sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 2/7

A primeira parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do.html

Economia


Muito se fala e se escreve sobre a crise, sendo que a comunicação social não nos deixa esquecê-la nem por um momento. Embora muitos expressem a opinião de que a crise que atravessamos seja mais de valores morais do que económicos, eu irei por agora apenas focar-me nos segundos.
A 24 de Outubro de 1929, a Quinta-Feira Negra foi um ponto de viragem. A queda brusca do valor das acções da bolsa de Nova Iorque desencadeou a maior crise económica do século XX. Os mercados entraram num ciclo vicioso colapsando por completo nos dias seguintes. Muitas empresas foram forçadas a fechar portas por via de o seu capital ter literalmente desaparecido numa questão de horas. Seguiu-se uma grande inflação, quebrando ainda mais o consumo e levando milhares ao desemprego. A principal causa deste colapso foi o completo desajuste entre a produção e o consumo, que já se fazia sentir há alguns meses através de uma recessão moderada.
Essa crise propagou-se pelo mundo inteiro, afectando a maioria de todos os países. A recessão daí derivada durou vários anos. Afectando os país consoante o seu grau de dependência dos países capitalistas. Nalguns, colocou no poder e fortaleceu a posição de partidos extremistas que, com discursos populistas, conseguiram o apoio da população. Alguns desses regimes duraram décadas, causando uma estagnação intelectual, uma corrupção dos valores morais, uma degradação da qualidade de vida, culminando no desrespeito pelos direitos humanos. É inegável a responsabilidade desses mesmos regimes comunistas, fascistas e nazistas no escalar do segundo conflito mundial.
Ironicamente, com o começo da guerra, os efeitos da crise foram-se desvanecendo até desaparecerem por completo. A razão para tal era simples, pois o efeito infinitamente destrutivo da guerra balanceara o desequilíbrio entre a produção e o consumo. Durante o crescimento económico espectacular dos anos vinte tal crise era inconcebível, contudo os erros dos passado ajudam-nos a perceber as tendências do futuro. O actual sistema económico gere-se por períodos cíclicos de crescimento e recessão.
O sistema económico actual prevê e necessita de um crescimento continuo e acelerado devido às regras impostas pelas mecânicas modernas de criação e movimento de dinheiro, um ritmo exponencial segundo a matemática. Os empréstimos são o melhor espelho desse mesmo crescimento. Num planeta de recursos finitos isso simplesmente não é possível, traduzindo-se na prática em recessões cíclicas seguidas de recuperação. Uma das maneiras de impedir que isso aconteça é equilibrando a balança do consumo com a da produção. Uma primeira aproximação seria limitar a produção de certos bens de modo a que só o fossem à medida que o mercado os conseguisse escoar. Contudo, essa alternativa não é compatível com o desejo de crescimento exponencial. Quando chega a altura de aprovar as leis, é notório o peso que lobbys com grande volume de capital têm nesse processo. No plano prático, só resta aumentar o consumo, sendo o método mais comum o da publicidade. Todavia, é fácil de adivinhar que nem mesmo a publicidade mais perfeita pode aumentar indefinidamente o consumo, pois a certa altura deixa de haver potenciais clientes com meios para compra-los. A segunda alternativa é a expansão do mercado através da globalização económica que, mais uma vez face ao tamanho finito do nosso planeta, sabemos que não é uma solução viável a longo prazo. As crescentes pressões para a privatização de certos sectores chave da economia são um reflexo disso mesmo. A terceira alternativa é a destruição intencional do produto, método usado durante os primeiros meses da grande depressão dos anos trinta, quando os produtores tentavam em vão aumentar os preços dos seus produtos. Outro método é o da obsolescência programada, uma tendência seguida pelos produtores tecnológicos, em que um equipamento é desenhado de tal modo que, ao fim de alguns anos, se torna obsoleto e tem de ser substituído. Todavia, a maneira mais fácil de realizar este equilíbrio é através de uma destruição massiva, ou seja uma guerra, pois nenhuma outra actividade humana consegue sorver tão grande quantidade de material e mão-de-obra de uma forma tão eficiente.
Pela análise dos ciclos de Kondratiev, que tentam modelar os ritmos de recessão e recuperação global a longo termo, anteriormente descritos, sabemos que estamos numa recessão, caminhando a passos largos para outra crise. No topo disso, há a ameaça do fim do petróleo barato, pelo qual já se iniciaram algumas agressões armadas da parte do Ocidente contra o Médio Oriente. A crise energética está deste modo intimamente ligada à crise económica.
O problema da regulação da economia não é novo nem puramente académico. Numerosas soluções foram já propostas, contudo, a ganância de uma elite previne que estas possam efectivamente ser aplicadas. O poder instituído faz-nos crer que uma economia e moeda globais são a solução para a crise. No entanto, É notório que isso apenas servirá para aumentar o fluxo de riqueza para aqueles que já são ricos, sem que isso melhore em nada a vida dos restantes. Tendemos perigosamente para os ricos ficarem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Um exemplo actual é o caso da União Europeia, em que os estados membros são obrigados a importar produtos que podiam produzir por si mesmos, fazendo com que a sua dívida externa cresça sem parar. As pessoas são obrigadas a aceitar empregos que não querem para pagar os empréstimos que contraíram. Certos países estão lentamente a tornar-se fonte de mão-de-obra barata para outros mais ricos, inclusive dentro da Europa. Os pobres são mantidos pobres para, através do medo, impedirem a classe média de se libertar desta prisão laboral. Em suma, esse ultra-neoliberalismo económico é a escravatura do século XXI.
Na outra ponta da mesa há a economia e moeda locais, prevendo que a riqueza de uma dada comunidade se mantenha relativamente constante, limitando o fluxo de produtos entre comunidades ao mínimo essencial, sendo exactamente o oposto da economia global, na qual se promove um fluxo contínuo de todo o tipo de bens. Projectos promissores foram iniciados em várias cidades europeias e, felizmente, Portugal não se deixou ficar atrás. Apesar de ainda ser quase que uma miragem, se houve dedicação, esforço e essencialmente vontade, poderá ser uma solução viável para os problemas económicos do próximo século. A mudança acontecera quando as pessoas tomarem consciência de que a economia é um jogo que não são obrigadas a jogar.
A questão-chave que se coloca é se continuará Portugal, durante o próximo século, a contribuir para o hiato entre ricos e pobres ou se, por outro lado, será um exemplo na construção de uma economia mais justa e humana

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Para Pensar II

Escrito no dia 30 de Abril de 2012

Depois dos comentários de ontem em relação ao futebol, apercebi-me que a sociedade portuguesa não é mais do que uma sociedade do espectáculo. Não interessa se há desemprego, não interessa se as pessoas são exploradas, não interessa sequer se perdemos a nossa soberania. Desde que haja espectáculo, o português assiste, bate palmas e esquece-se dos problemas realmente importantes.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura - parte 1/7

Introdução


É impossível dissertar sobre o futuro de uma nação sem primeiro perceber a actualidade da mesma e das outras que com ela interagem. No caso de Portugal existe o espaço europeu, para o qual esta actualmente virado, e o espaço lusófono, o qual se tem vindo a afastas apesar dos últimos cinco séculos de história.
Os vários sectores da sociedade não podem também eles ser analisados individualmente. Visto que estão fortemente relacionados, ao negligenciar as correlações entre eles, subtraímos o realismo e a abrangência à projecção.
São diversas as tendências e contra-tendências já existentes, cuja importância irá certamente variar. Vimos surgir no século XX várias inovações intelectuais e tecnológicas, as quais mudaram a maneira de percepcionar o mundo. Vimos também surgir inúmeras guerras devastadoras e horrendos crimes contra a humanidade. Sem compreender as causas e consequências dos mesmos, não é possível conjecturar sobre o quanto um país pode mudar durante um século. Os desafios que se apresentam à humanidade neste início de século não são os mesmos que se apresentavam no século passado e, contudo, as aspirações por um mundo melhor continuam bem actuais.
Na maioria dos casos a projecção depende da minha opinião e como tal poderá ser tendenciosa e parcial. Em suma, este artigo pretende definir algumas tendências, preocupações e aspirações, sem, contudo, pretender ser um guia, nem tão pouco um profeta, dos futuros acontecimentos deste século que ainda está no seu início.

Política


Bruxelas, aclamada por muitos como a capital da Europa, nunca esteve tão perto de efectivamente o ser. Durante o século passado, a Europa foi berço dos dois conflitos armados mais mortíferos e destruidores de sempre, que cresceram até uma escala mundial, afectando milhões de pessoas. A criação de uma Comunidade Europeia do Aço e do Carvão foi o primeiro passo para a unificação dos diversos países, numa tentativa de impedir conflitos armados na Europa. A Guerra Fria em tudo contribuiu para fortalecer esses laços. O recente conflito no Kosovo mostrou que essa promessa ainda não foi cumprida.
Devido ao regime ditatorial fascista e fechado que vigorou em Portugal durante metade do século passado e a sua posição periférica na Europa, este escapou à margem das consequências mais nefastas destes conflitos. Viu, no entanto, a partir da década de sessenta, o início do desmembrar do seu império colonialista com a perda de Goa. Poderá até argumentar-se que com a independência do Brasil ou a conjuntura politico-social do mundo ocidental de pois da segunda Guerra Mundial em relação às colónias anunciava que o desmoronamento do império era inevitável, contudo foi com a perda de Goa que essa realidade nos bateu à porta. Esse fim, do que erradamente se julgava eterno, obrigou Portugal a uma revisão da estratégia política e obrigando-o a voltar-se para a Europa que tinha ignorado desde os anos trinta. Ao entrar nesta Comunidade, em 1986, subscreveu implicitamente a participação activa nos assuntos europeus.
A introdução do Euro como moeda única e a abertura das fronteiras, foram vistos pela maioria como passos positivos. Todavia, poucos são aqueles que conseguem ver que esses laços são compromissos que, caso quebrados, irão criar inúmeros problemas.
Com o tratado de Lisboa, as diversas organizações europeias tornaram-se numa só: cada um dos estados membros perdeu parte da sua soberania, delegando-a para União Europeia. Com este passo, os países são vistos meramente como estados, pois perderam a capacidade de intervir e regular diversas áreas-chave. Sessenta anos depois do primeiro tratado e como mais acordos no horizonte, caminhamos lentamente para sermos os Estados Unidos da Europa, um cenário que há cem anos atrás era inconcebível.
O grande problema que se avizinha é o da capacidade e possibilidade de haver uma governação justa nestas condições. Todos sabemos a dificuldade que é tentar criar medidas sentado em Lisboa, quando, por exemplo, não se tem consciência da situação em Évora ou Braga. Actualmente, o poder senta-se cada vez mais em Bruxelas, contudo a mesma questão se levanta: como é que um poder tão fortemente centralizado terá consciência da situação de Portugal ou de qualquer outro país da União Europeia? Para cúmulo, algumas das instituições europeias não são eleitas, apenas nomeadas, furtando ao cidadão a capacidade de ter influência nas decisões.
Este cenário só se poderá desenvolver num de dois sentidos: por um lado, esta união poderá estabilizar e tornar-se permanente, tornando os países em estados; por outro, isso poderá levar à ruptura da mesma, voltado à situação do início do século.
Deixando a realidade europeia de lado e concentrando-nos na realidade portuguesa vejo dois cominhos possíveis no plano político. No primeiro, os mesmos dois grandes partidos, PS e PSD, continuarão a governar indefinidamente, alternando entre si, contentando-se os outros três, CDU, BE e PP, em fazer uma oposição passiva e, esporadicamente, criando uma ou outra coligação com um dos grandes partidos. Os restantes partidos continuarão a existir quase à margem, sem sequer furar a barreira imposta pela comunicação social, chegando ao cúmulo de que a maioria das pessoas só fica a saber da sua existência no boletim de voto no momento em que vai votar. No segundo, haverá maior participação de outros partidos e forças cívicas independentes, um parlamento com outras cores que não o rosa e o laranja que actualmente o dominam, capazes de conduzir Portugal por outros caminhos que mais se identifiquem com a vontade do povo. Criadas essas condições Portugal poderá renovar as suas estruturas de governação, tornando-se um exemplo de governação justa, credível e séria, como defendi na número 6 desta revista.
Os planos para a organização política de Portugal propostos por Agostinho da Silva, mas não só, são exactamente o oposto dessas tendências. Escalar e descentralizar as instituições políticas à medida das necessidades das pessoas, abandonando a representatividade e prevendo uma participação activa de cada um. Prevê também a abertura dos horizontes para a construção de uma comunidade activa no espaço lusófono, tendência cada vez mais esquecida, distante e recalcada por quem comanda os destinos do nosso país. Diversas correntes do bio-regionalismo e seus derivados, apesar de não serem alternativas conhecidas por muitos, mostram ser uma solução possível para os problemas que se avizinham.
O grande desafio político que se coloca para o próximo século é o da existência de Portugal como país autónomo e dos cidadãos como seres humanos livres e independentes


A segunda parte está disponível em: http://pedro-cipriano.blogspot.de/2012/05/ensaio-sobre-o-futuro-de-portugal-do_04.html

Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.
http://novaaguia.blogspot.de/

terça-feira, 1 de maio de 2012

Para pensar I

Escrito no dia 25 de Abril de 2012

O dia em que nós livramos da ditadura foi há 38 anos atrás. Quando chegará o dia em que nós livraremos da desigualdade? Dos políticos corruptos? Da hipocrisia? Da Demagogia?

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Mensagem na educação em Portugal

Considero que é importante discutir a forma como Fernando Pessoa é ensinado nas nossas escolas. O argumento é simples, é necessário educar os jovens de hoje, para que possam ser os construtores do novo mundo de amanhã.
Se perguntarem a alguém que tenha completado recentemente o ensino secundário o que sabe sobre Fernando Pessoa, é muito provável que essa pessoa cite os nomes dos seus mais conhecidos heterónimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares; e talvez também a que é considerada a maior obra maior do seu homónimo: A Mensagem. Isto é possível porque são temas que fazem parte do programa geral do ensino de Português do 12º ano. No entanto, se de seguida perguntarem a essas mesmas pessoas qual o propósito da Mensagem, a situação complica-se, sendo possível notar de um modo embaraçoso quão superficial é esse conhecimento. São poucos os que têm a noção da intenção última do poeta, e ainda menos os que o vêem como um visionário.
O Quinto Império ainda é visto pela maioria das pessoas como uma construção idealista e imaginária duma pessoa com aparentes distúrbios mentais, que inventava numerosos alter-egos para assinar as suas obras e que passava o tempo a beber absinto e a fumar ópio. Felizmente, essa mensagem não é transmitida directamente no ensino mas, ao falharem na clarificação da génese e das intenções da obra, o espaço para a especulação fica naturalmente em aberto, apresentando consequências nefastas. É necessário que a juventude de hoje consiga ver para além do óbvio. O Quinto Império é um projecto para Portugal, para os portugueses e dos portugueses para o mundo. Foi idealizado pelo grande imperador da língua portuguesa, Padre António Vieira, traça as linhas para um novo mundo, uma nova idade, a idade do Espírito Santo; uma mensagem que continua actual e que não é explorada no programa de Português nem de Filosofia.
O sistema actual de educação em Portugal não foi feito para nem pelos portugueses, sendo uma cópia tirada de outros países na Europa. Uma das suas grandes falhas é a forte influência cartesiana, onde apenas existem respostas correctas e erradas. Eventualmente, este sistema pode funcionar de modo razoável em disciplinas de ciências naturais mas, quando se trata de literatura e Filosofia, esta aproximação não será certamente a mais correcta. Como pode alguém ter a arrogância de afirmar que a interpretação de um determinado aluno é errada, aceitando por outro lado a interpretação de outrém como definitiva? Na verdade, nenhum aluno é livre de apresentar uma opinião própria sobre uma obra, mesmo que fundamentada. Ao invés disso, uma determinada interpretação é imposta e qualquer opinião que ultrapasse os seus limites será automaticamente excluída. Gradualmente, este método leva à castração da mente crítica, emergindo assim uma mente que cria as suas opiniões através de um processo de osmose das opiniões de outros. Por outro lado, o facto da interpretação da obra ser imposta ao aluno, impedindo-o de construí-la a baseada nos seus valores e experiência de vida, leva a uma perda de interesse por parte do mesmo. O professor deveria comportar-se como um guia, ajudando os seus alunos a construir a sua interpretação da obra e a desenvolver um interesse pela mesma, mas isso está longe de ser real. Neste contexto, é natural que poucos se interessem pela Mensagem após o fim desse ciclo de estudos.
Esse panorama piora com a associação errada que algumas pessoas fazem entre o Estado Novo e a obra, por encontrarem nela linhas de pensamento semelhantes. O Estado Novo adoptou essencialmente o tema do nascimento mitológico do país como via para motivar um nacionalismo que considerava necessário para a manutenção do país. A Mensagem adopta o mesmo nascimento como via para justificar a missão maior, a construção do Quinto Império, do qual as navegações foram a primeira e menos importante parte, e cujo o cerne ainda se encontra por concretizar. A maioria dos portugueses ainda vive com o estigma da ditadura Salazarista e do colonialismo e tudo o que possa eventualmente estar associado a isso ainda é relegado para segundo plano na sociedade portuguesa como na educação. Isso trazendo graves consequências para o país, que se recusa olhar para o passado para aprender como agir no futuro, como por exemplo na questão da CPLP que, apesar de baseada nos planos de Agostinho da Silva, ainda continua longe daquilo que ele pretendia.
Lamentavelmente, a renascença portuguesa é ainda grandemente ignorada no programa geral de Filosofia do ensino secundário. Autores importantes como Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra e Agostinho da Silva não são sequer mencionados durante programa de estudos geral. Fernando Pessoa é estudado, mas de uma maneira que ainda se encontra muito longe da adequada.
A meu ver, é necessária pelo menos uma revisão dos conteúdos programáticos e métodos de ensino de Filosofia e de Português do ensino secundário. O ideal seria uma reorganização do sistema de ensino, feita por portugueses e a pensar nos portugueses. Enquanto aqueles que comandam os destinos do país se preocuparem mais com os números que enviam para a Europa do que com a qualidade da educação isso não será possível.


Este pequeno ensaio foi escrito para a revista Nova Águia e publicado no sétimo número da mesma.
http://novaaguia.blogspot.de/

Foi comentado em: http://movv.org/2011/05/29/o-quinto-imperio-e-um-projeto-para-portugal-para-os-portugueses-e-dos-portugueses-para-o-mundo/

domingo, 29 de abril de 2012

A travessia


A palavra “ferri” pregada a um bordo era o sinal da proximidade da batalha. Rodimtsev olhou para o céu, onde colunas densas e negras de fumo contrastavam com o pôr-do-sol.
Sabia que os Nazis podiam chegar à margem a qualquer momento. A sua missão era impedir isso, sob pena de a cidade ficar inacessível.
Ainda a poeira do movimento massivo de tropas pairava no ar quando ordenou que munições, granadas e rações fossem distribuídas à sua divisão. Fora decidido que não poderiam esperar mais.
Embarcou com a primeira onda, durante o crepúsculo. Escolhera um pequeno barco civil, de modo a não chamar a atenção. Tudo fora usado, desde barcos militares até pequenos botes movidos a remos, passando por pesqueiros.
Durante a guerra civil espanhola ficara, Rodimtsev conhecido como “Pablito”, onde ganhara a reputação de herói. Tinha a fama de destemido, já que nunca mostrara receio em frente às suas tropas contudo, aquela travessia causava-lhe arrepios que lhe subiam pela espinha acima. Enquanto estivesse no barco não poderia agir, somente esperar que os alemães não o alvejassem.
Estavam completamente indefesos, e os tiros e explosões de artilharia à distância não ajudavam a mitigar os receios.
Já tinham atravessado metade do rio quando os alemães se aperceberam da sua presença. Colunas de água de todos os tamanhos levantavam-se à medida que os projécteis a atingiam. Desde metralhadoras a morteiros, tudo estava apontado a eles. Umas das embarcações fora atingida directamente, matando os vinte soldados que iam a bordo.
Muitos soldados contemplavam a água à sua volta. enquanto outros preferiam olhar para o céu. No entanto, alguns atreviam a focar-se directamente no inferno. Os prédios ardiam intensamente e fagulhas esvoaçavam. A margem encontrava-se repleta de destroços. O cheiro a queimado e corpos em decomposição chegou-lhe às narinas.
Quando os barcos se aproximaram, os soldados saltaram para as águas pouco profundas, tentando arranjar cobertura.
Rodimtsev saltou também, sentindo a água fria chegar à cintura. Numerosos soldados caíam à sua volta, atingidos pelo fogo inimigo. A sua prioridade era proteger-se do fogo inimigo e, sem pensar duas vezes, correu agachado, até se abrigar atrás dos destroços de um tanque.
Era vital que atacassem rapidamente, de modo a aproveitar a surpresa dos alemães. Sem tempo para ter medo, gritou a ordem para avançar, à qual os soldados obedeceram imediatamente. Inspirados pelo seu feito e aproveitando a surpresa dos alemães, o batalhão à sua esquerda e o regimento à sua direita juntaram-se ao ataque. A ofensiva conseguiu apanhar os alemães desprevenidos, já que não haviam tido tempo sequer para cavar trincheiras.
Ao observar os primeiros minutos da escaramuça nocturna, percebeu que iria atingir o seu objectivo. Era certo que os alemães contra-atacariam mais tarde e muitos dos seus soldados morreriam ali. Porém, o mais importante era que a cidade não havia caído e, enquanto isso não acontecesse, os nazis não teriam a sua vitória.


Este texto foi escrito como participação no concurso 15-25 da revista ler. Foi publicado na edição de Janeiro de 2012.

sábado, 28 de abril de 2012

A república e o sonho português


É importante reflectir primeiramente sobre as diferenças entre monarquia e república.
A monarquia por definição é uma forma de governo em que uma única pessoa governa como chefe de estado, na maioria dos casos de maneira vitalícia. Existem vários tipos de monarquia, mas convém apenas referir a monarquia constitucional, aquela que esteve presente em Portugal desde 1820 até 1910. Na monarquia constitucional, um monarca já não têm um poder absoluto, o poder é limitado por uma constituição.
A república é por definição uma forma de governo em que o chefe de estado, vulgarmente o presidente, é escolhido pelo povo através de um voto secreto e periódico.
A partir destas definições pode-se ver uma diferença entre os períodos de mandato: a da monarquia é vitalícia enquanto a da república é periódica. Idealmente, a república parece ser mais justa, já que, teoricamente, coloca o poder de eleição nas mãos do povo.
A mudança em Portugal ocorreu de uma forma violenta pela mão do partido Republicano com a ajuda da Maçonaria, no inicio de Outubro de 1910. A monarquia estava fraca, e mesmo os que eram a favor dela não tiveram vontade de lutar contra a revolução.
A força do partido Republicano era a sua promessa de mudar as coisas. Mas, o anticlericalismo militante e a falta de programa social acabaram por destruir a própria república, que apenas durou dezasseis anos, sendo substituída por uma ditadura.
Deixemos agora os detalhes históricos e reflectindo na actualidade, pode-se ver que a segunda república é avaliada pelos olhos da sociedade como uma república mais responsável. O império português terminou, foi abandonado é provavelmente a expressão mais adequada. Portugal, que durante a ditadura pouco se pareceu importunar com os problemas europeus, fechando-se no seu mundo, de um momento para o outro parece acordar para se voltar para a Europa, talvez em busca do desenvolvimento tão desejado.
Não querendo ofender a opinião de ninguém e sob pena de ser parcial, penso que a República até agora foi apenas uma experiência que correu mal. Continua a haver classes, o Portugal sonhado não existe e o poder ainda não é do povo.
Os estratos sociais existem, e não parece que estejam diminuir o hiato entre eles, antes pelo contrário. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Todos os dias se fala na crise, e culpa-se o povo de querer viver acima das suas capacidades, e de se sobre endividar. Os apoios sociais, nomeadamente o rendimento de inserção social, parece apenas contribuir para a proliferação de um classe tida por muitos como parasita. Um novo olhar, sobre estes problemas é necessário. Aos olhos de muitos parece que da parte dos que tem o poder o interesse em mudar a situação fica muito além do necessário. Na minha opinião, limitam-se a tentar curar as consequências sem se preocupar com as causas.
O Portugal sonhado não existe. Portugal sempre teve muitos tidos como sonhadores pela maioria, mas que na verdade eram visionários. O país idealizado por eles não existe. Onde está o Quinto Império? O que aconteceu aos planos de globalização traçados pelo padre António Vieira? Não se trata do poder político, económico ou militar, trata-se de algo mais simples como a cultura e os valores. O espírito português é algo que está em vias de extinção, não é com meia dúzia de grupos folclóricos que esse espírito se preserva. Quando falo do espírito, falo dos valores, da língua, do sonho português de uma globalização diferente da imposta pelas nações dominantes. Somos diariamente invadidos pela cultura estrangeira, não que devamos fechar-nos e ignorar toda essa influência potencialmente produtiva, mas também não é correcto deixamo-nos levar completamente esquecendo a nossa própria identidade. A nossa língua está a cair no esquecimento, é ridículo a sobre utilização do inglês não nos importando com o lento sufocar do português. A indústria controla a cultura, e isso é a causa da maioria dos problemas, já que a industria não se preocupa com os valores culturais, mas, apenas com o lucro. A culpa, na minha opinião, é também do governo, que não se parece importar com espírito nacional nem tão pouco fazer algo de sério para regulamentar essa indústria da cultura. A globalização é uma realidade, mas está longe do sonhado por Portugal, sendo apenas um conceito económico e traçada pelos países e grupos económicos dominantes a seu belo prazer. Portugal, através dos seus órgãos de soberania, devia voltar-se mais para os países de língua oficial portuguesa. Nenhum povo se pode julgar superior culturalmente a outro povo, porque quando assim é porque não conhece a cultura do outro povo. Quantos livros de escritores Angolanos estão nas nossas livrarias? Quantos cds de músicos Moçambicanos estão nas nossas lojas? Neste ponto nem sequer é necessário que sejamos idealistas e propor apenas uma maior troca cultural, uma troca económica significativa pode e deve existir também.
O poder ainda não é do povo, dois partidos estão continuamente e alternadamente no poder. O povo limita-se a escolher entre duas pessoas escolhidas por esses partidos. Os outros partidos nem todos juntos têm expressão, a menos que se juntem a um desses. Por sua vez, os partidos são manipulados pelos interesses económicos e industriais. Este ciclo vicioso fez a maioria do povo cair numa apatia, e a prova disso é o nível de abstenção. Esse nível é talvez o indicador mais importante e preocupante, o povo sente que não pode fazer nada. É necessário encorajar o povo a participar mais activamente no governo, sem o desmotivar com sensação de impotência. É necessário que o comande realmente e exclusivamente os destinos da nação. Lutar contra os interesses económicos instituídos não é fácil, e só quando todos sem excepção decidirem pôr-lhe um fim é que é possível vencer esta guerra.
A república, tal como existe nos dias de hoje, não é ainda uma solução viável para Portugal. No entanto eu aceito esta república como um passo necessário, mas olhando para um futuro, que espero próximo em que a república se renove ou se transforme em algo melhor. Espero que todos possam olhar para trás e aprender com os erros, um erro seria tentar mudar as coisas pela força, outro seria perder o folgo da mudança e cair novamente na estagnação e apatia. A mudança não têm que ser violenta, nem sequer brusca, nem terá que substituir de uma vez as instituições existentes ou a sua maneira de agir, mas terá que existir e ser gradual.
O sonho português ainda se pode realizar, mas para tal é necessário uma mudança radical a começar pelo topo, para que o nosso governo possa finalmente ser aquilo que devia ser: um modelo para o povo e para os outros governos do mundo. Um modelo de um governo justo, credível e sério.


Este pequeno ensaio foi escrito para a revista Nova Águia e publicado no sexto número da mesma.
http://novaaguia.blogspot.de/
http://www.zefiro.pt/livro_novaaguia006.htm


Foi comentado em: http://movv.org/2011/03/29/pedro-cipriano-a-republica-ate-agora-foi-apenas-uma-experiencia-que-correu-mal/
http://movv.org/2011/02/04/pedro-cipriano-a-industria-controla-a-cultura/
http://movv.org/2010/11/28/pedro-cipriano-o-poder-ainda-nao-e-do-povo-dois-partidos-estao-continuadamente-e-alternadamente-no-poder-o-povo-limita-se-a-escolher-entre-duas-pessoas-escolhidas-por-esses-partidos/