Blogue dedicado às minhas aventuras literárias. Novos artigos todas as segundas, quartas e sextas. Rubrica especial de domingo: Chá de Domingo.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
A próxima estação
Como prometido aqui: http://pedro-cipriano.blogspot.com/2012/05/nachste-haltestelle.html esta é a versão portuguesa do conto.
Desde que acordara, naquele dia, que me parecera somente mais uma manhã como tantas outras. Porém, mal adivinhava o que estava prestes a presenciar.
Durante aqueles dias de Fevereiro, as temperaturas negativas assolavam a cidade ao longo de todo o dia. Durante a maior parte do ano, dias cinzentos e nublados eram a norma. As condições climáticas da cidade eram famosas por causarem uma onda massiva de depressão durante os meses mais frios. Claro está que eu não era excepção, passando grande parte do ano apático e desanimado.
Ao sair, apercebi-me que nevava. A onda gélida envolveu-me e o ar frio encheu-me os pulmões, não sendo das sensações matinais mais agradáveis que já havia sentido. Um manto cobria todo o espaço envolvente, enquanto pequenos flocos esvoaçavam livremente ao sabor do vento. A vontade de enfrentar aquele frio era nula. A vida era tão mais fácil dentro dos cobertores, por entre o meu mundo de sonhos. Por um momento, ponderei voltar para trás. Contudo, um vislumbre das consequências de chegar atrasado, impeliram a afastar-me mais do meu pequeno paraíso.
Ao afastar-me do edifício, a intensidade do nevão aumentou, já que este bloqueava grande parte da intempérie. Inclinei a cabeça e protegi-a com a mão enquanto a neve me castigava a face, em especial os olhos.
Da primeira vez que vi neve, recebi-a como a coisa mais maravilhosa que me havia acontecido. Estava na rua quando os primeiros flocos caíram e a magia do momento pareceu que iria captar o sentimento para o resto da minha vida. No entanto, passado pouco mais de dois meses, já não conseguia simplesmente suportá-la, com se aquele sentimento de harmonia pertencesse a outra vida. Passei pelas bicicletas, empilhadas junto à entrada, as quais ninguém se atrevia a usar com aquele temporal. Felizmente, ao contrário do dia anterior, alguém limpara o passeio e espalhara sal, o que certamente me poupou a várias quedas.
À medida que avançava, havia mais gelo e mais lama, de modo que tinha de tomar atenção constante para não cair. A caminhada não demorou mais do que cinco minutos, contudo, na minha mente pareceu demorar horas. Cheguei completamente enlameado e enregelado.
À entrada do metro, enquanto sacudia a neve que trazia sobre mim, reparei num anúncio afixado num painel. Já o tinha visto tantas vezes que normalmente nem reparava nele. Tratava-se de um morango envolvido por um preservativo, com o objectivo de alertar para o perigo da sida.
Desci as escadas, galgando dois degraus de cada vez, pois o som de fricção com os carris indiciava a recente chegada do metro. Porém, não cheguei a tempo. O ruído que ouvira fora afinal da partida, obrigando-me assim a esperar pelo próximo comboio. Verifiquei as horas, iria chegar bastante atrasado, constatei. Um sentimento de revolta aflorou-me ao peito, só me apetecendo barafustar devido à frustração que sentia.
A minha atenção foi atraída para uma jovem mulher. Não era a primeira vez que a via ali, pois desde há cerca de uma semana que a encontrava frequentemente sentada naqueles bancos, como se esperasse algo. Vestia umas calças de ganga, um comprido casaco bege e usava o seu cabelo loiro atado num rabo-de-cavalo. O que mais me intrigava na sua figura era a pele pálida e os olhos inchados de chorar. Naquele dia não era diferente, encontrando-a enrolada sobre si mesma.
– O que se passa? – perguntei, quebrando a rotina.
Ela retirou a cabeça de entre os braços e olhou-me nos olhos. A sua expressão dançou de assustada para agressiva.
– Vai-te foder! – insultou-me, com um gesto de desprezo.
Naquele momento, tive o impulso de me afastar e fingir que aquilo nunca havia acontecido, chegando mesmo a dar um passo atrás.
– Só te quero ajudar...
– Eu não preciso da tua ajuda! – exaltou-se, elevando a voz.
Por essa altura, já uma dúzia de pessoas tinha parado em redor, observando a situação.
– Qual é o teu problema? – insisti pela última vez.
– Quando se está morto, já não se tem problemas – respondeu-me com um sorriso que trazia um traço de histerismo.
A afirmação enigmática deixou-me extremamente confuso. Tentei ler-lhe o rosto, contudo, nele só encontrei um ar de resignação.
– Deixa-me ajudar-te...
– Ninguém me pode ajudar... – retorquiu, mostrando-se angustiada.
– Mas...
– Desaparece! Mete-te na tua vida! Deixa-me em paz! – gritou ela num tom agressivo e completamente fora de si.
Dei outro passo atrás. Decidi que não queria fazer mais parte daquele espectáculo, que já tinha vários espectadores. Olhei para o painel luminoso, vendo lá a minha escapatória. O metro deveria chegar à estação dentro de alguns segundos. Ela voltou a enterrar a cabeça no meio dos braços.
O som que se seguiu era característico. O metro entrou na estação acompanhado por uma grande deslocação de ar. Virei-me a tempo de ver o transporte a imobilizar-se. As portas abriram-se e algumas pessoas saíram. Fui dos primeiros a entrar, tendo direito a um lugar sentado, extremamente invulgar.
– Por favor, afaste-se do metro – pediu a voz automática do comboio.
Ouviu-se um apitar característico, enquanto as portas se fechavam. Voltei a olhá-la e, nesse momento, ela levantou a cabeça e devolveu-me o olhar com tal intensidade que não pude evitar estremecer. A sua expressão denotava uma calma como nunca tinha visto. A carruagem começou a movimentar-se lentamente, contudo depressa acelerou. Uns segundos depois, tanto ela como a estação tinham desaparecido do meu campo de visão.
A situação deixou-me pensativo, pois não fazia ideia do que se passava com ela. Era notório que precisava de ajuda mas, se não a queria, como é que alguém poderia intervir?
A meio do caminho, tive de abandonar o metro, pois a linha estava interrompida devido a obras. A partir dali tinha duas opções: mudava de linha e dava uma volta à cidade ou apanhava o autocarro de ligação. Nenhuma das opções me agradava particularmente, todavia optei pelo autocarro, por pensar que seria mais rápido. Mais do que enfrentar o nevão, detestava aquelas mudanças à minha rotina. Como era de esperar, acabei por chegar atrasado.
Durante a manhã, esqueci o sucedido. Estava convencido de que a maneira como ela me tratara não deixava grande espaço para simpatia. Ao meio-dia, tive oportunidade de voltar a casa. O nevão tinha cessado e a maior parte das ruas estava já limpa.
De modo a evitar o frio, decidi realizar o percurso mais longo de metro. Aproveitei para ler um livro e abstrair-me da realidade.
Uma estação antes do meu destino, o metro parou e fui obrigado a sair. A informação de que a linha estava cortada apanhou-me de surpresa, já que não havia qualquer manutenção planeada para aquele troço. Subi as escadas, em direcção à parte mais comercial daquela zona. Ao olhar a quantidade de pessoas que esperavam o autocarro, fiquei extremamente desanimado, já que implicava que o mesmo não passava por ali frequentemente.
Decidi então fazer o restante quilómetro a pé. Relembrei as primeiras vezes que havia tentado aquele caminho e que me havia perdido. Num acto de bom senso, retirei o mapa da minha sacola, fazendo-me ao caminho logo de seguida.
Recomeçou a nevar. Em ambos os lados da rua, as lojas de roupa e telemóveis fervilhavam de actividade. Nem o mau tempo impedia as pessoas de comprar e consumir, reflecti amargamente, que vida tão infeliz e fútil.
Um quarto de hora depois, cheguei à minha estação. Ignorando o frio, decidi não resistir à curiosidade e aproximar-me dum grupo de pessoas na paragem de autocarro.
– Desculpe, o que é que se passou para a linha de metro estar interrompida? – perguntei a uma das pessoas.
Recebi vários olhares de indiferença e mau humor. Era óbvio que estavam bastante chateados por lhes terem alterado a rotina.
– Houve um suicídio hoje de manhã, nesta estação... – respondeu-me um homem na casa dos cinquenta.
– Uma jovem atirou-se para debaixo do metro... – acrescentou uma quarentona, ajeitando o seu cesto das compras e virando-me as costas.
Este pequeno conto foi publicado na Antologia Corda Bamba. Está disponível, caso estejam interessados entrem em contacto pelo email: pedro.cipriano@desy.de
Link da eidtora: http://pastelariaestudios.blogspot.de/2012/07/corda-bamba-o-livro.html
terça-feira, 22 de maio de 2012
A queda de von Reichenau - parte 3/3
A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-parte-1.html
A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-segunda-parte.html
Quando recuperou os sentidos, sentiu-se muito estranho. Não fazia a mais pequena ideia de quanto tempo estivera naquele estado, nem onde estava. Abriu os olhos e tomou consciência de que se encontrava dentro de um avião. O Dornier estava em pleno voo e estremecia vigorosamente. Tentou focar o pensamento e concentrar-se sem conseguir. O avião tinha um único compartimento. Além dele mesmo, parecia haver somente outras duas pessoas a bordo. Reconheceu imediatamente o médico e oficial Dr. Flade. O piloto praguejava com ele, parecia estar a ter dificuldades em manobrar o avião. De repente, Walter apercebeu-se que estava amarrado a uma cadeira de rodas. Tentou falar mas só conseguiu articular alguns sons sem nexo. Tentou levantar a mão mas esta parecia não responder, assim como os pés. Somente conseguia mexer ligeira e desordenadamente os dedos. Este estado assustava-o, sentia-se impotente. Decidiu então deixar-se ficar imóvel, na esperança que aquele estado passasse depressa. A dor intensa voltou e Walter finalmente lembrou-se do que se tinha passado. Todos os acontecimentos desse dia ficaram subitamente vivos na sua memória. Walter tentou lutar contra a dor, não podia ficar inconsciente novamente. Apesar da dor ser forte, ele ainda a conseguia suportar. A situação devia ser grave, para se darem ao trabalho de o meterem num avião ao invés de o tratarem no hospital militar. Perguntou-se a si mesmo sobre o que se teria passado, enquanto estivera inconsciente. Será que os russos tinham montado uma ofensiva surpresa e chegado perto da sua posição, e ele estava a ser evacuado? Será que tinha sido ferido durante a batalha? Será que alguém tinha convencido um soldado revoltado ou espião russo a matá-lo? Será que os ingleses tinham lançado pára-quedistas assassinos em Poltava? Mas como é que alguma dessas hipóteses podia ser possível se não se recordava de nada? Concluiu que nada disso era humanamente possível, só podia ser realidade se estivesse muito doente. E esse pensamento foi uma revelação: estava doente, e era grave.
Em negação, a sua mente tranquilizou-o imediatamente, criando uma alternativa à realidade: podia ser apenas um pesadelo, tudo parecia demasiado irreal. Porém, desde criança que não tinha um sonho que considerasse tão plausível como este. A verdade é que, na maior parte dos dias, nem sequer se lembrava do sonho que tivera durante a noite. Para além de tudo, sentia demasiado desconforto para ser somente um sonho.
E se não fosse um sonho?
No seu íntimo, perguntava-se sobre o que aconteceria se morresse. Tentou afastar essa ideia. Ainda só tinha cinquenta e sete anos, era novo demais para morrer. Esse pensamento reconfortou-o durante alguns segundos, enquanto a dor de cabeça se intensificava. Sem se dar conta, começou a entrar em pânico. O avião estremecia cada vez mais. Talvez estivesse no meio de uma tempestade ou sido atingido por um caça inimigo. Mas isso não era possível, a Rússia já não tinha aviões nem pilotos capazes desde o infanticídio aéreo do ano anterior. Só podia ser uma tempestade. Os dois soldados continuavam a falar alto e desordenadamente mas, para aumentar o desespero de Walter, ele não conseguia perceber o que diziam, porque nenhuma das palavras fazia sentido na sua cabeça. O pânico intensificou-se, como era possível que não conseguisse entender o que diziam? Estaria a ficar maluco e a perder capacidades?
De seguida, o pânico desapareceu e veio a calma. Provavelmente iria morrer mesmo que o avião não se despenhasse, e talvez fosse melhor assim. A dor era intensa e sentia-se desorientado. Se morresse agora não haveria grande problema, aliás, este estado não lhe permitia comandar absolutamente nada. Já dera tudo à nação, já podia morrer em paz. Conseguia aceitar isso com naturalidade. Fechou os olhos, sentia-se cansado de lutar para se manter acordado quando lhe apetecia dormir, dormir durante muito tempo. Tinha feito a sua parte, não se arrependia de nada do que fizera na sua vida. E também não tinha pena daquilo que ainda não tinha feito e que quase certamente já não iria fazer por ser quase impossível. Tinha servido a Alemanha nas duas guerras, dando sempre a sua total dedicação. O seu sucessor seria Paulus, o qual estava sem dúvida à altura da tarefa. Um dia também ele chegaria ao posto de Generalfeldmarschall ou até mesmo a comandante supremo, tinha todas as características necessárias. O sexto exército continuaria nas suas mãos. Era o exército mais bem treinado e melhor equipado do mundo, era invencível. A Rússia seria derrotada ainda esse ano. Os judeus seriam exterminados da face da terra pouco depois. Ele seria recordado como um herói que dera a vida pela Nação e uma grande estátua seria erguida em sua honra. A Alemanha obteria a vitória final contra todos os seus inimigos, todos os alemães ficariam juntos numa única Nação que decidiria o destino de todas as outras nações do mundo durante pelo menos três milénios. Tudo seria perfeito! Essa visão do futuro encheu-o de alegria, já não sentia dor. Sorriu. E depois, veio a escuridão eterna.
A segunda parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-segunda-parte.html
Quando recuperou os sentidos, sentiu-se muito estranho. Não fazia a mais pequena ideia de quanto tempo estivera naquele estado, nem onde estava. Abriu os olhos e tomou consciência de que se encontrava dentro de um avião. O Dornier estava em pleno voo e estremecia vigorosamente. Tentou focar o pensamento e concentrar-se sem conseguir. O avião tinha um único compartimento. Além dele mesmo, parecia haver somente outras duas pessoas a bordo. Reconheceu imediatamente o médico e oficial Dr. Flade. O piloto praguejava com ele, parecia estar a ter dificuldades em manobrar o avião. De repente, Walter apercebeu-se que estava amarrado a uma cadeira de rodas. Tentou falar mas só conseguiu articular alguns sons sem nexo. Tentou levantar a mão mas esta parecia não responder, assim como os pés. Somente conseguia mexer ligeira e desordenadamente os dedos. Este estado assustava-o, sentia-se impotente. Decidiu então deixar-se ficar imóvel, na esperança que aquele estado passasse depressa. A dor intensa voltou e Walter finalmente lembrou-se do que se tinha passado. Todos os acontecimentos desse dia ficaram subitamente vivos na sua memória. Walter tentou lutar contra a dor, não podia ficar inconsciente novamente. Apesar da dor ser forte, ele ainda a conseguia suportar. A situação devia ser grave, para se darem ao trabalho de o meterem num avião ao invés de o tratarem no hospital militar. Perguntou-se a si mesmo sobre o que se teria passado, enquanto estivera inconsciente. Será que os russos tinham montado uma ofensiva surpresa e chegado perto da sua posição, e ele estava a ser evacuado? Será que tinha sido ferido durante a batalha? Será que alguém tinha convencido um soldado revoltado ou espião russo a matá-lo? Será que os ingleses tinham lançado pára-quedistas assassinos em Poltava? Mas como é que alguma dessas hipóteses podia ser possível se não se recordava de nada? Concluiu que nada disso era humanamente possível, só podia ser realidade se estivesse muito doente. E esse pensamento foi uma revelação: estava doente, e era grave.
Em negação, a sua mente tranquilizou-o imediatamente, criando uma alternativa à realidade: podia ser apenas um pesadelo, tudo parecia demasiado irreal. Porém, desde criança que não tinha um sonho que considerasse tão plausível como este. A verdade é que, na maior parte dos dias, nem sequer se lembrava do sonho que tivera durante a noite. Para além de tudo, sentia demasiado desconforto para ser somente um sonho.
E se não fosse um sonho?
No seu íntimo, perguntava-se sobre o que aconteceria se morresse. Tentou afastar essa ideia. Ainda só tinha cinquenta e sete anos, era novo demais para morrer. Esse pensamento reconfortou-o durante alguns segundos, enquanto a dor de cabeça se intensificava. Sem se dar conta, começou a entrar em pânico. O avião estremecia cada vez mais. Talvez estivesse no meio de uma tempestade ou sido atingido por um caça inimigo. Mas isso não era possível, a Rússia já não tinha aviões nem pilotos capazes desde o infanticídio aéreo do ano anterior. Só podia ser uma tempestade. Os dois soldados continuavam a falar alto e desordenadamente mas, para aumentar o desespero de Walter, ele não conseguia perceber o que diziam, porque nenhuma das palavras fazia sentido na sua cabeça. O pânico intensificou-se, como era possível que não conseguisse entender o que diziam? Estaria a ficar maluco e a perder capacidades?
De seguida, o pânico desapareceu e veio a calma. Provavelmente iria morrer mesmo que o avião não se despenhasse, e talvez fosse melhor assim. A dor era intensa e sentia-se desorientado. Se morresse agora não haveria grande problema, aliás, este estado não lhe permitia comandar absolutamente nada. Já dera tudo à nação, já podia morrer em paz. Conseguia aceitar isso com naturalidade. Fechou os olhos, sentia-se cansado de lutar para se manter acordado quando lhe apetecia dormir, dormir durante muito tempo. Tinha feito a sua parte, não se arrependia de nada do que fizera na sua vida. E também não tinha pena daquilo que ainda não tinha feito e que quase certamente já não iria fazer por ser quase impossível. Tinha servido a Alemanha nas duas guerras, dando sempre a sua total dedicação. O seu sucessor seria Paulus, o qual estava sem dúvida à altura da tarefa. Um dia também ele chegaria ao posto de Generalfeldmarschall ou até mesmo a comandante supremo, tinha todas as características necessárias. O sexto exército continuaria nas suas mãos. Era o exército mais bem treinado e melhor equipado do mundo, era invencível. A Rússia seria derrotada ainda esse ano. Os judeus seriam exterminados da face da terra pouco depois. Ele seria recordado como um herói que dera a vida pela Nação e uma grande estátua seria erguida em sua honra. A Alemanha obteria a vitória final contra todos os seus inimigos, todos os alemães ficariam juntos numa única Nação que decidiria o destino de todas as outras nações do mundo durante pelo menos três milénios. Tudo seria perfeito! Essa visão do futuro encheu-o de alegria, já não sentia dor. Sorriu. E depois, veio a escuridão eterna.
FIM
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava
relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico
aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
A queda de von Reichenau - parte 2/3
A primeira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-parte-1.html
No entanto, e apesar do optimismo, nem tudo lhe estava a correr como gostaria. Recentemente, Hitler tinha pessoalmente proposto o seu nome para Comandante Geral das Forças Armadas. A proposta agradava-lhe, entendera-a como recompensa pelo seu magnífico trabalho, mas fora recusada pelos outros oficiais mais velhos, que não aceitavam servir sob as suas ordens. Alegaram que Walter estava demasiado envolvido na política, algo que a Wehrmacht não via com bons olhos. Walter não se considerava envolvido na política, apenas achava que fazia aquilo que o dever cívico como alemão o impelia a fazer. A verdade talvez fosse que não quisessem servir sob as ordens de um general muito mais novo e, por sinal, muito mais talentoso. Por outro lado, era possível que desconfiassem que havia sido ele a dar a ordem para matar aquelas noventa crianças judias, há cerca dum ano atrás , bem como os outros judeus em Kiev, há cerca de três meses. Se algum dia estes pequenos segredos se tornassem públicos, a sua imagem no exército estaria definitivamente manchada pois, infelizmente, o exército não se regia pelas mesmas regras que a Waffen-SS, as forças armadas da Schutzstaffel, o braço armado do partido. Porém, isso não o preocupava muito. A sua folha de serviço já contava com trinta e oito anos de serviço militar, sem falhas, ao serviço da Nação, o que o tornava praticamente intocável. Definitivamente, ele não era somente mais um entre os outros, aliás, sem ele a Wehrmacht nunca teria conseguido conquistar a Polónia nem a França tão rapidamente nem com tão poucas perdas. Bastava que olhassem para o que acontecera na outra guerra. Era uma pena que a maioria deles não conseguisse, ou não quisesse, reconhecer o seu génio militar.
Ele tinha noção que não era o único que sabia o que fazia. O antigo chefe de pessoal, e agora comandante do seu sexto exército, Friedrich Paulus, tinha também um potencial muito promissor. Era organizado, metódico e inteligente, o que eram qualidades fundamentais no seu ponto de vista. Se algum dia deixasse o comando deste teatro de operações, Paulus seria provavelmente o seu sucessor. Walter conseguia ver isso cada vez que discutia as possíveis estratégias a adoptar com Friedrich. Paulus era possivelmente uma das poucas pessoas que compreendia e conseguia aplicar correctamente todos os conceitos estratégicos de uma guerra moderna. Quando ele organizava qualquer coisa, normalmente decorria sem incidentes.
Outro dos problemas que o preocupava era o dos contra-ataques russos, que estavam a ser particularmente intensos e organizados desde as últimas semanas. O Inverno estava a ser especialmente rigoroso, provavelmente o mais rigoroso das últimas décadas, com um frio incrivelmente intenso e paralisante. Na verdade, Moscovo só escapara à sua queda devido ao Inverno, que viera mais cedo que o normal. Os motores dos tanques e dos aviões congelaram, enquanto os soldados se viam forçados a cavar trincheiras para se abrigar do frio. A Alemanha não conseguia usar totalmente o seu potencial militar nestas condições, que se assemelhavam em muito às condições de há trinta anos atrás, mas isso não seria um problema sem solução. A próxima Primavera traria, com o fim do frio, um reiniciar das operações ofensivas e, consequentemente, o termo da ditadura bolchevique de Estaline.
Terminou a sua caminhada e voltou para o seu escritório. Não gastou muito tempo a mudar da roupa de desporto para o seu uniforme oficial, colocando por último o monóculo no olho direito. De seguida, sentou-se na sua cadeira almofadada, começando a estudar o mapa que jazia estendido sobre a mesa. Tirava notas no seu bloco, estudando as diversas possibilidades de movimentação, ataque e defesa das diversas divisões presentes no terreno.
Nascera em Karlsruhe, filho duma família prussiana com uma longa linhagem nobre. Era geralmente conhecido como Generalfeldmarschall von Reichenau, o homem que subjugara a França em cinco semanas, um feito que ficaria eternamente na história da Alemanha e do mundo. Walter nunca conseguia disfarçar o orgulho que sentia ao imaginar as crianças dum futuro longínquo a aprenderem na escola a história dos seus grandes feitos, como hoje aprendiam os feitos do Imperador Barbarossa.
Às doze horas em ponto, dirigiu-se para a sala de jantar para tomar o almoço. Comia habitualmente sozinho pois era raro ter companhia que estivesse no seu patamar social. Em muitos países, a ascendência já não contava em nada mas, felizmente, a Alemanha era uma excepção. A Rússia não era e isso era uma de muitas razões para a odiar.
Assim que se sentou, o cozinheiro começou a servir-lhe o almoço. Era lombo de porco assado no forno, acompanhado por batatas. Para acompanhar, iria beber um bom vinho tinto francês.
Walter comeu e bebeu com gosto, até que uma dor fortíssima o atingiu na cabeça deixando-o inconsciente.
No entanto, e apesar do optimismo, nem tudo lhe estava a correr como gostaria. Recentemente, Hitler tinha pessoalmente proposto o seu nome para Comandante Geral das Forças Armadas. A proposta agradava-lhe, entendera-a como recompensa pelo seu magnífico trabalho, mas fora recusada pelos outros oficiais mais velhos, que não aceitavam servir sob as suas ordens. Alegaram que Walter estava demasiado envolvido na política, algo que a Wehrmacht não via com bons olhos. Walter não se considerava envolvido na política, apenas achava que fazia aquilo que o dever cívico como alemão o impelia a fazer. A verdade talvez fosse que não quisessem servir sob as ordens de um general muito mais novo e, por sinal, muito mais talentoso. Por outro lado, era possível que desconfiassem que havia sido ele a dar a ordem para matar aquelas noventa crianças judias, há cerca dum ano atrás , bem como os outros judeus em Kiev, há cerca de três meses. Se algum dia estes pequenos segredos se tornassem públicos, a sua imagem no exército estaria definitivamente manchada pois, infelizmente, o exército não se regia pelas mesmas regras que a Waffen-SS, as forças armadas da Schutzstaffel, o braço armado do partido. Porém, isso não o preocupava muito. A sua folha de serviço já contava com trinta e oito anos de serviço militar, sem falhas, ao serviço da Nação, o que o tornava praticamente intocável. Definitivamente, ele não era somente mais um entre os outros, aliás, sem ele a Wehrmacht nunca teria conseguido conquistar a Polónia nem a França tão rapidamente nem com tão poucas perdas. Bastava que olhassem para o que acontecera na outra guerra. Era uma pena que a maioria deles não conseguisse, ou não quisesse, reconhecer o seu génio militar.
Ele tinha noção que não era o único que sabia o que fazia. O antigo chefe de pessoal, e agora comandante do seu sexto exército, Friedrich Paulus, tinha também um potencial muito promissor. Era organizado, metódico e inteligente, o que eram qualidades fundamentais no seu ponto de vista. Se algum dia deixasse o comando deste teatro de operações, Paulus seria provavelmente o seu sucessor. Walter conseguia ver isso cada vez que discutia as possíveis estratégias a adoptar com Friedrich. Paulus era possivelmente uma das poucas pessoas que compreendia e conseguia aplicar correctamente todos os conceitos estratégicos de uma guerra moderna. Quando ele organizava qualquer coisa, normalmente decorria sem incidentes.
Outro dos problemas que o preocupava era o dos contra-ataques russos, que estavam a ser particularmente intensos e organizados desde as últimas semanas. O Inverno estava a ser especialmente rigoroso, provavelmente o mais rigoroso das últimas décadas, com um frio incrivelmente intenso e paralisante. Na verdade, Moscovo só escapara à sua queda devido ao Inverno, que viera mais cedo que o normal. Os motores dos tanques e dos aviões congelaram, enquanto os soldados se viam forçados a cavar trincheiras para se abrigar do frio. A Alemanha não conseguia usar totalmente o seu potencial militar nestas condições, que se assemelhavam em muito às condições de há trinta anos atrás, mas isso não seria um problema sem solução. A próxima Primavera traria, com o fim do frio, um reiniciar das operações ofensivas e, consequentemente, o termo da ditadura bolchevique de Estaline.
Terminou a sua caminhada e voltou para o seu escritório. Não gastou muito tempo a mudar da roupa de desporto para o seu uniforme oficial, colocando por último o monóculo no olho direito. De seguida, sentou-se na sua cadeira almofadada, começando a estudar o mapa que jazia estendido sobre a mesa. Tirava notas no seu bloco, estudando as diversas possibilidades de movimentação, ataque e defesa das diversas divisões presentes no terreno.
Nascera em Karlsruhe, filho duma família prussiana com uma longa linhagem nobre. Era geralmente conhecido como Generalfeldmarschall von Reichenau, o homem que subjugara a França em cinco semanas, um feito que ficaria eternamente na história da Alemanha e do mundo. Walter nunca conseguia disfarçar o orgulho que sentia ao imaginar as crianças dum futuro longínquo a aprenderem na escola a história dos seus grandes feitos, como hoje aprendiam os feitos do Imperador Barbarossa.
Às doze horas em ponto, dirigiu-se para a sala de jantar para tomar o almoço. Comia habitualmente sozinho pois era raro ter companhia que estivesse no seu patamar social. Em muitos países, a ascendência já não contava em nada mas, felizmente, a Alemanha era uma excepção. A Rússia não era e isso era uma de muitas razões para a odiar.
Assim que se sentou, o cozinheiro começou a servir-lhe o almoço. Era lombo de porco assado no forno, acompanhado por batatas. Para acompanhar, iria beber um bom vinho tinto francês.
Walter comeu e bebeu com gosto, até que uma dor fortíssima o atingiu na cabeça deixando-o inconsciente.
A terceira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-terceira-e.html
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava
relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico
aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
domingo, 20 de maio de 2012
A queda de von Reichenau - parte 1/3
Walter acordou por volta das seis da madrugada. Como habitual, vestiu a sua roupa ligeira de caminhada, uns calções e uma camisola de cavas. Segundo alguns, que faziam piadas acerca da quantidade e qualidade da roupa que usava para fazer exercício no Inverno, a indumentária não era a mais apropriada para o frio. Quem pensava assim só podia ter medo do frio, mas não ele pois o exercício físico iria mantê-lo quente. Saiu de casa. Lá fora, um manto branco cobria tudo à sua volta. A neve de várias semanas já somava quase meio metros nas zonas onde ainda não havia sido retirada. Não nevava e o céu estava limpo. Ao inspirar pela primeira vez aquele ar frio de Janeiro, os seus pulmões arderam-lhe fortemente, como lhe acontecia todos os dias de Inverno. A temperatura devia rondar os vinte graus negativos. Caminhou em passo de marcha rápida à volta dos edifícios do seu posto de comando em Poltava durante quarenta minutos, sempre perdido nos seus pensamentos sobre as tarefas que deveria desempenhar e as decisões que teria que tomar durante o dia.
No dia seguinte, teria de acordar ainda mais cedo de modo a inspeccionar uma das suas divisões de infantaria estacionadas nas imediações da cidade. Suspeitava que os oficiais estavam a ser descuidados em relação a algumas das suas ordens que tinham como objectivo o bom ambiente político dos soldados. Antes do Natal, tinha encontrado várias frases de protesto escritas a carvão nas paredes do seu quartel-general. Por norma, Walter ficava calmo em quase todo o tipo de situação mas, quando leu as frases, não conseguiu evitar explodir de raiva porque as mensagens eram mais provocadoras do que ele conseguia tolerar. “Queremos voltar para a Alemanha” diziam algumas, outras aclamavam “Estamos fartos disto” ou “Estamos sujos, temos piolhos e queremos ir para casa”. Outros foram mais longe, escrevendo “Não queremos esta guerra”. Obviamente, como era normal nestes casos, responsabilizara os oficiais por este incidente. Eram eles quem tinham de responder pelas acções dos seus soldados e lidar com elas e com as respectivas consequências, tal como ele tinha que responder pelas acções dos seus oficiais perante o Alto Comando.
A União Soviética seria novamente atacada assim que a Primavera despontasse. Era isso que o Führer desejava e, por isso, Walter estava disposto a tudo para ser bem-sucedido. Era um membro convicto e dedicado do DAP, Deutsche Arbeitespartei, desde 1932, quando conhecera Hitler pessoalmente e as suas ideias ambiciosas o cativaram. E continuaria a ser, pois acreditava nos mesmos ideais e tinha os mesmos objectivos. Não se arrependia, nem iria fazê-lo tão cedo, de ter doado uma das maiores fábricas de móveis da Alemanha ao partido. Era provavelmente a maior das fatias pertencente aos valores da família, a qual o partido transformou prontamente numa fábrica de munições poucos meses antes da guerra começar. Na realidade, essa doação havia-lhe poupado muito trabalho administrativo, dando-lhe assim oportunidade de se dedicar inteiramente à sua carreira militar, que era a única coisa que no fundo realmente lhe interessava.
A campanha do ano anterior havia corrido muito bem. Na maior parte do tempo, os Panzer limitaram-se a avançar sem resistência pelo meio das planícies semi-desertas. A Rússia estava perto da ruptura e, se a campanha desse ano tivesse semelhante sucesso, aconteceria à Rússia pior do que havia acontecido na Primeira Guerra Mundial. A falta de comida causara uma forte desmoralização e revoltas, que terminaram num colapso completo, assim a Rússia fora forçada a desistir do conflito. Porém, desta vez isso implicaria uma rendição incondicional. As linhas gerais para esse ano já estavam a ser delineadas, e ele estava confiante de que iriam ser bem-sucedidos sem grandes dificuldades. A melhor parte, no seu ponto de vista, era o facto de ser uma das peças chave de todo o plano. Nunca a Alemanha estivera tão perto de se vingar da humilhação que sofrera há quase vinte e quatro anos atrás. E, depois da Rússia, cairia o Reino Unido, que não tinha meios para continuar sozinho a luta na Europa. Os Estados Unidos da América não representavam uma ameaça real, apesar de oficialmente estarem em guerra com a Alemanha, havia algumas semanas. Os japoneses foram esplendidamente eficientes no seu ataque surpresa à principal base naval Norte-Americana no Hawai, que ocorrera no mês passado. Dezenas de navios foram afundados, o que iria, sem dúvida, limitar as operações americanas no Pacífico. Mais uma vitória para os aliados da Alemanha. Em sintonia com o Imperador japonês, Hitler decidira declarar guerra aos Estados Unidos da América.
No dia seguinte, teria de acordar ainda mais cedo de modo a inspeccionar uma das suas divisões de infantaria estacionadas nas imediações da cidade. Suspeitava que os oficiais estavam a ser descuidados em relação a algumas das suas ordens que tinham como objectivo o bom ambiente político dos soldados. Antes do Natal, tinha encontrado várias frases de protesto escritas a carvão nas paredes do seu quartel-general. Por norma, Walter ficava calmo em quase todo o tipo de situação mas, quando leu as frases, não conseguiu evitar explodir de raiva porque as mensagens eram mais provocadoras do que ele conseguia tolerar. “Queremos voltar para a Alemanha” diziam algumas, outras aclamavam “Estamos fartos disto” ou “Estamos sujos, temos piolhos e queremos ir para casa”. Outros foram mais longe, escrevendo “Não queremos esta guerra”. Obviamente, como era normal nestes casos, responsabilizara os oficiais por este incidente. Eram eles quem tinham de responder pelas acções dos seus soldados e lidar com elas e com as respectivas consequências, tal como ele tinha que responder pelas acções dos seus oficiais perante o Alto Comando.
A União Soviética seria novamente atacada assim que a Primavera despontasse. Era isso que o Führer desejava e, por isso, Walter estava disposto a tudo para ser bem-sucedido. Era um membro convicto e dedicado do DAP, Deutsche Arbeitespartei, desde 1932, quando conhecera Hitler pessoalmente e as suas ideias ambiciosas o cativaram. E continuaria a ser, pois acreditava nos mesmos ideais e tinha os mesmos objectivos. Não se arrependia, nem iria fazê-lo tão cedo, de ter doado uma das maiores fábricas de móveis da Alemanha ao partido. Era provavelmente a maior das fatias pertencente aos valores da família, a qual o partido transformou prontamente numa fábrica de munições poucos meses antes da guerra começar. Na realidade, essa doação havia-lhe poupado muito trabalho administrativo, dando-lhe assim oportunidade de se dedicar inteiramente à sua carreira militar, que era a única coisa que no fundo realmente lhe interessava.
A campanha do ano anterior havia corrido muito bem. Na maior parte do tempo, os Panzer limitaram-se a avançar sem resistência pelo meio das planícies semi-desertas. A Rússia estava perto da ruptura e, se a campanha desse ano tivesse semelhante sucesso, aconteceria à Rússia pior do que havia acontecido na Primeira Guerra Mundial. A falta de comida causara uma forte desmoralização e revoltas, que terminaram num colapso completo, assim a Rússia fora forçada a desistir do conflito. Porém, desta vez isso implicaria uma rendição incondicional. As linhas gerais para esse ano já estavam a ser delineadas, e ele estava confiante de que iriam ser bem-sucedidos sem grandes dificuldades. A melhor parte, no seu ponto de vista, era o facto de ser uma das peças chave de todo o plano. Nunca a Alemanha estivera tão perto de se vingar da humilhação que sofrera há quase vinte e quatro anos atrás. E, depois da Rússia, cairia o Reino Unido, que não tinha meios para continuar sozinho a luta na Europa. Os Estados Unidos da América não representavam uma ameaça real, apesar de oficialmente estarem em guerra com a Alemanha, havia algumas semanas. Os japoneses foram esplendidamente eficientes no seu ataque surpresa à principal base naval Norte-Americana no Hawai, que ocorrera no mês passado. Dezenas de navios foram afundados, o que iria, sem dúvida, limitar as operações americanas no Pacífico. Mais uma vitória para os aliados da Alemanha. Em sintonia com o Imperador japonês, Hitler decidira declarar guerra aos Estados Unidos da América.
A segunda parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.co.uk/2012/05/queda-de-von-reichenau-segunda-parte.html
Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava
relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico
aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Nächste Haltestelle
Atenção: Texto em alemão. Em breve publico a versão portuguesa.
Ein Tag wie jeder andere, ein Morgen wie jeder andere. Eine Temperatur unter null Grad, an diesem kalten Tag im Februar schneit es. Tatsächlich, die Stadt Hamburg ist nicht bekannt für gutes Wetter, sie hat graue Tage mit viel Wolken und Regen, mehr als die Hälfte des Jahres, und in der restlichten Zeit hat sie Schnee. Die kleinen Flocken fliegen frei mit dem Wind. Man kann niemanden sehen in diesem weißen Mantel. Ich will nicht in diese Kalte gehen, aber letztendlich weiß ich, dass ich raus muss, oder ich komme wieder zu spät in meine Vorlesung.
Als ich die Tür öffne, kommt eine eisige Welle. Die kalte Luft strömt in meine Atemwege mit großem Schmerz. Ich kann nicht durch den Schnee gehen, weil ich nicht geradeaus gucken kann, wenn der Schnee mir in die Augen stösst. Dann muss ich den Kopf hängen lassen. Das erste Mal fand ich den Schnee lustig und ich ging langsam zur Universität, aber jetzt nicht mehr. Die Fahrräder sind alle auf ihren Plätzen, niemand benuzt sie bei diesem Wetter. Zum Glück hat jemand die Straße gefegt, und ich kann ohne Probleme gehen. Gestern bin ich auf diesem Bürgersteig voller Schnee fast hingefallen. Es gibt wenige Leute auf der Straße, und alle haben einen Schneeschirm. Schneeschirm ist eine alberne deutsche Übersetzung für den Regenschirm, den Deutsche bei Schnee benutzen. Weil ich keinen Schneeschirm habe, bin ich schnell mit Schnee bedeckt. Die fünf Minuten zu Fuß zur U-Bahn
Station scheinen fast wie eine halbe Stunde, weil ich immer sehen muss, wo meine Füße sind. Viel Schnee ist geschmolzen, gemischt mit Erde macht es Schlamm aus Pfützen. Es gibt viele Eisbrocken, wo ich zu jeder Zeit ausrutschen könnte.
Am Eingang der U-Bahn-Station Lutterothstraße, als ich den Schnee von mir schüttele sehe ich ein Werbung: Eine Erdbeere in einem Kondom, um von der Gefahr von Aids zu warnen.
Ich gehe die Treppe runter, ignoriere der Fahrkartenautomat. Die Studenten in Deutschland haben immer einige Vorteile, zum Beispiel freie Fahrt mit den öffentlichen Verkehrsmitteln.
Die U-Bahn in Richtung Gänsemarkt wird in drei Minuten kommen. In der Regel verlassen ich in Messehallen die Bahn, um zum Unterricht zu gehen.
Ein Großteil der Bahn ist gestoppt für Reparaturen, das ist sehr ärgerlich für die Reise in die Innenstadt. Es gibt zwei Lösungen: Den Bus, der diese Stationen abfährt oder zurück gehen, am Schlump umsteigen, um mit der gelben Linie auf die andere Seite der Stadt zu kommen: ich mag beides nicht. Aber zumindest arbeiten sie in Deutschland an der Infrastruktur...
Dann sehe ich sie. Blonde Haare, blasse Haut und grüne Augen, geschwollen von weinen. Sie trägt Jeans und einen langen beigen Mantel. Handschuhe trägt sie nicht an den Händen und sie sitzt auf den Sitzen. Das Haar ist nicht sehr lang, vielleicht bis zu den Schultern, aber sie hat die Haare zu einen Pferdschwanz gebunden. Jeden Tag ist sie in dieser U-Bahn Station. Sie wird nicht mehr als fünfundzwanzig Jahre alt sein. Heute habe ich beschlossen, die Routine zu durchbrechen und frage sie, was geschehen war:
- Entschuldigung, was ist los?
Sie sieht mich an, mit Angst in den Augen und verändert die Worte zu einem aggressiven:
- Was willst du? Fahr zur Hölle!
- Ich will dir helfen!
- Ich brauche deine Hilfe nicht!
- Was ist dein Problem?
Ihr Gesicht verändert sie wieder konform, und sie sagt:
- Wenn man tot ist, hat man keine Probleme mehr.
- Laß mich dir helfen!
Ein Ausdruck von Schmerz in ihrem Gesicht:
- Niemand kann mir helfen...
- Aber...
Schon wieder ein aggressiver Ausdruck:
- Geh weg!
Ich entscheide mich dafür, keinen Druck zu machen, in irgendeiner Weise hatte sich die Anzeige der U-Bahn zu "fährt sofort" verändert, das Signal, dass die U-Bahn einfährt.
Die U-Bahn kommt in diese Station rein. Ihre Türen öffnen sich und viele Menschen kommen raus während ich warte einsteigen zu können. Ein Glück, es gibt einen Sitz für mich, das ist nicht normal. Ich schaue durch das Fenster wieder zu ihr. Die automatische Stimme der U-Bahn sagt:
- Zurückbleiben, bitte!
Die Türen beginnen sich zu schließen, Sie hebt den Kopf und schaut mir in die Augen. Die U-Bahn setzt sich langsam in Bewegung, Beschleunigt, und ich verliere sie aus meinem Blickfeld.
Wie immer komme ich zu spät: es ist mir unmöglich mich an den deutschen Stil zu gewöhnen: keine akademische Viertelstunden...
Während der Vorlesung vergesse ich, was passiert ist. Am Mittag fahre ich mit der U-Bahn wieder nach Hause, aber ich erreiche nur die Station Osterstraße, weil die Linie eingestellt wurde.
Ich muss die Station verlassen und komme wieder mitten in den Schnee, heute ist nicht mein Glückstag. Ich könnte zu Fuß über einen Kilometer gehen oder für unbestimmte Zeit auf einen Bus warten. Ich habe mich schon einmal in diesem Stadteil verlaufen, an dem ersten Tag, den ich hier gelebt habe, aber jetzt kenne ich diese Straße gut. Außerdem habe ich jetzt immer einen Stadtplan in meiner Tasche. Es dauert eine Viertelstunde um diese große Straße zu überqueren, Geschäfte und Menschen auf der einen und auf der anderen Seite, das schlechte Wetter verhindert nicht, dass Menschen, Ihr sinnloses Leben aus Kauf und Konsum leben.
Schließlich komme ich an der U-Bahn Station Lutterothstraße an. Manche Menschen warten auf den Bus, um an Ihr Ziel zu kommen, ich frage einen von ihnen:
- Was ist passiert?
Er reagiert mit Gleichgültigkeit, ist verärgert, weil seine Routine gestört ist:
- Heute morgen hat sich eine Frau umgebracht.
Escrevi este pequeno conto para o curso de alemão e acabei por gostar bastante dele.
Ein Tag wie jeder andere, ein Morgen wie jeder andere. Eine Temperatur unter null Grad, an diesem kalten Tag im Februar schneit es. Tatsächlich, die Stadt Hamburg ist nicht bekannt für gutes Wetter, sie hat graue Tage mit viel Wolken und Regen, mehr als die Hälfte des Jahres, und in der restlichten Zeit hat sie Schnee. Die kleinen Flocken fliegen frei mit dem Wind. Man kann niemanden sehen in diesem weißen Mantel. Ich will nicht in diese Kalte gehen, aber letztendlich weiß ich, dass ich raus muss, oder ich komme wieder zu spät in meine Vorlesung.
Als ich die Tür öffne, kommt eine eisige Welle. Die kalte Luft strömt in meine Atemwege mit großem Schmerz. Ich kann nicht durch den Schnee gehen, weil ich nicht geradeaus gucken kann, wenn der Schnee mir in die Augen stösst. Dann muss ich den Kopf hängen lassen. Das erste Mal fand ich den Schnee lustig und ich ging langsam zur Universität, aber jetzt nicht mehr. Die Fahrräder sind alle auf ihren Plätzen, niemand benuzt sie bei diesem Wetter. Zum Glück hat jemand die Straße gefegt, und ich kann ohne Probleme gehen. Gestern bin ich auf diesem Bürgersteig voller Schnee fast hingefallen. Es gibt wenige Leute auf der Straße, und alle haben einen Schneeschirm. Schneeschirm ist eine alberne deutsche Übersetzung für den Regenschirm, den Deutsche bei Schnee benutzen. Weil ich keinen Schneeschirm habe, bin ich schnell mit Schnee bedeckt. Die fünf Minuten zu Fuß zur U-Bahn
Station scheinen fast wie eine halbe Stunde, weil ich immer sehen muss, wo meine Füße sind. Viel Schnee ist geschmolzen, gemischt mit Erde macht es Schlamm aus Pfützen. Es gibt viele Eisbrocken, wo ich zu jeder Zeit ausrutschen könnte.
Am Eingang der U-Bahn-Station Lutterothstraße, als ich den Schnee von mir schüttele sehe ich ein Werbung: Eine Erdbeere in einem Kondom, um von der Gefahr von Aids zu warnen.
Ich gehe die Treppe runter, ignoriere der Fahrkartenautomat. Die Studenten in Deutschland haben immer einige Vorteile, zum Beispiel freie Fahrt mit den öffentlichen Verkehrsmitteln.
Die U-Bahn in Richtung Gänsemarkt wird in drei Minuten kommen. In der Regel verlassen ich in Messehallen die Bahn, um zum Unterricht zu gehen.
Ein Großteil der Bahn ist gestoppt für Reparaturen, das ist sehr ärgerlich für die Reise in die Innenstadt. Es gibt zwei Lösungen: Den Bus, der diese Stationen abfährt oder zurück gehen, am Schlump umsteigen, um mit der gelben Linie auf die andere Seite der Stadt zu kommen: ich mag beides nicht. Aber zumindest arbeiten sie in Deutschland an der Infrastruktur...
Dann sehe ich sie. Blonde Haare, blasse Haut und grüne Augen, geschwollen von weinen. Sie trägt Jeans und einen langen beigen Mantel. Handschuhe trägt sie nicht an den Händen und sie sitzt auf den Sitzen. Das Haar ist nicht sehr lang, vielleicht bis zu den Schultern, aber sie hat die Haare zu einen Pferdschwanz gebunden. Jeden Tag ist sie in dieser U-Bahn Station. Sie wird nicht mehr als fünfundzwanzig Jahre alt sein. Heute habe ich beschlossen, die Routine zu durchbrechen und frage sie, was geschehen war:
- Entschuldigung, was ist los?
Sie sieht mich an, mit Angst in den Augen und verändert die Worte zu einem aggressiven:
- Was willst du? Fahr zur Hölle!
- Ich will dir helfen!
- Ich brauche deine Hilfe nicht!
- Was ist dein Problem?
Ihr Gesicht verändert sie wieder konform, und sie sagt:
- Wenn man tot ist, hat man keine Probleme mehr.
- Laß mich dir helfen!
Ein Ausdruck von Schmerz in ihrem Gesicht:
- Niemand kann mir helfen...
- Aber...
Schon wieder ein aggressiver Ausdruck:
- Geh weg!
Ich entscheide mich dafür, keinen Druck zu machen, in irgendeiner Weise hatte sich die Anzeige der U-Bahn zu "fährt sofort" verändert, das Signal, dass die U-Bahn einfährt.
Die U-Bahn kommt in diese Station rein. Ihre Türen öffnen sich und viele Menschen kommen raus während ich warte einsteigen zu können. Ein Glück, es gibt einen Sitz für mich, das ist nicht normal. Ich schaue durch das Fenster wieder zu ihr. Die automatische Stimme der U-Bahn sagt:
- Zurückbleiben, bitte!
Die Türen beginnen sich zu schließen, Sie hebt den Kopf und schaut mir in die Augen. Die U-Bahn setzt sich langsam in Bewegung, Beschleunigt, und ich verliere sie aus meinem Blickfeld.
Wie immer komme ich zu spät: es ist mir unmöglich mich an den deutschen Stil zu gewöhnen: keine akademische Viertelstunden...
Während der Vorlesung vergesse ich, was passiert ist. Am Mittag fahre ich mit der U-Bahn wieder nach Hause, aber ich erreiche nur die Station Osterstraße, weil die Linie eingestellt wurde.
Ich muss die Station verlassen und komme wieder mitten in den Schnee, heute ist nicht mein Glückstag. Ich könnte zu Fuß über einen Kilometer gehen oder für unbestimmte Zeit auf einen Bus warten. Ich habe mich schon einmal in diesem Stadteil verlaufen, an dem ersten Tag, den ich hier gelebt habe, aber jetzt kenne ich diese Straße gut. Außerdem habe ich jetzt immer einen Stadtplan in meiner Tasche. Es dauert eine Viertelstunde um diese große Straße zu überqueren, Geschäfte und Menschen auf der einen und auf der anderen Seite, das schlechte Wetter verhindert nicht, dass Menschen, Ihr sinnloses Leben aus Kauf und Konsum leben.
Schließlich komme ich an der U-Bahn Station Lutterothstraße an. Manche Menschen warten auf den Bus, um an Ihr Ziel zu kommen, ich frage einen von ihnen:
- Was ist passiert?
Er reagiert mit Gleichgültigkeit, ist verärgert, weil seine Routine gestört ist:
- Heute morgen hat sich eine Frau umgebracht.
Escrevi este pequeno conto para o curso de alemão e acabei por gostar bastante dele.
domingo, 13 de maio de 2012
Prologo alternativo para o primeiro livro da trilogia de Estalinegrado - Quarta e última Parte
O seu coração batia descompassadamente face à antecipação. Um nervoso miudinho tinha-se apoderado dela, nervoso esse que cresceu com cada passo que ele dava na sua direcção, ao ponto de estremecer involuntariamente quando ele lhe pegou na mão. Não conseguiu evitar corar ainda mais. O aperto de mão era firme, sem magoar, mas ao mesmo tempo caloroso. Ela sorriu desastradamente, e ele devolveu-lhe um sorriso caloroso, enquanto acenava afirmativamente com a cabeça. A outra mão juntou-se à dela, de modo a reforçar o que pareceu a Klara uma bênção de um ente superior. Era o acontecimento mais importante da sua vida. Nenhum deles disse absolutamente nada, mas os olhares cruzaram-se durante um breve instante. Então ela apercebeu-se que ele esperava que ela lhe dissesse o seu nome, à semelhança das outras. Klara sentia que todos os olhos estavam cravados nela, mas não se importou, aquele momento era só dela. Nunca imaginara ter um momento daqueles, por isso balbuciou o nome duma forma muito atabalhoada. Não era realmente importante a forma parva como tinha pronunciado o nome, acima de tudo aquele era um momento somente de ambos, pensou ela quando ele lhe largou a mão. Não voltou a olhá-la e seguiu em frente, o momento mágico de Klara tinha terminado.
― Iremos de seguida falar com os engenheiros para podermos discutir os detalhes da proposta principal. ― Anunciou Gustav, dirigindo-se para a porta traseira, abrindo-a e indicando o caminho com o braço estendido e a palma da mão aberta. ― Sigam por aqui, por favor.
Todos eles saíram, sendo Gustav o último e fechando a porta atrás de si.
Nenhum deles voltou ao escritório. Ao fim da tarde, Gustav regressou com um monte de papéis que pousou na mesa de Klara.
― Fräulein Klara, preciso que passe a limpo a acta da reunião para o arquivo. É muito importante, por isso peço-lhe que passe a ser a sua prioridade máxima até estar concluída. ― Pediu Gustav.
Klara olhou primeiro para o monte de folhas escritas à mão e depois para o seu chefe. Gustav parecia satisfeito. Ela não podia perguntar sobre a reunião, porque isso seria interpretado como vontade de saber mais do que era conveniente. De qualquer modo, pensou, devia estar tudo escrito na acta.
Assim que este saiu, todas se aglomeraram à volta da sua secretária. Tentaram deitar as mãos aos papéis para lê-los.
― Parem, ainda vão estragar alguma coisa! Eu vou passar a limpo e depois deixo-vos ler. ― Impôs Klara levantando a voz, de modo a mostrar zelo em relação ao trabalho.
― És muito egoísta! Com esse feitio nunca irás fazer muitos amigos! ― Provocou uma delas desapontada.
Klara ignorou a resposta da colega. Era verdade, ela queria ser a única a ler e, mal acabasse de passar a limpo, iria entregar tudo a Gustav imediatamente. Assim que elas voltaram aos seus lugares, Klara colocou uma folha na máquina de escrever e começou a dactilografar o conteúdo da acta.
Hitler, encorajado pelos generais das Forças Armadas Alemãs, havia pedido aos técnicos da Krupp para averiguar a possibilidade de construir uma super-arma de artilharia capaz de destruir os fortes franceses na fronteira com a Alemanha, que tinham sido recentemente construídos, tal como Klara suspeitara.
Esses fortes eram conhecidos como Linha Maginot, a qual cobria toda a fronteira entre a Alemanha e a França, começando a sul, no norte de Itália, e terminando no norte da Bélgica. Era composta por fortificações bastante modernizadas, consideradas imunes contra qualquer tipo de armamento existente. Os fortes possuíam luz eléctrica e encontravam-se ligados uns aos outros por linhas ferroviárias subterrâneas. Felizmente, a linha de fortificações era mais fraca a norte, pois os franceses não pretendiam deixar passar a mensagem que, caso houvesse problemas, a Bélgica, Holanda e Luxemburgo estariam entregues a si próprios.
Quanto à super-arma, Hitler desejava que as suas munições fossem capazes de atravessar sete metros de betão ou um metro de blindagem, atingindo um alcance muito superior a qualquer artilharia existente.
Gustav escrevera na margem da folha que, possivelmente, Hitler teria em mente uma versão actualizada da Paris-Geschütz, que fora usada durante a Primeira Guerra Mundial. Essa peça de artilharia única, conhecida por Arma de Paris, também fora construída pela Krupp e ficara famosa por conseguir atingir Paris a uma distância de cento e trinta quilómetros, algo que para a época era inigualável. Fora a artilharia com maior alcance alguma vez usada em combate até essa altura. Por infortúnio, só foi colocada em uso quando a guerra se lutava somente nas trincheiras, o que limitou a sua eficácia, sendo os alemães obrigados a usar um projéctil leve para conseguir o alcance desejado. Apesar da fraca precisão e do pouco poder destrutivo da arma, a vida em Paris estagnou temporariamente. A cidade paralisava entre cada disparo, devido ao terror da população. No entanto, ao contrário da Paris-Geschütz em que o maior dano que causara fora na moral francesa, Hitler não pretendia uma arma com uma precisão medíocre, um poder banal e um alcance extraordinário. Ele queria algo que destruísse qualquer fortaleza francesa que se atravessasse no seu caminho. Como as leis da física impediam que se melhorasse em poder destrutivo sem alterar completamente o projecto, uma nova arma teria de ser desenhada.
Apesar de todo o entusiasmo, Hitler não se comprometera definitivamente com a Krupp. Gustav acrescentou no fim da acta que esperava poder retomar os planos que o engenheiro Dr. Erich Müller havia elaborado dois anos antes, a pedido do Alto Comando do Exército Alemão. Seria, caso fosse concluída, a maior arma alguma vez feita, ultrapassando a Paris-Geschütz em todos os aspectos, excepto no alcance.
Enquanto dactilografava, Klara não conseguia deixar de pensar que talvez tivesse testemunhado um momento histórico. Lá fora, as nuvens estavam cada vez mais carregadas, sinal de que não tardaria uma tempestade.
Este prologo foi substituído por outro, já que não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
― Iremos de seguida falar com os engenheiros para podermos discutir os detalhes da proposta principal. ― Anunciou Gustav, dirigindo-se para a porta traseira, abrindo-a e indicando o caminho com o braço estendido e a palma da mão aberta. ― Sigam por aqui, por favor.
Todos eles saíram, sendo Gustav o último e fechando a porta atrás de si.
Nenhum deles voltou ao escritório. Ao fim da tarde, Gustav regressou com um monte de papéis que pousou na mesa de Klara.
― Fräulein Klara, preciso que passe a limpo a acta da reunião para o arquivo. É muito importante, por isso peço-lhe que passe a ser a sua prioridade máxima até estar concluída. ― Pediu Gustav.
Klara olhou primeiro para o monte de folhas escritas à mão e depois para o seu chefe. Gustav parecia satisfeito. Ela não podia perguntar sobre a reunião, porque isso seria interpretado como vontade de saber mais do que era conveniente. De qualquer modo, pensou, devia estar tudo escrito na acta.
Assim que este saiu, todas se aglomeraram à volta da sua secretária. Tentaram deitar as mãos aos papéis para lê-los.
― Parem, ainda vão estragar alguma coisa! Eu vou passar a limpo e depois deixo-vos ler. ― Impôs Klara levantando a voz, de modo a mostrar zelo em relação ao trabalho.
― És muito egoísta! Com esse feitio nunca irás fazer muitos amigos! ― Provocou uma delas desapontada.
Klara ignorou a resposta da colega. Era verdade, ela queria ser a única a ler e, mal acabasse de passar a limpo, iria entregar tudo a Gustav imediatamente. Assim que elas voltaram aos seus lugares, Klara colocou uma folha na máquina de escrever e começou a dactilografar o conteúdo da acta.
Hitler, encorajado pelos generais das Forças Armadas Alemãs, havia pedido aos técnicos da Krupp para averiguar a possibilidade de construir uma super-arma de artilharia capaz de destruir os fortes franceses na fronteira com a Alemanha, que tinham sido recentemente construídos, tal como Klara suspeitara.
Esses fortes eram conhecidos como Linha Maginot, a qual cobria toda a fronteira entre a Alemanha e a França, começando a sul, no norte de Itália, e terminando no norte da Bélgica. Era composta por fortificações bastante modernizadas, consideradas imunes contra qualquer tipo de armamento existente. Os fortes possuíam luz eléctrica e encontravam-se ligados uns aos outros por linhas ferroviárias subterrâneas. Felizmente, a linha de fortificações era mais fraca a norte, pois os franceses não pretendiam deixar passar a mensagem que, caso houvesse problemas, a Bélgica, Holanda e Luxemburgo estariam entregues a si próprios.
Quanto à super-arma, Hitler desejava que as suas munições fossem capazes de atravessar sete metros de betão ou um metro de blindagem, atingindo um alcance muito superior a qualquer artilharia existente.
Gustav escrevera na margem da folha que, possivelmente, Hitler teria em mente uma versão actualizada da Paris-Geschütz, que fora usada durante a Primeira Guerra Mundial. Essa peça de artilharia única, conhecida por Arma de Paris, também fora construída pela Krupp e ficara famosa por conseguir atingir Paris a uma distância de cento e trinta quilómetros, algo que para a época era inigualável. Fora a artilharia com maior alcance alguma vez usada em combate até essa altura. Por infortúnio, só foi colocada em uso quando a guerra se lutava somente nas trincheiras, o que limitou a sua eficácia, sendo os alemães obrigados a usar um projéctil leve para conseguir o alcance desejado. Apesar da fraca precisão e do pouco poder destrutivo da arma, a vida em Paris estagnou temporariamente. A cidade paralisava entre cada disparo, devido ao terror da população. No entanto, ao contrário da Paris-Geschütz em que o maior dano que causara fora na moral francesa, Hitler não pretendia uma arma com uma precisão medíocre, um poder banal e um alcance extraordinário. Ele queria algo que destruísse qualquer fortaleza francesa que se atravessasse no seu caminho. Como as leis da física impediam que se melhorasse em poder destrutivo sem alterar completamente o projecto, uma nova arma teria de ser desenhada.
Apesar de todo o entusiasmo, Hitler não se comprometera definitivamente com a Krupp. Gustav acrescentou no fim da acta que esperava poder retomar os planos que o engenheiro Dr. Erich Müller havia elaborado dois anos antes, a pedido do Alto Comando do Exército Alemão. Seria, caso fosse concluída, a maior arma alguma vez feita, ultrapassando a Paris-Geschütz em todos os aspectos, excepto no alcance.
Enquanto dactilografava, Klara não conseguia deixar de pensar que talvez tivesse testemunhado um momento histórico. Lá fora, as nuvens estavam cada vez mais carregadas, sinal de que não tardaria uma tempestade.
Este prologo foi substituído por outro, já que não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
sábado, 12 de maio de 2012
Prologo alternativo para o primeiro livro da trilogia de Estalinegrado - Terceira Parte
― Bom dia, mein Führer! ― Responderam em coro, dobrando ligeiramente os joelhos e inclinando suavemente a cabeça.
A cabeça de Klara estava num turbilhão. Era provavelmente o momento mais importante da sua vida, ia finalmente conhecer o homem que prometera colocar a Alemanha no lugar onde merecia. As mudanças já tinham começado, a economia crescia sem parar, e outras nações começavam novamente a respeitar a pátria enquanto algumas a temiam. Será que ele a iria cumprimentar, ou limitar-se-ia a passar à sua frente? De que modo deveria ela cumprimentá-lo? Deveria esperar que ele tomasse a iniciativa quando chegasse perto ou deveria ser ela a avançar? Será que ele a iria olhar nos olhos? Será que lhe era permitido olhar nos olhos? Será que a iria achar bonita e atraente? Ela não se achava especialmente bonita, mas sabia que a maioria dos homens não conseguiam parar de cortejá-la de uma maneira quase crónica. Corou ao se aperceber dos seus pensamentos.
― O general Ludwig Beck. ― Apresentou Gustav apontando para o militar que estava mais perto de Adolf.
Ludwig era uns bons centímetros mais alto que Hitler e usava um uniforme militar em tudo semelhante, à excepção das insígnias. Usava também um boné de general, decorado com uma águia no topo, dois cordões dourados por cima da pala e dois ramos de oliveira dourados no meio. Devia ter mais de cinquenta anos, e não tinha barba nem bigode. A face era afiada, o nariz sobressaía e tinha numerosas rugas à volta dos olhos. A sua expressão denotava aborrecimento, sem se esforçar por esconder que considerava uma perda de tempo aquela paragem para conhecer as secretárias.
― O general Werner von Fritsch. ― Aduziu Gustav, depois das secretárias o cumprimentarem como tinham feito a Hitler e ao outro general.
Werner trazia também vestido um uniforme militar e calçava umas botas semelhantes às de Ludwig mas, ao contrário deste, a cabeça estava completamente destapada. Tinha uma grande falta de cabelo no topo, falta essa que era pronunciada pelo facto de o ter penteado para trás. Já tinha numerosos cabelos brancos, especialmente nos lados. Parecia mais novo que Ludwig, devido à sua expressão mais leve e à sua face mais redonda. Usava um monóculo no olho esquerdo e tinha um pequeno bigode quase triangular. As secretárias sorriram-lhe e ele sorriu-lhes de volta.Como se tivessem previamente combinado, todas elas se alinharam no espaço que servia de corredor entre as secretárias. Ao ver isso, Adolf dirigiu-se à mais próxima e deu-lhe um aperto de mão caloroso. Gustav seguiu ao seu lado, parecendo extremamente satisfeito com esse desenvolvimento. Ambos os generais passaram sem se preocuparem em cumprimentar as secretárias, e os guardas tentaram passar despercebidos. Hitler cumprimentou-as sucessivamente uma a seguir à outra, sem pressas, até chegar a Klara, que era a última da fila.
Este prologo foi substituído por outro, já que não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
A cabeça de Klara estava num turbilhão. Era provavelmente o momento mais importante da sua vida, ia finalmente conhecer o homem que prometera colocar a Alemanha no lugar onde merecia. As mudanças já tinham começado, a economia crescia sem parar, e outras nações começavam novamente a respeitar a pátria enquanto algumas a temiam. Será que ele a iria cumprimentar, ou limitar-se-ia a passar à sua frente? De que modo deveria ela cumprimentá-lo? Deveria esperar que ele tomasse a iniciativa quando chegasse perto ou deveria ser ela a avançar? Será que ele a iria olhar nos olhos? Será que lhe era permitido olhar nos olhos? Será que a iria achar bonita e atraente? Ela não se achava especialmente bonita, mas sabia que a maioria dos homens não conseguiam parar de cortejá-la de uma maneira quase crónica. Corou ao se aperceber dos seus pensamentos.
― O general Ludwig Beck. ― Apresentou Gustav apontando para o militar que estava mais perto de Adolf.
Ludwig era uns bons centímetros mais alto que Hitler e usava um uniforme militar em tudo semelhante, à excepção das insígnias. Usava também um boné de general, decorado com uma águia no topo, dois cordões dourados por cima da pala e dois ramos de oliveira dourados no meio. Devia ter mais de cinquenta anos, e não tinha barba nem bigode. A face era afiada, o nariz sobressaía e tinha numerosas rugas à volta dos olhos. A sua expressão denotava aborrecimento, sem se esforçar por esconder que considerava uma perda de tempo aquela paragem para conhecer as secretárias.
― O general Werner von Fritsch. ― Aduziu Gustav, depois das secretárias o cumprimentarem como tinham feito a Hitler e ao outro general.
Werner trazia também vestido um uniforme militar e calçava umas botas semelhantes às de Ludwig mas, ao contrário deste, a cabeça estava completamente destapada. Tinha uma grande falta de cabelo no topo, falta essa que era pronunciada pelo facto de o ter penteado para trás. Já tinha numerosos cabelos brancos, especialmente nos lados. Parecia mais novo que Ludwig, devido à sua expressão mais leve e à sua face mais redonda. Usava um monóculo no olho esquerdo e tinha um pequeno bigode quase triangular. As secretárias sorriram-lhe e ele sorriu-lhes de volta.Como se tivessem previamente combinado, todas elas se alinharam no espaço que servia de corredor entre as secretárias. Ao ver isso, Adolf dirigiu-se à mais próxima e deu-lhe um aperto de mão caloroso. Gustav seguiu ao seu lado, parecendo extremamente satisfeito com esse desenvolvimento. Ambos os generais passaram sem se preocuparem em cumprimentar as secretárias, e os guardas tentaram passar despercebidos. Hitler cumprimentou-as sucessivamente uma a seguir à outra, sem pressas, até chegar a Klara, que era a última da fila.
Este prologo foi substituído por outro, já que não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.
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