sexta-feira, 11 de maio de 2012

Prologo alternativo para o primeiro livro da trilogia de Estalinegrado - Segunda Parte

Nada digno de nota aconteceu. Passados alguns minutos, as secretárias voltaram para os seus postos desapontadas. Todas tentaram retomar o trabalho, umas de maneira mais séria que outras, mas nenhuma conseguiu ser produtiva devido à tensão do momento.
Klara tinha entrado na empresa há apenas alguns meses. Por ser a mais nova, e ao contrário das suas duas irmãs, ela pudera frequentar a escola e aprender a ler e a escrever. Ajudara a mãe nas tarefas domésticas até aos catorze anos e, mais tarde, trabalhara como ama em casas de famílias mais ricas, cuidando de crianças e efectuando limpezas. Conseguira aquele trabalho devido a um feliz acaso. Gustav passara pela secção onde o irmão dela trabalhava, de modo a ver como as coisas corriam. Ao cumprimentar o encarregado dessa secção da fábrica, perguntara-lhe por impulso se conhecia alguém que fosse de confiança e que pudesse exercer a função de secretária. O negócio estava a crescer e cada vez eram necessárias mais pessoas para manter a correspondência e os ficheiros internos actualizados e organizados. Nem o encarregado se conseguiu lembrar de alguém. Durante o momento seguinte em que tanto Gustav como o encarregado não sabiam o que dizer, o irmão de Klara aproveitou para interromper o silêncio, informando que tinha uma irmã de dezassete anos que sabia ler e escrever e que faria sem dúvida um bom trabalho. Gustav ficou positivamente impressionado com a capacidade de iniciativa do irmão dela e aceitou, sem hesitação, convidá-la para uma entrevista. Klara era uma pessoa organizada e metódica, por isso não teve qualquer problema em conseguir o trabalho, nem desempenhá-lo devidamente.
Quando finalmente conseguiram acalmar-se o suficiente para voltarem realmente ao trabalho, ouviram vozes no exterior. Olharam umas para as outras, novamente surpreendidas, sem saberem o que dizer ou fazer.
Não houve tempo para reagirem pois, no momento seguinte, a porta dianteira abriu-se e Adolf Hitler entrou na sala, seguido por mais dois homens vestidos com uma farda militar e numerosas insígnias nos casacos. De seguida, apareceu Gustav, com os seus papéis na mão e, por fim, dois agentes das SS vestidos de preto, com as suas braçadeiras vermelhas com a suástica preta sobre um fundo redondo branco. Todas permaneceram como estátuas nos seus lugares, umas sentadas em frente das suas máquinas de escrever, outras com papel e lápis na mão, que tinham agarrado há poucos momentos.
O silêncio não durou muito.
Mein Führer, estas são as minhas meninas. Tratam da correspondência, telefonemas, e tudo o que envolva papéis. ― Explicou Gustav, de modo a quebrar o silêncio.
Klara nunca tinha visto Hitler ao vivo. Conhecia a sua face através de fotografias que saíam nos jornais, e a sua voz forte e firme que por vezes ouvia no rádio. A sua baixa estatura saltou-lhe à vista, desapontando-a. Esperava que ele fosse um homem tão forte e tão imponente como as ideias que defendia. O cabelo preto estava penteado para o lado e usava um bigode semelhante ao de Gustav. Klara observou os seus olhos negros enquanto estes perscrutavam a sala. A face oval envergava uma expressão formal e séria, mas não demasiado severa. Era impossível saber o que pensava, nem se estava alegre ou triste, interessado ou aborrecido. Vestia o casaco dum uniforme militar verde-escuro do exército, com uma gravata e uma camisa branca por dentro e um cinto de cabedal preto por fora. As botas altas militares completavam a sua indumentária.
― Meninas, este é o nosso Führer. ― Apresentou-o Gustav.


Este prologo foi substituído por outro, já que não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Prologo alternativo para o primeiro livro da trilogia de Estalinegrado - Primeira Parte

Prólogo – Março de 1936


Os murmúrios das secretárias extinguiram-se subitamente quando um silêncio pesado e tenso instalou-se.
A mudança sobressaltou Klara. Ela pousou as cartas na secretária e deixou de olhar através da janela. Ouviam-se passos no corredor, alguém devia estar prestes a entrar na sala. Tentou voltar ao trabalho pegando novamente na carta que estava no topo. Nesse momento, o patrão entrou no escritório pela porta traseira.
― Bom dia, senhor Krupp! ― Saudara-o a meia dúzia de secretárias quase em coro, esboçando um sorriso.
― Bom dia meninas! ― Respondeu-lhes Gustav num tom amigável, visivelmente satisfeito por ver as faces sorridentes das empregadas, em especial por não estarem a desperdiçar o tempo em conversas como habitualmente faziam.
Vestia o seu fato preto. Dentro do casaco vestia uma camisa branca e uma gravata da mesma cor do fato. Os sapatos eram também pretos e estavam impecavelmente engraxados. A cara era ligeiramente redonda, notando-se a falta de cabelo no topo da cabeça, o qual usava curto. Não apresentava muitas rugas, apesar dos seus sessenta e cinco anos. No entanto, as olheiras acusavam cansaço. Estava impecavelmente barbeado, à excepção dum pequeno bigode rectangular. Trazia um molho de folhas na mão direita, na qual usava também um anel de casamento. Parecia quase tão excitado com o visitante que esperava como o resto das secretárias.
Todas olharam para ele, como se esperassem algumas palavras de inspiração. Ele limitou-se a devolver um sorriso tímido, enquanto se dirigia para a saída, sempre sem parar. Não era necessário mais, todos os seus empregados sabiam que ele era quase um herói nacional.
Klara era muito nova para saber os detalhes, sendo que o que sabia fora-lhe contado pelos outros empregados, quando entrara para a empresa. Pelo que percebera, em 1923 alguns dos empregados da companhia foram mortos durante a ocupação de Ruhr, um distrito no Noroeste da Alemanha, aquando a tentativa de expulsar os soldados franceses duma das suas garagens. A morte desses trabalhadores causou uma onda de revolta popular e de actos de sabotagem. Essa onda piorou quando Gustav organizou um funeral público para as vítimas. Os franceses multaram-no e prenderam-no, o que fez dele um herói da resistência alemã contra os invasores estrangeiros, aura que ainda se mantinha intocável.
Tirou o seu sobretudo castanho do cabide e vestiu-o. Depois colocou as luvas, agarrou no chapéu em forma de coco e nas folhas, saindo de seguida. Sem sequer olhar para trás nem dizer mais nada, fechou a porta suavemente.
Apesar do estado do tempo não ajudar, esperava-se que o dia fosse muito importante para a companhia e para os seus funcionários. O acontecimento que esperavam tinha sido o tema principal de conversa entre todos, durante as últimas semanas.
No instante seguinte, todas as secretárias dirigiram-se para as janelas que davam para a entrada principal, atropelando o espaço onde Klara costumava trabalhar. Todas queriam ver o grande momento da chegada do Führer.
Lá fora só puderam ver uma chuva miudinha e as ruas molhadas de Essen. Algumas pessoas passavam em passo apressado, enquanto outras o faziam mais lentamente com os seus guarda-chuvas.
Não era a primeira vez que Adolf Hitler visitava as instalações da Krupp e, tendo em conta o clima político internacional, provavelmente não seria a última. Nesse dia, Gustav esperava conseguir alguns contractos importantes para a companhia, aproveitando-se da remilitarização da Alemanha.
Oficialmente, a companhia produzia aço e outros equipamentos derivados, especialmente após 1919 devido ao tratado de Versailles, que a proibira de fabricar artilharia. No entanto, desde meados dos anos vinte que começara o desenvolvimento de tanques de guerra, disfarçados como tractor agrícola. Nos últimos anos a sua principal actividade voltara a ser a produção de armas e munições para o exército alemão, que crescia sem parar e na qual a Krupp detinha o monopólio do fabrico de artilharia pesada, do qual não queria abdicar.
Klara não sabia mais do que o óbvio sobre os motivos da visita do Führer, com alguns rumores adicionados. Os rumores que circulavam entre as secretárias tinham começado depois destas terem lido uma carta da Wehrmacht endereçada ao director da Krupp. A carta inquiria sobre o custo da produção de peças de artilharia com certas especificações. Quando Gustav fora informado da carta, decidira imediatamente telefonar de volta de modo a clarificar alguns dos requisitos. Aparentemente, as respostas que obteve não foram totalmente esclarecedoras. Quando o assunto já não podia ser satisfatoriamente discutido por carta nem telefone, Hitler e alguns generais foram convidados por Gustav para visitar pessoalmente as instalações e ouvir o que a Krupp lhes podia oferecer.
Esse foi o ponto de partida para um enorme espaço de especulação entre os empregados. Entre as várias teorias, só havia um dado em comum: os fortes franceses que faziam fronteira com a Alemanha.
Dois carros pretos entraram juntos no caminho de acesso e pararam em frente da entrada principal. Como estavam no primeiro andar, e porque os ocupantes do carro saíram directamente para o interior do edifício, não conseguiram ver quem eram. Fez-se silêncio, na expectativa de que acontecesse algo de extraordinário.


Este prologo foi substituído por outro, já que não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 7/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A sexta parte deste ensaio pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_08.html

Educação


Em Portugal, a educação tornou-se mais acessível durante os últimos cem anos ao ponto de se ter tornado obrigatória para todos. Todavia, a qualidade da mesma fica aquém das reais necessidades. A educação é servida como qualquer outro bem ou serviço, de uma forma impessoal e distante. Sendo que a educação interfere em períodos críticos da formação de valores e personalidade, a sua influência não deve ser desprezada.
Várias imperfeições afectam severamente a qualidade e utilidade da educação, hoje em dia. Pretende-se passar o maior volume de conhecimento possível, aumentando o número de horas que os alunos são retidos nas escolas, contudo, o ensino e estímulo ao pensamento crítico ainda é praticamente inexistente. O pensamento holístico é desencorajado e há uma especialização quase ao ponto do ridículo pois o mundo do trabalho assim o exige, deturpando a imagem global da realidade e descartando todos aqueles que não estão habilitados ou não sou capazes de uma tal focalização. A oferta e procura estão desajustadas criando desemprego em todas as áreas de formação, pois criam-se cursos sem empregabilidade originando armadilhas e becos sem saída para os menos informados. A formação não está completamente acessível a todos, pois propinas e outros custos impedem que realmente haja liberdade de escolha nos caminhos académicos. O racionalismo excessivo em algumas áreas impede a abertura de horizontes para outras dimensões do ser. Por fim, o conhecimento excessivamente teórico e desajustado da realidade faz com que haja um grande hiato entre o que se aprende e o que se pratica.
Convém referir que os factores económicos e políticos condicionam a educação pública que temos, pois há interesses adjacentes à forma como é organizada e, claramente, não são os interesses da população e nem sequer minimamente compatíveis. O panorama nos outros países não é melhor pois, em geral, os mesmos erros são cometidos um pouco em todo o lado, nalguns casos por negligência e noutros de forma intencional.
Em Portugal há a agravante do sistema de ensino ter sido importado de outros países. Usamos a receita, ou melhor, uma mistura de receitas, esperando que resolva os problemas, quando, na verdade, é a a fonte da maioria deles. À semelhança de outros países, paira sobre os portugueses a ameaça da privatização da educação por via das pressões geradas pela dívida externa, pois pretende-se que este sector fundamental passe para o controlo de empresas sem escrúpulos e cujo único interesse é o lucro.
As consequências de uma educação sem qualidade não são visíveis de imediato, sendo que apenas a geração seguinte as irá reflectir. Infelizmente, os primeiros sinais já surgem, fazendo adivinhar um futuro nada promissor. Os receptores da educação de hoje serão os professores de amanhã, de modo que se poderá cair num ciclo vicioso sem fim à vista.
Existem alternativas a este cenário negro, sendo um exemplo os planos sugeridos por Agostinho da Silva para uma educação ajustada ao meio e à realidade, que junte tanto a teoria como a prática. A sociedade assumiria a educação como uma das suas obrigações, fazendo com que cada um se responsabilizasse por ela. Deixaríamos de ter um tempo, um local e uma idade para a escola, passando a haver uma formação contínua, totalmente gratuita, dada e recebida por todos, estando adaptada às necessidades e que abrisse os horizontes a todos.
É pertinente questionamos-nos se dará Portugal um exemplo de uma educação de qualidade ou continuará a copiar os paradigmas estrangeiros.

Conclusão


No próximo século, vários desafios se apresentarão a Portugal e ao seu povo. Este artigo abordou alguns desses desafios com destaque para algumas tendências. Contudo, reconheço que está incompleto e, por vezes, tendencioso devido às minhas convicções. Seria de uma arrogância imperdoável assumir o contrário.
No geral, dois caminhos foram apresentados, um primeiro em que as tendências actuais são seguidas com os seus defeitos até ao extremo; e um segundo em que há uma ruptura em relação a essas tendências e se evolui por outro caminho, guiando o país para uma realidade deferente. Não me considero pessimista ao ponto de afirmar que se seguirá pelo primeiro caminho, nem idealista afirmando que se se seguirá o segundo. As minhas expectativas, que espero ser mais realistas, apontam-me para um caminho intermédio.
Daqui a 100 anos o mundo terá mudado e, com ele, Portugal. Diversos autores escreveram sobre o futuro, muitos expressando as suas preocupações, as quais hoje nos parecem excessivas mas que, pelo contrário, ajudaram a despertar a consciência para problemas escondidos. Outros criaram visões de mundos, que a maioria considerou utópicas, talvez numa tentativa de inspirar as gerações vindouras para a construção de um mundo melhor, que ainda não se realizou. Nem uns nem outros acertaram, ficando geralmente a realidade contida entre essas duas fronteiras imaginárias.
Espero que o povo português possa tomar consciência destes desafios e se empenhe numa mudança que não seja arrastada pelas linhas invisíveis de uma elite. Só assim pode Portugal realmente cumprir-se. Um Portugal de Quinto Império: ideal, exemplo e ponte entre a diversidade do mundo.




Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 6/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A quinta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_07.html

Sociedade

A sociedade transformou-se enormemente no último século. Questionaram-se práticas seculares, a própria organização da sociedade e prometeram-se direitos a todos. Infelizmente, a maioria dessas alterações não tiveram uma repercussão global, sendo que apenas alguns beneficiaram das mesmas. A maioria da população nem sequer sabe da sua existência e outros apenas as olham como algo impossível de acontecer.
Em 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas criou um documento intitulado Declaração Universal dos Direitos Humanos, um documento notável que define os direitos fundamentais do Homem. Nunca antes tinha surgido um documento deste género, tão completo e dizendo ser suportado por tantas nações. Porém, convém agora olhar para o outro lado da moeda e tentar ver quantos desses direitos são realmente garantidos. Ao fazer isso, descobre-se que em cada um desses direitos há uma excepção, mesmo dentro das nações que os assinaram. Os que estabeleceram os direitos são, na maioria das situações, os primeiros a negar a sua aplicação na realidade por questões de conveniência e interesse. Sessenta anos depois desta declaração, a maioria dos direitos ainda são apenas uma miragem.
O fim da monarquia prometia o fim da sociedade hierárquica, onde a ascendência definia os papéis a representar. Na verdade, com a república, com a ditadura que se seguiu e com a nova república, o poder limitou-se a mudar de mãos, sem que a sociedade deixasse de estar hierarquizada. A nova organização, imposta e aceite actualmente, prende-se com a capacidade económica. Até as crianças de tenra idade já tomam parte neste jogo insano, criando grupos baseados nas marcas de roupa que vestem ou na riqueza aparente dos país.
A sociedade actual é modelada pelo medo: medo da fome, medo do desemprego, medo da pobreza, medo do terrorismo, medo da guerra, medo das alterações climáticas, medo de epidemias e medo de estranhos. Medos de inimigos visíveis e invisíveis, alguns reais e outros criados e impingidos à nossa sociedade. Sob o medo da fome, milhares são obrigados a emigrar, deixando para trás o seu país e, por vezes, a sua cultura, em nome de uma abundância e prosperidade que nem sempre correspondem à realidade. Sob o medo do desemprego, as pessoas são levadas a aceitar empregos degradantes, tanto para a mente como para o corpo, tornando-se quase escravos dessa parca fonte de rendimento, que poderá cessar quando já não servir os interesses dos patrões. Sob o medo da pobreza, coloca-se o materialismo como prioridade e cresce uma febre de acumular mais e mais, sem se ter consciência que essa atitude é a principal causa da pobreza. Sob o medo do terrorismo, os cidadãos de inúmeras nações são forçados a abdicar da privacidade, liberdade e outros direitos em nome da segurança, que nunca será realidade enquanto servir os interesses dos governantes políticos e económicos. Sob o medo da guerra, milhares são forçados a fugir do seu próprio país e a viver em autênticos campos de concentração, ou então forçados a lutar contra um inimigo pintado como inumano e demoníaco, respondendo à guerra com mais guerra, quando no fundo a guerra só serve os interesses de uma elite, sendo o povo quem mais sofre com ela. Sob o medo das alterações climáticas, é proibido o desenvolvimento económico de vários países, ao invés de se apostar numa mudança racional dos nossos estilos de vida, enquanto isso, os que mais contribuem para essas alterações continuam a manter o seu estilo de vida insustentável, fazendo recair a factura e um complexo de culpa em quem pouca ou nenhuma culpa tem. Sob o medo de epidemias, milhares foram coagidos a tomar vacinas que eram mais perigosas que as próprias doenças, numa atitude criminosa por parte da industria farmacêutica. Sob o medo de estranhos, o ser humano fecha-se cada vez mais em si mesmo, alimentando sentimentos xenófobos num ciclo que se sustenta a si mesmo gerando mais medo e desconfiança, impedindo-o de conhecer o outro e a sua cultura. Esses medos são alimentados porque servem interesses, citando Mia Couto nas conferências do Estoril em 2011: “há quem tenha medo que o medo acabe”, pois é ele que sustenta esta sociedade doente.
Se estas tendências se mantiverem, o mundo irá cair num autêntico pesadelo Orwelliano, em que a população será forçada a aceitar todas as perversões da realidade sem as questionar, por via do medo e da repressão. Uma sociedade em que se abdicará de direitos em nome de uma falsa segurança.
Vimos nos últimos meses, no mundo e em Portugal, o surgimento de movimentos populares que lutam por uma mudança na sociedade. Apesar de muitos dos movimentos estarem ainda em estado embrionário, é bom ver que ainda há pessoas capazes de ter consciência das falhas e, sem medo,  lutar contra elas. Falta ainda coesão, adesão, coragem e renúncia ao comodismo para que esses movimentos produzam alterações na sociedade e, consequentemente, para que esta passe a reflectir as vontades reais da população. Estes movimentos procuram lutar por uma solução alternativa aos problemas inerentes a esta sociedade de repressão e medo que actualmente nos molda e restringe, apesar de muitos não saberem que o fazem ou porque o fazem, acabando por lutar contra os efeitos ao invés de atacar as causas. Contudo, esta abertura de horizontes é necessária, aumento de responsabilidade e participação por parte das pessoas para que estes movimentos não enveredem pelos mesmos caminhos dos do século passado, que acabaram degenerados e distorcidos ao ponto de apenas servirem os interesses de uma minoria, nunca corrigindo os defeitos crónicos da sociedade.
O povo português terá de enfrentar e desconstruir os seus medos com vista à construção de uma sociedade mais humana e justa. Se não o fizer, ficará fechado num ciclo vicioso em que o medo gera mais medo, aceitando as soluções impostas que foram, à partida desenhadas para não resolverem os problemas fundamentais.

A sétima e última parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio.html


Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/
Um excerto desta parte foi comentado em:  http://movv.org/2012/07/19/pedro-cipriano-a-sociedade-atual-e-modelada-pelo-medo/

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 5/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A quarta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_06.html

Pensamento


A capacidade de pensamento crítico sofreu um declínio durante o último século. Como já referi, a disponibilidade de informação não parece contribuir para uma abertura de horizontes. É claro que a educação contribui de maneira decisiva para a castração do pensamento, contudo, o tema da educação será abordado mais à frente.
A religião, com os seus dogmas; a cultura, com a sua massificação; a sociedade com a sua alergia à mudança e a educação, com sua componente fortemente cartesiana, contribuem para o adormecimento das mentes, anestesiando-as para a realidade. Em vários momentos do século passado a intelectualidade foi fortemente reprimida por via de regimes totalitários, não só em Portugal como no resto do mundo. Nos dias de hoje, essa repressão continua de um modo implícito e não se não se notam grandes diferenças a nível qualitativo em relação ao passado. Todos podem falar, contudo, ninguém diz nada de útil, pois o comodismo e a falta de perspectiva muitas vezes impedem a maioria de contribuir para o fim deste marasmo intelectual. Tudo vale, excepto pensar por si mesmo e questionar.
Esta liberdade intelectual é muitas vezes apenas teórica. Tomando como exemplo a ciência, nem todos os tópicos são bem recebidos, pois os interesses económicos e por vezes, apenas mesquinhos, influenciam os caminhos seguidos pela mesma. Formas de pensar cartesianas, normalizadas e estandardizadas invadiram o panorama intelectual. Passa-se a mensagem de que a capacidade para se ser criativo está apenas ao alcance de alguns. A elite que nos governa não quer que criemos respostas para os problemas, pois prefere que nos voltemos para eles sempre que precisamos de soluções. Até mesmo o comum indivíduo exerce uma pressão para que não se pense diferente da norma. Desta forma a sociedade reprime toda a capacidade de renascimento intelectual. Hoje em dia, ainda é perigoso pensar diferente, pois vários rótulos podem ser atribuídos a quem o faz, desde extremista a lunático, passando por sonhador e utopista. Quando tudo isso falha, as ideias são retiradas do seu contexto para serem ridicularizadas, levando ao descrédito. Nesta sociedade, a maioria não tem uma mente livre, e os que a tem estão fechados em si mesmos, com medo da punição que a sociedade lhes reserva. Esperavam-se grandes mudanças com a queda das monarquias e dos estados totalitários, quando se assumiram estatutos em que a liberdade de pensamento e expressão era um direito fundamental, que não chegaram a acontecer.
A comunicação parece ser mais fácil nos dias de hoje do que era há cem anos atrás, por via do melhoramento dos serviços postais, da disseminação do uso do telefone e do aparecimento da Internet. Independentemente da relevância, muitos procuram passar uma mensagem, seja ela original ou não.
Contudo, falta analisar um ponto relevante. Para haver comunicação: não podemos apenas considerar o emissor, o meio e o receptor, pois a mensagem, relevância e compreensão da mesma são fundamentais. De que serve transmitir para o mundo se nenhuma das pessoas que recebe a mensagem é capaz de a entender? No fim acabamos bombardeados com informação inútil, quando as grandes ideias, problemas e questões são relegados para segundo plano, não conseguindo furar a barreira implacável da não-comunicação.
Se esta tendência se mantiver, o pensamento crítico poderá estar ameaçado. Sem aprender com os erros do passado, cada vez mais, a sociedade procura respostas naqueles que causam os problemas e cada vez mais fica satisfeita com respostas incompletas e tendenciosas daqueles que estão autorizados a pensar. Reflectir sobre a realidade é considerado fútil e, por vezes, até perigoso. Faz falta à população saber que o sonho neoliberal só funciona se a maioria estiver adormecida.
Num cenário alternativo, a maioria reaprende a pensar e não terá medo de o fazer, causando um despertar massivo primeiro de si mesmo e, consequentemente, dos restantes indivíduos. Deixariam de procurar respostas somente nos líderes e, acima de tudo, saberiam produzi-las eles mesmos, para si mesmos. Deixaria de haver medo de questionar. As consciências expandir-se-iam e interagiriam com o mundo, numa simbiose com vista ao aperfeiçoamento mútuo.
Serão os portugueses capazes de se mostrarem acordados e exprimirem o seu pensamento dualistas num mundo em que a maioria está adormecida ou, pelo contrário, irão deixar-se levar pela maré do marasmo intelectual, sendo apenas mais alguns, cada vez mais semelhantes aos restantes?


A sexta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_08.html

Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

Foi comentado em: http://movv.org/2012/09/16/pedro-cipriano-a-capacidade-de-pensamento-critico-sofreu-um-declinio-durante-o-ultimo-seculo-a-disponibilidade-de-informacao-nao-parece-contribuir-para-uma-abertura-de-horizontes-e-claro-qu/

domingo, 6 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 4/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A terceira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_05.html

Espiritualidade


A vivência da religião alterou-se grandemente no último século. À primeira vista é fácil concordar com esta afirmação, dando como exemplo que ainda não se contam muitos anos desde que, nas zonas rurais, os homens assistiam à missa separados das mulheres. Contudo, não é desse tipo de alterações que se pretende discutir aqui, já que a ligação entre espiritualidade e religião é cada vez mais ténue e não se pretende redigir um tratado sobre a adaptação das religiões à passagem do tempo.
Aparte da vivência social, a experiência pessoal da espiritualidade tem-se alterado gradualmente. As pressões consumistas e as distracções providenciadas pela auto-estrada da informação furtam tempo que anteriormente era dedicado à vida espiritual. O crescimento do ateísmo pode também em parte ser explicado pelo enfraquecimento da influência da igreja na sociedade, pessoas que anteriormente eram forçadas pela sociedade à participação na vida espiritual são hoje elas a influenciar para que não se tome parte. O crescimento do ateísmo não é só devido à mudança da importância da religião na sociedade, mas também à educação fortemente racional, que não admite inexplicáveis e muito menos crenças. Estas mudanças não são totalmente negativas, já que a espiritualidade deve ser sobretudo uma vivência pessoal.
Os teístas, ou os que se julgam como tal, também mudaram a sua maneira de viver a religião. Muitos são aqueles que praticam alguma religião só porque sim, sem se esforçarem por compreender os fundamentos da mesma. Vivem de ritos, que vêm como receitas que devem ser seguidas à risca e que já ninguém sabe porquê nem para quê.
O crescimento do número seitas lideradas por charlatães, burlistas e extremistas deve-se ao descontentamento com a forma com que as grandes religiões reagem à sociedade. Infelizmente, todo o clero de alto nível é semelhante à politica de alto nível, pois ambas estão imersas em corrupção, em que os factores-chave na tomada de decisões são interesses de individualidades ou elites.
A maioria subestima a importância da espiritualidade na sociedade, considerando-a como um subproduto inútil. Contudo, essa espiritualidade é um dos principais canais para a transmissão de valores entre indivíduos e até mesmo gerações. Felizmente, não é o único canal, pois inúmeros exemplos mostram-nos que é possível a transmissão desses valores por outras vias. Por outro lado, a vivência da espiritualidade aumenta a coesão da sociedade. A desagregação que sentimos hoje em dia é devida à falta dessa vivência, pois cada um está apenas focado em si e nas suas coisas.
Infelizmente a religião tem sido usada, ao longo da história, como meio de justificar incontáveis crimes. Já para não falar no oportunismo da extrema-direita em relação à coesão social gerada pela religião para cumprir as suas agendas. Um exemplo actual disso são as tensões entre cristãos e muçulmanos, que surgiram após o 11 de Setembro de 2001. A culpa dos atentados terroristas foi atribuída a um grupo fanático muçulmano e, a partir daí, a comunicação social e a demagogia política trataram de extrapolar essa convicção para todos os árabes. É fácil perceber que tudo não passa de jogos políticos e de interesses económicos, em que só uma reduzida elite lucra. Após um século de grandes mudanças a nível social, a religião oficial continua no seu lugar de sempre, feita de rituais vazios, cuja única função é o controlo da população.
Se a actual tendência for seguida, cada vez mais a religião estará vazia de significado, mais misturada com concepções políticas e usada como argumento para se realizarem actos abomináveis, tal como aconteceu no último século. A religião estará assim cada vez mais centralizada e tratará os seus fiéis como ovelhas cegas que seguirão sem questionar para onde os seus líderes lhes ordenarem.
Por outro lado, poderá haver uma ruptura. A religião poderá tornar-se mais pessoal, mais espiritual, em que cada pessoa a vive por e para si mesma. Esta vivência privada não implicará o fim das religiões oficiais nem à cessação da partilha da experiência espiritual, mas antes um soltar de amarras em relação à cabeça das mesmas que, em várias ocasiões, mostrou estar doente. Portugal já anteriormente mostrou que isso era possível.
A cada um é colocado o desafio de dar o exemplo para a vivência espiritual genuína, separando-a definitivamente dos interesses políticos e económicos.


A quinta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_07.html


Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

sábado, 5 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 3/7



Cultura


A cultura é considerada por alguns um sector secundário da nossa sociedade. Ouve-se muitas vezes dizer que não é importante, pois não enche o estômago nem a carteira. Esse é o sinal mais evidente de que atravessamos uma crise de valores. Pessoas que desprezam a cultura como fundamento e fim em si mesma, nunca serão capazes de contribuir efectivamente para o desenvolvimento intelectual do país, para além de que actuam como uma massa inerte, resistente às mudanças na direcção de uma abertura de consciência para os desafios da humanidade.
Durante o último século, avanços tecnológicos levaram à multiplicação do número de editoras e, com à redução do preço, tornando acessíveis bons livros e numerosas revistas e jornais à maioria da população. Porém, a quantidade de lixo e sensacionalismo aumentou também a um ritmo exponencial. A disseminação da rádio, que passou a estar presente em muitos lares, fez com que a informação e as ideias fluíssem mais rapidamente. Depois, com o aparecimento e estabelecimento da televisão a comunicação assumiu uma nova dimensão. Recentemente, a Internet já entrou na casa da maioria dos portugueses, tornando a auto-estrada da informação acessível a quase todos.
Olhando para esta mudança dramática ocorrida nos últimos anos, seriamos tentados, numa aproximação ingénua, a afirmar que isso contribuiu somente de uma maneira positiva para a divulgação e vivência da cultura. Creio que não há nada mais falso que essa suposição, sendo que a maioria do que é divulgado resume-se ao estilo de vida doentio e insustentável promovido pelos interesses económicos. Bombardeiam-nos e confundem-nos a cada momento com a publicidade da cultura do vazio, uma cultura de relações nada humanas em que uma máquina, um produto ou uma máscara é o interface. Surge então como uma cultura de superficialidade, banalidade e sensacionalismo, que lentamente desvanecendo e destruindo todas as culturas genuínas em nome do lucro de uma elite.
A cultura dos nossos antepassados foi substituída por uma versão mais ligeira, diluída e imediata, em que toda e qualquer referência a espiritualidade ou valores morais é ridicularizada. Alguns lutam pela manutenção de certos rituais, contudo o espírito lusófono raramente existe neles. A maioria apenas quer saber do último escândalo que envolva alguma celebridade ou do resultado do último jogo de futebol, deixando de lado, por exemplo, a leitura de um bom livro que a nossa vasta literatura tem para nos oferecer. É fácil culpar os políticos e os interesses económicos. No entanto, neste caso a culpa não é exclusivamente deles, já que cada um de nós mata o nosso espírito lusófono através da negligência. Depois de um início de século em que a cultura portuguesa renasceu devido à contribuição de muitas personalidades notáveis, a sua existência como cultura viva encontra-se seriamente ameaçada.
Devido à tolerância intrínseca do povo português, o choque de culturas nos séculos anteriores sempre teve efeitos mais ligeiros neste país plantado à beira-mar do que, por exemplo, nos nosso vizinhos europeus. Apesar de terem havido períodos em que se cometeram atrocidades, no geral coabitámos com uma harmonia possível e desejável com os judeus, árabes e africanos. Um dos exemplos dessa convivência foi a miscigenação e abolição pioneira da escravatura, dando exemplo a outros países.
Contudo, a crise de valores que atravessamos está a fazer desaparecer essa tolerância. Pode-se considerar erradamente que não há intolerância hoje em dia pois, apesar de não ser explícita, esta cresce sem parar, não só no mundo como dentro do nosso país. Já ninguém considera possível realizar as atrocidades racistas que aconteceram no século XX, contudo a descriminação continua bem presente, desta vez duma forma silenciosa. A desigualdade de oportunidades é o maior sintoma deste problema. Desde dos anos setenta que ficou patente que o cultural nunca será bem sucedido e todos o que apostarem nele em detrimento do multiculturalismo estarão destinados ao fracasso.
O crescente movimento de pessoas irá aumentar a tensão entre culturas. Os primeiros efeitos começam a ser visíveis na Europa, quando imigrantes não têm um tratamento igual aos restantes cidadãos, chegando por vezes ao extremo, como é o caso de França. Por vezes, a própria comunicação social culpa etnias inteiras por problemas provocados apenas por alguns elementos, ou até mesmo pela sociedade como um todo, levando essa generalização ao preconceito e aumentando o hiato entre as diversas culturas. Deste modo, caminha-se para uma xenofobia extrema, em que é impossível uma aproximação de pessoas e ainda menos das suas culturas.
Outro caminho possível é o da tolerância e compreensão, onde cada um tem interesse na cultura e etnicidade do seu país, esforçando-se por as entender, viver e representar. Por outro lado deve-se manter uma mente aberta, pronto a receber influências de outras visões do mundo, para assim poder ter uma percepção mais completa da realidade. Em resumo, solução para estes problemas passa por compreensão da sua nossa cultura e o estabelecer uma ponte entre as restantes.
O grande desafio para o próximo século prende-se com a sobrevivência do espírito lusófono face à pressão de uma cultura das massas, vazia e consumista.


A quarta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_06.html


Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/
Um excerto desta parte foi comentado em: http://movv.org/2012/08/25/a-geracao-copy-paste/
E outro foi comentado em:  http://movv.org/2012/07/25/pedro-cipriano-httpwww-marcosdellantonio-net-durante-o-ultimo-seculo-avancos-tecnologicos-levaram-a-multiplicacao-do-numero-de-editoras-e-com-a-reducao-do-preco-tornando-acessiveis-bons/