do oponente. Todavia, para se ser um
mestre, era necessário cortar-lhe também as possibilidades, de modo
que ele caminhasse para a armadilha por vontade própria.
–Não estou a entender... – protestou o inventor.
–Não estou a entender... – protestou o inventor.
–Matem
os prisioneiros que não se puderem colocar de pé! – ordenou com
um sorriso sádico.
Vários
soldados inimigos colocaram-se à sua frente, de modo que não pôde
ver o que se passava. Não tardou que se ouvissem gritos de desespero
e angústia. Quando terminou, o silêncio ainda conseguia ser mais
sinistro.
–Meu
caro, espero que isto o tenha convencido a acompanhar-me –
satirizou o comandante.
A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/07/o-monstro-e-musa-segunda-parte.html
A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/07/o-monstro-e-musa-segunda-parte.html
segunda-feira, 4 de junho de 2012
A próxima estação
Como prometido aqui: http://pedro-cipriano.blogspot.com/2012/05/nachste-haltestelle.html esta é a versão portuguesa do conto.
Desde que acordara, naquele dia, que me parecera somente mais uma manhã como tantas outras. Porém, mal adivinhava o que estava prestes a presenciar.
Durante aqueles dias de Fevereiro, as temperaturas negativas assolavam a cidade ao longo de todo o dia. Durante a maior parte do ano, dias cinzentos e nublados eram a norma. As condições climáticas da cidade eram famosas por causarem uma onda massiva de depressão durante os meses mais frios. Claro está que eu não era excepção, passando grande parte do ano apático e desanimado.
Ao sair, apercebi-me que nevava. A onda gélida envolveu-me e o ar frio encheu-me os pulmões, não sendo das sensações matinais mais agradáveis que já havia sentido. Um manto cobria todo o espaço envolvente, enquanto pequenos flocos esvoaçavam livremente ao sabor do vento. A vontade de enfrentar aquele frio era nula. A vida era tão mais fácil dentro dos cobertores, por entre o meu mundo de sonhos. Por um momento, ponderei voltar para trás. Contudo, um vislumbre das consequências de chegar atrasado, impeliram a afastar-me mais do meu pequeno paraíso.
Ao afastar-me do edifício, a intensidade do nevão aumentou, já que este bloqueava grande parte da intempérie. Inclinei a cabeça e protegi-a com a mão enquanto a neve me castigava a face, em especial os olhos.
Da primeira vez que vi neve, recebi-a como a coisa mais maravilhosa que me havia acontecido. Estava na rua quando os primeiros flocos caíram e a magia do momento pareceu que iria captar o sentimento para o resto da minha vida. No entanto, passado pouco mais de dois meses, já não conseguia simplesmente suportá-la, com se aquele sentimento de harmonia pertencesse a outra vida. Passei pelas bicicletas, empilhadas junto à entrada, as quais ninguém se atrevia a usar com aquele temporal. Felizmente, ao contrário do dia anterior, alguém limpara o passeio e espalhara sal, o que certamente me poupou a várias quedas.
À medida que avançava, havia mais gelo e mais lama, de modo que tinha de tomar atenção constante para não cair. A caminhada não demorou mais do que cinco minutos, contudo, na minha mente pareceu demorar horas. Cheguei completamente enlameado e enregelado.
À entrada do metro, enquanto sacudia a neve que trazia sobre mim, reparei num anúncio afixado num painel. Já o tinha visto tantas vezes que normalmente nem reparava nele. Tratava-se de um morango envolvido por um preservativo, com o objectivo de alertar para o perigo da sida.
Desci as escadas, galgando dois degraus de cada vez, pois o som de fricção com os carris indiciava a recente chegada do metro. Porém, não cheguei a tempo. O ruído que ouvira fora afinal da partida, obrigando-me assim a esperar pelo próximo comboio. Verifiquei as horas, iria chegar bastante atrasado, constatei. Um sentimento de revolta aflorou-me ao peito, só me apetecendo barafustar devido à frustração que sentia.
A minha atenção foi atraída para uma jovem mulher. Não era a primeira vez que a via ali, pois desde há cerca de uma semana que a encontrava frequentemente sentada naqueles bancos, como se esperasse algo. Vestia umas calças de ganga, um comprido casaco bege e usava o seu cabelo loiro atado num rabo-de-cavalo. O que mais me intrigava na sua figura era a pele pálida e os olhos inchados de chorar. Naquele dia não era diferente, encontrando-a enrolada sobre si mesma.
– O que se passa? – perguntei, quebrando a rotina.
Ela retirou a cabeça de entre os braços e olhou-me nos olhos. A sua expressão dançou de assustada para agressiva.
– Vai-te foder! – insultou-me, com um gesto de desprezo.
Naquele momento, tive o impulso de me afastar e fingir que aquilo nunca havia acontecido, chegando mesmo a dar um passo atrás.
– Só te quero ajudar...
– Eu não preciso da tua ajuda! – exaltou-se, elevando a voz.
Por essa altura, já uma dúzia de pessoas tinha parado em redor, observando a situação.
– Qual é o teu problema? – insisti pela última vez.
– Quando se está morto, já não se tem problemas – respondeu-me com um sorriso que trazia um traço de histerismo.
A afirmação enigmática deixou-me extremamente confuso. Tentei ler-lhe o rosto, contudo, nele só encontrei um ar de resignação.
– Deixa-me ajudar-te...
– Ninguém me pode ajudar... – retorquiu, mostrando-se angustiada.
– Mas...
– Desaparece! Mete-te na tua vida! Deixa-me em paz! – gritou ela num tom agressivo e completamente fora de si.
Dei outro passo atrás. Decidi que não queria fazer mais parte daquele espectáculo, que já tinha vários espectadores. Olhei para o painel luminoso, vendo lá a minha escapatória. O metro deveria chegar à estação dentro de alguns segundos. Ela voltou a enterrar a cabeça no meio dos braços.
O som que se seguiu era característico. O metro entrou na estação acompanhado por uma grande deslocação de ar. Virei-me a tempo de ver o transporte a imobilizar-se. As portas abriram-se e algumas pessoas saíram. Fui dos primeiros a entrar, tendo direito a um lugar sentado, extremamente invulgar.
– Por favor, afaste-se do metro – pediu a voz automática do comboio.
Ouviu-se um apitar característico, enquanto as portas se fechavam. Voltei a olhá-la e, nesse momento, ela levantou a cabeça e devolveu-me o olhar com tal intensidade que não pude evitar estremecer. A sua expressão denotava uma calma como nunca tinha visto. A carruagem começou a movimentar-se lentamente, contudo depressa acelerou. Uns segundos depois, tanto ela como a estação tinham desaparecido do meu campo de visão.
A situação deixou-me pensativo, pois não fazia ideia do que se passava com ela. Era notório que precisava de ajuda mas, se não a queria, como é que alguém poderia intervir?
A meio do caminho, tive de abandonar o metro, pois a linha estava interrompida devido a obras. A partir dali tinha duas opções: mudava de linha e dava uma volta à cidade ou apanhava o autocarro de ligação. Nenhuma das opções me agradava particularmente, todavia optei pelo autocarro, por pensar que seria mais rápido. Mais do que enfrentar o nevão, detestava aquelas mudanças à minha rotina. Como era de esperar, acabei por chegar atrasado.
Durante a manhã, esqueci o sucedido. Estava convencido de que a maneira como ela me tratara não deixava grande espaço para simpatia. Ao meio-dia, tive oportunidade de voltar a casa. O nevão tinha cessado e a maior parte das ruas estava já limpa.
De modo a evitar o frio, decidi realizar o percurso mais longo de metro. Aproveitei para ler um livro e abstrair-me da realidade.
Uma estação antes do meu destino, o metro parou e fui obrigado a sair. A informação de que a linha estava cortada apanhou-me de surpresa, já que não havia qualquer manutenção planeada para aquele troço. Subi as escadas, em direcção à parte mais comercial daquela zona. Ao olhar a quantidade de pessoas que esperavam o autocarro, fiquei extremamente desanimado, já que implicava que o mesmo não passava por ali frequentemente.
Decidi então fazer o restante quilómetro a pé. Relembrei as primeiras vezes que havia tentado aquele caminho e que me havia perdido. Num acto de bom senso, retirei o mapa da minha sacola, fazendo-me ao caminho logo de seguida.
Recomeçou a nevar. Em ambos os lados da rua, as lojas de roupa e telemóveis fervilhavam de actividade. Nem o mau tempo impedia as pessoas de comprar e consumir, reflecti amargamente, que vida tão infeliz e fútil.
Um quarto de hora depois, cheguei à minha estação. Ignorando o frio, decidi não resistir à curiosidade e aproximar-me dum grupo de pessoas na paragem de autocarro.
– Desculpe, o que é que se passou para a linha de metro estar interrompida? – perguntei a uma das pessoas.
Recebi vários olhares de indiferença e mau humor. Era óbvio que estavam bastante chateados por lhes terem alterado a rotina.
– Houve um suicídio hoje de manhã, nesta estação... – respondeu-me um homem na casa dos cinquenta.
– Uma jovem atirou-se para debaixo do metro... – acrescentou uma quarentona, ajeitando o seu cesto das compras e virando-me as costas.
Este pequeno conto foi publicado na Antologia Corda Bamba. Está disponível, caso estejam interessados entrem em contacto pelo email: pedro.cipriano@desy.de
Link da eidtora: http://pastelariaestudios.blogspot.de/2012/07/corda-bamba-o-livro.html
terça-feira, 22 de maio de 2012
A queda de von Reichenau - parte 3/3
A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-parte-1.html
A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-segunda-parte.html
Quando recuperou os sentidos, sentiu-se muito estranho. Não fazia a mais pequena ideia de quanto tempo estivera naquele estado, nem onde estava. Abriu os olhos e tomou consciência de que se encontrava dentro de um avião. O Dornier estava em pleno voo e estremecia vigorosamente. Tentou focar o pensamento e concentrar-se sem conseguir. O avião tinha um único compartimento. Além dele mesmo, parecia haver somente outras duas pessoas a bordo. Reconheceu imediatamente o médico e oficial Dr. Flade. O piloto praguejava com ele, parecia estar a ter dificuldades em manobrar o avião. De repente, Walter apercebeu-se que estava amarrado a uma cadeira de rodas. Tentou falar mas só conseguiu articular alguns sons sem nexo. Tentou levantar a mão mas esta parecia não responder, assim como os pés. Somente conseguia mexer ligeira e desordenadamente os dedos. Este estado assustava-o, sentia-se impotente. Decidiu então deixar-se ficar imóvel, na esperança que aquele estado passasse depressa. A dor intensa voltou e Walter finalmente lembrou-se do que se tinha passado. Todos os acontecimentos desse dia ficaram subitamente vivos na sua memória. Walter tentou lutar contra a dor, não podia ficar inconsciente novamente. Apesar da dor ser forte, ele ainda a conseguia suportar. A situação devia ser grave, para se darem ao trabalho de o meterem num avião ao invés de o tratarem no hospital militar. Perguntou-se a si mesmo sobre o que se teria passado, enquanto estivera inconsciente. Será que os russos tinham montado uma ofensiva surpresa e chegado perto da sua posição, e ele estava a ser evacuado? Será que tinha sido ferido durante a batalha? Será que alguém tinha convencido um soldado revoltado ou espião russo a matá-lo? Será que os ingleses tinham lançado pára-quedistas assassinos em Poltava? Mas como é que alguma dessas hipóteses podia ser possível se não se recordava de nada? Concluiu que nada disso era humanamente possível, só podia ser realidade se estivesse muito doente. E esse pensamento foi uma revelação: estava doente, e era grave.
Em negação, a sua mente tranquilizou-o imediatamente, criando uma alternativa à realidade: podia ser apenas um pesadelo, tudo parecia demasiado irreal. Porém, desde criança que não tinha um sonho que considerasse tão plausível como este. A verdade é que, na maior parte dos dias, nem sequer se lembrava do sonho que tivera durante a noite. Para além de tudo, sentia demasiado desconforto para ser somente um sonho.
E se não fosse um sonho?
No seu íntimo, perguntava-se sobre o que aconteceria se morresse. Tentou afastar essa ideia. Ainda só tinha cinquenta e sete anos, era novo demais para morrer. Esse pensamento reconfortou-o durante alguns segundos, enquanto a dor de cabeça se intensificava. Sem se dar conta, começou a entrar em pânico. O avião estremecia cada vez mais. Talvez estivesse no meio de uma tempestade ou sido atingido por um caça inimigo. Mas isso não era possível, a Rússia já não tinha aviões nem pilotos capazes desde o infanticídio aéreo do ano anterior. Só podia ser uma tempestade. Os dois soldados continuavam a falar alto e desordenadamente mas, para aumentar o desespero de Walter, ele não conseguia perceber o que diziam, porque nenhuma das palavras fazia sentido na sua cabeça. O pânico intensificou-se, como era possível que não conseguisse entender o que diziam? Estaria a ficar maluco e a perder capacidades?
De seguida, o pânico desapareceu e veio a calma. Provavelmente iria morrer mesmo que o avião não se despenhasse, e talvez fosse melhor assim. A dor era intensa e sentia-se desorientado. Se morresse agora não haveria grande problema, aliás, este estado não lhe permitia comandar absolutamente nada. Já dera tudo à nação, já podia morrer em paz. Conseguia aceitar isso com naturalidade. Fechou os olhos, sentia-se cansado de lutar para se manter acordado quando lhe apetecia dormir, dormir durante muito tempo. Tinha feito a sua parte, não se arrependia de nada do que fizera na sua vida. E também não tinha pena daquilo que ainda não tinha feito e que quase certamente já não iria fazer por ser quase impossível. Tinha servido a Alemanha nas duas guerras, dando sempre a sua total dedicação. O seu sucessor seria Paulus, o qual estava sem dúvida à altura da tarefa. Um dia também ele chegaria ao posto de Generalfeldmarschall ou até mesmo a comandante supremo, tinha todas as características necessárias. O sexto exército continuaria nas suas mãos. Era o exército mais bem treinado e melhor equipado do mundo, era invencível. A Rússia seria derrotada ainda esse ano. Os judeus seriam exterminados da face da terra pouco depois. Ele seria recordado como um herói que dera a vida pela Nação e uma grande estátua seria erguida em sua honra. A Alemanha obteria a vitória final contra todos os seus inimigos, todos os alemães ficariam juntos numa única Nação que decidiria o destino de todas as outras nações do mundo durante pelo menos três milénios. Tudo seria perfeito! Essa visão do futuro encheu-o de alegria, já não sentia dor. Sorriu. E depois, veio a escuridão eterna.
A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-segunda-parte.html
Quando recuperou os sentidos, sentiu-se muito estranho. Não fazia a mais pequena ideia de quanto tempo estivera naquele estado, nem onde estava. Abriu os olhos e tomou consciência de que se encontrava dentro de um avião. O Dornier estava em pleno voo e estremecia vigorosamente. Tentou focar o pensamento e concentrar-se sem conseguir. O avião tinha um único compartimento. Além dele mesmo, parecia haver somente outras duas pessoas a bordo. Reconheceu imediatamente o médico e oficial Dr. Flade. O piloto praguejava com ele, parecia estar a ter dificuldades em manobrar o avião. De repente, Walter apercebeu-se que estava amarrado a uma cadeira de rodas. Tentou falar mas só conseguiu articular alguns sons sem nexo. Tentou levantar a mão mas esta parecia não responder, assim como os pés. Somente conseguia mexer ligeira e desordenadamente os dedos. Este estado assustava-o, sentia-se impotente. Decidiu então deixar-se ficar imóvel, na esperança que aquele estado passasse depressa. A dor intensa voltou e Walter finalmente lembrou-se do que se tinha passado. Todos os acontecimentos desse dia ficaram subitamente vivos na sua memória. Walter tentou lutar contra a dor, não podia ficar inconsciente novamente. Apesar da dor ser forte, ele ainda a conseguia suportar. A situação devia ser grave, para se darem ao trabalho de o meterem num avião ao invés de o tratarem no hospital militar. Perguntou-se a si mesmo sobre o que se teria passado, enquanto estivera inconsciente. Será que os russos tinham montado uma ofensiva surpresa e chegado perto da sua posição, e ele estava a ser evacuado? Será que tinha sido ferido durante a batalha? Será que alguém tinha convencido um soldado revoltado ou espião russo a matá-lo? Será que os ingleses tinham lançado pára-quedistas assassinos em Poltava? Mas como é que alguma dessas hipóteses podia ser possível se não se recordava de nada? Concluiu que nada disso era humanamente possível, só podia ser realidade se estivesse muito doente. E esse pensamento foi uma revelação: estava doente, e era grave.
Em negação, a sua mente tranquilizou-o imediatamente, criando uma alternativa à realidade: podia ser apenas um pesadelo, tudo parecia demasiado irreal. Porém, desde criança que não tinha um sonho que considerasse tão plausível como este. A verdade é que, na maior parte dos dias, nem sequer se lembrava do sonho que tivera durante a noite. Para além de tudo, sentia demasiado desconforto para ser somente um sonho.
E se não fosse um sonho?
No seu íntimo, perguntava-se sobre o que aconteceria se morresse. Tentou afastar essa ideia. Ainda só tinha cinquenta e sete anos, era novo demais para morrer. Esse pensamento reconfortou-o durante alguns segundos, enquanto a dor de cabeça se intensificava. Sem se dar conta, começou a entrar em pânico. O avião estremecia cada vez mais. Talvez estivesse no meio de uma tempestade ou sido atingido por um caça inimigo. Mas isso não era possível, a Rússia já não tinha aviões nem pilotos capazes desde o infanticídio aéreo do ano anterior. Só podia ser uma tempestade. Os dois soldados continuavam a falar alto e desordenadamente mas, para aumentar o desespero de Walter, ele não conseguia perceber o que diziam, porque nenhuma das palavras fazia sentido na sua cabeça. O pânico intensificou-se, como era possível que não conseguisse entender o que diziam? Estaria a ficar maluco e a perder capacidades?
De seguida, o pânico desapareceu e veio a calma. Provavelmente iria morrer mesmo que o avião não se despenhasse, e talvez fosse melhor assim. A dor era intensa e sentia-se desorientado. Se morresse agora não haveria grande problema, aliás, este estado não lhe permitia comandar absolutamente nada. Já dera tudo à nação, já podia morrer em paz. Conseguia aceitar isso com naturalidade. Fechou os olhos, sentia-se cansado de lutar para se manter acordado quando lhe apetecia dormir, dormir durante muito tempo. Tinha feito a sua parte, não se arrependia de nada do que fizera na sua vida. E também não tinha pena daquilo que ainda não tinha feito e que quase certamente já não iria fazer por ser quase impossível. Tinha servido a Alemanha nas duas guerras, dando sempre a sua total dedicação. O seu sucessor seria Paulus, o qual estava sem dúvida à altura da tarefa. Um dia também ele chegaria ao posto de Generalfeldmarschall ou até mesmo a comandante supremo, tinha todas as características necessárias. O sexto exército continuaria nas suas mãos. Era o exército mais bem treinado e melhor equipado do mundo, era invencível. A Rússia seria derrotada ainda esse ano. Os judeus seriam exterminados da face da terra pouco depois. Ele seria recordado como um herói que dera a vida pela Nação e uma grande estátua seria erguida em sua honra. A Alemanha obteria a vitória final contra todos os seus inimigos, todos os alemães ficariam juntos numa única Nação que decidiria o destino de todas as outras nações do mundo durante pelo menos três milénios. Tudo seria perfeito! Essa visão do futuro encheu-o de alegria, já não sentia dor. Sorriu. E depois, veio a escuridão eterna.
FIM
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava
relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico
aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
A queda de von Reichenau - parte 2/3
A primeira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-parte-1.html
No entanto, e apesar do optimismo, nem tudo lhe estava a correr como gostaria. Recentemente, Hitler tinha pessoalmente proposto o seu nome para Comandante Geral das Forças Armadas. A proposta agradava-lhe, entendera-a como recompensa pelo seu magnífico trabalho, mas fora recusada pelos outros oficiais mais velhos, que não aceitavam servir sob as suas ordens. Alegaram que Walter estava demasiado envolvido na política, algo que a Wehrmacht não via com bons olhos. Walter não se considerava envolvido na política, apenas achava que fazia aquilo que o dever cívico como alemão o impelia a fazer. A verdade talvez fosse que não quisessem servir sob as ordens de um general muito mais novo e, por sinal, muito mais talentoso. Por outro lado, era possível que desconfiassem que havia sido ele a dar a ordem para matar aquelas noventa crianças judias, há cerca dum ano atrás , bem como os outros judeus em Kiev, há cerca de três meses. Se algum dia estes pequenos segredos se tornassem públicos, a sua imagem no exército estaria definitivamente manchada pois, infelizmente, o exército não se regia pelas mesmas regras que a Waffen-SS, as forças armadas da Schutzstaffel, o braço armado do partido. Porém, isso não o preocupava muito. A sua folha de serviço já contava com trinta e oito anos de serviço militar, sem falhas, ao serviço da Nação, o que o tornava praticamente intocável. Definitivamente, ele não era somente mais um entre os outros, aliás, sem ele a Wehrmacht nunca teria conseguido conquistar a Polónia nem a França tão rapidamente nem com tão poucas perdas. Bastava que olhassem para o que acontecera na outra guerra. Era uma pena que a maioria deles não conseguisse, ou não quisesse, reconhecer o seu génio militar.
Ele tinha noção que não era o único que sabia o que fazia. O antigo chefe de pessoal, e agora comandante do seu sexto exército, Friedrich Paulus, tinha também um potencial muito promissor. Era organizado, metódico e inteligente, o que eram qualidades fundamentais no seu ponto de vista. Se algum dia deixasse o comando deste teatro de operações, Paulus seria provavelmente o seu sucessor. Walter conseguia ver isso cada vez que discutia as possíveis estratégias a adoptar com Friedrich. Paulus era possivelmente uma das poucas pessoas que compreendia e conseguia aplicar correctamente todos os conceitos estratégicos de uma guerra moderna. Quando ele organizava qualquer coisa, normalmente decorria sem incidentes.
Outro dos problemas que o preocupava era o dos contra-ataques russos, que estavam a ser particularmente intensos e organizados desde as últimas semanas. O Inverno estava a ser especialmente rigoroso, provavelmente o mais rigoroso das últimas décadas, com um frio incrivelmente intenso e paralisante. Na verdade, Moscovo só escapara à sua queda devido ao Inverno, que viera mais cedo que o normal. Os motores dos tanques e dos aviões congelaram, enquanto os soldados se viam forçados a cavar trincheiras para se abrigar do frio. A Alemanha não conseguia usar totalmente o seu potencial militar nestas condições, que se assemelhavam em muito às condições de há trinta anos atrás, mas isso não seria um problema sem solução. A próxima Primavera traria, com o fim do frio, um reiniciar das operações ofensivas e, consequentemente, o termo da ditadura bolchevique de Estaline.
Terminou a sua caminhada e voltou para o seu escritório. Não gastou muito tempo a mudar da roupa de desporto para o seu uniforme oficial, colocando por último o monóculo no olho direito. De seguida, sentou-se na sua cadeira almofadada, começando a estudar o mapa que jazia estendido sobre a mesa. Tirava notas no seu bloco, estudando as diversas possibilidades de movimentação, ataque e defesa das diversas divisões presentes no terreno.
Nascera em Karlsruhe, filho duma família prussiana com uma longa linhagem nobre. Era geralmente conhecido como Generalfeldmarschall von Reichenau, o homem que subjugara a França em cinco semanas, um feito que ficaria eternamente na história da Alemanha e do mundo. Walter nunca conseguia disfarçar o orgulho que sentia ao imaginar as crianças dum futuro longínquo a aprenderem na escola a história dos seus grandes feitos, como hoje aprendiam os feitos do Imperador Barbarossa.
Às doze horas em ponto, dirigiu-se para a sala de jantar para tomar o almoço. Comia habitualmente sozinho pois era raro ter companhia que estivesse no seu patamar social. Em muitos países, a ascendência já não contava em nada mas, felizmente, a Alemanha era uma excepção. A Rússia não era e isso era uma de muitas razões para a odiar.
Assim que se sentou, o cozinheiro começou a servir-lhe o almoço. Era lombo de porco assado no forno, acompanhado por batatas. Para acompanhar, iria beber um bom vinho tinto francês.
Walter comeu e bebeu com gosto, até que uma dor fortíssima o atingiu na cabeça deixando-o inconsciente.
No entanto, e apesar do optimismo, nem tudo lhe estava a correr como gostaria. Recentemente, Hitler tinha pessoalmente proposto o seu nome para Comandante Geral das Forças Armadas. A proposta agradava-lhe, entendera-a como recompensa pelo seu magnífico trabalho, mas fora recusada pelos outros oficiais mais velhos, que não aceitavam servir sob as suas ordens. Alegaram que Walter estava demasiado envolvido na política, algo que a Wehrmacht não via com bons olhos. Walter não se considerava envolvido na política, apenas achava que fazia aquilo que o dever cívico como alemão o impelia a fazer. A verdade talvez fosse que não quisessem servir sob as ordens de um general muito mais novo e, por sinal, muito mais talentoso. Por outro lado, era possível que desconfiassem que havia sido ele a dar a ordem para matar aquelas noventa crianças judias, há cerca dum ano atrás , bem como os outros judeus em Kiev, há cerca de três meses. Se algum dia estes pequenos segredos se tornassem públicos, a sua imagem no exército estaria definitivamente manchada pois, infelizmente, o exército não se regia pelas mesmas regras que a Waffen-SS, as forças armadas da Schutzstaffel, o braço armado do partido. Porém, isso não o preocupava muito. A sua folha de serviço já contava com trinta e oito anos de serviço militar, sem falhas, ao serviço da Nação, o que o tornava praticamente intocável. Definitivamente, ele não era somente mais um entre os outros, aliás, sem ele a Wehrmacht nunca teria conseguido conquistar a Polónia nem a França tão rapidamente nem com tão poucas perdas. Bastava que olhassem para o que acontecera na outra guerra. Era uma pena que a maioria deles não conseguisse, ou não quisesse, reconhecer o seu génio militar.
Ele tinha noção que não era o único que sabia o que fazia. O antigo chefe de pessoal, e agora comandante do seu sexto exército, Friedrich Paulus, tinha também um potencial muito promissor. Era organizado, metódico e inteligente, o que eram qualidades fundamentais no seu ponto de vista. Se algum dia deixasse o comando deste teatro de operações, Paulus seria provavelmente o seu sucessor. Walter conseguia ver isso cada vez que discutia as possíveis estratégias a adoptar com Friedrich. Paulus era possivelmente uma das poucas pessoas que compreendia e conseguia aplicar correctamente todos os conceitos estratégicos de uma guerra moderna. Quando ele organizava qualquer coisa, normalmente decorria sem incidentes.
Outro dos problemas que o preocupava era o dos contra-ataques russos, que estavam a ser particularmente intensos e organizados desde as últimas semanas. O Inverno estava a ser especialmente rigoroso, provavelmente o mais rigoroso das últimas décadas, com um frio incrivelmente intenso e paralisante. Na verdade, Moscovo só escapara à sua queda devido ao Inverno, que viera mais cedo que o normal. Os motores dos tanques e dos aviões congelaram, enquanto os soldados se viam forçados a cavar trincheiras para se abrigar do frio. A Alemanha não conseguia usar totalmente o seu potencial militar nestas condições, que se assemelhavam em muito às condições de há trinta anos atrás, mas isso não seria um problema sem solução. A próxima Primavera traria, com o fim do frio, um reiniciar das operações ofensivas e, consequentemente, o termo da ditadura bolchevique de Estaline.
Terminou a sua caminhada e voltou para o seu escritório. Não gastou muito tempo a mudar da roupa de desporto para o seu uniforme oficial, colocando por último o monóculo no olho direito. De seguida, sentou-se na sua cadeira almofadada, começando a estudar o mapa que jazia estendido sobre a mesa. Tirava notas no seu bloco, estudando as diversas possibilidades de movimentação, ataque e defesa das diversas divisões presentes no terreno.
Nascera em Karlsruhe, filho duma família prussiana com uma longa linhagem nobre. Era geralmente conhecido como Generalfeldmarschall von Reichenau, o homem que subjugara a França em cinco semanas, um feito que ficaria eternamente na história da Alemanha e do mundo. Walter nunca conseguia disfarçar o orgulho que sentia ao imaginar as crianças dum futuro longínquo a aprenderem na escola a história dos seus grandes feitos, como hoje aprendiam os feitos do Imperador Barbarossa.
Às doze horas em ponto, dirigiu-se para a sala de jantar para tomar o almoço. Comia habitualmente sozinho pois era raro ter companhia que estivesse no seu patamar social. Em muitos países, a ascendência já não contava em nada mas, felizmente, a Alemanha era uma excepção. A Rússia não era e isso era uma de muitas razões para a odiar.
Assim que se sentou, o cozinheiro começou a servir-lhe o almoço. Era lombo de porco assado no forno, acompanhado por batatas. Para acompanhar, iria beber um bom vinho tinto francês.
Walter comeu e bebeu com gosto, até que uma dor fortíssima o atingiu na cabeça deixando-o inconsciente.
A terceira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-terceira-e.html
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava
relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico
aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
domingo, 20 de maio de 2012
A queda de von Reichenau - parte 1/3
Walter acordou por volta das seis da madrugada. Como habitual, vestiu a sua roupa ligeira de caminhada, uns calções e uma camisola de cavas. Segundo alguns, que faziam piadas acerca da quantidade e qualidade da roupa que usava para fazer exercício no Inverno, a indumentária não era a mais apropriada para o frio. Quem pensava assim só podia ter medo do frio, mas não ele pois o exercício físico iria mantê-lo quente. Saiu de casa. Lá fora, um manto branco cobria tudo à sua volta. A neve de várias semanas já somava quase meio metros nas zonas onde ainda não havia sido retirada. Não nevava e o céu estava limpo. Ao inspirar pela primeira vez aquele ar frio de Janeiro, os seus pulmões arderam-lhe fortemente, como lhe acontecia todos os dias de Inverno. A temperatura devia rondar os vinte graus negativos. Caminhou em passo de marcha rápida à volta dos edifícios do seu posto de comando em Poltava durante quarenta minutos, sempre perdido nos seus pensamentos sobre as tarefas que deveria desempenhar e as decisões que teria que tomar durante o dia.
No dia seguinte, teria de acordar ainda mais cedo de modo a inspeccionar uma das suas divisões de infantaria estacionadas nas imediações da cidade. Suspeitava que os oficiais estavam a ser descuidados em relação a algumas das suas ordens que tinham como objectivo o bom ambiente político dos soldados. Antes do Natal, tinha encontrado várias frases de protesto escritas a carvão nas paredes do seu quartel-general. Por norma, Walter ficava calmo em quase todo o tipo de situação mas, quando leu as frases, não conseguiu evitar explodir de raiva porque as mensagens eram mais provocadoras do que ele conseguia tolerar. “Queremos voltar para a Alemanha” diziam algumas, outras aclamavam “Estamos fartos disto” ou “Estamos sujos, temos piolhos e queremos ir para casa”. Outros foram mais longe, escrevendo “Não queremos esta guerra”. Obviamente, como era normal nestes casos, responsabilizara os oficiais por este incidente. Eram eles quem tinham de responder pelas acções dos seus soldados e lidar com elas e com as respectivas consequências, tal como ele tinha que responder pelas acções dos seus oficiais perante o Alto Comando.
A União Soviética seria novamente atacada assim que a Primavera despontasse. Era isso que o Führer desejava e, por isso, Walter estava disposto a tudo para ser bem-sucedido. Era um membro convicto e dedicado do DAP, Deutsche Arbeitespartei, desde 1932, quando conhecera Hitler pessoalmente e as suas ideias ambiciosas o cativaram. E continuaria a ser, pois acreditava nos mesmos ideais e tinha os mesmos objectivos. Não se arrependia, nem iria fazê-lo tão cedo, de ter doado uma das maiores fábricas de móveis da Alemanha ao partido. Era provavelmente a maior das fatias pertencente aos valores da família, a qual o partido transformou prontamente numa fábrica de munições poucos meses antes da guerra começar. Na realidade, essa doação havia-lhe poupado muito trabalho administrativo, dando-lhe assim oportunidade de se dedicar inteiramente à sua carreira militar, que era a única coisa que no fundo realmente lhe interessava.
A campanha do ano anterior havia corrido muito bem. Na maior parte do tempo, os Panzer limitaram-se a avançar sem resistência pelo meio das planícies semi-desertas. A Rússia estava perto da ruptura e, se a campanha desse ano tivesse semelhante sucesso, aconteceria à Rússia pior do que havia acontecido na Primeira Guerra Mundial. A falta de comida causara uma forte desmoralização e revoltas, que terminaram num colapso completo, assim a Rússia fora forçada a desistir do conflito. Porém, desta vez isso implicaria uma rendição incondicional. As linhas gerais para esse ano já estavam a ser delineadas, e ele estava confiante de que iriam ser bem-sucedidos sem grandes dificuldades. A melhor parte, no seu ponto de vista, era o facto de ser uma das peças chave de todo o plano. Nunca a Alemanha estivera tão perto de se vingar da humilhação que sofrera há quase vinte e quatro anos atrás. E, depois da Rússia, cairia o Reino Unido, que não tinha meios para continuar sozinho a luta na Europa. Os Estados Unidos da América não representavam uma ameaça real, apesar de oficialmente estarem em guerra com a Alemanha, havia algumas semanas. Os japoneses foram esplendidamente eficientes no seu ataque surpresa à principal base naval Norte-Americana no Hawai, que ocorrera no mês passado. Dezenas de navios foram afundados, o que iria, sem dúvida, limitar as operações americanas no Pacífico. Mais uma vitória para os aliados da Alemanha. Em sintonia com o Imperador japonês, Hitler decidira declarar guerra aos Estados Unidos da América.
No dia seguinte, teria de acordar ainda mais cedo de modo a inspeccionar uma das suas divisões de infantaria estacionadas nas imediações da cidade. Suspeitava que os oficiais estavam a ser descuidados em relação a algumas das suas ordens que tinham como objectivo o bom ambiente político dos soldados. Antes do Natal, tinha encontrado várias frases de protesto escritas a carvão nas paredes do seu quartel-general. Por norma, Walter ficava calmo em quase todo o tipo de situação mas, quando leu as frases, não conseguiu evitar explodir de raiva porque as mensagens eram mais provocadoras do que ele conseguia tolerar. “Queremos voltar para a Alemanha” diziam algumas, outras aclamavam “Estamos fartos disto” ou “Estamos sujos, temos piolhos e queremos ir para casa”. Outros foram mais longe, escrevendo “Não queremos esta guerra”. Obviamente, como era normal nestes casos, responsabilizara os oficiais por este incidente. Eram eles quem tinham de responder pelas acções dos seus soldados e lidar com elas e com as respectivas consequências, tal como ele tinha que responder pelas acções dos seus oficiais perante o Alto Comando.
A União Soviética seria novamente atacada assim que a Primavera despontasse. Era isso que o Führer desejava e, por isso, Walter estava disposto a tudo para ser bem-sucedido. Era um membro convicto e dedicado do DAP, Deutsche Arbeitespartei, desde 1932, quando conhecera Hitler pessoalmente e as suas ideias ambiciosas o cativaram. E continuaria a ser, pois acreditava nos mesmos ideais e tinha os mesmos objectivos. Não se arrependia, nem iria fazê-lo tão cedo, de ter doado uma das maiores fábricas de móveis da Alemanha ao partido. Era provavelmente a maior das fatias pertencente aos valores da família, a qual o partido transformou prontamente numa fábrica de munições poucos meses antes da guerra começar. Na realidade, essa doação havia-lhe poupado muito trabalho administrativo, dando-lhe assim oportunidade de se dedicar inteiramente à sua carreira militar, que era a única coisa que no fundo realmente lhe interessava.
A campanha do ano anterior havia corrido muito bem. Na maior parte do tempo, os Panzer limitaram-se a avançar sem resistência pelo meio das planícies semi-desertas. A Rússia estava perto da ruptura e, se a campanha desse ano tivesse semelhante sucesso, aconteceria à Rússia pior do que havia acontecido na Primeira Guerra Mundial. A falta de comida causara uma forte desmoralização e revoltas, que terminaram num colapso completo, assim a Rússia fora forçada a desistir do conflito. Porém, desta vez isso implicaria uma rendição incondicional. As linhas gerais para esse ano já estavam a ser delineadas, e ele estava confiante de que iriam ser bem-sucedidos sem grandes dificuldades. A melhor parte, no seu ponto de vista, era o facto de ser uma das peças chave de todo o plano. Nunca a Alemanha estivera tão perto de se vingar da humilhação que sofrera há quase vinte e quatro anos atrás. E, depois da Rússia, cairia o Reino Unido, que não tinha meios para continuar sozinho a luta na Europa. Os Estados Unidos da América não representavam uma ameaça real, apesar de oficialmente estarem em guerra com a Alemanha, havia algumas semanas. Os japoneses foram esplendidamente eficientes no seu ataque surpresa à principal base naval Norte-Americana no Hawai, que ocorrera no mês passado. Dezenas de navios foram afundados, o que iria, sem dúvida, limitar as operações americanas no Pacífico. Mais uma vitória para os aliados da Alemanha. Em sintonia com o Imperador japonês, Hitler decidira declarar guerra aos Estados Unidos da América.
A segunda parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-segunda-parte.html
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava
relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico
aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
Assinar:
Postagens (Atom)