segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 5/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A quarta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_06.html

Pensamento


A capacidade de pensamento crítico sofreu um declínio durante o último século. Como já referi, a disponibilidade de informação não parece contribuir para uma abertura de horizontes. É claro que a educação contribui de maneira decisiva para a castração do pensamento, contudo, o tema da educação será abordado mais à frente.
A religião, com os seus dogmas; a cultura, com a sua massificação; a sociedade com a sua alergia à mudança e a educação, com sua componente fortemente cartesiana, contribuem para o adormecimento das mentes, anestesiando-as para a realidade. Em vários momentos do século passado a intelectualidade foi fortemente reprimida por via de regimes totalitários, não só em Portugal como no resto do mundo. Nos dias de hoje, essa repressão continua de um modo implícito e não se não se notam grandes diferenças a nível qualitativo em relação ao passado. Todos podem falar, contudo, ninguém diz nada de útil, pois o comodismo e a falta de perspectiva muitas vezes impedem a maioria de contribuir para o fim deste marasmo intelectual. Tudo vale, excepto pensar por si mesmo e questionar.
Esta liberdade intelectual é muitas vezes apenas teórica. Tomando como exemplo a ciência, nem todos os tópicos são bem recebidos, pois os interesses económicos e por vezes, apenas mesquinhos, influenciam os caminhos seguidos pela mesma. Formas de pensar cartesianas, normalizadas e estandardizadas invadiram o panorama intelectual. Passa-se a mensagem de que a capacidade para se ser criativo está apenas ao alcance de alguns. A elite que nos governa não quer que criemos respostas para os problemas, pois prefere que nos voltemos para eles sempre que precisamos de soluções. Até mesmo o comum indivíduo exerce uma pressão para que não se pense diferente da norma. Desta forma a sociedade reprime toda a capacidade de renascimento intelectual. Hoje em dia, ainda é perigoso pensar diferente, pois vários rótulos podem ser atribuídos a quem o faz, desde extremista a lunático, passando por sonhador e utopista. Quando tudo isso falha, as ideias são retiradas do seu contexto para serem ridicularizadas, levando ao descrédito. Nesta sociedade, a maioria não tem uma mente livre, e os que a tem estão fechados em si mesmos, com medo da punição que a sociedade lhes reserva. Esperavam-se grandes mudanças com a queda das monarquias e dos estados totalitários, quando se assumiram estatutos em que a liberdade de pensamento e expressão era um direito fundamental, que não chegaram a acontecer.
A comunicação parece ser mais fácil nos dias de hoje do que era há cem anos atrás, por via do melhoramento dos serviços postais, da disseminação do uso do telefone e do aparecimento da Internet. Independentemente da relevância, muitos procuram passar uma mensagem, seja ela original ou não.
Contudo, falta analisar um ponto relevante. Para haver comunicação: não podemos apenas considerar o emissor, o meio e o receptor, pois a mensagem, relevância e compreensão da mesma são fundamentais. De que serve transmitir para o mundo se nenhuma das pessoas que recebe a mensagem é capaz de a entender? No fim acabamos bombardeados com informação inútil, quando as grandes ideias, problemas e questões são relegados para segundo plano, não conseguindo furar a barreira implacável da não-comunicação.
Se esta tendência se mantiver, o pensamento crítico poderá estar ameaçado. Sem aprender com os erros do passado, cada vez mais, a sociedade procura respostas naqueles que causam os problemas e cada vez mais fica satisfeita com respostas incompletas e tendenciosas daqueles que estão autorizados a pensar. Reflectir sobre a realidade é considerado fútil e, por vezes, até perigoso. Faz falta à população saber que o sonho neoliberal só funciona se a maioria estiver adormecida.
Num cenário alternativo, a maioria reaprende a pensar e não terá medo de o fazer, causando um despertar massivo primeiro de si mesmo e, consequentemente, dos restantes indivíduos. Deixariam de procurar respostas somente nos líderes e, acima de tudo, saberiam produzi-las eles mesmos, para si mesmos. Deixaria de haver medo de questionar. As consciências expandir-se-iam e interagiriam com o mundo, numa simbiose com vista ao aperfeiçoamento mútuo.
Serão os portugueses capazes de se mostrarem acordados e exprimirem o seu pensamento dualistas num mundo em que a maioria está adormecida ou, pelo contrário, irão deixar-se levar pela maré do marasmo intelectual, sendo apenas mais alguns, cada vez mais semelhantes aos restantes?


A sexta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_08.html

Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

Foi comentado em: http://movv.org/2012/09/16/pedro-cipriano-a-capacidade-de-pensamento-critico-sofreu-um-declinio-durante-o-ultimo-seculo-a-disponibilidade-de-informacao-nao-parece-contribuir-para-uma-abertura-de-horizontes-e-claro-qu/

domingo, 6 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 4/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

A terceira parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_05.html

Espiritualidade


A vivência da religião alterou-se grandemente no último século. À primeira vista é fácil concordar com esta afirmação, dando como exemplo que ainda não se contam muitos anos desde que, nas zonas rurais, os homens assistiam à missa separados das mulheres. Contudo, não é desse tipo de alterações que se pretende discutir aqui, já que a ligação entre espiritualidade e religião é cada vez mais ténue e não se pretende redigir um tratado sobre a adaptação das religiões à passagem do tempo.
Aparte da vivência social, a experiência pessoal da espiritualidade tem-se alterado gradualmente. As pressões consumistas e as distracções providenciadas pela auto-estrada da informação furtam tempo que anteriormente era dedicado à vida espiritual. O crescimento do ateísmo pode também em parte ser explicado pelo enfraquecimento da influência da igreja na sociedade, pessoas que anteriormente eram forçadas pela sociedade à participação na vida espiritual são hoje elas a influenciar para que não se tome parte. O crescimento do ateísmo não é só devido à mudança da importância da religião na sociedade, mas também à educação fortemente racional, que não admite inexplicáveis e muito menos crenças. Estas mudanças não são totalmente negativas, já que a espiritualidade deve ser sobretudo uma vivência pessoal.
Os teístas, ou os que se julgam como tal, também mudaram a sua maneira de viver a religião. Muitos são aqueles que praticam alguma religião só porque sim, sem se esforçarem por compreender os fundamentos da mesma. Vivem de ritos, que vêm como receitas que devem ser seguidas à risca e que já ninguém sabe porquê nem para quê.
O crescimento do número seitas lideradas por charlatães, burlistas e extremistas deve-se ao descontentamento com a forma com que as grandes religiões reagem à sociedade. Infelizmente, todo o clero de alto nível é semelhante à politica de alto nível, pois ambas estão imersas em corrupção, em que os factores-chave na tomada de decisões são interesses de individualidades ou elites.
A maioria subestima a importância da espiritualidade na sociedade, considerando-a como um subproduto inútil. Contudo, essa espiritualidade é um dos principais canais para a transmissão de valores entre indivíduos e até mesmo gerações. Felizmente, não é o único canal, pois inúmeros exemplos mostram-nos que é possível a transmissão desses valores por outras vias. Por outro lado, a vivência da espiritualidade aumenta a coesão da sociedade. A desagregação que sentimos hoje em dia é devida à falta dessa vivência, pois cada um está apenas focado em si e nas suas coisas.
Infelizmente a religião tem sido usada, ao longo da história, como meio de justificar incontáveis crimes. Já para não falar no oportunismo da extrema-direita em relação à coesão social gerada pela religião para cumprir as suas agendas. Um exemplo actual disso são as tensões entre cristãos e muçulmanos, que surgiram após o 11 de Setembro de 2001. A culpa dos atentados terroristas foi atribuída a um grupo fanático muçulmano e, a partir daí, a comunicação social e a demagogia política trataram de extrapolar essa convicção para todos os árabes. É fácil perceber que tudo não passa de jogos políticos e de interesses económicos, em que só uma reduzida elite lucra. Após um século de grandes mudanças a nível social, a religião oficial continua no seu lugar de sempre, feita de rituais vazios, cuja única função é o controlo da população.
Se a actual tendência for seguida, cada vez mais a religião estará vazia de significado, mais misturada com concepções políticas e usada como argumento para se realizarem actos abomináveis, tal como aconteceu no último século. A religião estará assim cada vez mais centralizada e tratará os seus fiéis como ovelhas cegas que seguirão sem questionar para onde os seus líderes lhes ordenarem.
Por outro lado, poderá haver uma ruptura. A religião poderá tornar-se mais pessoal, mais espiritual, em que cada pessoa a vive por e para si mesma. Esta vivência privada não implicará o fim das religiões oficiais nem à cessação da partilha da experiência espiritual, mas antes um soltar de amarras em relação à cabeça das mesmas que, em várias ocasiões, mostrou estar doente. Portugal já anteriormente mostrou que isso era possível.
A cada um é colocado o desafio de dar o exemplo para a vivência espiritual genuína, separando-a definitivamente dos interesses políticos e económicos.


A quinta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_07.html


Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

sábado, 5 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 3/7



Cultura


A cultura é considerada por alguns um sector secundário da nossa sociedade. Ouve-se muitas vezes dizer que não é importante, pois não enche o estômago nem a carteira. Esse é o sinal mais evidente de que atravessamos uma crise de valores. Pessoas que desprezam a cultura como fundamento e fim em si mesma, nunca serão capazes de contribuir efectivamente para o desenvolvimento intelectual do país, para além de que actuam como uma massa inerte, resistente às mudanças na direcção de uma abertura de consciência para os desafios da humanidade.
Durante o último século, avanços tecnológicos levaram à multiplicação do número de editoras e, com à redução do preço, tornando acessíveis bons livros e numerosas revistas e jornais à maioria da população. Porém, a quantidade de lixo e sensacionalismo aumentou também a um ritmo exponencial. A disseminação da rádio, que passou a estar presente em muitos lares, fez com que a informação e as ideias fluíssem mais rapidamente. Depois, com o aparecimento e estabelecimento da televisão a comunicação assumiu uma nova dimensão. Recentemente, a Internet já entrou na casa da maioria dos portugueses, tornando a auto-estrada da informação acessível a quase todos.
Olhando para esta mudança dramática ocorrida nos últimos anos, seriamos tentados, numa aproximação ingénua, a afirmar que isso contribuiu somente de uma maneira positiva para a divulgação e vivência da cultura. Creio que não há nada mais falso que essa suposição, sendo que a maioria do que é divulgado resume-se ao estilo de vida doentio e insustentável promovido pelos interesses económicos. Bombardeiam-nos e confundem-nos a cada momento com a publicidade da cultura do vazio, uma cultura de relações nada humanas em que uma máquina, um produto ou uma máscara é o interface. Surge então como uma cultura de superficialidade, banalidade e sensacionalismo, que lentamente desvanecendo e destruindo todas as culturas genuínas em nome do lucro de uma elite.
A cultura dos nossos antepassados foi substituída por uma versão mais ligeira, diluída e imediata, em que toda e qualquer referência a espiritualidade ou valores morais é ridicularizada. Alguns lutam pela manutenção de certos rituais, contudo o espírito lusófono raramente existe neles. A maioria apenas quer saber do último escândalo que envolva alguma celebridade ou do resultado do último jogo de futebol, deixando de lado, por exemplo, a leitura de um bom livro que a nossa vasta literatura tem para nos oferecer. É fácil culpar os políticos e os interesses económicos. No entanto, neste caso a culpa não é exclusivamente deles, já que cada um de nós mata o nosso espírito lusófono através da negligência. Depois de um início de século em que a cultura portuguesa renasceu devido à contribuição de muitas personalidades notáveis, a sua existência como cultura viva encontra-se seriamente ameaçada.
Devido à tolerância intrínseca do povo português, o choque de culturas nos séculos anteriores sempre teve efeitos mais ligeiros neste país plantado à beira-mar do que, por exemplo, nos nosso vizinhos europeus. Apesar de terem havido períodos em que se cometeram atrocidades, no geral coabitámos com uma harmonia possível e desejável com os judeus, árabes e africanos. Um dos exemplos dessa convivência foi a miscigenação e abolição pioneira da escravatura, dando exemplo a outros países.
Contudo, a crise de valores que atravessamos está a fazer desaparecer essa tolerância. Pode-se considerar erradamente que não há intolerância hoje em dia pois, apesar de não ser explícita, esta cresce sem parar, não só no mundo como dentro do nosso país. Já ninguém considera possível realizar as atrocidades racistas que aconteceram no século XX, contudo a descriminação continua bem presente, desta vez duma forma silenciosa. A desigualdade de oportunidades é o maior sintoma deste problema. Desde dos anos setenta que ficou patente que o cultural nunca será bem sucedido e todos o que apostarem nele em detrimento do multiculturalismo estarão destinados ao fracasso.
O crescente movimento de pessoas irá aumentar a tensão entre culturas. Os primeiros efeitos começam a ser visíveis na Europa, quando imigrantes não têm um tratamento igual aos restantes cidadãos, chegando por vezes ao extremo, como é o caso de França. Por vezes, a própria comunicação social culpa etnias inteiras por problemas provocados apenas por alguns elementos, ou até mesmo pela sociedade como um todo, levando essa generalização ao preconceito e aumentando o hiato entre as diversas culturas. Deste modo, caminha-se para uma xenofobia extrema, em que é impossível uma aproximação de pessoas e ainda menos das suas culturas.
Outro caminho possível é o da tolerância e compreensão, onde cada um tem interesse na cultura e etnicidade do seu país, esforçando-se por as entender, viver e representar. Por outro lado deve-se manter uma mente aberta, pronto a receber influências de outras visões do mundo, para assim poder ter uma percepção mais completa da realidade. Em resumo, solução para estes problemas passa por compreensão da sua nossa cultura e o estabelecer uma ponte entre as restantes.
O grande desafio para o próximo século prende-se com a sobrevivência do espírito lusófono face à pressão de uma cultura das massas, vazia e consumista.


A quarta parte pode ser encontrada em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_06.html


Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/
Um excerto desta parte foi comentado em: http://movv.org/2012/08/25/a-geracao-copy-paste/
E outro foi comentado em:  http://movv.org/2012/07/25/pedro-cipriano-httpwww-marcosdellantonio-net-durante-o-ultimo-seculo-avancos-tecnologicos-levaram-a-multiplicacao-do-numero-de-editoras-e-com-a-reducao-do-preco-tornando-acessiveis-bons/

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 2/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

Economia


Muito se fala e se escreve sobre a crise, sendo que a comunicação social não nos deixa esquecê-la nem por um momento. Embora muitos expressem a opinião de que a crise que atravessamos seja mais de valores morais do que económicos, eu irei por agora apenas focar-me nos segundos.
A 24 de Outubro de 1929, a Quinta-Feira Negra foi um ponto de viragem. A queda brusca do valor das acções da bolsa de Nova Iorque desencadeou a maior crise económica do século XX. Os mercados entraram num ciclo vicioso colapsando por completo nos dias seguintes. Muitas empresas foram forçadas a fechar portas por via de o seu capital ter literalmente desaparecido numa questão de horas. Seguiu-se uma grande inflação, quebrando ainda mais o consumo e levando milhares ao desemprego. A principal causa deste colapso foi o completo desajuste entre a produção e o consumo, que já se fazia sentir há alguns meses através de uma recessão moderada.
Essa crise propagou-se pelo mundo inteiro, afectando a maioria de todos os países. A recessão daí derivada durou vários anos. Afectando os país consoante o seu grau de dependência dos países capitalistas. Nalguns, colocou no poder e fortaleceu a posição de partidos extremistas que, com discursos populistas, conseguiram o apoio da população. Alguns desses regimes duraram décadas, causando uma estagnação intelectual, uma corrupção dos valores morais, uma degradação da qualidade de vida, culminando no desrespeito pelos direitos humanos. É inegável a responsabilidade desses mesmos regimes comunistas, fascistas e nazistas no escalar do segundo conflito mundial.
Ironicamente, com o começo da guerra, os efeitos da crise foram-se desvanecendo até desaparecerem por completo. A razão para tal era simples, pois o efeito infinitamente destrutivo da guerra balanceara o desequilíbrio entre a produção e o consumo. Durante o crescimento económico espectacular dos anos vinte tal crise era inconcebível, contudo os erros dos passado ajudam-nos a perceber as tendências do futuro. O actual sistema económico gere-se por períodos cíclicos de crescimento e recessão.
O sistema económico actual prevê e necessita de um crescimento continuo e acelerado devido às regras impostas pelas mecânicas modernas de criação e movimento de dinheiro, um ritmo exponencial segundo a matemática. Os empréstimos são o melhor espelho desse mesmo crescimento. Num planeta de recursos finitos isso simplesmente não é possível, traduzindo-se na prática em recessões cíclicas seguidas de recuperação. Uma das maneiras de impedir que isso aconteça é equilibrando a balança do consumo com a da produção. Uma primeira aproximação seria limitar a produção de certos bens de modo a que só o fossem à medida que o mercado os conseguisse escoar. Contudo, essa alternativa não é compatível com o desejo de crescimento exponencial. Quando chega a altura de aprovar as leis, é notório o peso que lobbys com grande volume de capital têm nesse processo. No plano prático, só resta aumentar o consumo, sendo o método mais comum o da publicidade. Todavia, é fácil de adivinhar que nem mesmo a publicidade mais perfeita pode aumentar indefinidamente o consumo, pois a certa altura deixa de haver potenciais clientes com meios para compra-los. A segunda alternativa é a expansão do mercado através da globalização económica que, mais uma vez face ao tamanho finito do nosso planeta, sabemos que não é uma solução viável a longo prazo. As crescentes pressões para a privatização de certos sectores chave da economia são um reflexo disso mesmo. A terceira alternativa é a destruição intencional do produto, método usado durante os primeiros meses da grande depressão dos anos trinta, quando os produtores tentavam em vão aumentar os preços dos seus produtos. Outro método é o da obsolescência programada, uma tendência seguida pelos produtores tecnológicos, em que um equipamento é desenhado de tal modo que, ao fim de alguns anos, se torna obsoleto e tem de ser substituído. Todavia, a maneira mais fácil de realizar este equilíbrio é através de uma destruição massiva, ou seja uma guerra, pois nenhuma outra actividade humana consegue sorver tão grande quantidade de material e mão-de-obra de uma forma tão eficiente.
Pela análise dos ciclos de Kondratiev, que tentam modelar os ritmos de recessão e recuperação global a longo termo, anteriormente descritos, sabemos que estamos numa recessão, caminhando a passos largos para outra crise. No topo disso, há a ameaça do fim do petróleo barato, pelo qual já se iniciaram algumas agressões armadas da parte do Ocidente contra o Médio Oriente. A crise energética está deste modo intimamente ligada à crise económica.
O problema da regulação da economia não é novo nem puramente académico. Numerosas soluções foram já propostas, contudo, a ganância de uma elite previne que estas possam efectivamente ser aplicadas. O poder instituído faz-nos crer que uma economia e moeda globais são a solução para a crise. No entanto, É notório que isso apenas servirá para aumentar o fluxo de riqueza para aqueles que já são ricos, sem que isso melhore em nada a vida dos restantes. Tendemos perigosamente para os ricos ficarem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Um exemplo actual é o caso da União Europeia, em que os estados membros são obrigados a importar produtos que podiam produzir por si mesmos, fazendo com que a sua dívida externa cresça sem parar. As pessoas são obrigadas a aceitar empregos que não querem para pagar os empréstimos que contraíram. Certos países estão lentamente a tornar-se fonte de mão-de-obra barata para outros mais ricos, inclusive dentro da Europa. Os pobres são mantidos pobres para, através do medo, impedirem a classe média de se libertar desta prisão laboral. Em suma, esse ultra-neoliberalismo económico é a escravatura do século XXI.
Na outra ponta da mesa há a economia e moeda locais, prevendo que a riqueza de uma dada comunidade se mantenha relativamente constante, limitando o fluxo de produtos entre comunidades ao mínimo essencial, sendo exactamente o oposto da economia global, na qual se promove um fluxo contínuo de todo o tipo de bens. Projectos promissores foram iniciados em várias cidades europeias e, felizmente, Portugal não se deixou ficar atrás. Apesar de ainda ser quase que uma miragem, se houve dedicação, esforço e essencialmente vontade, poderá ser uma solução viável para os problemas económicos do próximo século. A mudança acontecera quando as pessoas tomarem consciência de que a economia é um jogo que não são obrigadas a jogar.
A questão-chave que se coloca é se continuará Portugal, durante o próximo século, a contribuir para o hiato entre ricos e pobres ou se, por outro lado, será um exemplo na construção de uma economia mais justa e humana

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Para Pensar II

Escrito no dia 30 de Abril de 2012

Depois dos comentários de ontem em relação ao futebol, apercebi-me que a sociedade portuguesa não é mais do que uma sociedade do espectáculo. Não interessa se há desemprego, não interessa se as pessoas são exploradas, não interessa sequer se perdemos a nossa soberania. Desde que haja espectáculo, o português assiste, bate palmas e esquece-se dos problemas realmente importantes.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 1/7

Introdução


É impossível dissertar sobre o futuro de uma nação sem primeiro perceber a actualidade da mesma e das outras que com ela interagem. No caso de Portugal existe o espaço europeu, para o qual esta actualmente virado, e o espaço lusófono, o qual se tem vindo a afastas apesar dos últimos cinco séculos de história.
Os vários sectores da sociedade não podem também eles ser analisados individualmente. Visto que estão fortemente relacionados, ao negligenciar as correlações entre eles, subtraímos o realismo e a abrangência à projecção.
São diversas as tendências e contra-tendências já existentes, cuja importância irá certamente variar. Vimos surgir no século XX várias inovações intelectuais e tecnológicas, as quais mudaram a maneira de percepcionar o mundo. Vimos também surgir inúmeras guerras devastadoras e horrendos crimes contra a humanidade. Sem compreender as causas e consequências dos mesmos, não é possível conjecturar sobre o quanto um país pode mudar durante um século. Os desafios que se apresentam à humanidade neste início de século não são os mesmos que se apresentavam no século passado e, contudo, as aspirações por um mundo melhor continuam bem actuais.
Na maioria dos casos a projecção depende da minha opinião e como tal poderá ser tendenciosa e parcial. Em suma, este artigo pretende definir algumas tendências, preocupações e aspirações, sem, contudo, pretender ser um guia, nem tão pouco um profeta, dos futuros acontecimentos deste século que ainda está no seu início.

Política


Bruxelas, aclamada por muitos como a capital da Europa, nunca esteve tão perto de efectivamente o ser. Durante o século passado, a Europa foi berço dos dois conflitos armados mais mortíferos e destruidores de sempre, que cresceram até uma escala mundial, afectando milhões de pessoas. A criação de uma Comunidade Europeia do Aço e do Carvão foi o primeiro passo para a unificação dos diversos países, numa tentativa de impedir conflitos armados na Europa. A Guerra Fria em tudo contribuiu para fortalecer esses laços. O recente conflito no Kosovo mostrou que essa promessa ainda não foi cumprida.
Devido ao regime ditatorial fascista e fechado que vigorou em Portugal durante metade do século passado e a sua posição periférica na Europa, este escapou à margem das consequências mais nefastas destes conflitos. Viu, no entanto, a partir da década de sessenta, o início do desmembrar do seu império colonialista com a perda de Goa. Poderá até argumentar-se que com a independência do Brasil ou a conjuntura politico-social do mundo ocidental de pois da segunda Guerra Mundial em relação às colónias anunciava que o desmoronamento do império era inevitável, contudo foi com a perda de Goa que essa realidade nos bateu à porta. Esse fim, do que erradamente se julgava eterno, obrigou Portugal a uma revisão da estratégia política e obrigando-o a voltar-se para a Europa que tinha ignorado desde os anos trinta. Ao entrar nesta Comunidade, em 1986, subscreveu implicitamente a participação activa nos assuntos europeus.
A introdução do Euro como moeda única e a abertura das fronteiras, foram vistos pela maioria como passos positivos. Todavia, poucos são aqueles que conseguem ver que esses laços são compromissos que, caso quebrados, irão criar inúmeros problemas.
Com o tratado de Lisboa, as diversas organizações europeias tornaram-se numa só: cada um dos estados membros perdeu parte da sua soberania, delegando-a para União Europeia. Com este passo, os países são vistos meramente como estados, pois perderam a capacidade de intervir e regular diversas áreas-chave. Sessenta anos depois do primeiro tratado e como mais acordos no horizonte, caminhamos lentamente para sermos os Estados Unidos da Europa, um cenário que há cem anos atrás era inconcebível.
O grande problema que se avizinha é o da capacidade e possibilidade de haver uma governação justa nestas condições. Todos sabemos a dificuldade que é tentar criar medidas sentado em Lisboa, quando, por exemplo, não se tem consciência da situação em Évora ou Braga. Actualmente, o poder senta-se cada vez mais em Bruxelas, contudo a mesma questão se levanta: como é que um poder tão fortemente centralizado terá consciência da situação de Portugal ou de qualquer outro país da União Europeia? Para cúmulo, algumas das instituições europeias não são eleitas, apenas nomeadas, furtando ao cidadão a capacidade de ter influência nas decisões.
Este cenário só se poderá desenvolver num de dois sentidos: por um lado, esta união poderá estabilizar e tornar-se permanente, tornando os países em estados; por outro, isso poderá levar à ruptura da mesma, voltado à situação do início do século.
Deixando a realidade europeia de lado e concentrando-nos na realidade portuguesa vejo dois cominhos possíveis no plano político. No primeiro, os mesmos dois grandes partidos, PS e PSD, continuarão a governar indefinidamente, alternando entre si, contentando-se os outros três, CDU, BE e PP, em fazer uma oposição passiva e, esporadicamente, criando uma ou outra coligação com um dos grandes partidos. Os restantes partidos continuarão a existir quase à margem, sem sequer furar a barreira imposta pela comunicação social, chegando ao cúmulo de que a maioria das pessoas só fica a saber da sua existência no boletim de voto no momento em que vai votar. No segundo, haverá maior participação de outros partidos e forças cívicas independentes, um parlamento com outras cores que não o rosa e o laranja que actualmente o dominam, capazes de conduzir Portugal por outros caminhos que mais se identifiquem com a vontade do povo. Criadas essas condições Portugal poderá renovar as suas estruturas de governação, tornando-se um exemplo de governação justa, credível e séria, como defendi na número 6 desta revista.
Os planos para a organização política de Portugal propostos por Agostinho da Silva, mas não só, são exactamente o oposto dessas tendências. Escalar e descentralizar as instituições políticas à medida das necessidades das pessoas, abandonando a representatividade e prevendo uma participação activa de cada um. Prevê também a abertura dos horizontes para a construção de uma comunidade activa no espaço lusófono, tendência cada vez mais esquecida, distante e recalcada por quem comanda os destinos do nosso país. Diversas correntes do bio-regionalismo e seus derivados, apesar de não serem alternativas conhecidas por muitos, mostram ser uma solução possível para os problemas que se avizinham.
O grande desafio político que se coloca para o próximo século é o da existência de Portugal como país autónomo e dos cidadãos como seres humanos livres e independentes


A segunda parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_04.html

Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
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terça-feira, 1 de maio de 2012

Para pensar I

Escrito no dia 25 de Abril de 2012

O dia em que nós livramos da ditadura foi há 38 anos atrás. Quando chegará o dia em que nós livraremos da desigualdade? Dos políticos corruptos? Da hipocrisia? Da Demagogia?